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ToggleCabo Verde Perde Água De Forma Inexplicável
A água produzida em Cabo Verde regista perdas superiores a 50%, segundo o alerta lançado pelo ministro Carlos Varela na cidade da Praia. A declaração foi feita na abertura de um seminário técnico sobre a gestão dos serviços de abastecimento nos países de língua portuguesa. O governante defendeu a redução das perdas nas redes, o aproveitamento das chuvas e a reutilização das águas residuais tratadas.
O problema tem uma dimensão particular num arquipélago marcado pela irregularidade da precipitação e pela escassez de fontes naturais de água doce. Para abastecer as cidades, Cabo Verde depende fortemente da transformação da água do mar em água própria para consumo. Esse processo exige energia, instalações industriais, manutenção e uma distribuição capaz de levar o recurso até às casas.
A percentagem divulgada exige uma leitura cuidadosa. A intervenção ministerial referiu-se ao país, mas não apresentou um balanço nacional detalhado com o período de referência nem a separação entre fugas físicas e perdas comerciais. Uma parte da água que não gera receita pode ter sido efectivamente consumida. Confundir essas situações dificulta a identificação das soluções e do seu custo.
Que Água Desaparece?
Cabo Verde reúne sob a palavra «perdas» realidades diferentes. Uma fuga numa conduta faz a água sair da rede antes de chegar ao consumidor. Já um erro no contador pode deixar sem registo água que foi usada. A diferença entre a produção e o volume facturado inclui, por isso, casos que pedem medidas distintas. A aferição dos contadores permite detectar desvios de medição.
Nas perdas físicas, a água escapa por tubos partidos, juntas gastas, tanques com fugas ou ligações com avarias. Já foi captada e tratada, mas não chega a quem dela precisa. Reparar a rede, baixar a pressão excessiva e procurar fugas ajuda a poupar. Mesmo as roturas pequenas causam perdas diárias se a reparação demorar.
Nas perdas comerciais, há água usada que não entra nas contas. A causa pode estar em contadores avariados, leituras erradas, falhas de registo ou ligações ilegais. A água chega às pessoas, mas não gera receita para o serviço. Por isso, medir o consumo e cobrar de forma justa é tão essencial como reparar os tubos da rede.
A declaração do ministro teve alcance nacional, mas não trouxe uma tabela por ilha nem o peso de cada tipo de perda. Assim, o dado acima de 50% não prova que metade da água se infiltre no solo. Saber quanto se perde por fuga e quanto fica por cobrar é o primeiro passo para agir. Os dados devem permitir verificar cada rede ao longo do tempo.
Há números antigos que mostram a dimensão do problema, sem medir a mesma situação. Para 2021, um diagnóstico apontou para a existência de cerca de 51% de água sem ser facturada. No relatório de 2022, o regulador indicou uma média perto de 40%. A data, a fonte e o método de cada indicador são essenciais para comparar.
Produção Com Custos
Num arquipélago com chuva incerta, a dessalinização dá água às cidades onde as fontes doces não bastam. O processo retira o sal da água do mar antes de a enviar para a rede. Mas a instalação precisa de energia, peças, pessoal e manutenção. Cada metro cúbico tem um custo antes de chegar à torneira. As membranas de dessalinização precisam de limpeza e substituição periódicas.
Quando uma parte da água produzida não é facturada, a despesa de a obter continua paga. O operador gastou na captação, no tratamento e na bombagem. Se a receita não cobre esses custos, há menos margem para renovar tubos e reparar avarias. A perda pode, assim, agravar os problemas que a causam. Essa falta pesa no orçamento futuro.
As despesas variam entre as ilhas e até entre zonas da mesma ilha. Contam a origem da água, a energia usada, a distância às casas e o estado da rede. No Maio, foi anunciada em Setembro uma queda das perdas de 53 para 44%, mas os custos da operação seguiam elevados. A diferença limita soluções uniformes para todas.
O Governo quer mais energia renovável na produção e na distribuição de água. Menos gasto em combustível pode aliviar os custos do serviço, mas a energia mais barata não fecha um tubo roto nem corrige um contador avariado. A poupança terá de ser feita na produção e na rede. Sem obras e boa gestão, as perdas podem continuar a crescer.
Há ainda uma conta ambiental. A dessalinização capta água do mar, gera rejeitados com sal e consome energia. Fazer mais água para cobrir perdas evitáveis aumenta a pressão sobre o sistema. Reduzir fugas poupa água já tratada e pode evitar parte dessa despesa, desde que haja obras e vigilância constante das redes.
Famílias e Abastecimento
Para uma família, o dado importa pela água que chega a casa. Quando a rede perde água ou deixa de a cobrar, o serviço fica com menos meios para reparar avarias e manter a rede. Num país com escassez, cada falha pesa mais, sobretudo onde há poucas reservas. As famílias de menor rendimento podem ter mais dificuldade em lidar com as faltas.
Ter um depósito e meios para guardar água ajuda a passar por uma falha no serviço. Noutras casas, a falta de água perturba a higiene, a comida e a vida diária. Estes são riscos de um serviço irregular, não efeitos medidos pelo ministro. O anúncio não disse quantas casas foram afectadas. A armazenagem doméstica também exige recipientes limpos para reduzir os riscos sanitários.
As fugas também podem criar riscos para a qualidade da água. Se a pressão cair numa conduta com danos, pode haver entrada de água suja em certas condições. Por isso, as reparações devem andar a par das análises e da vigilância sanitária. O valor acima de 50% não prova, por si, qualquer contaminação generalizada.
A facturação depende dos custos e das regras do sector, a falta de receita pode exigir apoio público, obras ou debate sobre tarifas, mas o anúncio não trouxe um aumento de preço. Importa saber quem paga as falhas e como proteger as famílias com menos rendimento. Sem esse cuidado, a recuperação de custos pode agravar o peso da água nos orçamentos da casa.
A meta deve ser ter água segura com preço acessível e serviço regular. As obras precisam de ser vistas em cada bairro, com dados sobre falhas, tempo de reparação e qualidade. Medir só o volume que deixou de se perder é pouco. A água recuperada deve chegar a quem mais precisa de um fornecimento estável.
Água Para Agricultura
No campo, a água decide o que se planta e o que chega à colheita. Com chuvas irregulares, muitos produtores dependem de poços, reservas e pequenas redes de rega. Se o serviço falha, há menos trabalho e rendimento. A pressão cresce onde a água tem vários usos. Nos anos secos, o risco de perder a cultura aumenta mesmo antes do fim da estação.
Em Março de 2026, uma resolução do Governo indicou que a agricultura usa entre 70 e 80% dos recursos hídricos mobilizados. Esse peso não mostra onde se perde a água citada pelo ministro. As redes de consumo doméstico e os sistemas de rega têm usos e falhas próprios. Misturar as duas medidas criaria um retrato errado.
Levar água dessalinizada ao campo pode dar mais segurança a quem produz alimentos, mas o custo é um obstáculo. A rega tem de caber no valor das colheitas, sob pena de pesar na actividade agrícola. Em São Domingos, regras de 2026 ligaram o uso da água dessalinizada à boa gestão do recurso e à rega eficiente. Esse custo pode limitar a área cultivada.
A chuva também pode ser mais bem aproveitada. Barragens, reservas locais e recolha segura ajudam onde o terreno o permite. A reutilização de água tratada pode servir certos tipos de rega quando há garantias de qualidade. A rega gota-a-gota reduz perdas no campo, mas todas estas soluções exigem gestão, manutenção e apoio técnico aos agricultores.
Se faltar água durante o ciclo da cultura, a produção pode cair e os alimentos podem ficar mais caros. O alerta nacional não mediu prejuízos agrícolas nem ligou as perdas a culturas concretas. Para agir com rigor é preciso ter dados por ilha, época e tipo de abastecimento. A prioridade é poupar sem cortar a água de quem produz.
Reduzir As Perdas
Para reduzir perdas, é preciso saber por onde entra a água e onde falha a medição. Contadores na produção, nas redes e nas casas ajudam a ver a diferença entre o que se envia e o que se cobra. A leitura por zona mostra fugas e falhas de registo. Sem dados fiáveis, uma média nacional pode esconder problemas muito diferentes em cada ilha.
Nas redes com danos, são necessárias obras nas condutas, reparações rápidas e ajuste da pressão. Onde a água é usada sem registo, contam a qualidade dos medidores e a cobrança correcta. O combate às ligações ilegais deve cumprir a lei e proteger o direito ao serviço. Cada medida precisa de metas e dados que permitam ver resultados.
O problema já constava das decisões do Governo. Em Fevereiro de 2025, foram aprovadas medidas para reforçar a produção e a eficiência da rede. Agora, Carlos Varela voltou a falar da captação das chuvas, da reutilização de águas residuais tratadas e de energia renovável. O desafio é passar das metas anunciadas para ganhos visíveis na distribuição.
Os serviços devem divulgar, por ilha e com data, quanta água foi produzida, enviada, usada e cobrada. Devem ainda separar as fugas das falhas de cobrança. Dizer quais as obras feitas e quanto custaram ajuda a avaliar o uso do dinheiro público. Sem contas claras, ninguém sabe quanta água se ganhou nem o que se poupou.
As famílias também podem poupar, mas não conseguem reparar os tubos sob as ruas nem trocar os medidores de toda a rede. Cabe aos serviços de água e às instituições públicas garantir esse trabalho. A crise exige investimento e fiscalização, com resultados que se vejam nas casas e no campo. A continuidade das reparações depende da disponibilidade de verbas, peças e técnicos em cada ilha.
Conclusão
A dessalinização permite responder à escassez de fontes de água doce, mas exige energia e despesas permanentes. Quando uma parte elevada da produção não chega a ser facturada, o sistema perde capacidade financeira e pode continuar a desperdiçar água nas redes.
O alerta de Carlos Varela, feito a 12 de Outubro, chama a atenção para um problema nacional. Falta, porém, conhecer a decomposição recente do valor superior a 50% entre perdas físicas, consumos não registados e outras diferenças operacionais. Essa transparência é essencial para definir soluções justas e avaliar o seu efeito sobre as famílias e a agricultura.
Reduzir as perdas significa reparar infra-estruturas, medir melhor os consumos e aproveitar os recursos disponíveis com prudência. O resultado terá de ser visto na água que chega às casas e aos campos, nos custos do serviço e na confiança dos cidadãos.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos