ONU Muda O Mapa-Mundo E África Fica Maior

Durante gerações, milhões de alunos viram planisférios em que as regiões próximas dos pólos surgiam ampliadas enquanto África parecia menor perante o Norte. A resolução aprovada pela ONU em 4 de Setembro favorece agora representações que preservam melhor as áreas relativas sem alterar a geografia real nem acrescentar território ao continente africano.

ONU Muda O Mapa-Mundo E África Fica Maior


O Mapa de África entrou na agenda das Nações Unidas hoje, 4 de Setembro de 2026, quando a Assembleia Geral aprovou a resolução “Correct the Map”, apresentada pelo Togo em nome do Grupo Africano. A votação terminou com 164 votos a favor, um contra e seis abstenções. Os Estados Unidos foram o único país a rejeitar a iniciativa durante a sessão em Nova Iorque.

A iniciativa recomenda projecções que preservem as áreas relativas quando a finalidade seja comparar territórios, ensinar geografia ou apresentar o mundo num planisfério. Não proíbe Mercator nem elimina a sua utilidade na navegação, onde os ângulos e as direcções continuam importantes.

O ponto central é impedir que uma ferramenta adequada a um uso técnico funcione como referência universal para comparações territoriais. Equal Earth aparece como alternativa porque conserva a proporção entre as superfícies dos territórios.

África não fica fisicamente maior depois da votação nem recebe um único quilómetro adicional. Passa a surgir num planisfério em que a sua área mantém uma relação mais fiel com a da Europa, da Gronelândia, da América do Sul e das restantes regiões do planeta.


O Voto Africano


A votação de hoje encerrou meses de mobilização diplomática conduzida pelo Togo depois de a União Africana assumir a campanha. A Resolução A/80/L.104 foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU. O texto pediu maior rigor na representação das áreas dos continentes e dirigiu a recomendação aos Estados, às instituições internacionais e aos organismos ligados à educação.

Os 164 votos favoráveis deram à proposta uma maioria ampla. Seis países abstiveram-se e os Estados Unidos foram o único Estado a votar contra. Washington afirmou que a iniciativa fazia parte de uma agenda ideológica e desviava a atenção de questões internacionais mais urgentes. A posição norte-americana não impediu a aprovação, mas tornou-se a única rejeição expressa no resultado anunciado.

Robert Dussey, ministro togolês dos Negócios Estrangeiros, tornou-se uma das figuras centrais da campanha e resumiu a posição do seu país na frase:

“Um mundo justo começa com um mapa justo”.

A formulação liga a exactidão cartográfica a uma reivindicação africana de longa data. No plano jurídico, porém, a resolução não obriga os governos ou instituições a substituírem imediatamente os mapas que utilizam. O Togo anunciou que vai rever os seus materiais escolares de geografia até ao fim de 2026 e insistir para que outros Estados, organizações e empresas de cartografia façam o mesmo.

A votação elevou uma iniciativa africana sobre a representação de África ao plano das Nações Unidas. O passo seguinte será verificar quantas instituições transformarão esse apoio diplomático numa alteração concreta dos mapas apresentados ao público.


Uma Ferramenta Náutica


Gerardus Mercator publicou em 1569 o planisfério que acabaria por receber o seu nome. O objectivo era resolver uma necessidade da navegação: permitir que linhas de rumo constante aparecessem como linhas rectas. Para os navegadores que precisavam de traçar direcções numa carta, essa característica oferecia uma vantagem prática importante no século XVI e justificava a utilização da projecção.

A solução apresenta uma consequência conhecida. Mercator preservou os ângulos locais, mas não conservou as áreas relativas. A deformação aumenta com a latitude e torna-se especialmente visível junto dos pólos. A Gronelândia, o Canadá e a Rússia aparecem ampliados enquanto regiões próximas do equador ficam mais pequenas do que teriam numa projecção que conservasse as superfícies territoriais.

Essa característica não demonstra que Mercator tenha criado o mapa para diminuir África. A projecção foi publicada séculos antes da ocupação colonial de grande parte do continente no século XIX. A sua origem está ligada à navegação europeia e à necessidade de representar direcções de maneira útil. A dimensão política surgiu depois, através dos diferentes contextos em que o planisfério passou a ser utilizado.

O problema está no uso fora da finalidade inicial. Uma ferramenta eficaz para tarefas náuticas tornou-se também uma imagem comum do planeta em atlas, escolas e outros suportes. Nesse contexto, muitos utilizadores observam as dimensões apresentadas sem conhecer a deformação produzida. A escolha de outro planisfério torna-se necessária quando o objectivo principal é comparar áreas continentais.


O Continente Menor


A comparação entre África e a Gronelândia tornou-se o exemplo mais conhecido da campanha porque mostra a distorção sem recorrer a fórmulas. África possui cerca de catorze vezes a área da ilha, mas os dois territórios podem parecer muito mais próximos em dimensão num mapa de Mercator. A diferença resulta sobretudo da posição geográfica e da ampliação das regiões situadas em latitudes elevadas.

Essa deformação não altera fronteiras, florestas, desertos, cidades ou distâncias existentes no terreno. A consequência limita-se à representação. Contudo, quando um mapa serve para comparar o tamanho de diferentes territórios, a imagem pode induzir uma relação visual incorrecta. É nesse uso que a escolha da projecção deixa de ser um detalhe técnico e passa a afectar a leitura geográfica.

Não existe base suficiente para afirmar que a exposição a Mercator produz automaticamente racismo, colonialismo ou uma determinada visão política. A percepção geográfica depende da educação, da experiência, da familiaridade com os lugares e do contexto em que o mapa é apresentado. A crítica mais segura é cartográfica: esta projecção não é a adequada.

Para África, a discussão possui também uma dimensão histórica. O continente foi extensamente medido, cartografado e dividido durante a expansão colonial europeia. Esse passado ajuda a explicar a força política adquirida pela campanha. A reivindicação torna-se mais sólida quando distingue a história colonial do problema objectivo da representação das áreas.


Mapas e Poder


A cartografia acompanha há séculos a administração do território. Os mapas registam fronteiras, rios, estradas, cidades, recursos e distâncias, transformando o espaço físico em informação utilizável por Estados e populações. Essa função exige escolhas sobre escala, projecção e conteúdo.

Um mapa pode cumprir correctamente a finalidade para a qual foi criado e tornar-se inadequado quando é usado para responder a outra pergunta geográfica. Durante a expansão colonial europeia em África, os mapas tornaram-se instrumentos de levantamento, demarcação e administração. Serviram para registar terras, localizar recursos, planear vias e fixar limites.

Muitas fronteiras foram definidas ou consolidadas por potências coloniais em processos nos quais as populações africanas tiveram participação reduzida. A cartografia tornou-se assim parte concreta dos mecanismos usados para organizar e administrar os territórios ocupados.

Esse contexto ajuda a compreender por que uma representação geográfica pode adquirir significado político sem que a técnica usada tenha nascido com essa intenção. Uma ferramenta pode ser criada para resolver um problema específico e depois integrar instituições que a aplicam de outras maneiras.

Distinguir essas duas etapas evita transformar uma propriedade matemática numa acusação histórica que os factos disponíveis não sustentam. A campanha africana concentra-se numa questão que pode ser medida: quando o assunto é a superfície, África deve aparecer numa proporção correspondente à área que possui.

O Mapa Equal Earth responde a essa necessidade sem inventar uma nova geografia nem alterar fronteiras. A reivindicação ganha força precisamente porque pode ser demonstrada pela comparação entre as áreas reais e a forma como diferentes projecções as apresentam.


A Escola Decide


A sala de aula é um dos lugares onde a diferença entre projecções pode ser explicada com maior clareza. Um planisfério pode servir para localizar países, estudar rotas, comparar continentes ou apresentar dados. Essas tarefas não exigem necessariamente a mesma representação.

O ensino torna-se mais rigoroso quando o aluno percebe que um mapa plano resulta de escolhas matemáticas e não reproduz perfeitamente todas as propriedades da Terra. A investigação sobre mapas mentais aconselha prudência perante a ideia de que um determinado planisfério produz sempre a mesma percepção.

Os alunos possuem níveis diferentes de conhecimento, experiência e familiaridade espacial. Por isso não é possível concluir que a simples exposição a Mercator leva automaticamente a uma visão específica de África. O efeito depende também da forma como a geografia é ensinada e contextualizada.

Essa prudência não elimina a responsabilidade pedagógica. Um professor pode apresentar Mercator e Equal Earth lado a lado, pedir aos alunos que comparem África com a Gronelândia e explicar a origem da diferença. O exercício permite compreender áreas, formas e latitudes sem atribuir ao mapa efeitos psicológicos que não estão demonstrados.

A qualidade dessa mudança dependerá menos da simples substituição de uma imagem do que da explicação oferecida aos estudantes. Ensinar por que Mercator continua útil em determinados contextos e por que Equal Earth representa melhor as áreas permite formar leitores capazes de compreender o que cada mapa preserva e aquilo que deforma.


Equal Earth


O Mapa Equal Earth foi apresentado em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny como uma projecção pseudocilíndrica equivalente destinada aos mapas do mundo. A sua característica central é conservar as áreas relativas dos territórios. África, a Gronelândia, a Europa e a América do Sul mantêm entre si as proporções correctas de superfície.

Os autores procuraram combinar essa propriedade com uma aparência familiar aos utilizadores habituados a outras representações do mundo. A projecção foi inspirada na Robinson, mas distingue-se por conservar as áreas. Isso não significa que preserve simultaneamente forma, distância e direcção.

Nenhum mapa plano consegue manter todas essas propriedades ao mesmo tempo, pelo que a escolha deve acompanhar a finalidade para a qual será utilizado. A vantagem do Mapa Equal Earth torna-se clara quando a pergunta é sobre tamanho territorial.

África deixa de aparecer comprimida em relação às regiões situadas em altas latitudes e ocupa no desenho uma área proporcional àquela que possui na Terra. O continente não ganha superfície nova. A mudança está apenas na fidelidade com que a relação entre as diferentes áreas é apresentada ao observador.

A adopção não será automática nem uniforme. Governos, escolas, editoras, organismos internacionais e empresas tecnológicas terão de decidir onde a projecção faz sentido. Aplicações de navegação podem continuar a recorrer a outras soluções enquanto os atlas escolares e as visualizações destinadas a comparar superfícies encontram no Mapa Equal Earth uma opção adequada.


Conclusão


A resolução aprovada hoje em Nova Iorque dá força internacional a uma mudança defendida por África: usar projecções equivalentes quando a finalidade é comparar as áreas dos continentes. África não ficou fisicamente maior depois da votação. Passa a aparecer maior no planisfério porque a representação conserva uma proporção mais próxima da superfície que o continente sempre teve.

O alcance da decisão dependerá agora da adopção por escolas, governos, editoras, organizações e empresas tecnológicas. Mercator não desaparece nem perde utilidade nos contextos em que as suas propriedades continuam necessárias. Equal Earth também não resolve todas as limitações de um mapa plano. A diferença está na finalidade escolhida.

Se a recomendação chegar aos manuais, atlas e mapas de referência, a consequência será concreta: quem comparar as áreas dos continentes verá África numa dimensão proporcionalmente mais fiel e aprenderá que nenhum planisfério deve ser usado sem compreender primeiro aquilo que preserva e aquilo que deforma.

 


A mudança do mapa-mundo altera a forma como vemos o verdadeiro tamanho de África? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2018 Equal Earth / Domínio Público
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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