17 De Maio: Dia Mundial das Telecomunicações

A distância entre uma vida protegida e uma vida isolada pode caber num cabo submarino, numa antena, num satélite ou numa mensagem de alerta que chega ao telefone antes de um terramoto ou uma cheia.

17 De Maio: Dia Mundial das Telecomunicações


As telecomunicações resumem a arquitectura invisível do mundo contemporâneo. A 17 de Maio, o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação recorda a assinatura da primeira Convenção Telegráfica Internacional, em Paris e a criação da União Internacional das Telecomunicações, em 1865.

A efeméride começou a ser assinalada em 1969 e passou, em 2006, a incluir a Sociedade da Informação, num reconhecimento de que a Internet, os dados e os serviços digitais entram hoje na escola, no hospital, no comércio, na agricultura, na protecção civil, na banca e na vida diária das famílias.

Em 2026, o tema escolhido é “linhas de vida digitais: reforçar a resistência num mundo interligado”. A formulação aponta para uma realidade concreta: redes terrestres, cabos submarinos, satélites, centros de dados e sistemas de alerta sustentam economias inteiras e precisam de resistir a avarias, choques climáticos, conflitos, falhas de energia e ataques informáticos.

Em África, o debate ganha peso especial porque a expansão digital avança ao lado de desigualdades no acesso, no preço, na qualidade do serviço e nas competências necessárias para usar a tecnologia com segurança. A ligação digital já não representa apenas conveniência; tornou-se condição de participação económica, protecção social e resposta pública.


Origem Histórica


(20260517) 17 De Maio Dia Mundial das Telecomunicações
Imagem: © 1850 From Semaphore to Satellite via ITU

O Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação nasceu de uma necessidade prática: fazer com que mensagens telegráficas atravessassem fronteiras por regras comuns.

A 17 de Maio de 1865, vários países assinaram em Paris a primeira Convenção Telegráfica Internacional e criaram a União Telegráfica Internacional, instituição que daria origem à actual União Internacional das Telecomunicações.

A organização tornou-se uma agência especializada das Nações Unidas para as tecnologias digitais e reúne Estados, empresas, universidades e entidades do sector. A celebração anual começou em 1969 como Dia Mundial das Telecomunicações e foi formalizada durante a Conferência Plenipotenciária de Málaga-Torremolinos, em 1973.

O objectivo inicial era chamar a atenção para o papel das comunicações no desenvolvimento económico e social. Depois da Cimeira Mundial sobre a Sociedade da Informação e da expansão da Internet, a data passou em 2006 a incluir também a Sociedade da Informação.

Uma rede digital transporta aulas, consultas, transacções financeiras, imagens de satélite, boletins meteorológicos, registos civis e alertas de emergência. Quando a rede falha, ficam suspensos serviços que protegem vidas, movimentam mercados, organizam instituições e asseguram direitos básicos.

A permanência da data recorda que a cooperação internacional nunca foi um detalhe técnico. Desde o telégrafo até ao satélite, os serviços só funcionam quando os países aceitam normas comuns, protegem frequências, organizam o espectro radioeléctrico e reduzem as incompatibilidades capazes de atrasar mensagens, encarecer operações ou interromper serviços essenciais.

Sem esse quadro, uma rede moderna pode repetir as fragilidades que o telégrafo procurava superar no século XIX: fronteiras técnicas, custos elevados, atrasos administrativos, ausência de interoperabilidade e serviços incapazes de responder às necessidades reais das populações.


Linhas Digitais


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O tema de 2026 coloca a resistência no centro da discussão pública. A UIT define as linhas de vida digitais como sistemas que mantêm o mundo em funcionamento: redes terrestres, cabos submarinos, satélites e plataformas de dados. São elementos pouco visíveis para a maioria dos utilizadores, embora sustentem chamadas, pagamentos, aulas à distância, serviços públicos e avisos de tempestade.

A infra-estrutura digital deixou de ser acessória. Num hospital, a falha de um sistema pode atrasar diagnósticos, impedir a consulta de processos clínicos e dificultar a coordenação de equipas. Numa zona rural, a ausência de cobertura pode afastar produtores dos preços de mercado, estudantes dos materiais escolares e famílias dos serviços administrativos.

Numa calamidade, minutos sem comunicação podem custar vidas e atrasar o socorro. A resistência digital exige redundância, manutenção, investimento, segurança e coordenação. Não basta instalar antenas ou lançar cabos sem planos para interrupções, energia de reserva, rotas alternativas, equipas treinadas, contractos claros e centros de dados preparados.

A UIT tem destacado alertas precoces, cabos seguros, satélites, sistemas de navegação, centros de dados sustentáveis e inteligência artificial aplicada à gestão de riscos como partes desta arquitectura. Em África, esta agenda tem relevância especial, pois o continente depende de cabos submarinos para grande parte do tráfego internacional de dados.

Muitos países ainda têm redes frágeis fora das capitais. Uma avaria num ponto crítico pode atingir bancos, aeroportos, órgãos de comunicação social, escolas, empresas, alfândegas e repartições públicas. A transformação digital mede-se pela capacidade de manter serviços activos quando o sistema é posto à prova por cortes, cheias, sabotagens, falhas de energia ou pressão excessiva sobre a rede.

Para reduzir esse risco, os operadores precisam de peças disponíveis, técnicos locais, autorizações rápidas e ensaios periódicos de recuperação em cada território afectado do país.


Exclusão Persistente


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Imagem: © 2023 Magnific

Os números da UIT mostram que o acesso à Internet cresceu, mas a divisão digital continua profunda. Em 2025, cerca de seis mil milhões de pessoas usavam a rede, valor próximo de três quartos da população mundial. Ainda assim, 2,2 mil milhões permaneciam fora dela.

Nos países com rendimentos elevados, 94% da população usa a Internet. Nos países com rendimentos baixos, a proporção desce para 23%. Em África, a média de utilização era de 36% em 2025, muito abaixo da Europa, das Américas e de outras regiões com infra-estruturas mais densas e mercados digitais amadurecidos.

Os dados não devem ser lidos como um simples atraso estatístico. Ele traduz escolas sem acesso regular, pequenas empresas sem presença digital, jovens sem formação adequada, centros de saúde com serviços limitados e comunidades que pagam caro por redes instáveis.

A primeira camada é física, porque ainda há localidades sem cobertura de qualidade. A segunda é económica, porque o preço dos dados, dos aparelhos e da energia limita o uso regular. A terceira é educativa, porque a navegação segura exige competências que muitas pessoas nunca tiveram oportunidade de aprender. A quarta é linguística e cultural.

Muitos serviços digitais não usam línguas locais nem respondem às necessidades das comunidades. O relatório Facts and Figures 2025 sublinha que a qualidade da ligação, o preço e as competências digitais definem novas desigualdades. O avanço do 5G ilustra esse contraste: a cobertura mundial chegava a 55%, mas ficava em apenas 4% nos países de rendimentos baixos.

A exclusão digital limita direitos, reduz oportunidades de emprego, enfraquece a presença de pequenas empresas e afasta cidadãos de serviços públicos cada vez mais dependentes de plataformas electrónicas. Também reduz a capacidade de participação política em territórios distantes.


África ligada


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Imagem: © 2017 Jay Yuno via Getty Images

Em África, as telecomunicações tornaram-se uma das infra-estruturas mais decisivas para o desenvolvimento social e económico. O telemóvel aproximou os mercados, permitiu pagamentos móveis, facilitou remessas familiares, abriu canais de aprendizagem e deu a pequenos negócios uma presença que antes dependia de intermediários, transporte caro e informação lenta.

A mudança é visível no comércio informal, nos transportes, nos serviços financeiros, na comunicação comunitária e na circulação de informação entre famílias separadas por longas distâncias. A expansão, porém, não se distribui de forma uniforme. As capitais concentram melhor cobertura, maior velocidade, mais operadores, assistência técnica e maior oferta comercial.

Muitas zonas rurais continuam dependentes de redes fracas, energia irregular e aparelhos de baixo custo. Uma ligação instável pode bastar para mensagens simples, mas não serve uma aula interactiva, uma consulta médica remota ou uma empresa que precisa de receber pagamentos, emitir facturas electrónicas e comunicar com fornecedores distantes.

A questão africana exige perguntas concretas sobre o acesso disponível, o preço cobrado, a qualidade entregue, a protecção dos utilizadores e a soberania dos dados. Sem respostas claras, a digitalização pode aumentar assimetrias em vez de reduzi-las. O serviço universal deve chegar às comunidades com soluções adequadas ao território.

Os países precisam de normas para proteger infra-estruturas críticas, diversificar rotas internacionais, reforçar a segurança dos cabos submarinos, preparar planos nacionais de telecomunicações de emergência e garantir que a concorrência não destrói a qualidade do serviço. A cimeira internacional sobre cabos submarinos, realizada em Abuja em 2025, deu visibilidade a essa agenda regional.

Também é necessário formar técnicos, apoiar fabricantes locais, negociar partilha de torres e melhorar a fiscalização das licenças. Estas medidas reduzem custos, aceleram reparações, ampliam a cobertura e fazem com que o investimento chegue a municípios distantes sem depender apenas do interesse comercial imediato.


Segurança Pública


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Imagem: © 2020 Metamorworks via Shutterstoc

As telecomunicações são também uma ferramenta de protecção civil. Os sistemas de alerta precoce, as mensagens por difusão celular, a rádio, os satélites e as plataformas de dados podem reduzir perdas humanas quando uma tempestade, uma cheia, uma seca severa ou um incêndio ameaça comunidades vulneráveis.

A iniciativa Early Warnings for All, apoiada por várias agências internacionais, entre elas a UIT, procura levar alertas inclusivos e multirrisco às populações, com atenção especial à difusão das mensagens e à comunicação de emergência. Este ponto é essencial para África, onde fenómenos climáticos extremos atingem com frequência comunidades com infra-estrutura fraca.

Um alerta que chega tarde não protege. Um alerta enviado numa língua inadequada também falha. Um aviso dependente apenas de uma aplicação que exige Internet exclui pessoas sem dados móveis, sem bateria ou sem aparelho compatível. Por isso, a comunicação de emergência precisa de vários canais e de confiança social construída antes da crise.

A telefonia móvel deve trabalhar com a rádio comunitária, as autoridades locais, as escolas, as igrejas, as mesquitas, as administrações municipais e as associações de bairro. A UIT tem defendido planos nacionais de telecomunicações de emergência para melhorar a preparação, a resposta e a recuperação em situações de desastre.

Esses planos ajudam a organizar responsabilidades, autorizações, equipamentos, equipas técnicas, mapas de risco, procedimentos e acordos de cooperação antes da crise. Quando o desastre chega, a improvisação custa tempo, recursos e vidas. A ligação resistente mantém hospitais ligados, ambulâncias coordenadas, agricultores avisados, famílias localizadas e equipas de socorro em contacto.

A preparação também exige exercícios regulares, listas de contactos actualizadas, geradores abastecidos, rádios operacionais, baterias protegidas e protocolos para restaurar antenas danificadas. Sem estes cuidados, a tecnologia existe no papel, mas falha exactamente quando a população mais precisa dela.


Conclusão


Para mim, o dia 17 de Maio tem um significado especial: não só celebra o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação, como também assinala o meu aniversário. Como filho de um engenheiro de telecomunicações e actual editor-chefe da revista de notícias online “Mais Afrika”, esta data simboliza a intersecção dos meus interesses pessoais e profissionais, bem como a lembrança do legado do meu Pai.

É por isso uma oportunidade anual não só para festejar o meu aniversário e relembrar o meu Pai, mas também para ponderar sobre a importância crucial das telecomunicações e das tecnologias de informação na nossa sociedade.

A transformação digital tornou-se uma promessa repetida em discursos oficiais, relatórios empresariais e programas de desenvolvimento. O Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação obriga a retirar essa promessa do terreno abstracto e a confrontá-la com cabos, antenas, preços, competências, energia, segurança e responsabilidade pública.

Em 2026, o tema das linhas de vida digitais recorda que nenhuma sociedade ligada deve aceitar redes frágeis como destino. A inclusão digital exige investimento paciente, regulação competente, cooperação regional e atenção às pessoas que continuam fora da rede. Em África, o desafio é duplo: ligar mais cidadãos e garantir que essa ligação seja útil, segura, acessível e resistente.

Sem esse compromisso, a tecnologia aprofunda desigualdades antigas; com políticas consistentes, torna-se serviço público capaz de proteger vidas e abrir oportunidades.

 


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Imagem: © 2026 ITU
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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