Angola Vai Entrar No Mercado Mundial Do Nióbio

Angola prepara-se para entrar no mercado mundial do nióbio com o projecto Niobonga, em Quilengues, na Huíla. A proximidade da produção abre uma nova frente de exportação e receitas, mas o valor estratégico dependerá da escala efectiva, do processamento local e da capacidade de transformar extracção mineral em emprego, conhecimento e poder económico.

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O nióbio coloca Angola diante de um mercado mineral restrito e concentrado. A 29 de Agosto, o Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo, visitou o Complexo Mineiro da Bonga e avaliou as condições para a entrada em funcionamento. O MIREMPET afirmou que a inauguração ocorrerá “para breve”.

A unidade, desenvolvida pela Niobonga em Quilengues, reúne lavra, tratamento, laboratório, fundição, sala de controlo, represa e bacia de rejeitados. Em Julho, o Ministério informou que o empreendimento estava na fase final de preparação e empregava cerca de mil trabalhadores, dos quais 80% eram jovens da região, segundo dados oficiais.

O interesse económico nasce do uso do nióbio em aços de alta resistência, superligas e componentes destinados a sectores exigentes, incluindo transportes, energia e aeronáutica. Pequenas quantidades podem melhorar propriedades do aço, razão pela qual o mineral ocupa uma posição importante em cadeias industriais que exigem resistência, eficiência e desempenho.

Para Angola, a questão central não é apenas extrair e exportar. O valor dependerá do volume produzido, da transformação realizada no país, dos impostos arrecadados e da participação de empresas e trabalhadores angolanos. Será decisivo saber quanto conhecimento fica na economia e quanto rendimento sai através de importações e lucros.


Mercado Concentrado


Os dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos da América mostram uma concentração extrema da oferta mundial. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 104 mil toneladas de nióbio contido, correspondentes a aproximadamente 93 por cento da produção mineira mundial. O Canadá surgiu depois, com cerca de seis mil toneladas.

Outros países surgem nas estatísticas com volumes bastante inferiores. A República Democrática do Congo, a Rússia, o Rwanda e a China também registaram produção em 2025. Esse quadro obriga a tratar com cautela a afirmação de que Angola passará automaticamente a ocupar o terceiro lugar mundial quando iniciar produção comercial.

A posição de Angola dependerá do volume de nióbio produzido e vendido, não apenas da capacidade anunciada para a mina. Informações públicas anteriores referiram oito mil toneladas anuais associadas ao projecto, mas nem sempre esclareceram se se tratava de pentóxido de nióbio, ferronióbio ou outra forma comercial destinada à exportação.

Essa diferença não é meramente técnica. Cada produto tem composição, preço e utilização próprios, o que altera qualquer comparação internacional. Para o Estado angolano, conhecer o teor do minério, a taxa de recuperação, o volume vendável e o produto final será essencial para estimar exportações, impostos e receitas mineiras futuras.

O interesse para Angola resulta da procura por fornecedores alternativos. A concentração da produção no Brasil deixa consumidores industriais dependentes de poucos centros de oferta. Um produtor angolano capaz de garantir qualidade, regularidade, prazos de entrega e preços competitivos pode encontrar espaço comercial sem precisar de disputar a liderança mundial.

Mas o valor estratégico não nasce apenas da exportação. Angola terá de assegurar transformação local, controlo fiscal, formação técnica, participação de empresas nacionais e contractos que protejam receitas públicas. Num mercado restrito, a vantagem estará em vender com margem, reduzir dependências externas e conservar no país parte do valor criado.


Valor e Risco


A Niobonga representa também uma tentativa de elevar o valor acrescentado dentro de Angola. O complexo inclui tratamento do minério, laboratório e fundição, além da extracção. Essa estrutura pode permitir a venda de um produto mais elaborado e reter no país uma parcela superior da cadeia de valor, desde que a operação seja tecnicamente sólida e comercialmente competitiva.

Os números divulgados situaram o investimento em cerca de 150 milhões de dólares. Em Julho, o MIREMPET informou que o empreendimento empregava aproximadamente mil pessoas, das quais 80% eram jovens da região. O emprego local é relevante para Quilengues, mas não basta para medir o retorno económico do projecto para Angola nem a distribuição do rendimento gerado pela actividade.

Para medir esse retorno será necessário conhecer vendas, preços, custos operacionais, impostos pagos e compras feitas a empresas angolanas. Também será importante perceber que parcela dos lucros permanece no país e quem controla tecnologia, financiamento e canais comerciais.

Uma mina pode gerar divisas sem criar capacidade produtiva interna quando os serviços e decisões permanecem sobretudo fora de Angola. A frente social exige igual atenção. Em 2023, O País noticiou que 499 famílias residentes no perímetro mineiro rejeitaram inicialmente as casas propostas para realojamento e preferiram compensação financeira.

Informações divulgadas em 2025 indicaram que mais de 400 famílias tinham sido compensadas. O historial mostra que a exploração já alterou relações económicas e territoriais nas comunidades da região. Há ainda a questão ambiental. A visita ministerial confirmou uma represa ligada ao rio Hamba e uma bacia de rejeitados no complexo.

Estas infra-estruturas exigem fiscalização da água, estabilidade das estruturas e recuperação das áreas exploradas. Se os custos ambientais e sociais forem transferidos para comunidades ou para o Estado, parte do ganho económico para Angola também desaparece.


Conclusão


Angola tem no nióbio uma oportunidade de diversificar exportações minerais e entrar numa cadeia industrial dominada por poucos fornecedores. A proximidade da produção transforma essa possibilidade num teste económico. O país terá de demonstrar produção regular, qualidade e capacidade para converter o recurso em receitas públicas, emprego qualificado e conhecimento.

O risco é trocar uma dependência por outra. Se Angola exportar valor sem dominar tecnologia, contratos e fiscalização, o nióbio poderá aumentar receitas sem alterar a estrutura produtiva. A vantagem estratégica dependerá da publicação de dados sobre reservas, produção, vendas e impostos, permitindo medir o rendimento que fica na economia.

A medida do sucesso não será a inauguração da mina, mas o valor que permanecer em Angola depois da venda do mineral. Processamento local, formação de quadros, fornecedores nacionais, protecção das comunidades e controlo ambiental determinarão se o nióbio reforça a soberania económica ou apenas acrescenta outra matéria-prima ao modelo extractivo nacional.

 


Angola conseguirá transformar o nióbio em poder económico sem repetir dependências extractivas? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Manuel Kiala
Manuel Kiala
Economista de formação e jornalista angolano, possui um percurso consolidado na análise financeira, banca, política económica e mercado de capitais. Com experiência na cobertura do Orçamento Geral do Estado, dívida pública e dinâmicas do kwanza e do petróleo, foca a sua escrita na ligação entre o poder político e a economia real, acompanhando de perto o impacto da inflação, das privatizações da BODIVA e das novas fintechs no quotidiano das famílias e empresas.
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