Índice
ToggleUganda Despede-se Da Voz De Moses Matovu
Moses Matovu ajudou a transformar a música de dança do Uganda numa linguagem reconhecível dentro e fora do país. Cantor, saxofonista, compositor e dirigente da Afrigo Band, atravessou quase seis décadas de palcos desde as grandes orquestras urbanas até à expansão de novas formas de produção. Morreu a 24 de Setembro de 2026, aos 77 anos, depois de continuar activo após o cinquentenário do grupo.
Nascido em Kampala em 1949, Matovu começou por cantar antes de fazer do saxofone uma marca das suas actuações. Com os músicos que fundaram a Afrigo Band em 1975, juntou a rumba congolesa, o jazz e os ritmos do Uganda em canções interpretadas sobretudo em luganda. O grupo manteve os instrumentos ao vivo no centro da sua identidade e abriu espaço a diferentes gerações de intérpretes.
O funeral realizado em Kyanja, na capital ugandesa, deu expressão pública a essa história. A homenagem divulgada no sábado, 26 de Setembro, recordou a presença de milhares de pessoas na despedida. Permanecem por esclarecer as circunstâncias da agressão sofrida pelo músico em Kibuli. A investigação policial prossegue sem conclusões públicas sobre a identidade dos responsáveis ou a eventual motivação.
Primeiros Palcos
Moses Matovu nasceu a 19 de Junho de 1949 em Kawempe, na área de Kampala, no Uganda. A música entrou cedo na sua vida através do canto coral, antes de se tornar uma profissão. Na década de 1960, começou a actuar com a Thunderbirds Band, num meio urbano onde os clubes e as formações instrumentais davam trabalho regular aos músicos. As orquestras congolesas também faziam parte desse ambiente.
Passou depois pela Police Band e pela Cranes Band, onde aprofundou a aprendizagem do repertório e do trabalho colectivo. Em 1970, gravou Jimmy Sasira, composição sobre uma mulher abandonada pelo marido com os filhos. A canção mostrava já uma preocupação que atravessaria parte da sua obra: contar histórias próximas da vida quotidiana.
Foi na Cranes Band que aprofundou o contacto com o saxofone. Numa entrevista, recordou ter encontrado um instrumento antigo guardado no White Nile, estabelecimento onde o grupo actuava. Aprendeu com a ajuda de Akiiki Bulegeya, músico ligado à Police Band. O saxofone tornou-se depois uma das marcas da sua presença em palco, a par do canto.
Depois da dissolução da Cranes Band, juntou-se a outros músicos para criar a Afrigo Band em 1975. A formação surgiu durante o regime de Idi Amin, numa Kampala onde a vida nocturna acolhia grupos de música ao vivo. O primeiro concerto aconteceu no Bat Valley. Matovu assumiu gradualmente a direcção artística e tornou-se um rosto permanente do conjunto.
A sua história teve ainda uma passagem pelo futebol, com ligações a clubes como o Express e o Police. Escolheu, porém, a música como actividade principal e continuou a ensaiar, compor e acompanhar músicos mais novos ao longo das décadas. A continuidade da Afrigo resultou também dessa renovação do elenco sem abandono do trabalho instrumental que marcara a sua origem.
Som e Repertório
A Afrigo Band construiu a sua sonoridade a partir da rumba congolesa, do jazz e dos ritmos ugandeses. As guitarras, os sopros e a percussão sustentavam canções destinadas à dança, com atenção aos arranjos. Matovu cantava e tocava saxofone, instrumento que distinguia as apresentações do grupo entre as formações que animavam os palcos e as salas de dança de Kampala.
A escolha das línguas também fazia parte dessa identidade. O repertório incluía temas em luganda e kiswahili, permitindo que histórias locais chegassem a públicos para além da capital. As letras abordavam o amor, a família, a educação e as dificuldades sociais, acompanhando mudanças na vida urbana sem perder a ligação às formas populares da região.
Entre as composições associadas a Matovu encontram-se Nantongo, Genda Osome e Teri Mubi. A última deu título a um álbum apresentado em Kampala em Outubro de 2019. Nesse trabalho, recuperou também Emiziro, gravada décadas antes com a Cranes Band. A nova versão incorporou outros instrumentos e arranjos, dando continuidade ao repertório que criara antes da Afrigo.
A influência da Afrigo na África Oriental passou pelo encontro entre a rumba de circulação regional e uma expressão musical identificada com o Uganda. O grupo também deu concertos fora do país, incluindo actuações para as comunidades ugandesas na Europa e nos Estados Unidos. Essas viagens mantiveram a banda ligada a diferentes públicos e gerações, sem a afastar dos palcos de Kampala.
Ao longo de cinco décadas, a Afrigo conservou uma formação com vozes, guitarras, teclados, bateria e instrumentos de sopro. Joanita Kawalya e Rachel Magoola integraram um percurso colectivo que não dependia de uma única voz. Enquanto a produção electrónica ganhava espaço, a banda manteve os instrumentos ao vivo como elemento central e deu lugar a intérpretes mais novos nos ensaios e nas apresentações.
Agressão em Kibuli
Na manhã de quinta-feira, 24 de Setembro, Moses Matovu sofreu uma agressão na zona de Kibuli Market B, na divisão de Makindye, em Kampala. Foi levado ao Hospital de Kibuli, onde morreu em consequência dos ferimentos. Tinha 77 anos e continuava a liderar a Afrigo Band. A notícia provocou uma sucessão de reacções no Uganda, país que ainda o reconhecia como presença regular nos palcos.
A polícia de Kabalagala registou o caso como suspeita de homicídio e enviou investigadores ao local. Rachael Kawala, porta-voz da Polícia Metropolitana de Kampala, confirmou publicamente a abertura das diligências. As autoridades procuravam reconstituir os acontecimentos, recolher elementos sobre a agressão e identificar os envolvidos. A investigação continuava em curso depois do funeral.
Os primeiros relatos policiais situaram a agressão nas primeiras horas do dia, antes de Matovu receber assistência hospitalar. Um motociclista ajudou a transportá-lo até ao hospital. A confirmação da morte foi acompanhada de informações preliminares, mas a polícia ainda não apresentou uma reconstituição definitiva do sucedido nem divulgou conclusões sobre todas as circunstâncias.
O local da agressão, a assistência recebida e a morte no hospital estão documentados. Continuam por esclarecer a identidade dos responsáveis, a sequência exacta dos actos e a eventual motivação. São questões que dependem das diligências policiais e exigem distinguir as informações confirmadas das versões iniciais sobre o caso, sem transformar rumores em factos.
A investigação decorre enquanto familiares e colegas enfrentam a perda de um músico que permaneceu activo até aos últimos anos. O homicídio suspeito pertence à esfera da justiça e exige apuramento dos factos. A história artística de Matovu, porém, não começa no episódio que lhe pôs fim: estende-se pelos discos, pelos concertos e pelas pessoas que trabalharam ao seu lado durante quase seis décadas de carreira.
Última Homenagem
A despedida de Moses Matovu prolongou-se por dois dias e terminou na sexta-feira, 25 de Setembro, em Kyanja, Kampala. A homenagem divulgada no sábado, 26 de Setembro, assinalou a presença de milhares de pessoas no funeral. O número reflecte a dimensão pública alcançada pelo músico ao longo de quase seis décadas de concertos e gravações no Uganda.
As cerimónias começaram com as orações fúnebres muçulmanas em Kibuli. O corpo seguiu depois para o Teatro Nacional, ligado às artes performativas do Uganda, antes da vigília em Kyanja. O funeral recebeu apoio do Governo, conforme informou o filho Musa Kamoga. O percurso da despedida aproximou a dimensão familiar dos espaços onde Matovu construíra a sua carreira.
No funeral, Rachel Magoola recordou o colega como parte da família formada ao longo da história da Afrigo Band. A cantora evocou as viagens, os ensaios e o convívio entre apresentações, sem esquecer os técnicos, os músicos e os trabalhadores que sustentaram o grupo. O seu testemunho mostrou a importância das relações construídas durante cinco décadas de actividade.
Um ano antes, a Afrigo celebrara o cinquentenário com um concerto nos Millennium Grounds, em Lugogo. A apresentação reuniu músicos de diferentes gerações e incluiu a participação de Whitney Nakayima, filha da cantora Joanita Kawalya. O grupo apresentou também o livro Omuziki Guwooma, dedicado à sua história. Matovu participou na celebração com o saxofone que o acompanhara durante décadas.
A continuidade da banda já era assunto antes da morte do fundador. James Wasula, director executivo da Afrigo, defendia em 2025 a integração de jovens músicos para manter as apresentações ao vivo. Com Matovu ausente, essa renovação ganha outra dimensão. Permanecem as gravações, os músicos formados no grupo e um repertório que continua a reunir públicos de várias idades.
Conclusão
A morte de Moses Matovu encerra uma carreira que acompanhou grandes mudanças na música do Uganda desde os anos 1960. O saxofonista participou na formação de um repertório cantado em línguas locais e aberto à rumba congolesa, ao jazz e à experimentação instrumental.
A longevidade da Afrigo Band mostrou como uma formação de palco podia atravessar gerações sem abandonar os ensaios e os arranjos colectivos. O funeral de Kyanja tornou visível a relação construída com o público. As homenagens dos colegas recuperaram as canções e a experiência de trabalhar com Matovu, enquanto a banda enfrenta a ausência de uma das suas figuras fundadoras.
A investigação à agressão que provocou a sua morte continua a exigir respostas das autoridades, sem antecipar conclusões. Permanecem os discos e os intérpretes que ajudou a formar.
Conhecias Moses Matovu? Que canção ou actuação dele, guardas na memória? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
Imagem: © DR