China: Tarifas Zero Para África Trump Leva 50%

A decisão de Pequim pode redesenhar o mapa do comércio africano. A partir de 1 de Maio, 53 países africanos passam a beneficiar de tarifas zero no mercado chinês, abrindo novas oportunidades para exportações, investimento e uma relação económica cada vez mais estratégica entre África e a China.

China: Tarifas Zero Para África Trump Leva 50%


A partir de 1 de Maio de 2026, a China vai aplicar tarifas alfandegárias zero a 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, numa decisão que poderá alterar significativamente o comércio entre o continente africano e a segunda maior economia do mundo.

A medida representa um novo passo no aprofundamento das relações China-África e surge num momento em que o proteccionismo mundial aumenta e as economias africanas procuram novos mercados para exportação, industrialização e crescimento sustentável.

Pequim pretende ampliar o acesso dos produtos africanos ao seu vasto mercado interno, ao mesmo tempo que reforça a sua influência estratégica no continente.

O anúncio foi feito no final da visita oficial do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, a Pequim, onde Xi Jinping defendeu o fortalecimento da cooperação com África e a necessidade de maior solidariedade entre os países do Sul Global perante os desafios internacionais actuais.

Mais do que uma simples redução fiscal, trata-se de uma decisão com forte peso geopolítico, económico e diplomático que poderá beneficiar sectores como agricultura, minas, energia, manufactura e exportações de bens transformados.

Num continente onde o acesso aos mercados internacionais continua a ser uma das maiores barreiras ao crescimento, a abertura chinesa pode representar uma nova fase das relações económicas entre África e Pequim.


Tarifas Zero


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Imagem: © 2025 Shutterstock

A nova política chinesa elimina tarifas sobre todos os produtos importados dos 53 países africanos que mantêm relações diplomáticas com Pequim. A medida entra oficialmente em vigor no dia 1 de Maio e amplia uma política anterior implementada em Dezembro de 2024 que já concedia tratamento tarifário zero aos países menos desenvolvidos, incluindo 33 nações africanas.

Agora, o benefício passa a abranger praticamente toda a África diplomática ligada à China, excluindo apenas o Reino de Eswatini que mantém relações com Taiwan e não com Pequim. Trata-se de uma decisão de grande peso político, porque reforça também a posição diplomática chinesa no continente e a sua política de reconhecimento internacional de “uma só China”.

Segundo o Governo chinês, o objectivo é facilitar o acesso das exportações africanas ao mercado chinês, melhorar a competitividade dos produtos do continente e fortalecer as cadeias de abastecimento mais resistentes num panorama internacional marcado por tensões comerciais e instabilidade geopolítica.

Xi Jinping já tinha proposto esta política durante um fórum realizado em Junho de 2025, defendendo acordos económicos de desenvolvimento partilhado e novas formas de cooperação comercial entre a China e África. Para Pequim, a abertura do seu mercado interno representa também uma forma de consolidar a cooperação Sul-Sul.

O Ministério do Comércio chinês anunciou igualmente que pretende negociar novos acordos de parceria económica com países africanos, com foco na facilitação do comércio, crescimento inclusivo, industrialização local e cumprimento das regras da Organização Mundial do Comércio.

Além disso, a China pretende expandir os chamados “canais verdes”, mecanismos que aceleram a entrada de determinados produtos africanos no mercado chinês, sobretudo agrícolas e transformados.

Esta abertura representa uma das maiores iniciativas comerciais da China para África nas últimas décadas e reforça a sua posição como principal parceiro económico do continente.


Relação Estratégica


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Imagem: © 2015 Rolex Dela Pena / EPA

Durante o encontro com Daniel Chapo, Xi Jinping sublinhou que a China e a África, juntamente com outros países do Sul Global, constituem hoje uma “força de justiça” no actual sistema internacional. Para o líder chinês, o reforço da solidariedade entre países em desenvolvimento tornou-se essencial num contexto global descrito como turbulento e imprevisível.

O Presidente chinês destacou a forte complementaridade económica entre Pequim e Maputo e apontou novas oportunidades de cooperação em sectores como as infra-estruturas, a energia, as minas, a agricultura, a economia digital e a inteligência artificial. Segundo Xi, estes sectores podem representar uma nova etapa de crescimento conjunto e desenvolvimento mais sustentável.

Xi Jinping afirmou que a China está disponível para alinhar estratégias de desenvolvimento com Moçambique e com outros parceiros africanos, explorando novos modelos de cooperação capazes de promover crescimento sustentável e de alta qualidade. A ideia central passa por substituir relações puramente comerciais por parcerias estruturais de longo prazo.

No plano diplomático, defendeu ainda um mundo multipolar, uma globalização económica mais inclusiva e a prática de um verdadeiro multilateralismo baseado no respeito pela Carta das Nações Unidas. Pequim procura posicionar-se como defensora de uma ordem internacional menos dominada pelas grandes potências ocidentais.

Daniel Chapo respondeu classificando a China como um “verdadeiro amigo” de Moçambique e reiterou o apoio ao princípio de “uma só China”, manifestando disponibilidade para aprofundar ainda mais a cooperação bilateral.

Após as conversações, foram assinados mais de 20 acordos de cooperação em áreas como comércio, segurança, saúde e intercâmbio cultural, elevando as relações bilaterais para uma “comunidade de futuro partilhado na nova era”, expressão frequentemente utilizada pela diplomacia chinesa para simbolizar alianças estratégicas duradouras.


Impacto Económico


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Imagem: © 2017 Shutterstock

A importância desta decisão vai muito além da diplomacia. A China mantém-se como o maior parceiro comercial de África há 16 anos consecutivos e os números confirmam essa centralidade.

Nos primeiros 11 meses de 2025, o comércio bilateral atingiu 314,4 mil milhões de dólares, um aumento de 17,8% face ao ano anterior, superando pela primeira vez a marca dos 300 mil milhões de dólares. Em 2024, o volume tinha sido de 295,6 mil milhões, o que demonstra uma aceleração consistente nas trocas comerciais entre as duas partes.

Vários especialistas consideram que a nova política de tarifas zero poderá acelerar ainda mais este crescimento, sobretudo para os produtos africanos como o café, o chá, têxteis, abacate, petróleo, minerais e produtos agrícolas transformados. A eliminação das barreiras alfandegárias aumenta a competitividade destes produtos e melhora o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo.

O académico angolano Paixão António José afirmou que esta medida reforça a cooperação Sul-Sul e consolida a posição da China como maior parceiro comercial africano. Segundo ele, a política melhora a visibilidade e a competitividade de África no comércio mundial, ao mesmo tempo que ajuda a impulsionar a industrialização local e a transferência de tecnologia.

O especialista sublinha ainda que, nas últimas duas décadas, a China ajudou a diversificar as exportações africanas, tradicionalmente concentradas em matérias-primas, abrindo espaço para produtos manufacturados e sectores de maior valor acrescentado.

O caso do Quénia já demonstra esse movimento: em Março, Nairobi assinou com Pequim um acordo que permitirá acesso livre de impostos e quotas para exportações quenianas como chá, café e abacate.

O Presidente queniano, William Ruto, afirmou que essa cooperação terá impacto directo no crescimento económico do país e na criação de novas oportunidades para produtores locais.


Nova Etapa


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Imagem: © 2024 DR

As relações entre a China e África deixaram há muito de se limitar à compra de matérias-primas. O que começou como uma parceria centrada em recursos naturais evoluiu para uma relação estratégica mais ampla, envolvendo infra-estruturas, manufactura, tecnologia, energia e diplomacia internacional.

Nas últimas duas décadas, Pequim investiu fortemente em portos, estradas, caminhos-de-ferro, centrais energéticas e zonas industriais em vários países africanos, ao mesmo tempo que ampliou o financiamento para sectores produtivos. Esta presença transformou a China num dos actores mais influentes no desenvolvimento económico africano contemporâneo.

Com a nova política de tarifas zero, a estratégia passa agora a reforçar também a capacidade exportadora africana e não apenas a importação de recursos para a China. Isso pode ajudar países africanos a reduzir dependências estruturais e a criar cadeias de valor mais fortes dentro do próprio continente.

Ao mesmo tempo, Pequim reforça a sua influência política num momento em que a disputa geopolítica com o Ocidente se intensifica. A política comercial torna-se assim também uma ferramenta diplomática, permitindo à China consolidar alianças e expandir a sua presença internacional através da economia.

Para muitos governos africanos, o desafio será transformar esta oportunidade em crescimento real, industrialização efectiva e geração de emprego interno, evitando que o aumento das exportações continue concentrado apenas em produtos primários.

Será igualmente necessário investir em logística, certificação de qualidade, capacidade produtiva e infra-estruturas internas para responder à procura chinesa de forma competitiva e sustentável. As tarifas zero abrem a porta. O verdadeiro teste será saber quem conseguirá atravessá-la com estratégia, visão de longo prazo e capacidade de transformar acesso comercial em desenvolvimento real.


Conclusão


A decisão da China de eliminar tarifas para 53 países africanos poderá marcar uma nova fase nas relações económicas entre África e Pequim. Mais do que facilitar exportações, esta medida coloca em discussão o futuro do desenvolvimento africano, da industrialização e da integração comercial mundial.

Se bem aproveitada, a iniciativa poderá fortalecer economias nacionais e reduzir assimetrias históricas no comércio internacional. Mas o sucesso dependerá menos da porta aberta pela China e mais da capacidade africana de transformar acesso em desenvolvimento sustentável e soberania económica.

 


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Imagem: © 2018 Shutterstock
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