Nigéria: Nearpays Cria App De Pagamentos

A fintech nigeriana Nearpays venceu, em Genebra, a final mundial da AI for Good Innovation Factory com uma aplicação que transforma telemóveis em pontos de venda. A solução reduz a compra de equipamento dedicado e oferece aos pequenos comerciantes registos digitais, ferramentas operacionais e apoio fiscal baseado em inteligência artificial.

Nigéria: Nearpays Cria App De Pagamentos


A Nearpays tornou-se a primeira startup africana na vencer a final mundial da AI for Good Innovation Factory, realizada a 9 de Julho de 2026 durante a cimeira da União Internacional das Telecomunicações, em Genebra.

A competição decorreu durante um ano, começou com doze empresas e terminou perante investidores, investigadores, fundadores e responsáveis públicos ligados à tecnologia e ao desenvolvimento.

O prémio oficial foi de 20 mil dólares. O músico e empresário will.i.am, convidado como jurado, acrescentou outros 20 mil dólares a cada um dos três finalistas e a empresa nigeriana saiu com 40 mil dólares. O montante amplia a capacidade financeira da startup, mas o interesse económico principal está na redução do custo de entrada para comerciantes de pequena dimensão.

A Nearpays apresenta o SoftPOS como uma alternativa aos terminais tradicionais. O comerciante usa um telemóvel com comunicação por proximidade, instala a aplicação e aceita pagamentos sem comprar nem manter uma máquina separada.

A distinção mundial reconhece a proposta, embora a expansão dependa da rede, das regras nacionais, da confiança dos utilizadores e da capacidade para operar com segurança em diferentes mercados africanos.


Como Funciona


O núcleo da solução da Nearpays é o SoftPOS, abreviatura de ponto de venda por software. Em vez de ligar um leitor externo, o comerciante utiliza a capacidade NFC do telemóvel para receber um pagamento sem contacto. O cliente aproxima o cartão do telemóvel e a aplicação conduz a operação através da infra-estrutura financeira para processar, autorizar e registar a transacção.

A redução do equipamento não elimina os requisitos. O telefone precisa de ser compatível com NFC, o comerciante necessita de uma ligação à rede e o serviço fica sujeito às normas bancárias, à identificação dos clientes e às regras nacionais. A vantagem consiste em aproveitar um aparelho já existente e diminuir as despesas, a manutenção e a dependência de máquinas de terceiros.

A inteligência artificial surge numa segunda camada. Os dados das transacções podem apoiar as operações, produzir informação sobre o negócio e alimentar um motor fiscal destinado a automatizar declarações, calcular obrigações e reduzir cobranças excessivas.

A informação existente, porém, não esclarecem em que países essa função já está ligada às autoridades tributárias ou em que fase se encontra a integração. Essa limitação exige prudência porque um sistema fiscal automatizado depende de regras actualizadas, dados correctos e articulação institucional.

Um erro de classificação pode alterar o imposto e criar riscos para negócios com capacidade contabilística limitada. A ferramenta deve apoiar o comerciante, mas não pode substituir a responsabilidade pela declaração, a revisão dos valores nem a validação das autoridades competentes.

Nos pagamentos, os registos podem reunir as vendas por aparelho, funcionário ou estabelecimento e permitir um acompanhamento rápido das receitas. A plataforma inclui um painel para observar as transacções e gerir as equipes. Para os vendedores móveis, para quem faz entregas e para as lojas de bairro, a mobilidade pode ser relevante como o preço porque o ponto de cobrança acompanha o comerciante.


Efeito Económico


O efeito económico começa no acesso. Um terminal exige a aquisição, a distribuição, a manutenção e a substituição quando falha. Ao deslocar esse custo para um programa instalado num telemóvel, a Nearpays procura tornar a aceitação electrónica viável para vendedores com margens reduzidas. A poupança varia conforme as comissões, o preço dos dados e as condições dos parceiros.

Na Nigéria, o crescimento dos pagamentos mostra a dimensão do mercado, mas não elimina os obstáculos. O Banco Central registou 2,94 milhões de terminais PoS instalados no primeiro semestre de 2024, mais 20 por cento do que no semestre anterior. A posse de uma máquina não garante o funcionamento contínuo, a cobertura nem custos suportáveis para os pequenos negócios.

A inclusão financeira nigeriana chegou a 74 por cento em 2023, contra 68 por cento em 2020. O avanço foi puxado sobretudo por serviços não bancários. O SoftPOS pode aprofundar o uso quotidiano das contas porque transforma o acesso formal numa capacidade concreta para vender, receber e conservar um histórico financeiro, sem obrigar cada comerciante a adquirir uma máquina.

Isso pode reduzir outra barreira: a invisibilidade contabilística. Os negócios que recebem apenas em dinheiro deixam poucos dados sobre as receitas. Ao gerar registos, o comerciante pode apresentar informação aos bancos, às seguradoras ou aos fornecedores. O benefício não é automático porque o crédito e os seguros dependem de critérios, mas os dados melhoram a base para as decisões.

Para mercados africanos, a proposta permite uma expansão com menos equipamento, mas não oferece uma solução universal. Os telemóveis sem NFC, as redes instáveis, a literacia limitada e os regimes fiscais reduzem a adopção. O prémio dá capital à empresa; a prova será ampliar a rede comercial, manter as transacções e confirmar a redução dos custos fora dos projectos-piloto.


Conclusão


A vitória da Nearpays em Genebra coloca uma empresa africana no centro de uma discussão prática sobre a inteligência artificial: a tecnologia cria valor quando reduz uma despesa concreta ou melhora uma operação diária.

Neste caso, o telemóvel deixa de servir apenas para comunicar e passa a substituir parte da infra-estrutura de cobrança exigida aos pequenos comerciantes, sobretudo nos mercados onde o equipamento dedicado continua caro.

O prémio e os 40 mil dólares reforçam a capacidade de expansão da startup, mas não resolvem os riscos da escala. A adopção dependerá dos aparelhos compatíveis, das redes estáveis, da confiança, da supervisão e de uma integração fiscal verificável.

Se reunir essas condições a custo baixo, o SoftPOS poderá digitalizar as vendas, criar um histórico financeiro e aproximar os negócios informais dos serviços formais em África sem impor uma nova máquina a cada comerciante.

 


Será a proposta da Nearpays a chave para reduzir o custo dos pagamentos digitais nos pequenos negócios africanos? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Elias Chenje

Formado em Comunicação e Estudos de Tecnologia, trabalhou em Maputo na cobertura de economia digital, inovação social, educação tecnológica, startups e transformação dos serviços públicos. Acompanhou projectos de inteligência artificial, plataformas digitais, dados, inclusão financeira, agricultura tecnológica e empreendedorismo africano. Na Mais Afrika, escreve sobre tecnologia sem propaganda, procurando perceber quem ganha, quem perde, quem fica de fora e que efeitos reais a inovação tem sobre trabalho, educação, criação e comunidades.

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Formado em Comunicação e Estudos de Tecnologia, trabalhou em Maputo na cobertura de economia digital, inovação social, educação tecnológica, startups e transformação dos serviços públicos. Acompanhou projectos de inteligência artificial, plataformas digitais, dados, inclusão financeira, agricultura tecnológica e empreendedorismo africano. Na Mais Afrika, escreve sobre tecnologia sem propaganda, procurando perceber quem ganha, quem perde, quem fica de fora e que efeitos reais a inovação tem sobre trabalho, educação, criação e comunidades.
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