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Terça-feira, Julho 23, 2024

Chocolate: Os Nexos Do Cultivo Ilegal de Cacau

A indústria do Chocolate, está a ameaçar o habitat de espécies protegidas e a contribui para o desflorestamento da floresta tropical.

Chocolate: Os Nexos Do Cultivo Ilegal De Cacau.

Escândalo no Mundo do Chocolate: Numa investigação chocante, a Associated Press (AP) revelou que importantes negociantes de cacau, incluindo o Grupo Olam de Singapura, a Tulip Cocoa Processing Ltd. e a Starlink Global and Ideal Limited da Nigéria, obtêm cacau de cultivo ilícito, efectuado na Reserva Florestal de Omo, uma floresta tropical protegida no sudoeste da Nigéria.

Essas empresas, por sua vez, fornecem cacau a gigantes globais como a Mars Inc. e a Ferrero. Esta intricada cadeia de abastecimento de chocolate complica os esforços para se descobrir se o cacau proveniente de áreas desflorestadas da reserva acaba nos derivados de chocolate mais populares, como os Snickers, M&Ms, Butterfinger ou o creme de barrar Nutella.

A floresta de Omo é um ecossistema vital, lar de elefantes africanos da floresta, criticamente ameaçados, pangolins e várias outras espécies e biodiversidades e está sob séria ameaça devido ao desflorestamento impulsionado pela procura global de chocolate.

Esses agricultores, impelidos pelo envelhecimento de árvores de cacau em outras regiões, envolvem-se em cultivos ilegais, invadindo zonas de conservação, violando proibições de cultivo de cacau e comprometendo o status da região como uma das mais antigas e maiores Reservas da Biosfera da UNESCO em África.

 

Práticas Ilícitas

Imagem © Sunday Alamba (20231220) Chocolate Os Nexos Do Cultivo Ilegal de CacauA investigação da AP expõe agricultores de cacau que operam na Reserva Florestal de Omo. Esses agricultores, impulsionados pelo envelhecimento das árvores de cacau em outras partes da Nigéria, o que as torna menos produtivas, são atraídos para as terras férteis da reserva, desconsiderando as leis de conservação.

A expansão do cacau não apenas ameaça o habitat de espécies ameaçadas, mas também contribui para o desflorestamento da última floresta tropical vital no sudoeste da Nigéria.

Documentos das empresas e sobre o comércio, juntamente com entrevistas, revelaram que o Grupo Olam, com sede em Singapura, a Tulip Cocoa Processing Ltd. e a empresa nigeriana Starlink Global e Ideal Limited estão entre os negociantes que adquirem cacau da zona de conservação.

Apesar da cadeia de abastecimento e a proveniência ser opaca, estas empresas fornecem cacau a fabricantes de chocolate em todo o mundo.

Esta revelação levanta questões sobre a eficácia dos compromissos da indústria do chocolate em garantir a origem, sustentabilidade e liberdade de abuso na produção do cacau. Estas empresas, por sua vez, fornecem cacau a grandes fabricantes de chocolate, incluindo a Mars Inc. e a Ferrero.

O mercado global de cacau e do chocolate que se estima atingir a marca dos 68 biliões de dólares, até 2029, enfrenta desafios contínuos de abusos aos direitos humanos e dos danos ambientais. Apesar dos compromissos da indústria para garantir a proveniência e a sustentabilidade, a investigação da AP indica lacunas na aplicação desses compromissos.

A intricada cadeia de abastecimento de chocolate envolve agricultores, corretores, agentes de compra licenciados e empresas comerciais. Embora a Mars e a Ferrero afirmem obter cacau de maneira responsável, a falta de especificidade em relação aos locais de cultivo levanta preocupações sobre a origem do cacau utilizado em produtos populares como os Snickers e os M&Ms.

 

Falta de Fiscalização

A AP seguiu o percurso de um carregamento de cacau oriundo da zona de conservação, até a instalação da Olam fora da entrada da floresta. Apesar das alegações de adesão a políticas anti-desflorestamento, as evidências sugerem que a Olam obtém cacau da área protegida.

Agricultores e agentes dentro da floresta também relataram vender para a Tulip Cocoa Processing Ltd., uma subsidiária do comerciante holandês Theobroma.

A Olam insiste que proíbe os agricultores de cultivar em áreas protegidas, no entanto, relatos no local contradizem essa afirmação. A Rainforest Alliance aponta desafios regulatórios e dados incompletos na Nigéria, prejudicando a certificação e aplicação eficaz.

Enquanto isso, a Starlink Global and Ideal Limited, da Nigéria, fornecem cacau à General Cocoa Co., um fornecedor da Mars que, supostamente, é contra cacau de origem duvidosa, no entanto no site da Starlink, não fazem reivindicações de abastecimento sustentável e afirmam que obtêm cacau da reserva florestal.

 

Respostas das Empresas

Imagem © DR (20231220) Chocolate Os Nexos Do Cultivo Ilegal de CacauOLAM: O conglomerado alimentar com sede em Singapura afirma que “proíbe” os membros do seu grupo de agricultores “Ore Agbe Ijebu” de “produzirem em áreas protegidas”.

“Qualquer fornecedor que seja encontrado a desflorestar ilegalmente será removido da nossa cadeia de abastecimento”.

Afirmou a Olam Food Ingredients (OFI), num comunicado à AP, acrescentando que está a “investigar minuciosamente” as alegações.

A empresa afirma que visita cada exploração agrícola para obter coordenadas GPS e reúne-se com cada agricultor para concordar com as fronteiras que muitas vezes não estão assinaladas.

Aqueles que dizem ter vendido cacau da reserva florestal à Olam, afirmaram que não são membros do grupo de agricultores “Ore Agbe Ijebu” e não tinham ouvido falar dele.

TULIP:

A Tulip afirmou estar “confiante” de que os seus fornecimentos não vêm de áreas protegidas. Diz que o seu cacau é certificado pela Rainforest Alliance que verifica a conformidade com padrões de sustentabilidade e que utiliza o mapeamento GPS das explorações agrícolas.

O diretor-geral da Tulip, Johan van der Merwe, afirmou que “operacionais de campo” preenchem questionários digitais sobre abastecimento com todos os agricultores e fornecedores. Ele também afirmou que os sacos de cacau da Tulip são reutilizados e distribuídos amplamente, por isso é possível que sejam vistos em toda a Nigéria.

Aqueles que afirmam vender cacau à Tulip disseram à AP que não foram obrigados a preencher qualquer questionário antes da compra do seu cacau.

STARLINK:

A empresa obtém cacau da reserva, disse o porta-voz Sambo Abubakar à AP. Embora a Starlink não faça reivindicações de abastecimento sustentável no seu site, fornece pelo menos uma empresa que o faz: a General Cocoa, subsidiária nos EUA da Sucden, sediada em Paris.

Segundo Abubakar, a Starlink;

“Tem um programa de certificação de origem, para determinar a qualidade do cacau, conhecer os agricultores e sensibilizá-los para as melhores práticas”.

“Mas este programa ainda não foi estendido à reserva de Omo e ao estado de Ogun”, acrescentou.

FERRERO:

A Ferrero afirma que os seus fornecimentos seguem “requisitos rigorosos” que são certificados de forma independente, acrescentando que o mapeamento GPS e a monitorização por satélite das explorações agrícolas mostram que;

“O abastecimento de cacau da Nigéria não provém de áreas de floresta protegidas”.

A empresa que fabrica a Ferrero Rocher, Nutella, Baby Ruth, Butterfinger e as barras Crunch disse que o cacau que obtém da OFI através do grupo de agricultores “Ore Agbe Ijebu” é verificado pelo organismo certificador Control Union.

O organismo com sede nos Países Baixos afirmou ter avaliado uma amostra de explorações agrícolas em conformidade com as próprias políticas de sustentabilidade da OFI e que

“Os critérios e protocolos específicos estabelecidos no exercício de verificação são definidos pela OFI”.

A Control Union disse que não divulgará os resultados à AP, invocando a privacidade.

MARS:

A empresa afirma que os seus fornecedores seguem as normas de política de desflorestação da Mars e que está empenhada em garantir que;

“100% do nosso cacau é obtido de forma responsável a nível global e identificável a partir do primeiro ponto de compra, até ao ano de 2025”.

Afirma que as explorações agrícolas que fazem parte do seu programa de Cacau Obtido de Forma Responsável são “esperadas” serem mapeadas, permitindo que a empresa por trás das marcas Snickers, M&Ms, Dove, Twix e Milky Way responsabilize os fornecedores se ocorrer alguma suspeita de desflorestação.

A Mars afirma que as suas descobertas preliminares mostram que nenhuma das explorações agrícolas mapeadas se sobrepõe à reserva.

GENERAL COCOA:

Jean-Baptiste Lescop, secretário-geral do Grupo Sucden, afirma que a empresa gere os riscos para a conservação florestal através da obtenção de cacau certificado pela Rainforest Alliance.

Por seu lado, mapeia as explorações agrícolas e utiliza imagens de satélite, para o verificar, mas que é um “processo complexo” porque a maioria dos agricultores na Nigéria não tem documentos oficiais de propriedade de terra.

A empresa investiga relatos de problemas e está a trabalhar numa resposta às conclusões da AP sobre a Starlink, disse ele.

RITTER SPORT:

A empresa de chocolate alemã obtém cacau da Nigéria e utiliza a Olam, mas não divulgou as localizações específicas onde obtém os seus fornecimentos na Nigéria. Disse à AP que a Olam confirmou que os seus fornecimentos vêm de fora de florestas desflorestadas.

 

Impacto Ambiental

Imagem © Sunday Alamba (20231220) Chocolate Os Nexos Do Cultivo Ilegal de CacauA Reserva Florestal de Omo, uma floresta tropical vital e um sumidouro de carbono vital para o planeta, enfrenta graves invasões de cultivo ilegal de cacau. Apesar das declarações governamentais sobre despejos e fiscalização, a supervisão frouxa, a corrupção e a falta de documentos oficiais de propriedade contribuem para o cultivo ilegal persistente.

Com a União Europeia a promulgar regulamentações sobre produtos livres de desflorestamento, a pressão sobre as empresas para comprovar a obtenção responsável está a aumentar.

Peritos do Instituto de Pesquisa do Cacau da Nigéria estão a lançar o ” Trace Project” em seis estados do Sul, embora não inclua o estado de Ogun, onde se localiza a Reserva Florestal de Omo, para avançar nos esforços contra a desflorestação na produção de cacau e garantir que o cacau da Nigéria não seja rejeitado na Europa.

À medida que a procura global por chocolate aumenta, os especialistas pedem uma fiscalização mais rigorosa e medidas transparentes na cadeia de abastecimento de cacau para preservar as florestas tropicais vitais e garantir práticas éticas.

 

Conclusão

Esta investigação destaca a urgente necessidade de medidas regulatórias mais fortes, cooperação global e responsabilidade da indústria para proteger ecossistemas ameaçados e garantir os direitos humanos dos dependentes da produção de cacau.

Diante destes desafios, a pergunta persiste: Será que a indústria do chocolate pode realmente garantir a obtenção ética e sustentável de cacau, ou é uma promessa agridoce em meio à crescente procura global por chocolate?

 

O que achas deste escândalo no mundo do chocolate? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2017 Jan Pietruszka / depositphotos
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