Morreu Ídasse, Mestre Das Artes Moçambicanas

Ídasse Ekson Malendza Tembe morreu esta quarta-feira, 16 de Setembro, aos 71 anos, no Hospital Central de Maputo, onde recebia cuidados médicos. A morte encerra a vida de um artista que fez do desenho, da pintura, da cerâmica e da partilha cultural uma presença contínua na arte moçambicana.

Morreu Ídasse, Mestre Das Artes Moçambicanas


O Mestre Ídasse deixou uma obra construída entre o desenho, a pintura, a cerâmica, a escultura e a circulação cultural que marcou várias décadas em Moçambique. Nascido a 1 de Julho de 1955 no Infulene, na província de Maputo, atravessou a formação artística do pós-independência sem se fechar numa única disciplina.

Em 1982 passou a dedicar-se profissionalmente às artes plásticas, depois de um percurso que já incluía exposições, formação cultural, comunicação gráfica e trabalho institucional. Ídasse trabalhou no Instituto Nacional de Cinema, criou ali um departamento de Arte e integrou o movimento ligado à revista Charrua.

Fez capas, ilustrações e desenhos para livros, revistas e jornais literários. Também pertenceu a associações culturais onde a criação se cruzava com a formação de públicos e a partilha de experiências. O nome Mestre Ídasse ganhou sentido nesse percurso feito de obra, aprendizagem e transmissão.

O desenho ocupou um lugar central na sua prática, mas a memória artística abre-se também à pintura, à cerâmica, à escultura e às relações entre imagem, literatura, cinema e vida cultural. A sua trajectória permanece ligada à história das artes plásticas moçambicanas depois da independência.


Do Infulene Para o Mundo


O percurso de Ídasse começou no Infulene, onde nasceu a 1 de Julho de 1955. Na Escola Secundária Manuel Sena teve contacto com professores de desenho como João Paulo e António Bronze. A aprendizagem escolar abriu uma via que seria aprofundada fora da sala de aula, num período em que Moçambique procurava construir novas instituições culturais depois da independência.

Em 1977 participou pela primeira vez numa exposição colectiva. Dois anos depois frequentou o Curso de Animador Cultural no então Centro de Estudos Culturais, onde teve contacto com Malangatana e Domingos Manhiça. A formação abrangia a pintura, a cerâmica, o desenho, a fotografia, o teatro e a história da arte, ligando a criação à intervenção cultural num ambiente multidisciplinar.

Frequentou a galeria de Inácio Matsinhe, de quem recebeu acompanhamento e completou formação em Comunicação Gráfica sob orientação de António Quadros. O trajecto mostra uma aprendizagem feita entre escola, oficina, convivência artística e experiência prática. Essa combinação sustentou a variedade de meios que mais tarde assumiria no trabalho sem escolher uma disciplina única.

A pintura foi um primeiro interesse, mas o desenho ganhou um lugar decisivo. A historiadora Alda Costa registou que Ídasse se sentia particularmente à vontade nesse campo e procurava conhecer outros artistas africanos sem abdicar de amadurecer pela prática. Essa procura ajudou-o a construir uma linguagem própria numa geração em transformação, sem a reduzir a uma filiação estética única.

Em 1982 passou a dedicar-se exclusivamente às artes plásticas. Quatro anos mais tarde apresentou a primeira exposição individual na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). A passagem para uma carreira assumida não apagou a sua dimensão colectiva.

Ídasse manteve-se ligado a instituições, escritores, fotógrafos e artistas, levando para a obra uma cultura feita de encontros, colaboração e circulação entre diferentes espaços criativos.


Linha e Matéria


O desenho tornou-se uma das marcas reconhecíveis de Ídasse, mas nunca esgotou a prática. Ao longo da carreira trabalhou a pintura, a cerâmica, a gravura e a escultura. Experimentou materiais como o bronze, o ferro, o mármore e a madeira. Essa abertura técnica acompanhava a curiosidade pela forma, pelo movimento e pela maneira como uma imagem podia nascer de suportes diferentes.

A experiência de juventude ajuda a compreender esse repertório. Antes de se fixar nas artes plásticas, Ídasse estudou piano e praticou ballet. Anos depois explicou que a música, a dança e o cinema deixaram fragmentos na sua maneira de desenhar e pintar. Falava de passos, harmonia e melodia presentes em figuras humanas ou animais ao longo do tempo.

Essa relação entre gesto e composição aparece na centralidade atribuída ao desenho. Para Ídasse, desenhar não era uma etapa menor. Era uma linguagem autónoma, capaz de condensar ritmo, corpo, memória e observação. A obra em papel circulou ao lado das telas e esculturas, afirmando o desenho num campo artístico moçambicano que ganhava novos praticantes em diferentes contextos.

O reconhecimento veio por exposições e prémios. O percurso inclui distinções de desenho ligadas ao Museu Nacional de Arte e às Telecomunicações de Moçambique na década de 1990. A obra entrou em colecções públicas e particulares no país e no estrangeiro. Esses registos mostram a circulação alcançada por uma prática construída durante décadas sem reduzir o seu valor às distinções recebidas.

Em 2023, a Fundação Fernando Leite Couto voltou a apresentar trabalhos de Ídasse. A exposição “Um passo com unha” retomou preocupações que o artista vinha desenvolvendo sobre a condição humana, a guerra, a fome e o entendimento entre pessoas. Numa fase madura, a obra continuava a procurar assunto no presente sem abandonar o desenho como espaço de invenção e reflexão.


Cinema e Charrua


A carreira de Ídasse não se desenvolveu apenas no atelier. Depois da formação no Centro de Estudos Culturais, trabalhou no Instituto Nacional de Cinema e criou um departamento de Arte. A passagem pelo cinema colocou-o numa instituição central da produção cultural moçambicana do pós-independência. O próprio artista recordou que o projecto de cinema móvel passou pelas suas mãos.

O cinema acrescentou outra camada ao seu modo de pensar a imagem, a sequência e o público. Ídasse não se apresentou como realizador, mas trabalhou num espaço onde a imagem precisava de circular para além das galerias. Essa experiência aproximava as artes visuais, a comunicação e a intervenção cultural. Mostrava uma geração para a qual criar instituições fazia parte da vida artística.

A mesma lógica aparece na ligação à Associação dos Escritores Moçambicanos. Ídasse participou em iniciativas de dinamização literária em empresas, escolas e bairros. Nesse ambiente surgiu a revista Charrua, ligada a uma geração decisiva da literatura moçambicana. O artista integrou o movimento, produziu desenhos, capas e ilustrações e ajudou a dar corpo visual à publicação.

A relação com escritores prolongou-se para além da revista. Ídasse realizou trabalhos para livros, jornais literários e projectos editoriais, aproximando a linha desenhada da palavra escrita. Essa presença mostra um artista atento à circulação da imagem em suportes diferentes. A galeria foi apenas um dos lugares da obra; o papel impresso, a capa e a página também foram territórios de criação.

No Instituto Nacional de Cinema e na Charrua, Ídasse participou em dois espaços distintos unidos por uma pergunta sobre como produzir cultura num país recém-independente. Um trabalhava a imagem em movimento; o outro renovava a literatura e o debate artístico. A presença do artista nos dois ajuda a perceber um percurso situado entre o ofício individual, as instituições e a construção colectiva.


Mestre em Partilha


O tratamento de Mestre associado a Ídasse não depende apenas da duração da carreira. O seu percurso foi atravessado por aprendizagem recebida e conhecimento partilhado. Formou-se junto de professores, artistas e centros culturais, mantendo depois presença activa em associações e iniciativas onde criadores de idades diferentes se encontravam.

A transmissão aparecia na convivência, na prática e no trabalho colectivo. Não é preciso transformar essa presença numa carreira docente formal para reconhecer a dimensão formativa do percurso. Ídasse participou em associações, projectos colectivos e actividades que aproximavam artistas, escritores e estudantes.

Na AEMO, esteve ligado a acções em escolas e bairros. Noutros espaços colaborou com iniciativas onde a produção artística se fazia diante de públicos e participantes. A formação, para a geração de Ídasse, também acontecia fora das escolas. A convivência com Inácio Matsinhe, Malangatana, Domingos Manhiça e António Quadros fez parte do seu caminho.

Mais tarde, a sua presença em espaços de arte oferecia aos mais novos contactos com processos, materiais e escolhas de um artista que atravessava o desenho, a pintura, a escultura e a edição. Esse modo de partilhar ajuda a explicar por que o estatuto de Mestre ultrapassa uma fórmula de respeito.

Ídasse manteve ligações ao Núcleo de Arte, à Associação Moçambicana de Fotografia e à Associação dos Escritores Moçambicanos. Em vez de se fechar numa disciplina, circulou entre comunidades criativas. O legado formativo nasce também dessa circulação e do contacto entre gerações.

A própria obra transmitia uma lição de método. Um jovem artista podia encontrar em Ídasse a disciplina do desenho, a liberdade de mudar de material e a atenção ao contexto cultural. O que se herda de uma trajectória assim não é um estilo para copiar, mas uma maneira de continuar em aprendizagem, trabalhar com outros e permitir que a obra encontre públicos distintos.


Obra em Circulação


Ídasse construiu uma presença que ultrapassou Maputo sem romper a ligação ao território onde se formou. A sua obra integrou exposições colectivas e individuais em Moçambique e no estrangeiro, além de colecções públicas e particulares. O Museu Nacional de Arte de Moçambique conserva trabalhos seus, enquanto catálogos internacionais registam a circulação por diferentes países e instituições.

Essa circulação não apagou a continuidade local da obra. Em 2023, a Fundação Fernando Leite Couto incluiu Ídasse entre os artistas de referência apresentados ao público. Dois anos depois, ilustrou “Quem ensinou a avó a contar estórias?”, de Nelson Lineu, publicado pela Escola Portuguesa de Moçambique. O livro mostra que continuava a levar o desenho a novos públicos e leitores.

O percurso reúne mais de uma centena de participações em exposições colectivas, além de mostras individuais e trabalhos de curadoria e júri. A quantidade revela longevidade, mas interessa sobretudo a diversidade dos espaços atravessados. Ídasse circulou entre museus, galerias, associações, cinema, literatura e edição sem reduzir a actividade artística a um circuito único.

A memória de Ídasse fica ligada à história das artes plásticas moçambicanas depois da independência. A sua geração procurou afirmar linguagens próprias enquanto se criavam instituições, associações e espaços de exposição. Nesse processo, o desenho ganhou maior visibilidade e novos praticantes. Ídasse esteve entre os artistas que deram consistência a esse campo sem abandonar a experimentação.

Obras preservadas em museus, colecções, livros, revistas e arquivos permanecem disponíveis para leitura pública e investigação. A dimensão do legado de Ídasse dependerá também da capacidade de conservar, catalogar e tornar acessível esse acervo. Para um artista que atravessou tantos suportes, lembrar exige reconstruir as ligações que sustentaram a sua prática.


Conclusão


A morte de Ídasse retira da cena cultural moçambicana um artista que atravessou mais de quatro décadas de trabalho profissional sem se limitar a uma técnica ou a uma instituição. O desenho foi centro e linguagem, mas à sua volta existiram pintura, cerâmica, escultura, cinema, literatura, edição e vida associativa.

O legado fica nas obras, nas colecções, nas capas, nas páginas ilustradas e na memória dos espaços onde trabalhou. Fica também numa ideia de formação artística feita de disciplina, curiosidade e contacto entre gerações. Chamar-lhe Mestre é reconhecer esse percurso largo, não criar uma figura intocável.

Ídasse pertence agora à memória das artes plásticas moçambicanas. A melhor forma de a preservar será manter a obra visível, estudada e acessível, permitindo que novas leituras encontrem nela o artista que desenhou o seu tempo enquanto ajudava a construir os lugares onde a cultura podia acontecer.

 


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Imagem: © DR
Nádia Monteiro
Nádia Monteiro
Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu o seu percurso no espaço da lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema e património africano. Com experiência no acompanhamento de festivais, exposições e projetos de criadores da diáspora, aborda a cultura sem exotismo, dedicando-se à análise das obras, das línguas e da circulação do valor simbólico da criação artística contemporânea.
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