COP17: 40% Da Terra No Planeta Está Degradada

Em África, a degradação da terra já não cabe numa agenda ambiental. Entra no preço do milho, na distância até à água, no tamanho dos rebanhos e na decisão de partir. A COP17 abre uma disputa concreta: quem pagará para restaurar o solo antes que a crise se transforme em fome e deslocação?

COP17: 40% Da Terra No Planeta Está Degradada


A COP17 começou nesta segunda-feira, 17 de Agosto, em Ulaanbaatar, com uma escala que contrasta com a invisibilidade quotidiana do problema: até 40% das terras do planeta estão degradadas. Durante duas semanas, governos e outros participantes negociarão respostas à desertificação, à degradação dos solos e à seca, sob o tema “Restaurar a Terra, Restaurar a Esperança”.

No continente africanos, o debate começa muito antes das salas de negociação. A terra degradada reduz a fertilidade, enfraquece a capacidade do solo de guardar água, estreita os corredores de pastoreio e aumenta a exposição das famílias rurais a secas sucessivas.

Quando a produção cai, o problema atravessa o campo e chega aos mercados, ao emprego, às receitas públicas e à mesa. É por isso que a conferência interessa particularmente a um continente onde 309 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2025 e mais de metade da população viveu com insegurança alimentar moderada ou grave.

O centro da discussão africana deve ser a capacidade de transformar financiamento em hectares recuperados, água retida, pastagens protegidas, colheitas mais estáveis e rendimentos capazes de impedir que uma seca que deveria ser temporária, se converta numa crise permanente para milhões de famílias.


Colheitas Sob Pressão


Em grande parte de África, a agricultura continua a depender da chuva e da qualidade directa do solo. Quando a camada fértil perde matéria orgânica, nutrientes e estrutura, a lavoura retém menos água e responde pior ao calor. O agricultor pode semear na mesma parcela e gastar o mesmo esforço, mas colher menos porque a base produtiva já foi enfraquecida.

A FAO calcula que 1,7 mil milhões de pessoas no mundo vivem em áreas onde a degradação provocada pela actividade humana já reduziu os rendimentos agrícolas. Na África subsariana, os focos de pobreza e perdas de produtividade sobrepõem-se em vários territórios, tornando a quebra da colheita especialmente perigosa onde as famílias têm menos poupança, crédito, irrigação e protecção social.

O efeito seguinte aparece no mercado. Menos cereais, leguminosas, hortícolas ou forragem produzidos localmente significam maior dependência de compras externas, transportes longos e divisas escassas. Para países já pressionados pela dívida e pelo custo das importações, uma crise do solo pode transformar-se numa pressão fiscal.

Para as famílias, transforma-se mais depressa numa escolha entre quantidade, qualidade e preço final. A degradação empurra os produtores para decisões que podem aprofundar o problema. Sem assistência técnica ou alternativas de rendimentos, famílias inteiras podem cultivar encostas frágeis, encurtar pousios, remover vegetação ou usar a terra até ao limite para compensar as perdas imediatas.

Essa sobrevivência de curto prazo aumenta a erosão e o esgotamento, fechando um ciclo em que a nova estação começa com menos margem. Restaurar solos agrícolas significa, por isso, recuperar capacidade económica. Cobertura vegetal, rotação de culturas, agro-florestação, gestão adequada da água e reposição de matéria orgânica podem reduzir as perdas e dar estabilidade às colheitas.

Na COP17, o teste africano será menos a quantidade de promessas aprovadas e mais a capacidade de fazer estas práticas chegar ao pequeno produtor com financiamento duradouro.


Água em Falta


A escassez de água e a degradação da terra reforçam-se mutuamente. Um solo compactado ou pobre em matéria orgânica absorve menos chuva, perde mais por escoamento e armazena menos humidade para os períodos secos. Quando chegam chuvas intensas, a água pode correr depressa sobre a superfície, provocar erosão e desaparecer antes de recarregar aquíferos, rios sazonais ou pequenas reservas.

No continente, essa relação pesa directamente sobre a agricultura, sobre o abastecimento humano e o gado, porque grande parte da produção depende da precipitação. Uma seca prolongada não afecta apenas a quantidade de água disponível; obriga as mulheres, as crianças e os pastores a percorrerem distâncias maiores e concentra pessoas e animais em pontos mais disputados.

A agricultura responde por mais de 70% das retiradas de água doce no mundo, o que mostra como a disputa por este recurso está ligada à comida. Em regiões secas africanas, ampliar a irrigação sem proteger bacias, solos e aquíferos pode apenas transferir a crise. O ganho exige usar menos água por unidade produzida e conservar a capacidade de retenção.

Por isso, a resistência à seca ocupa o espaço central na COP17. A discussão já não se pode limitar à resposta de emergência depois dos poços secarem e dos rebanhos morrerem. Planos de seca, informação climática, armazenamento, recuperação de zonas húmidas, bacias protegidas e financiamento preventivo são instrumentos para reduzir a factura antes que a falta de chuva se transforme numa emergência.

Para África, a política da água terá de reconhecer que restaurar a terra é também gerir a segurança. Onde o solo recupera a cobertura vegetal, infiltração e fertilidade, a chuva tende a permanecer útil por mais tempo. Isto não elimina as secas, mas reduz as vulnerabilidades. O valor da COP17 dependeda capacidade de ligar obras hídricas, agricultura, conservação e planeamento territorial numa única estratégia.


Pastos em Ruptura


Os pastos são infra-estruturas para milhões de famílias africanas que vivem do gado, do leite, da carne e do comércio. Quando a vegetação perde cobertura e diversidade, o rebanho encontra menos alimento e percorre distâncias maiores. Essa deslocação aumenta o desgaste dos animais, reduz a produção e eleva o risco de conflitos em torno da água e dos corredores de passagem.

A conferência decorre no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, o que dá relevo ao tema. As pastagens cobrem mais de metade da superfície terrestre e sustentam cerca de 500 milhões de pessoas no mundo. Em África, proteger estes espaços significa reconhecer sistemas móveis de produção que dependem de acesso flexível ao território e não de cercas.

Quando a terra se degrada, a mobilidade pastoral tende a aumentar precisamente quando as rotas tradicionais ficam mais estreitas. A agricultura avança sobre áreas de passagem, as infra-estruturas cortam os corredores e as fronteiras podem limitar os movimentos.

Sem regras negociadas entre as comunidades, os agricultores e as autoridades, a procura por pasto e água pode transformar uma pressão ambiental numa disputa económica, territorial e política. Há também uma questão de preços. Um rebanho que perde peso, fertilidade ou acesso à água produz menos carne e leite e chega pior aos mercados.

A mortalidade animal destrói as poupanças porque, em muitas comunidades, o gado funciona como património, rendimento e reserva para emergências. A degradação dos pastos entra assim na economia doméstica antes de surgir nas estatísticas. A resposta exige combinar direitos de uso, restauração ecológica e serviços adaptados à mobilidade.

Os pastores precisam de informação climática, pontos de água, saúde animal, mercados e mecanismos para negociar os acessos sem violência. Se a COP17 conseguir elevar as pastagens ao nível da agricultura e da água nas decisões do financiamento, África terá a oportunidade de proteger as economias rurais estruturalmente esquecidas.


Comida Mais Cara


Os preços dos alimentos não começam nas prateleiras. Começam na terra, na chuva, no combustível, no transporte e na quantidade que chega ao mercado. Quando os solos degradados reduzem os rendimentos agrícolas e a seca encarece a água ou a ração, o custo sobe ao longo da cadeia. Em economias dependentes de importações, uma quebra pode juntar-se à volatilidade e ampliar a factura.

A vulnerabilidade africana é séria porque o continente entrou em 2026 com uma base alimentar frágil. Em 2025, cerca de 309 milhões de pessoas enfrentaram a fome e 56,6% da população viveu insegurança alimentar moderada ou grave. Estes números não resultam apenas da degradação da terra, mas mostram a pouca margem disponível quando uma seca ou uma colheita atinge as famílias.

Para uma família urbana, a crise pode chegar sem qualquer contacto visível com o campo. O pão aumenta, a farinha pesa mais no orçamento, a carne desaparece da semana e a variedade da dieta diminui. Para uma família rural compradora líquida de alimentos, o golpe é duplo: produz menos para vender e paga mais pelo que precisa de comprar.

É neste ponto que a restauração deixa de ser uma política distante do consumidor. Melhorar a fertilidade, reduzir a erosão, guardar a água no solo e diversificar as culturas podem tornar a oferta menos vulnerável a choques. Não garantem os preços por decreto, mas ajudam a reduzir as perdas. A segurança alimentar começa pela capacidade de produzir sem destruir a base da produção seguinte.

A COP17 terá de responder também a uma desigualdade de financiamento. Restaurar os solos custa dinheiro antes de gerar retorno e, muitos produtores, não conseguem esperar anos pelos benefícios. Crédito adequado, seguros, extensão rural e investimento público são decisivos para que a transição não recaia sobre quem já tem menos. Sem essa ponte, a restauração fica presa nos planos oficiais.


Partir Para Sobreviver


A migração ligada à degradação da terra raramente tem uma causa única. Uma família pode partir porque a colheita falhou, o gado morreu, a dívida cresceu e o emprego local desapareceu ao mesmo tempo. A seca funciona então como um multiplicador de fragilidades anteriores. O movimento pode ser temporário, sazonal ou permanente e muitas vezes começa dentro do próprio país.

Quando esse movimento cresce, capitais e cidades pequenas recebem pessoas que procuram trabalho, água, escola e segurança. Se o crescimento urbano não for acompanhado por habitação, serviços e emprego, a pressão desloca-se do campo para os bairros periféricos. O problema da terra passa a aparecer na renda, no transporte, no saneamento e na competição por trabalhos de remuneração baixa.

Nas zonas fronteiriças do Sahel e do Corno de África, a disputa por recursos pode cruzar-se ainda com o conflito armado, a governação frágil e as deslocações existentes. Seria errado atribuir a violência à seca de forma automática. O que a degradação faz é reduzir as margens de negociação, tornar os recursos escassos e aumentar o custo de manter asa vidas e as economias em territórios pressionados.

Há ainda uma factura macroeconómica. A degradação reduz a produtividade, destrói os activos rurais, aumenta as necessidades de assistência e pode enfraquecer as receitas públicas em economias agrícolas. Ao mesmo tempo, restaurar a terra e preparar as secas exige investimento.

A UNCCD estima que as metas de restauração e resistência à seca necessitam de cerca de 355 mil milhões de dólares por ano até 2030. É neste quadro que o financiamento discutido na COP17 deve ser lido como uma política de estabilidade. Cada hectare recuperado pode proteger a produção, a água, os rendimentos e o património familiar.

Mas o dinheiro só terá efeito se chegar a projectos medidos, mantidos e governados com a participação local. Para África, restaurar a terra significa reduzir a probabilidade de uma crise ambiental decidir quem parte, quando deveria ficar.


Conclusão


Esta COP17 abre em Ulaanbaatar com uma escolha que ultrapassa o ambiente. Se o solo continuar a perder fertilidade e água, África pagará com colheitas menores, rebanhos frágeis, alimentos mais caros, cidades pressionadas e famílias obrigadas a deslocarem-se.

O continente já convive com fome extensa e orçamentos públicos apertados, por isso a degradação acrescenta risco onde a margem financeira e social é menor, sobretudo nas comunidades rurais dependentes da chuva e dos pastos.

O resultado decisivo da conferência será saber se os governos conseguem transformar a diplomacia em restauração financiada, prevenção da seca, pastagens protegidas e sistemas alimentares menos vulneráveis.

A terra degradada é uma crise lenta, mas os seus efeitos chegam depressa ao prato e ao bolso. Para África, restaurá-la no quadro da COP17 é defender o território produtivo, a soberania alimentar e a possibilidade de permanecer em casa sem que cada estação seca se transforme numa decisão sobre partir ou ficar.

 


Será nesta COP17 que se vão finalmente transformar promessas em acções concretas? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 UNCCD COP 17
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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