Costa Do Marfim: Hervé Renard Volta Ao Comando

A Federação de Futebol da Costa do Marfim confirmou o regresso de Hervé Renard, onze anos depois do título africano de 2015. A nomeação encerra o ciclo de Emerse Faé, que levou os Elefantes à fase eliminatória do Mundial e devolve ao treinador francês a missão de procurar um terceiro título no CAN.

Costa Do Marfim: Hervé Renard Volta Ao Comando


O regresso de Hervé Renard acontece num contexto muito diferente daquele encontrado em 2014. A Costa do Marfim já não procura apenas libertar-se de uma longa espera por um troféu, porque venceu o CAN de 2023 sob o comando de Emerse Faé e alcançou, no Mundial de 2026, a primeira passagem da sua história à fase eliminatória.

A mudança mostra que a Federação de Futebol da Costa do Marfim tratou esse avanço como uma etapa e não como um ponto de chegada. O contracto de Emerse Faé terminou a 31 de Julho e não foi renovado depois da derrota por 2-1 diante da Noruega, nos dezasseis avos de final.

Apesar da saída, o seleccionador deixou uma equipe jovem, competitiva e habituada a jogar sob pressão. A memória de 2015 oferece autoridade a Hervé Renard, mas aumenta também a responsabilidade. O treinador francês venceu o CAN de 2012 com a Zâmbia.

Três anos depois, Hervé Renard repetiu o feito com os Elefantes. Agora, regressa para procurar um terceiro título africano, sem poder transformar o passado numa garantia. A selecção tem mais profundidade, maior ambição e menos tolerância para um período longo de adaptação.


Poder Federativo


A decisão de substituir Emerse Faé parte de uma federação disposta a exercer autoridade sobre o projecto mesmo depois de resultados históricos. O título africano conquistado em casa e a passagem inédita aos dezasseis avos do Mundial não garantiram continuidade, porque a direcção entendeu que a selecção precisava de outra liderança para sustentar a ambição criada nos últimos dois anos.

O percurso de Emerse Faé, porém, não pode ser reduzido ao jogo perdido diante da Noruega. O seleccionador assumiu a equipe durante o CAN de 2023, recuperou um grupo abalado e conduziu os Elefantes ao troféu. No Mundial de 2026, superou ainda uma fronteira competitiva que três gerações marfinenses anteriores não tinham conseguido atravessar.

A pressão desloca-se agora para a direcção federativa. Hervé Renard não começa um projecto de reconstrução, porque herda campeões africanos e uma selecção capaz de ultrapassar a fase de grupos do Mundial. Qualquer recuo será comparado com um ciclo que deixou um troféu e o melhor percurso marfinense na prova, tornando a avaliação da federação tão exigente quanto a do novo seleccionador.

A escolha recupera igualmente uma intenção antiga. Durante o CAN disputado em 2024, a federação tentou assegurar temporariamente Hervé Renard depois da saída de Jean-Louis Gasset, mas o compromisso do treinador com a selecção feminina francesa impediu o acordo.

Emerse Faé assumiu então o banco e venceu a competição, transformando uma solução interna numa das decisões mais marcantes do futebol marfinense. Agora, Hervé Renard chega sem carácter provisório e recebe uma equipe que já conhece a pressão das grandes provas. A familiaridade pode acelerar a adaptação, mas não elimina as perguntas sobre a ruptura com o anterior seleccionador.


Terceiro Título


A procura de um terceiro título africano define a dimensão competitiva do regresso. Hervé Renard venceu o CAN com a Zâmbia em 2012 e com a Costa do Marfim em 2015, tornando-se o primeiro treinador a conquistar a prova com duas selecções diferentes. Um novo troféu ampliaria um percurso já singular no futebol africano em provas marcadas pela exigência e pela memória.

O desafio, contudo, já não se parece com o de 2014. Hervé Renard encontrou então uma selecção pressionada por expectativas frustradas e pela incapacidade de transformar o talento em conquista. Didier Drogba tinha encerrado a carreira internacional e a geração de Yaya Touré precisava de vencer. Hoje, o treinador francês recebe campeões africanos e jogadores testados no Mundial.

A nova base oferece profundidade e uma ambição menos dependente de uma única geração. Os jogadores mais jovens ganharam espaço ao longo da campanha, enquanto os elementos experientes garantiram equilíbrio nos momentos de maior pressão. Hervé Renard terá de preservar essa concorrência interna.

O treinador terá ainda de construir uma equipe capaz de controlar jogos diferentes sem perder a agressividade, a disciplina ou a organização. A passagem recente de Hervé Renard pela Tunísia também recomenda prudência. Chamado durante o Mundial depois da saída de Sabri Lamouchi, o treinador francês não conseguiu alterar uma campanha já comprometida.

O episódio mostrou que a experiência não resolve sozinha os problemas de preparação, confiança e tempo. O calendário retira espaço a uma celebração prolongada do passado. A qualificação para o CAN de 2027 colocará a selecção diante do Gana e da Somália já em Setembro, obrigando Hervé Renard a apresentar resultados e uma identidade reconhecível desde os primeiros jogos.


Conclusão


A aposta em Hervé Renard devolve à Costa do Marfim uma figura ligada a uma das maiores conquistas da selecção, mas o regresso não pode ser avaliado apenas pela memória de 2015. A Federação de Futebol da Costa do Marfim encerrou o ciclo de Emerse Faé depois de um título continental.

Essa decisão, tomada depois do melhor percurso marfinense num Mundial, transforma a próxima campanha num exame directo à direcção federativa. O treinador francês recebe uma equipe mais jovem, mais profunda e mais ambiciosa do que aquela encontrada na primeira passagem.

A procura do terceiro título no CAN exigirá resultados rápidos, uma identidade clara e respeito pelo trabalho anterior. Hervé Renard terá de provar que a experiência acumulada em África ainda produz soluções novas, sem transformar o passado numa protecção contra a exigência do presente.

 


Hervé Renard conseguirá transformar a memória de 2015 num novo ciclo vencedor para a Costa do Marfim? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2025 Noushad Thekkayil / NurPhoto via Getty Images
Hélder Mavie

Formado em Jornalismo Desportivo e História do Desporto Africano, iniciou o seu percurso na cobertura de futebol, atletismo e basquetebol em redações lusófonas. Com experiência no acompanhamento de competições continentais, federações e trajetórias de atletas da diáspora, aborda o desporto como um fenómeno social e de identidade, combinando rigor técnico e contexto tático com uma forte energia narrativa.

Hélder Mavie
Hélder Mavie
Formado em Jornalismo Desportivo e História do Desporto Africano, iniciou o seu percurso na cobertura de futebol, atletismo e basquetebol em redações lusófonas. Com experiência no acompanhamento de competições continentais, federações e trajetórias de atletas da diáspora, aborda o desporto como um fenómeno social e de identidade, combinando rigor técnico e contexto tático com uma forte energia narrativa.
Ultimas Notícias
Noticias Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Leave the field below empty!

Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!