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ToggleMoçambique Perde Milhões Com Trafico De Caju
O contrabando de caju retirou cerca de 35 mil toneladas dos circuitos legais de comercialização em Moçambique nos últimos três anos, segundo números apresentados pelo Governo esta quarta-feira. A perda associada é estimada em 457 milhões de meticais, num sector do qual dependem directa ou indirectamente mais de um milhão de famílias.
O dado surgiu no mesmo dia em que foi fixado em 48 meticais por quilo o preço de referência ao produtor para a campanha 2026/2027. O aumento pretende melhorar a remuneração na origem e dar maior previsibilidade às transacções, mas uma parte do resultado económico continuará fora da cadeia formal se a castanha atravessar as fronteiras sem declaração.
O dinheiro perdido não se resume ao valor pago pela matéria-prima. A saída ilegal reduz a quantidade que pode alimentar compradores registados, fábricas, transportadores e exportações declaradas. Também enfraquece a cobrança de receitas públicas e a entrada regular de divisas.
Para as famílias rurais, o problema aparece mais cedo: quanto maior for a procura clandestina, mais difícil se torna garantir que a comercialização decorra com regras conhecidas, preços transparentes e concorrência fiscalizada.
Dinheiro Perdido
Os 457 milhões de meticais apresentados pelo Governo são uma estimativa de prejuízo ligado ao contrabando e não o valor comercial total das 35 mil toneladas. A distinção é importante porque a castanha retirada do circuito formal continua a ter compradores, mas a operação deixa de gerar parte das receitas, registos e divisas que deveriam permanecer na economia nacional.
Dividido pelos três anos referidos, o prejuízo corresponde a uma média de cerca de 152 milhões de meticais por ano. O cálculo não mostra quem suportou cada parcela da perda, mas ajuda a medir a dimensão do problema para um sector rural onde pequenos produtores, comerciantes, transportadores, fábricas e o Estado dependem da circulação declarada do produto.
A saída de 35 mil toneladas deixa menos matéria-prima para actividades formais no País. Nem toda a castanha vendida legalmente seria processada em Moçambique, mas o contrabando reduz as opções de quem compra, armazena ou transforma o produto e retira às autoridades dados necessários para medir a produção, o comércio e as receitas com maior precisão.
Para os produtores, o risco não termina na fronteira. Os canais ilegais podem pagar de imediato sem garantir regularidade, pesagem clara ou respeito pelas regras de venda. Quando parte da colheita escapa aos registos, fica mais difícil saber quanto foi vendido, a que preço e em que regiões os agricultores tiveram melhores ou piores condições de comercialização.
O peso social amplia a conta. Mais de um milhão de famílias dependem directa ou indirectamente do sector, o que transforma perdas na comercialização em problema de economia rural. O dinheiro que desaparece dos circuitos formais significa menos actividade registada ao longo da cadeia e limita a capacidade de converter a produção de caju em rendimento, emprego e receitas públicas previsíveis.
Preço e Fiscalização
O preço de referência de 48 meticais por quilo abre a campanha 2026/2027 com uma tentativa de elevar o rendimento recebido na origem. Para o produtor, cada metical adicional pode melhorar a receita da venda se o mercado respeitar a referência e se a qualidade da castanha permitir negociar em condições favoráveis, sobretudo nas zonas onde existem vários compradores.
O preço, porém, não trava sozinho a fuga do produto. Um comprador clandestino pode operar fora das regras, usando diferenças de preço, falhas na fiscalização ou rotas fronteiriças pouco vigiadas. Se a castanha sair sem declaração, o produtor recebe pelo produto, mas parte do valor deixa de passar por empresas registadas, processamento no País e exportações contabilizadas.
A resposta pública terá de combinar fiscalização com incentivos económicos para permanecer na cadeia legal. Isso inclui tornar a venda formal simples para o produtor, assegurar informação clara sobre o preço de referência e reduzir espaços onde intermediários possam tirar vantagem da distância entre as zonas de produção, os postos de compra e os mecanismos de verificação.
O Governo também sinalizou que pretende endurecer a responsabilização das operações ilegais. A medida ganha peso porque o contrabando afecta a cobrança de receitas e o registo de divisas. A exportação não declarada dificulta ainda a leitura do desempenho real do sector e torna menos seguras as decisões sobre produção, indústria, comércio externo e apoio aos produtores.
A campanha do caju começa com duas contas ligadas. De um lado está o valor que o produtor espera receber por cada quilo vendido. Do outro está o custo de deixar milhares de toneladas escapar ao circuito formal. O resultado dependerá de quanto da nova produção será vendida legalmente e de quanto valor ficará em Moçambique antes de a castanha seguir para mercados externos-
Conclusão
A subida do preço de referência para 48 meticais por quilo dá aos produtores uma base mais favorável para a campanha 2026/2027, mas o ganho será limitado se o contrabando continuar a retirar castanha da cadeia formal.
Os 457 milhões de meticais de prejuízo estimado em três anos mostram que a fiscalização também é uma questão de rendimento rural, receitas públicas e capacidade industrial. O desafio está em fazer com que o produtor tenha razões económicas para vender legalmente e encontre compradores formais acessíveis.
Ao mesmo tempo, as autoridades terão de fechar as rotas de saída ilegal e responsabilizar os operadores envolvidos sem transformar o pequeno agricultor no elo mais pressionado da cadeia. Com mais de um milhão de famílias ligadas ao sector, cada tonelada que permanece nos circuitos registados aumenta a possibilidade de o caju gerar rendimento, trabalho e divisas dentro de Moçambique.
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Imagem: © 2025 Luísa Nhantumbo