Conselho Da ONU Escolhe Lugares Temporários

Recomeçou a dança das cadeiras. A disputa por cinco lugares temporários no Concelho de Segurança da ONU, volta a colocar a diplomacia mundial diante de uma pergunta simples: quem terá voz quando a paz estiver em jogo?

Conselho Da ONU Escolhe Lugares Temporários


O Conselho da ONU entrou esta semana numa disputa diplomática que parece técnica, mas revela o peso político das regiões dentro das Nações Unidas. Na quarta-feira, 3 de Junho de 2026, a Assembleia-Geral deverá eleger cinco membros não-permanentes para o biénio 2027/2028, num voto secreto que exige maioria qualificada.

Sete países disputam os lugares disponíveis. Trindade e Tobago e Zimbabwe surgem sem adversários nos seus grupos regionais. Áustria, Alemanha e Portugal competem por duas vagas atribuídas ao Grupo da Europa Ocidental e Outros, enquanto Quirguistão e Filipinas concorrem pela vaga da Ásia-Pacífico.

A votação medirá influência, alianças e capacidade de mobilização num órgão onde guerras, sanções e operações de paz passam por debates duros. O Conselho tem 15 membros, cinco permanentes com poder de veto e dez eleitos por mandatos de dois anos.

A entrada dos novos membros ocorrerá em Janeiro de 2027, quando sairão Dinamarca, Grécia, Paquistão, Panamá e Somália. Para Portugal, a eleição terá leitura particular pois coincide com o último ano do mandato de António Guterres como secretário-geral da ONU e recoloca Lisboa numa arena marcada por crises na Ucrânia, em Gaza, no Sudão e no Médio Oriente. O escrutínio também testará a força das candidaturas africanas e caribenhas que chegam sem concorrência formal mas precisam de votos suficientes.


Voto Secreto


A eleição do Conselho de Segurança da ONU segue regras próprias dentro da Assembleia-Geral. Mesmo quando um candidato concorre sem oposição, precisa de obter dois terços dos Estados-membros presentes e votantes. Se os 193 países participarem e votarem, o limiar político fica em 129 votos favoráveis, sem contar abstenções nem boletins em branco.

A votação secreta permite aos governos apoiarem ou bloquearem candidaturas sem exposição pública imediata. Esse mecanismo amplia a margem de negociação nos dias anteriores ao escrutínio, quando missões diplomáticas cruzam compromissos bilaterais, prioridades regionais e expectativas sobre o comportamento futuro de cada candidato no Conselho.

A distribuição regional organiza o processo e evita que a disputa se concentre apenas nas grandes potências diplomáticas. Em 2026, há uma vaga africana, uma da Ásia-Pacífico, uma da América Latina e Caraíbas e duas da Europa Ocidental e Outros, com calendários definidos por rotação e acordos de grupo.

O Conselho de Segurança distingue-se dos restantes órgãos das Nações Unidas porque as suas resoluções podem ter carácter vinculativo. A agenda inclui sanções, missões de paz, mandatos humanitários e respostas a ameaças contra a paz internacional. Por isso, um mandato não-permanente garante visibilidade e acesso a negociações decisivas mesmo sem direito de veto.

Os cinco eleitos tomarão posse em 1 de Janeiro de 2027 e permanecerão até 31 de Dezembro de 2028. O calendário ganha relevo porque coincide com a escolha do sucessor de António Guterres, com pressões por reforma institucional e com a exigência de respostas mais rápidas a conflitos que dividem os membros permanentes.

Cada voto sinaliza afinidades discretas, reservas estratégicas e avaliação sobre a capacidade de cada candidato actuar com equilíbrio perante dossiês que raramente chegam ao plenário sem disputa prévia.


Corrida Regional


A disputa mais aberta situa-se no Grupo da Europa Ocidental e Outros onde a Áustria, a Alemanha e Portugal procuram duas vagas para o Conselho da ONU. A presença de três candidatos para dois lugares obriga a uma contagem apertada, sobretudo porque cada país apresenta credenciais diplomáticas próprias e redes de apoio construídas ao longo de vários anos.

A Alemanha já cumpriu seis mandatos no Conselho e aposta no peso económico, político e financeiro que mantém dentro do sistema multilateral. A Áustria, com três passagens anteriores, invoca a tradição de Viena como centro diplomático. Portugal também soma três mandatos e procura afirmar uma candidatura assente em prevenção, parceria e protecção.

No Grupo da Ásia-Pacífico, o duelo opõe o Quirguistão e as Filipinas. O Quirguistão procura chegar pela primeira vez ao Conselho e apresenta a sua candidatura como representação de países sem litoral e de menor dimensão. As Filipinas tentam regressar a um órgão onde já estiveram quatro vezes e valorizam a experiência diplomática regional.

Trindade e Tobago e Zimbabwe surgem sem oposição nos seus grupos mas essa condição não equivale a eleição automática. A exigência de dois terços mantém-se e obriga os candidatos únicos a provarem que dispõem de apoio amplo. O Zimbabwe procura regressar ao Conselho depois de duas experiências anteriores.

A rotação africana dá uma moldura adicional à candidatura de Harare pois as sub-regiões do continente costumam coordenar os seus turnos para evitar disputas internas. Esse método reflecte uma tentativa de preservar unidade diplomática em África, embora não elimine divergências políticas entre governos nem substitua a avaliação feita por cada Estado-membro na votação secreta.

A candidatura caribenha segue lógica semelhante, com Trindade e Tobago a procurar uma segunda presença num órgão que amplifica a voz dos pequenos Estados insulares mais vulneráveis a choques climáticos e económicos externos.


Aposta Portuguesa


Portugal entra na corrida ao Conselho da ONU com o lema “Prevenção, Parceria, Protecção”, fórmula que procura resumir uma diplomacia assente na defesa da Carta das Nações Unidas, no direito internacional e no reforço das operações de paz. A candidatura recupera uma presença histórica no Conselho, depois dos mandatos de 1979/1980, 1997/1998 e 2011/2012.

A campanha portuguesa ganha leitura simbólica porque decorre no ano em que António Guterres termina o segundo mandato como secretário-geral da ONU. Essa coincidência não decide votos mas oferece visibilidade a Portugal num momento em que a sucessão no topo da organização também movimenta capitais, alianças e expectativas sobre a orientação futura do multilateralismo.

Lisboa apresenta-se como país médio, atlântico e europeu, com relações em África, na América Latina e no espaço lusófono. Essa rede pode ajudar a candidatura mas não resolve a disputa com dois concorrentes fortes. A eleição no grupo ocidental exigirá disciplina diplomática até ao último boletim depositado na urna.

A prioridade portuguesa de prevenir conflitos procura responder a uma crítica recorrente ao Conselho, acusado de reagir tarde quando crises armadas já entraram em fase de destruição. A aposta na parceria aponta para uma relação mais estreita com outros órgãos da ONU, enquanto a protecção remete para civis, refugiados e comunidades vulneráveis.

O desafio português será provar que essa agenda pode produzir resultados num Conselho atravessado por vetos e rivalidades entre os membros permanentes. A margem dos eleitos está muitas vezes nas negociações de texto, na presidência de comités de sanções e na construção paciente de entendimentos mínimos. É nesse terreno que Lisboa procura lugar.

Para ganhar votos, Portugal terá de convencer Estados distantes de que a sua presença não se limitará ao espaço europeu. A campanha procura valorizar diálogo com países africanos, pequenos Estados insulares e parceiros que reclamam maior equilíbrio nas decisões.


África no Conselho de Segurança


A candidatura do Zimbabwe ao Conselho da ONU inscreve-se numa tradição africana de coordenação regional para os lugares não-permanentes. O continente dispõe de três assentos no Conselho, distribuídos por ciclos que procuram respeitar sub-regiões e evitar rupturas públicas. Esse arranjo não apaga tensões mas facilita uma presença africana contínua num órgão decisivo.

Em África, a importância do Conselho não é abstracta. Missões de paz, regimes de sanções, mandatos humanitários e debates sobre terrorismo passam frequentemente por crises africanas. Do Sudão à República Democrática do Congo, do Sahel à Somália, decisões tomadas em Nova Iorque condicionam operações no terreno e afectam milhões de civis.

A vaga africana de 2027/2028 substituirá a Somália, que deixa o Conselho no fim de Dezembro de 2026. O Zimbabwe procura ocupar esse espaço numa altura em que os debates sobre financiamento de operações de paz africanas, terrorismo transfronteiriço e segurança alimentar pressionam a relação entre a União Africana e as Nações Unidas.

A presença de um candidato único pode sugerir consenso mas a votação secreta conserva incerteza. Países sem adversários formais precisam de demonstrar aceitação para além do seu grupo. Esse requisito é importante porque o Conselho não representa apenas regiões; ele decide sobre matérias que atravessam fronteiras e exigem legitimidade perante todos os Estados-membros.

Para os países africanos, a discussão sobre assentos não-permanentes também convive com a reivindicação de reforma mais profunda. O continente defende maior representação num Conselho ainda marcado pela arquitectura de 1945. A candidatura do Zimbabwe não resolve esse debate mas recoloca a questão africana dentro de uma eleição que reflecte rotina institucional e disputa por influência.

Harare também terá de gerir a atenção externa sobre governação, direitos humanos e credibilidade diplomática. Num voto secreto, essas percepções podem pesar tanto como a disciplina regional ou os compromissos assumidos.


Poder Bloqueado


A eleição para o Conselho da ONU ocorre num período de forte desgaste do Conselho de Segurança. A guerra na Ucrânia expôs o confronto directo entre membros permanentes, enquanto Gaza revelou a dificuldade de aprovar respostas consensuais quando interesses estratégicos se sobrepõem ao imperativo humanitário. O Irão, o Sudão e outras crises ampliam a pressão sobre o órgão.

Os membros não-permanentes não têm poder de veto mas podem influenciar o ritmo dos debates e a linguagem das resoluções. Também podem colocar temas na agenda, coordenar negociações e presidir comités especializados. Quando actuam em bloco, conseguem aumentar custos políticos para posições isoladas e defender soluções de compromisso.

Essa margem explica a intensidade das campanhas. Um assento temporário oferece acesso a informação sensível, reuniões fechadas e contactos permanentes com as grandes potências. Para países de média dimensão, o lugar funciona como plataforma de afirmação internacional. Para Estados pequenos, pode ser uma oportunidade rara de levar preocupações próprias para o centro da segurança mundial.

O impasse no Conselho também alimenta críticas à representatividade. A composição permanente continua a reflectir a ordem saída da Segunda Guerra Mundial, apesar das mudanças demográficas, económicas e políticas das últimas décadas. A ampliação do Conselho, defendida por várias regiões, permanece bloqueada por divergências sobre novos membros permanentes e poder de veto.

A votação de 3 de Junho não mudará essa arquitectura mas poderá alterar a dinâmica diária das negociações. Áustria, Alemanha, Portugal, Filipinas, Quirguistão, Trindade e Tobago e Zimbabwe disputam ou procuram confirmar espaço num órgão onde cada palavra aprovada tem peso jurídico e político. O resultado mostrará quem conseguiu transformar campanha em confiança.

Mesmo sem reforma imediata, a composição dos eleitos poderá definir pontes entre blocos rivais.


Conclusão


O Conselho da ONU chegará à eleição de quarta-feira com uma disputa que combina cálculo regional, ambição diplomática e crise de legitimidade. Os candidatos sem oposição partem em vantagem, mas continuam dependentes de uma maioria ampla. Os concorrentes em disputas abertas terão de provar que oferecem mais do que presença simbólica.

A escolha dos cinco novos membros não resolverá o bloqueio provocado pelos vetos nem a reivindicação de reforma estrutural. Ainda assim, definirá quem terá assento à mesa quando a ONU debater guerras, sanções, operações de paz e respostas humanitárias.

Entre Lisboa, Harare, Port of Spain, Bishkek, Manila, Viena e Berlim, a eleição dirá que vozes participarão na construção possível da segurança internacional entre 2027 e 2028.

 


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Imagem: © 2026 Olga Fedorova
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