Um Dia Internacional Da Música Muito Dividido

Criado há 51 anos para aproximar os povos separados pela Guerra Fria, o Dia Internacional da Música chega a 2026 num mundo onde as canções atravessam fronteiras em segundos. O som circula como nunca, o dinheiro também. A diferença está em saber quem recebe esse valor e quem continua apenas a produzi-lo.

Um Dia Internacional Da Música Muito Dividido


O Dia Internacional Da Música nasceu de uma ambição política e cultural que continua actual em 2026: aproximar povos, promover o conhecimento mútuo e defender a paz, através da música. A proposta foi aprovada em Lausana em 1973 pelo Conselho Internacional da Música e a primeira celebração realizou-se a 1 de Outubro de 1975 numa iniciativa associada a Yehudi Menuhin e Boris Yarustowski.

51 anos depois, a circulação musical deixou de depender sobretudo dos discos, das rádios e das fronteiras físicas. O streaming colocou repertórios inteiros diante de milhões de pessoas e transformou a música gravada numa indústria que em 2025 gerou 31,7 mil milhões de dólares e cresceu 6,4 por cento. As subscrições pagas chegaram a 837 milhões de utilizadores.

Na África subsaariana, as receitas cresceram 15,2 por cento. O número é forte, mas a pergunta decisiva começa depois dele: quanto desse crescimento permanece com os artistas, os compositores, os produtores, as editoras e as empresas africanas que criam a música? A celebração fala de aproximação entre povos. A economia obriga a falar também de propriedade, direitos e poder.


Entre Dois Mundos


Quando o Conselho Internacional da Música aprovou a criação da data em 1973, o planeta vivia sob a divisão da Guerra Fria. A música aparecia como uma linguagem capaz de atravessar fronteiras políticas e culturais num tempo em que os blocos rivais definiam alianças, viagens, informação e grande parte do horizonte internacional entre povos separados e condicionavam a vida de milhões de pessoas.

A primeira celebração de 1975 nasceu dessa vontade de encontro. Yehudi Menuhin e Boris Yarustowski apresentaram uma proposta que defendia a divulgação da arte musical, o intercâmbio de experiências e o reconhecimento dos valores culturais de diferentes povos. Havia ali uma confiança clara na capacidade da música para criar proximidade onde a política produzia distância e desconfiança.

A escolha do momento também importa. A década de 1970 combinava tensões militares, disputas ideológicas e tentativas de distensão entre as grandes potências. Nesse ambiente, promover concertos, emissões, encontros de músicos e actividades públicas significava defender também uma circulação cultural que contrariava a lógica de separação que estruturava as relações internacionais daquele período.

A música, porém, nunca circulou fora das relações de poder. Os Estados utilizaram artistas, orquestras, rádios e digressões como instrumentos de diplomacia cultural. Ao mesmo tempo, os músicos e os públicos apropriaram-se dessas redes para criar contactos próprios, misturar linguagens e escapar às fronteiras simbólicas impostas pelos governos, pelos mercados e pelas instituições do seu tempo e das suas sociedades.

É essa ambiguidade que torna o Dia Internacional da Música relevante em 2026. O mundo já não está organizado segundo a mesma geografia política de 1975, mas a música continua presa a fronteiras menos visíveis. Hoje, elas passam pelos contractos, pelas plataformas, pelos direitos, pelos catálogos e pela capacidade de cada criador transformar circulação cultural em rendimento sustentável e duradouro.


Ideal e Mercado


A transformação digital concretizou parte do ideal do Dia Internacional da Música. Uma canção lançada num país pode chegar quase de imediato a ouvintes noutro continente. A distância física perdeu peso na descoberta musical e o acesso deixou de depender apenas das lojas, das rádios, das editoras ou das grandes redes tradicionais de distribuição comercial internacional.

Essa abertura criou um mercado gigantesco. Em 2025, a música gravada gerou 31,7 mil milhões de dólares em receitas e cresceu 6,4 por cento. O número mundial de utilizadores de subscrições pagas chegou a 837 milhões. A indústria recuperou escala económica e encontrou no streaming o principal motor da circulação musical e do crescimento comercial em diferentes mercados.

Mas o acesso quase ilimitado alterou também a relação entre o público e a obra. O ouvinte paga pela entrada num catálogo e não pela posse de um disco específico. Cada reprodução entra numa cadeia de cálculo, licenciamento e repartição onde participam plataformas, distribuidoras, editoras discográficas e musicais, sociedades de gestão, produtores, compositores e intérpretes com interesses diferentes.

Essa cadeia é eficiente para fazer a música circular, mas é muito menos simples quando chega a hora de repartir o valor. O poder de negociação não é igual entre uma plataforma mundial, uma grande editora discográfica e um artista independente. Também não é igual entre quem possui um catálogo valioso e quem depende de contractos assinados antes do sucesso dentro da mesma cadeia.

A velha pergunta sobre quem consegue ser ouvido ganhou, por isso, uma segunda pergunta. Ser ouvido continua a ser fundamental, mas já não basta. Num mercado dominado pelo acesso digital, a sustentabilidade depende de quem possui os direitos, de quem administra os dados e de quem consegue seguir o percurso do dinheiro até ao criador sem perder poder negocial ou capacidade de decisão.


África em Crescimento


Na África subsaariana, o crescimento de 15,2 por cento das receitas da música gravada em 2025 revela uma região em expansão comercial. A taxa ficou muito acima da média mundial e confirma que a procura está a aumentar. Também confirma que repertórios produzidos no continente deixaram de depender apenas dos seus mercados nacionais para encontrarem públicos no exterior.

À luz do Dia Internacional da Música, o crescimento não deve ser confundido com uma distribuição justa do rendimento. Uma percentagem mede a variação do mercado, mas não diz quanto recebe cada artista nem quanto permanece nas estruturas locais. Também não mostra quem possui os catálogos, quem dirige a distribuição ou onde são registadas as receitas geradas por ouvintes de outros países e territórios.

A música africana circula por circuitos que ultrapassam as fronteiras. Os artistas, os produtores e os compositores participam em colaborações internacionais, entram em listas de reprodução e alimentam tendências consumidas em diferentes mercados. Essa visibilidade amplia o valor cultural do repertório africano, mas não permite concluir que o valor económico acompanha a mesma trajectória.

É neste ponto que a economia criativa deixa de ser apenas uma celebração do talento. Se uma canção africana gera escutas em vários continentes, o rendimento pode atravessar contractos, empresas e jurisdições antes de chegar ao criador. A questão da propriedade torna-se tão importante como a audiência porque determina quem conserva direitos depois do momento de sucesso comercial.

O crescimento regional deve, por isso, ser lido como uma oportunidade acompanhada de uma disputa. Há mais dinheiro a circular e mais interesse na música produzida em África. A pergunta decisiva é saber se o continente está a construir capacidade empresarial, jurídica e institucional suficiente para conservar uma parcela maior do valor que a sua criação produz com maior autonomia.


O Dinheiro Circula


A música gravada reúne direitos distintos e essa diferença ajuda a perceber por que o crescimento da indústria não corresponde automaticamente ao rendimento dos músicos. A gravação tem titulares próprios e a composição tem outros direitos. A interpretação, a edição e certas utilizações públicas acrescentam novas relações jurídicas, novas responsabilidades e caminhos distintos de remuneração.

Quando uma obra entra nas plataformas, os dados que a identificam tornam-se parte da economia. Um nome mal registado, uma autoria incompleta ou uma informação técnica errada pode dificultar a atribuição correcta das receitas. Numa indústria que processa enormes volumes de utilizações, a invisibilidade administrativa pode transformar uma obra muito ouvida numa obra mal remunerada durante anos.

Também existe uma diferença entre criar valor e possuir os activos que conservam esse valor ao longo do tempo. Um artista pode alcançar milhões de ouvintes sem controlar a gravação original ou a edição das suas composições. Quando isso acontece, uma parte importante do rendimento futuro continua ligada às condições negociadas com outros titulares e intermediários da cadeia musical.

Para os mercados africanos, esta questão ganha peso porque muitas estruturas locais ainda disputam espaço com empresas internacionais que possuem capital, tecnologia e redes de distribuição muito superiores. Essa desigualdade não torna automaticamente cada contracto injusto, mas exige perceber quem assume o risco, quem financia a carreira e quem conserva os direitos de exploração.

A transparência torna-se, assim, uma condição económica no debate sobre o Dia Internacional da Música e não apenas uma questão administrativa. O criador precisa de saber onde a sua obra foi utilizada, quanto gerou e que descontos foram aplicados. Sem essa informação, dá-se o crescimento da indústria, mas a experiência de muitos músicos continua marcada por rendimentos incertos.


Uma Promessa Dividida


O Dia Internacional da Música continua a defender uma ideia poderosa: os povos podem reconhecer-se através da criação artística mesmo quando a política os separa. Essa promessa mantém valor. O que mudou foi a infra-estrutura da circulação. Em 1975, a preocupação era levar a música a mais lugares. Em 2026, importa também seguir o dinheiro que ela produz e perceber o seu destino.

As plataformas aproximaram repertórios e públicos numa escala sem precedente, mas essa proximidade cultural convive com uma economia concentrada. Os criadores podem chegar mais longe sem que isso lhes dê automaticamente maior poder sobre os contractos, os direitos ou os dados. A distância entre visibilidade e rendimento tornou-se uma das contradições centrais da era digital da música.

Em África, essa contradição merece atenção particular porque o continente combina crescimento rápido com estruturas económicas desiguais entre países. Há mercados mais formalizados e criadores que trabalham em sistemas onde o registo, a cobrança de direitos e a representação profissional continuam frágeis. A mesma canção pode circular mundialmente enquanto a sua base económica permanece vulnerável.

O problema não se resolve fechando a música dentro das fronteiras nacionais. A circulação internacional é parte da sua força e do seu valor. A questão está em construir contractos mais transparentes, sistemas de direitos mais eficazes, empresas locais mais fortes e instituições capazes de acompanhar o dinheiro sem transformar o criador no último elo informado da cadeia económica.

Foi para aproximar povos que o Dia Internacional da Música nasceu. Cinquenta e um anos depois, essa aproximação tornou-se tecnicamente mais fácil e economicamente mais complexa. A música atravessa fronteiras todos os dias. O desafio agora é garantir que o valor também encontre o caminho de regresso a quem compõe, interpreta, produz e sustenta a criação musical em diferentes mercados.


Conclusão


A música venceu muitas das fronteiras que pareciam intransponíveis em 1975. Hoje, uma obra pode nascer num pequeno estúdio e encontrar público em vários continentes quase de imediato. O ideal de aproximação que deu origem ao Dia Internacional da Música continua vivo nessa capacidade de circulação entre países, repertórios e públicos.

Mas a liberdade de escuta não significa igualdade económica. O crescimento da música gravada em África subsaariana mostra que existe procura e existe valor. Falta saber quanto desse valor permanece com os criadores, os produtores e as estruturas africanas que tornam a criação possível e sustentam a sua presença no mercado musical.

A celebração torna-se mais honesta quando aceita essa contradição. A música pode unir povos enquanto o mercado divide receitas, direitos e poder. O próximo passo é garantir que a escuta crescente da música africana se traduza no rendimento de quem cria em África e corresponda melhor ao valor que o mundo já reconhece na sua música.

 


O que na realidade ganham os criadores nesta indústria da música? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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