Gaza: O Porquê De Salvar Livros Dos Escombros

Entre o luto pelo filho morto e os escombros da casa destruída, Mohammed Saad regressou a Beit Lahia para procurar livros. Salvou centenas, levou-os para Deir al-Balah e abriu uma livraria numa tenda, onde cada volume resgatado preserva uma parte da memória palestiniana viva que a guerra tentou soterrar definitivamente.

Gaza: O Porquê De Salvar Livros Dos Escombros


Um livreiro de Gaza, passou três dias a remover cimento e ferro com as mãos enquanto os disparos continuavam sobre Beit Lahia. Mohammed Ramadan Saad. Não procurava móveis, dinheiro ou objectos domésticos. Procurava livros.

Livros reunidos durante mais de três décadas, enterrados no edifício de quatro pisos onde funcionavam a casa, o armazém e uma parte decisiva da sua vida de livreiro palestiniano. A guerra já lhe tinha levado o filho Ahed, a habitação, a livraria e a estabilidade familiar. A família foi deslocada cerca de quinze vezes pelo território sitiado.

Quando surgiu a possibilidade de regressar às ruínas, Saad recusou aceitar que uma colecção próxima dos cem mil volumes desaparecesse sem que tentasse salvar, pelo menos, aquilo que ainda podia ser tocado pelas suas mãos. Os livros recuperados viajaram depois para Deir al-Balah, no centro de Gaza, onde o livreiro vive deslocado com a família.

Sem estantes, madeira ou protecção adequada, instalou-os numa pequena tenda junto à estrada. Ali, o comércio sustenta necessidades básicas, mas a presença dos leitores devolve à livraria outra função: guardar a história quando o espaço público foi reduzido a destroços pela violência armada prolongada.


Uma Vida Soterrada


(20260714) Gaza O Porquê De Salvar Livros Dos Escombros
Imagem: © 2026 Anadolu

Antes da guerra, Saad vendera livros junto ao portão da Universidade Islâmica e no antigo mercado Firas, em Gaza. O percurso começou há cerca de 36 anos, quando a venda directa lhe permitiu conhecer os interesses dos leitores e aprender uma profissão fora das instituições académicas. A escolaridade terminara cedo, mas a leitura permaneceu como formação diária e disciplinada.

Com o tempo, a colecção cresceu até perto de cem mil volumes e ocupou o edifício familiar de quatro pisos, onde coexistiam a casa, o armazém e a livraria. Havia literatura, história, ciência, biografias e obras sobre a Palestina. A diversidade permitia atender os estudantes, as famílias, os investigadores e os curiosos locais de várias idades com necessidades distintas.

Cada exemplar transportava mais do que um preço. Guardava os encontros com os compradores, as recomendações feitas ao balcão e a continuidade de um ofício construído pela prática. Saad conhecia o valor de um livro pela procura, pelo assunto e pela pessoa que o levava. A livraria funcionava como um lugar de circulação do conhecimento entre gerações.

Os ataques destruíram esse ponto de encontro e dispersaram uma comunidade de leitores que dependia dele. A morte de Ahed tornou a perda familiar irreparável, enquanto o desaparecimento do edifício interrompeu o trabalho acumulado durante décadas. Restaram os títulos lembrados, os clientes ausentes e a responsabilidade de preservar os volumes que ainda podiam ser retirados do cimento e limpos.

Até 24 de Março de 2026, a UNESCO tinha verificado danos em 164 sítios culturais de Gaza, entre edifícios históricos, monumentos, museus, depósitos e locais arqueológicos. As pequenas livrarias e as bibliotecas familiares raramente cabem nessas categorias.

Ainda assim, a sua destruição reduz os lugares onde uma comunidade pode estudar, reconhecer o passado e transmitir a própria história, mesmo quando a perda não deixa registo.


Regresso aos Escombros


Quando conseguiu chegar a Beit Lahia, Saad encontrou o edifício transformado numa massa de betão, ferro e pó. Os bombardeamentos continuavam e os disparos passavam sobre a zona. Mesmo assim, começou a afastar os destroços com as mãos. Não possuía máquinas, ferramentas adequadas ou uma equipe de resgate. Tinha urgência, memória e a convicção de que os livros esperavam.

Durante três dias, retirou volumes esmagados, rasgados ou cobertos de poeira. Cada livro que aparecia entre as placas quebradas confirmava que o trabalho valia o risco. Alguns podiam ser limpos e levados; outros tinham sido destruídos pela pressão, pelo fogo ou pela água. O livreiro escolhia, sabendo que cada minuto aumentava o perigo para todos naquela zona ainda atacada.

Saad descreveu os volumes sob os escombros como se o chamassem. A imagem traduz a intimidade de quem passou décadas a tocá-los, vendê-los e recomendá-los. Também revela a diferença entre salvar um objecto valioso e salvar um livro: o primeiro pode preservar riqueza, mas o segundo carrega palavras capazes de sobreviver ao proprietário, ao edifício e à própria guerra.

Os livros recuperados foram transportados para Deir al-Balah, no centro de Gaza, atravessando um território onde a deslocação continua perigosa e incerta. A viagem mudou o sentido da colecção. Antes, ela permanecia organizada num espaço construído durante anos; depois, passou a existir como fragmento móvel, separado das estantes, da casa e do bairro.

A biblioteca tornou-se sobrevivente e deslocada, tal como a família. O gesto não recuperou a colecção inteira nem anulou a violência que a atingiu. Recuperou, porém, a possibilidade de transmitir. Centenas de exemplares voltaram a encontrar leitores porque alguém recusou deixá-los desaparecer sob uma ruína.

Essa decisão restituiu movimento ao que estava soterrado e transformou uma procura pessoal num acto contra o apagamento da memória e da cultura palestinianas.


Uma Livraria Sob Lona


(20260714) Gaza O Porquê De Salvar Livros Dos Escombros
Imagem: © 2026 Anadolu

Em Deir al-Balah, no centro de Gaza, Saad encontrou uma pequena parcela de terreno e levantou uma tenda. Não havia prateleiras suficientes, armários protectores ou condições de conservação. Os livros foram empilhados no chão e colocados junto à estrada, expostos ao calor, à poeira e às mudanças do tempo. A livraria renasceu ainda frágil, mas acessível aos deslocados que passavam diariamente diante dela.

Todas as manhãs, o livreiro limpa o pó que regressa pouco depois, levantado pelos veículos e pelas ruas destruídas. O trabalho parece repetitivo, mas protege o que ainda resta. Saad vende os exemplares por preços reduzidos para sustentar a família e adapta os valores à pobreza criada pela guerra. Quando alguém não pode pagar, entrega-lhe gratuitamente um livro escolhido.

Ali chegam jovens interessados na história e na geografia da Palestina, biografias, religião e literatura. Um deles, Homam al-Talaa, perdeu a mãe durante a guerra e procura obras que o ajudem a compreender a terra, as aldeias destruídas e a Nakba de 1948. A tenda oferece-lhe algo que os escombros não conseguiram entregar: uma conversa organizada com o passado.

A livraria também devolve ao livreiro uma rotina mínima depois de tantas deslocações. Ele passa o dia entre os volumes e dorme perto deles, como se vigiasse uma família ferida. O rendimento permanece limitado, mas o espaço cria uma relação que nenhum balanço comercial consegue medir. Há quem compre, quem receba gratuitamente e quem folheie para esquecer a guerra.

Saad pede aos habitantes que não queimem os livros que já não desejam. Oferece-se para comprá-los, porque sabe que a escassez de combustível e madeira transformou papel em recurso de sobrevivência. O apelo não condena quem enfrenta a fome; reconhece uma escolha cruel. Ao mesmo tempo, insiste que um livro preservado pode alimentar a consciência de uma comunidade devastada.


Memórias que Resistiram


A história de Saad em Gaza encontra ecos em sociedades africanas que tiveram de proteger arquivos, manuscritos e línguas durante ocupações, guerras e projectos de assimilação. A comparação não apaga as diferenças entre cada violência. Revela uma lógica comum: dominar um povo exige controlar os documentos pelos quais ele recorda a terra, transmite o conhecimento e contesta a versão do poder.

Em Tombuctu, no Mali, famílias, bibliotecários e investigadores esconderam e transportaram manuscritos antigos quando grupos armados ocuparam o norte do país em 2012. Centenas de milhares de documentos foram retirados discretamente, guardados em caixas ou levados para Bamako.

A operação demonstrou que uma comunidade pode tratar o arquivo como parte da sua própria segurança mesmo quando o Estado recua. Os manuscritos de Tombuctu reuniam teologia, ciência, comércio, direito, poesia e textos escritos em árabe e em línguas africanas. Protegê-los significava rejeitar a ideia colonial de uma África sem escrita, pensamento ou história própria.

Tal como os livros resgatados por Saad, aqueles documentos não eram relíquias neutras. Eram provas de que a memória possuía autores, debates, escolas e continuidade. Em várias colónias africanas, a imposição de línguas europeias nos tribunais, nas escolas e na administração reduziu o espaço público das línguas locais.

A memória sobreviveu em arquivos privados, jornais, canções, narrativas orais e cadernos familiares. Por isso, preservar um livro nunca depende apenas do papel. Depende também de leitores capazes de devolver voz ao conhecimento silenciado ou deslocado.

A tenda de Deir al-Balah pertence a essa geografia maior da defesa cultural, mas conserva a sua verdade palestiniana. Ela nasceu da perda de um filho, de uma casa e de uma colecção. Aproximá-la dessas experiências não converte o sofrimento em metáfora; permite reconhecer como povos colonizados escondem, carregam e reconstroem a memória quando o poder escolhe o esquecimento.


Conclusão


Na tenda de Mohammed Saad, em Gaza, os livros não aparecem como símbolos abstractos de esperança. Estão sujos, danificados, empilhados e ameaçados pelo calor. Precisam de madeira, espaço, transporte, leitores e paz. A sua sobrevivência depende de trabalho diário, tal como a sobrevivência da família que os retirou dos escombros.

Essa materialidade impede que a história seja reduzida a uma imagem confortável sobre coragem durante a guerra que continua a destruir vidas palestinianas inteiras. A experiência mostra que a recuperação cultural não começa apenas nos grandes museus ou nos edifícios oficialmente classificados. Começa também nas colecções privadas, nas livrarias de bairro e nos leitores que mantêm os livros em circulação.

Proteger esses espaços exige segurança, materiais de conservação e condições para o regresso das famílias. Sem isso, cada volume salvo continuará exposto à mesma guerra que tentou enterrá-lo e cada memória dependerá de uma tenda demasiado frágil.

 


O que dizer do povo de Gaza que se recusa a deixar a sua memória sob os escombros? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Anadolu
Francisco Lopes-Santos

Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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