África É O Novo Epicentro Mundial Da Fome

África ultrapassou a Ásia e tornou-se pela primeira vez a região com mais pessoas subalimentadas: 309 milhões em 2025, contra 292 milhões no continente asiático. A inversão ocorre enquanto a fome mundial recua, mas os preços dos alimentos, os conflitos e os choques climáticos mantêm milhões de famílias africanas sem refeições suficientes.

África É O Novo Epicentro Mundial Da Fome


A fome em África entrou numa nova fase em 2025. O relatório SOFI 2026, publicado por cinco agências das Nações Unidas, estima que 309 milhões de africanos consumiram menos energia alimentar do que a necessária para uma vida activa e saudável. Na Ásia, o total caiu para 292 milhões, depois de ter sido estimado em 323 milhões no ano anterior.

A mudança é histórica, mas não significa que a proporção africana tenha aumentado no último ano. A prevalência da fome baixou de 20,3 para 20,0 por cento, a primeira interrupção da subida desde 2017. O crescimento populacional, porém, elevou o número absoluto, enquanto os avanços no Sul e Sudeste da Ásia reduziram com rapidez o contingente asiático.

As mulheres continuaram mais expostas do que os homens, apesar de a diferença ter diminuído. Em 2025, 66,6 por cento dos habitantes de África não conseguiam pagar uma alimentação saudável e 56,6 por cento enfrentavam insegurança alimentar moderada ou grave.

Isso significa cortar a carne, o peixe, os ovos, a fruta ou os legumes, reduzir porções e escolher alimentos mais baratos, mesmo quando o mercado permanece abastecido. A fome resulta, assim, sobretudo da falta de rendimento e de acesso regular à comida nutritiva.


Comida Inacessível


Uma família pode viver perto de campos cultivados e ainda assim enfrentar a fome por não conseguir comprar uma dieta variada durante todo o mês. Os cereais e os tubérculos enchem o estômago por menos dinheiro, enquanto os alimentos ricos em proteína, a fruta e os legumes custam mais. Quando os rendimentos perdem valor, a diversidade alimentar é a primeira despesa sacrificada.

A maior parte do preço pago pelo consumidor forma-se depois da produção. O armazenamento, a transformação, o transporte e o comércio representam entre 70 e 75 por cento do custo final e a logística, o processamento e a venda grossista podem chegar a 40 por cento. As estradas degradadas, as fronteiras lentas, a energia instável e a falta de frio encarecem os produtos perecíveis.

Cerca de 37 por cento dos alimentos locais perdem-se durante o transporte em África, devido às demoras, às infra-estruturas deficientes e às barreiras comerciais. As cadeias de abastecimento são quatro vezes mais longas do que na Europa. Cada atraso acrescenta custos e reduz a receita do agricultor, sem garantir preços menores à família que compra no mercado.

A dependência de importações expõe os países às taxas de câmbio, ao frete, ao combustível e aos fertilizantes. Mesmo com a descida dos preços internacionais, as moedas frágeis e os custos internos podem bloquear a redução ao consumidor. Quem importa o trigo, o arroz, o óleo ou os factores de produção paga mais durante as guerras, as restrições comerciais ou as perturbações marítimas.

O investimento rural permanece insuficiente e desigual. Os pequenos produtores continuam com pouco crédito, pouca irrigação, poucas sementes adequadas, pouca assistência técnica, pouco armazenamento e pouco acesso aos mercados. Menos de três por cento do crédito bancário em África chega à agricultura, embora o sector empregue quase metade da força de trabalho do continente.


Crises Sobrepostas


Os agricultores abandonam terras, os comerciantes suspendem rotas e as famílias deslocadas perdem rendimento e apoio. No Sudão, no Sudão do Sul, no Sahel e no leste da República Democrática do Congo, a violência combina-se com as restrições de acesso humanitário e coloca as comunidades inteiras perante níveis extremos de fome.

As secas reduzem as colheitas, as pastagens e a água para o gado, enquanto as cheias destroem as casas, as estradas e os armazéns. Na África Austral, os ciclos de seca e de inundações afectam as culturas básicas como o milho. Quando a produção cai, os preços sobem e os trabalhadores rurais perdem a fonte de rendimento.

O combustível caro eleva o transporte, os fertilizantes caros comprimem a produção e os juros altos limitam o crédito sazonal. Ao mesmo tempo, o serviço da dívida ocupa receitas que poderiam financiar a irrigação, a extensão rural, os programas de refeições escolares ou a protecção social. O Banco Mundial alerta que a dívida elevada continua a afastar recursos do investimento para o desenvolvimento.

A abundância de terra e de água não se converte em segurança alimentar. A distribuição desses recursos é desigual e a execução das políticas permanece fragmentada. Os governos anunciam planos agrícolas, mas os agricultores recebem tarde os insumos, as obras de irrigação ficam incompletas e os corredores comerciais mantêm barreiras.

Sem orçamentos, fiscalização e metas verificáveis, a promessa de produzir mais não reduz os preços locais. A experiência asiática mostra que a inversão não nasceu de programas isolados, mas de ganhos acumulados na produtividade, nos rendimentos, na protecção social e no funcionamento dos mercados.

A insegurança alimentar continua mais frequente nos meios rurais do que nas cidades africanas. Contudo, o aumento do número absoluto exige políticas que avancem mais depressa que o crescimento populacional e cheguem às famílias pobres.


Conclusão


A liderança africana no número de pessoas subalimentadas mostra que a fome não resulta de uma escassez física inevitável. O continente produz alimentos, dispõe de agricultores jovens e possui capacidade para ampliar as colheitas, mas perde parte da produção, encarece outra parte no transporte e deixa milhões de consumidores sem rendimento suficiente.

A inversão com a Ásia expõe falhas no acesso, na produtividade e na governação, agravadas pelas guerras e pelo clima extremo. O risco imediato reside na possibilidade de a melhoria proporcional esconder o aumento contínuo do número de pessoas afectadas à medida que a população cresce.

Reverter essa trajectória exige ligar a produção e o consumo, com o crédito rural, a irrigação, o armazenamento, as estradas, o comércio regional, a protecção social e a paz. Sem uma execução verificável, a alimentação saudável continuará disponível nas prateleiras, mas fora do alcance da maioria das famílias africanas.

 


Que medidas devem os governos africanos executar para combater a fome? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Celeste Kandimba

Jornalista angolana formada em Comunicação Social, conta com experiência em redações digitais entre Luanda e Benguela na cobertura de sociedade, governação local e políticas públicas. Com um percurso ligado ao acompanhamento de processos eleitorais, emprego e migrações internas, foca o seu trabalho na análise de Angola e da África Austral a partir da realidade das famílias, dos trabalhadores e dos impactos práticos das decisões políticas nas comunidades.

Celeste Kandimba
Celeste Kandimba
Jornalista angolana formada em Comunicação Social, conta com experiência em redações digitais entre Luanda e Benguela na cobertura de sociedade, governação local e políticas públicas. Com um percurso ligado ao acompanhamento de processos eleitorais, emprego e migrações internas, foca o seu trabalho na análise de Angola e da África Austral a partir da realidade das famílias, dos trabalhadores e dos impactos práticos das decisões políticas nas comunidades.
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