O Desemprego Em Angola Volta A Subir

Os números do segundo trimestre mostram um contraste: Angola criou mais postos de trabalho e mesmo assim terminou o período com mais desempregados. A explicação está no crescimento da força de trabalho, alimentada por uma população em idade activa maior e por pessoas que passaram a procurar emprego. A taxa de desemprego, sozinha, não mostra essa pressão.

O Desemprego Em Angola Volta A Subir


O desemprego em Angola subiu de 21,3% para 21,5% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026. À primeira vista, 0,2 pontos percentuais parecem uma variação pequena. Mas o universo por trás da taxa de desemprego mudou depressa: a população desempregada aumentou de 2,59 milhões para 2,79 milhões de pessoas, mais 197 615 num trimestre.

No mesmo período, o emprego avançou. O número de pessoas empregadas passou de 9,56 milhões para 10,17 milhões, um acréscimo de 608 504. A força de trabalho cresceu ainda mais, de 12,16 milhões para 12,96 milhões, porque mais pessoas passaram a estar empregadas ou activamente à procura de trabalho.

Os dois movimentos cabem no mesmo trimestre porque a taxa de desemprego depende do tamanho da força de trabalho e não apenas do número de pessoas que conseguiram ocupação. Quando entram mais pessoas no mercado do que aquelas absorvidas pelo emprego, o total de desempregados pode crescer mesmo com mais ocupados.

A pressão torna-se mais visível entre os jovens, as mulheres e quem procura uma primeira oportunidade, sobretudo num mercado em que a informalidade abrange a maior parte das pessoas empregadas.


Taxa de desemprego e Pessoas


A taxa de desemprego compara a população desempregada com a força de trabalho, formada por quem está empregado e por quem não tem trabalho, está disponível e procura activamente uma oportunidade. No segundo trimestre, essa força reunia 12 962 065 pessoas. O indicador não inclui todos os residentes com 15 ou mais anos, porque parte deles estava fora do mercado.

Como o denominador mudou, a percentagem avançou pouco apesar do aumento do desemprego. A força de trabalho cresceu 6,6%, enquanto a população desempregada aumentou 7,6%. A taxa de desemprego passou de 21,3% para 21,5% porque os dois lados da fracção cresceram ao mesmo tempo. O número absoluto mostra, porém, que havia mais 197 615 pessoas sem trabalho.

Um exemplo simples mostra o efeito. Se dez pessoas integram a força de trabalho e duas estão desempregadas, a taxa de desemprego é de 20%. Se entram mais duas pessoas e uma consegue emprego enquanto a outra continua à procura, passam a existir três desempregados em doze participantes. A taxa de desemprego sobe para 25%, embora também tenha aumentado o número de pessoas empregadas.

Em Angola, o aumento de 608 504 pessoas empregadas não equivale automaticamente à criação do mesmo número de postos formais. O inquérito considera como empregada a pessoa que trabalhou no período de referência, incluindo actividades por conta de outrem, por conta própria, estágios e negócios familiares.

A medição acompanha pessoas ocupadas, não apenas contratos assinados por empresas ou pelo Estado. Essa diferença pesa na leitura do emprego. A informalidade abrangia 80,1% das pessoas empregadas, acima dos 79,3% do trimestre anterior. Nas áreas rurais, a taxa de desemprego chegou a 91,7%, contra 76,1% nas áreas urbanas.

Entre as mulheres empregadas, 89,5% estavam na informalidade. Um aumento da ocupação pode, portanto, coexistir com vínculos frágeis e rendimentos menos previsíveis.


Mais Gente à Procura


Entre os dois trimestres, a população com 15 ou mais anos em Angola aumentou de 22 608 823 para 23 006 410 pessoas, um acréscimo de 397 587. Esse crescimento amplia o universo potencial do mercado, mas não significa que todos os novos adultos tenham começado a trabalhar ou a procurar emprego. A entrada efectiva depende da situação de cada pessoa perante o mercado.

Enquanto a população em idade activa cresceu 397 587 pessoas, a força de trabalho aumentou 806 119. Parte dessa diferença veio da redução de 408 532 pessoas fora da força de trabalho. O movimento indica que muitos residentes que antes não trabalhavam nem procuravam emprego passaram a ser classificados como empregados ou desempregados, aumentando a participação no mercado.

A taxa de desemprego da força de trabalho confirma essa mudança. Subiu de 53,8% para 56,3% no trimestre e avançou tanto entre os homens como entre as mulheres. Nas áreas urbanas, 62,4% da população com 15 ou mais anos integrava a força de trabalho, contra 43,4% nas áreas rurais. A participação, por isso, variou de forma marcada conforme a residência.

Há ainda 10 044 345 pessoas fora da força de trabalho. Desse total, 51,7% não procuraram emprego, mas estavam disponíveis para trabalhar. Elas integram a chamada força de trabalho potencial, estimada em 5 216 571 pessoas. O grupo também inclui quem procurou emprego, mas não estava disponível para começar, o que alarga o retrato da procura potencial.

Quando se somam a força de trabalho efectiva e a potencial, a força de trabalho ampliada chega a 18 178 637 pessoas, equivalente a 79,0% da população com 15 ou mais anos. A proporção era de 80,5% nas áreas urbanas e 75,9% nas rurais. Esse indicador mostra um grupo potencial de trabalhadores muito maior do que os 2,79 milhões de desempregados oficiais.


Pressão Desigual


Entre os jovens em Angola, a pressão é maior. A taxa de desemprego dos 15 aos 24 anos ficou em 40,5%, praticamente o dobro da média nacional. Entre os 25 e 34 anos, situou-se em 21,1%. Nos grupos seguintes, caiu para 14,0% entre 35 e 44 anos e 8,6% entre 45 e 54 anos, mostrando uma diferença etária acentuada.

As mulheres continuaram numa posição mais desfavorável no desemprego. A taxa de desemprego feminina foi de 23,3%, contra 19,8% entre os homens. Em números absolutos, estavam desempregadas 1 500 464 mulheres e 1 290 357 homens. A diferença aparece também na participação: a taxa de desemprego da força de trabalho feminina foi de 54,2%, abaixo dos 58,6% registados entre os homens.

A geografia mudou de forma mais brusca. O desemprego urbano subiu de 20,1% para 22,7%, enquanto o rural caiu de 26,7% para 18,0%. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego de emprego rural passou de 23,7% para 35,6%. A variação mostra maior absorção de trabalhadores fora das cidades, mas não permite concluir que a qualidade das ocupações tenha melhorado na mesma proporção.

O desemprego não esgota a falta de trabalho suficiente. O inquérito estimou 317 529 pessoas em subemprego por insuficiência de horas trabalhadas. Quando esse grupo é somado aos desempregados, a taxa de desemprego combinada de subemprego e desemprego chega a 24,0%. O valor sobe para 25,9% entre as mulheres e fica em 22,0% entre os homens.

A medida agregada de subutilização inclui ainda a força de trabalho potencial e alcançou 45,8%. Entre as mulheres, atingiu 48,3%, contra 43,3% nos homens. Outra medida, que combina o desemprego com a força de trabalho potencial, ficou em 44,0%.

Esses indicadores revelam pessoas sem emprego, com poucas horas ou com ligação potencial ao mercado, situações que a taxa de desemprego principal não reúne sozinha.


Conclusão


A subida de apenas 0,2 pontos percentuais não deve ser lida como um retrato de pouca mudança. O trimestre reuniu três movimentos simultâneos: mais população em idade activa, mais pessoas a entrar na força de trabalho e mais ocupação. Como a entrada superou a absorção, o desemprego aumentou.

A taxa de desemprego oficial comprime esses movimentos numa única percentagem e por isso precisa de ser lida ao lado dos números absolutos. Para quem procura trabalho em Angola, a taxa de desemprego oficial não capta toda a pressão. Ficam fora dela as pessoas disponíveis que não procuraram emprego e quem desejou trabalhar, mas não estava disponível no período.

A medida de subutilização incorpora parte dessa margem e mostra um mercado com ligações incompletas ao trabalho. Nos próximos trimestres, será decisivo observar se o emprego cresce acima da força de trabalho e se a informalidade recua, porque essa combinação apontaria para uma redução simultânea do desemprego e da fragilidade da ocupação.

 


O que significa na prática esta subida do desemprego para quem procura trabalho em Angola? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Celeste Kandimba
Celeste Kandimba
Jornalista angolana formada em Comunicação Social, conta com experiência em redações digitais entre Luanda e Benguela na cobertura de sociedade, governação local e políticas públicas. Com um percurso ligado ao acompanhamento de processos eleitorais, emprego e migrações internas, foca o seu trabalho na análise de Angola e da África Austral a partir da realidade das famílias, dos trabalhadores e dos impactos práticos das decisões políticas nas comunidades.
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