Dia Mundial Do Refugiado: Quando Fugir É Viver

O dia de hoje expõe uma ferida que África conhece antes de muitos calendários internacionais a terem reconhecido, porque famílias fogem quando a guerra, a perseguição, a xenofobia e as fronteiras fechadas transformam a sua casa em risco e a estrada na última possibilidade concreta de sobrevivência.

Dia Mundial Do Refugiado: Quando Fugir É Viver


O Dia Mundial do Refugiado não é uma data neutra nem apenas mais uma efeméride humanitária no calendário. Foi instituído pela Assembleia Geral da ONU através da Resolução A/RES/55/76, adoptada em 4 de Dezembro de 2000, para ser celebrado todos os anos a 20 de Junho desde 2001, no quinquagésimo aniversário da Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados.

A mesma resolução reconheceu que a Organização de Unidade Africana aceitara fazer coincidir a data internacional com o Dia Africano do Refugiado, também assinalado a 20 de Junho. Essa origem africana dá à data uma densidade que não pode ser apagada porque antes de o mundo a tornar universal, África já carregava a memória dos deslocados, dos exilados e das populações expulsas pela guerra.

Em 2025, o ACNUR estimou 117,8 milhões de pessoas deslocadas à força no mundo, incluindo 41,6 milhões de refugiados, pessoas em situação semelhante à de refugiados e outros grupos sob protecção internacional. O número caiu pela primeira vez em uma década, mas a ferida permanece brutal onde a protecção chega tarde demais para salvar a casa e a rotina.


A Origem Africana


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos

A raiz africana do Dia Mundial do Refugiado obriga a ler a data como memória política, não como ritual diplomático. Antes da decisão da ONU, o continente já assinalava o Dia Africano do Refugiado, marcado pela experiência das guerras de libertação, das fronteiras herdadas, dos golpes, das perseguições e dos Estados incapazes de proteger todos os seus cidadãos.

Quando a Assembleia Geral aprovou a Resolução, não inventou a memória do refúgio. Reconheceu uma tradição africana e tornou mundial uma data que já falava de África. O texto registou a concordância da Organização de Unidade Africana para fazer coincidir as celebrações em 20 de Junho desde 2001 no calendário político do continente.

Essa genealogia conta porque a experiência africana ajudou a alargar a protecção jurídica. A Convenção de 1951 nasceu do pós-guerra europeu, mas a Convenção da OUA de 1969 incluiu a agressão externa, a ocupação, a dominação estrangeira e a perturbação grave da ordem pública entre as causas que destroem o abrigo civil de populações inteiras.

Em África, nem toda a fuga começa com uma perseguição individual escrita num processo. Muitas vezes nasce de uma aldeia cercada, de uma estrada tomada, de uma lavra abandonada, de uma milícia sem rosto ou de uma fronteira onde a pessoa chega antes do papel. O direito vem depois da ferida e tenta dar-lhe nome sem devolver a vida anterior perdida.

Por isso, a data não deve ser reduzida a cerimónia. O refugiado não aparece no calendário para inspirar compaixão rápida. Aparece para lembrar que a protecção falhou, que a guerra venceu a casa e que o poder abandonou populações inteiras quando a estrada passou a valer mais do que permanecer sob ameaça diária de morte ou perseguição política aberta.


A Guerra Expulsa


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos

A guerra continua a ser, no Dia Mundial do Refugiado, a grande máquina da deslocação forçada em África. No Sudão, a destruição de bairros, dos hospitais, dos mercados, das pontes e dos campos agrícolas empurrou milhões de pessoas para dentro e para fora do país.

No Congo, os combates sucessivos fizeram da fuga uma rotina para famílias obrigadas a recomeçar sem tempo para luto prolongado e seguro. A perseguição nem sempre chega com uniforme ou decreto. Pode nascer da etnia, da religião, da opinião política, da suspeita de colaboração ou da presença num território disputado. Quando a identidade se transforma em risco, a cidadania deixa de proteger.

A pessoa já não negocia com o medo; calcula a fuga e mede o silêncio como defesa possível diante da ameaça. O Sahel mostra como a crise raramente tem uma só causa. Os grupos armados, os golpes militares, a fragilidade do Estado, a pobreza, a fome e o clima pressionam comunidades inteiras.

A população civil fica entre forças que falam de segurança mas pouco respondem pela escola fechada, pelo poço tomado ou pela aldeia vazia depois do ataque nocturno. A deslocação começa antes da travessia da fronteira. Começa quando a criança deixa de ir à escola, quando a mulher evita o mercado, quando o agricultor abandona a lavra e quando a noite passa a ser medida pelo som das armas.

O refúgio é a consequência visível de uma perda iniciada muito antes da partida registada pelas autoridades ou pelas agências. O número é necessário, mas não basta. Cada refugiado representa uma casa interrompida, uma rotina destruída e uma memória arrancada ao lugar.

A guerra não expulsa apenas corpos. Expulsa fotografias, certidões, sepulturas, instrumentos de trabalho, línguas e a confiança mínima de que o dia seguinte ainda terá chão para os vivos regressarem sem medo.


Fronteiras e Medo


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos

A fronteira pode ser, no Dia Mundial do Refugiado, salvação, mas também pode ser humilhação. Para muitos refugiados, atravessar para o país vizinho significa encontrar registo, alimento, tenda, escola e alguma protecção jurídica.

Para outros, significa esperar dias no calor, na chuva, na fome e na suspeita, enquanto a burocracia decide se a dor será reconhecida como legítima diante de um portão fechado. A maior parte dos refugiados permanece perto do país de origem, não nos países ricos que mais falam de ameaça migratória.

O Chade, o Uganda, a Etiópia e o Quénia acolhem populações enormes apesar dos serviços pressionados, das economias frágeis e das comunidades locais que também enfrentam a pobreza, o desemprego, a fome e a falta de água suficiente para todos.

Quando as fronteiras fecham, a fuga não termina. Apenas muda de rota. O deserto torna-se passagem, o mar torna-se túmulo e os traficantes tornam-se administradores clandestinos do desespero. A ausência de vias seguras não impede a deslocação forçada. Apenas aumenta o preço pago por quem já perdeu quase tudo antes da primeira barreira militar ou policial.

A xenofobia começa quase sempre na linguagem. O refugiado deixa de ser pessoa e passa a ser descrito como invasão, fardo, ameaça ou problema. Depois vêm as rusgas, as agressões, as expulsões e a indiferença. A violência social raramente começa com o golpe; começa quando a palavra retira humanidade e autoriza o abuso contra o estrangeiro.

As sociedades que culpam os estrangeiros pelos seus próprios fracassos evitam olhar para a governação, a desigualdade, a corrupção, o desemprego e a ausência de serviços. O refugiado torna-se bode expiatório de crises que não criou. Fechar-lhe a porta pode parecer ordem, mas muitas vezes é apenas medo vestido de política pública contra quem chegou vivo ao abrigo.


A Vida Insiste


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos

Fugir é uma forma dura de inteligência humana. Quem parte sabe que pode morrer no caminho, mas percebe que ficar pode ser uma condenação mais certa. A decisão raramente é solitária. Uma família escolhe quem leva a criança, quem protege os velhos, quem guarda documentos e quem tenta chegar primeiro para pedir socorro antes de o resto atravessar também.

O campo de refugiados costuma ser apresentado como lugar suspenso, mas nele a vida continua a disputar espaço com a espera. Há escolas improvisadas, pequenos mercados, cultos religiosos, filas de água, consultas médicas, cozinhas colectivas e crianças que aprendem outra língua sem abandonar a primeira.

A sobrevivência também produz comunidade quando tudo parecia condenado à dispersão dos afectos. Reduzir os refugiados à tragédia é outra forma de apagamento. Muitos eram professores, agricultores, estudantes, enfermeiros, comerciantes, artesãos, funcionários públicos, artistas e líderes comunitários antes da fuga.

A guerra pode roubar a casa e o reconhecimento social, mas não apaga a história anterior de quem atravessa a fronteira com saber, memória e ofício ainda dentro do próprio corpo ferido.

A dignidade não começa quando uma agência humanitária distribui cartão, tenda ou ração. Começa no direito de não ser perseguido, de não ser bombardeado, de não ser torturado e de não ser odiado por chegar vivo. A protecção deve nascer do direito, da memória e da responsabilidade política, não da compaixão ocasional diante da câmara internacional que passa.

O Dia Mundial do Refugiado deve devolver voz a quem foi transformado em categoria administrativa. O refugiado não é nota de rodapé na geopolítica. É prova de que a segurança falhou, a diplomacia chegou tarde e a humanidade ainda aceita que algumas vidas tenham de implorar abrigo para continuar a existir sem pedir desculpa por sobreviver à violência.


Conclusão


O Dia Mundial do Refugiado nasceu da memória africana e foi consagrado pela ONU em 2000, mas continua a fazer a mesma pergunta: que ordem política permite que milhões só sobrevivam quando fogem? Em África, a resposta passa pela guerra, pela perseguição, pela xenofobia, pelas fronteiras fechadas e por Estados que nem sempre protegem os seus cidadãos. A fuga não é fracasso moral de quem parte.

É denúncia de quem deixou de garantir a vida. Enquanto uma família tiver de escolher entre morrer em casa ou arriscar a estrada, o refugiado continuará a ser a medida mais incómoda da nossa humanidade.

A data lembra que nenhuma fronteira vale mais do que uma vida, nenhum decreto apaga a memória de quem fugiu e nenhum Estado deve confundir controlo com abandono diante de seres humanos sem casa nem protecção mínima no momento decisivo da fuga.

 


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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