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Toggle11 de Setembro O Dia Que Mudou O Mundo
O 11 de Setembro completa hoje 25 anos e permanece como uma ferida aberta entre a memória das vítimas, a narrativa construída pelas instituições dos Estados Unidos da América (EUA) e as perguntas sem resposta. Quase três mil pessoas morreram naquele dia. A investigação oficial atribuiu os ataques à al-Qaeda e identificou 19 sequestradores, mas as falhas reconhecidas pelo Estado alimentaram dúvidas persistentes.
A Comissão criada para investigar os atentados reconheceu falhas graves na partilha de informações, na interpretação dos sinais existentes e na capacidade de resposta do Estado. Os familiares das vítimas organizaram-se para exigir esclarecimentos sobre a CIA, o FBI, a FAA, o NORAD e a Casa Branca.
Depois do 11 de Setembro começou uma era de guerras, programas de contraterrorismo, novas alianças militares e prioridades de segurança que atravessaram continentes. O Afeganistão foi invadido ainda em 2001 e o Iraque seguiu-se em 2003. A vigilância expandiu-se e a tortura regressou às práticas do Estado em nome da segurança.
Em África essa resposta militar redefiniu relações de segurança, soberania e poder. Vinte e cinco anos depois, algumas das frentes mais violentas do jihadismo encontram-se no Sahel, na Somália, na bacia do Lago Chade e no norte de Moçambique
O Dia Disputado
A versão oficial do 11 de Setembro assenta numa investigação que identificou 19 homens ligados à al-Qaeda como autores dos sequestros. O FBI reconstruiu viagens, contactos e movimentos financeiros. A Comissão descreveu uma operação concebida por Khalid Sheikh Mohammed e aprovada por Osama bin Laden. O problema, porém, começou antes dos ataques e envolve falhas que as próprias instituições reconheceram.
A Comissão concluiu que a CIA e o FBI falharam na circulação de informações sobre Khalid al-Mihdhar e Nawaf al-Hazmi. Ambos tinham ligações conhecidas à al-Qaeda e entraram nos EUA antes de 11 de Setembro. Apesar disso, a informação disponível não circulou de forma eficaz entre os serviços responsáveis, o que impediu que os sinais fossem reunidos a tempo.
Também não é correcto afirmar que ninguém tinha imaginado aviões utilizados como armas. O relatório da Comissão regista que o NORAD havia considerado essa possibilidade em exercícios anteriores. Embora a considerasse improvável, a FAA conhecia a possibilidade de um sequestro suicida. O cenário, portanto, não era desconhecido dentro do aparelho de segurança norte-americano antes dos ataques.
Na própria manhã de 11 de Setembro, o NEADS participava no exercício Vigilant Guardian. Quando chegou o primeiro aviso real, houve pessoal que perguntou se a informação fazia parte do exercício. A coincidência tornou-se relevante porque a defesa aérea teve de distinguir uma simulação de uma ameaça verdadeira enquanto recebia dados incompletos sobre o que estava a acontecer.
A defesa aérea dispunha de meios, protocolos e pessoal mobilizado, mas reagiu tarde e com informação insuficiente. Os EUA conheciam nomes, rotas, contactos e ameaças anteriores e tinham estudado cenários semelhantes. Ainda assim, quatro aviões escaparam ao sistema durante tempo suficiente para atingirem os seus alvos. Foi nesse contraste entre capacidade disponível e fracasso operacional que a desconfiança encontrou espaço para crescer.
Perguntas das Famílias
As famílias das vítimas recusaram que o 11 de Setembro ficasse encerrado em cerimónias ou versões institucionais sem respostas para as falhas identificadas. O Family Steering Committee nasceu dessa pressão e ajudou a criar uma comissão independente. Mais tarde, o grupo apresentou perguntas dirigidas ao Presidente, ao Vice-Presidente, à CIA, ao FBI, à FAA e ao NORAD.
Entre as questões estavam a circulação deficiente de informações sobre suspeitos conhecidos, os avisos recebidos durante o Verão de 2001 e a resposta militar na manhã dos ataques. O Comité questionou ainda contactos estrangeiros, fontes de financiamento, relações sauditas e relatos sobre Osama bin Laden. Para muitos familiares, várias respostas permaneceram incompletas.
Uma das perguntas referia uma notícia publicada em França segundo a qual Bin Laden teria passado por um hospital no Dubai meses antes dos ataques e recebido a visita de um agente da CIA. O relato foi negado pelas partes, mas permaneceu entre as questões que as famílias queriam ver esclarecidas. O Comité também perguntou quem autorizara a saída de familiares de Bin Laden e de cidadãos sauditas dos EUA.
Outra frente de contestação concentrou-se nos colapsos das Torres Gémeas e do edifício 7. O NIST atribuiu-os aos impactos, aos incêndios e às falhas estruturais progressivas. Apesar dessa explicação, continuaram a circular suspeitas de implosão entre críticos da investigação oficial. A instituição reconheceu não ter testado o aço das Torres para resíduos de explosivos ou termite, decisão que alimentou críticas.
As perguntas das famílias ganharam peso porque nasceram da perda. Os familiares pediam cronologias consistentes, documentos acessíveis, testemunhos sob juramento e responsabilidades identificadas. No centro dessa pressão estava uma questão essencial: quem sabia o quê, quando soube e como reagiu? Perante uma falha de tamanha dimensão, a transparência tornou-se parte indispensável da responsabilidade pública.
A Guerra Vendida
A utilização política do 11 de Setembro tornou-se particularmente evidente no caminho para a guerra do Iraque. A Administração Bush apresentou Saddam Hussein como parte de uma ameaça terrorista e sugeriu relações com a al-Qaeda. Em 2008, o Senado concluiu que essas declarações não eram sustentadas pelas informações disponíveis, agravando as dúvidas sobre a forma como a guerra tinha sido justificada.
A Comissão do 11 de Setembro também não encontrou uma relação entre o Iraque e a al-Qaeda na preparação de ataques contra os EUA. Ainda assim, o ambiente político criado depois de 2001 ajudou a tornar possível a invasão de 2003. O medo passou a influenciar decisões públicas e serviu para legitimar medidas que, noutro contexto, teriam enfrentado maior resistência.
Vieram depois Guantánamo, as prisões secretas, a tortura, as detenções indefinidas e uma vigilância muito mais ampla. Abu Ghraib expôs abusos cometidos sob a bandeira da segurança. Os direitos humanos passaram a ser tratados como obstáculos e os suspeitos como ameaças permanentes. A guerra contra o terrorismo afastava-se progressivamente do combate directo à al-Qaeda.
Quando um Governo apresenta como certas informações que depois se revelam frágeis ou falsas, a sua credibilidade sofre para além da decisão concreta em causa. Foi isso que aconteceu com o Iraque. A perda de confiança contaminou também a leitura de decisões anteriores e reforçou a suspeita em torno das justificações usadas para ampliar o poder do Estado depois dos ataques.
O 11 de Setembro deixou de ser apenas um acontecimento norte-americano e tornou-se fundamento de uma arquitectura de segurança internacional. Governos passaram a enquadrar conflitos internos como partes de uma batalha mundial contra o terrorismo. Em África essa lógica encontrou Estados e elites interessadas em apoio militar externo, deslocando para a segurança problemas ligados à governação e à desigualdade.
África “Em Segurança”
Em 2002, Washington lançou a Pan-Sahel Initiative para apoiar o Mali, o Níger, o Chade e a Mauritânia no controle das fronteiras, na formação das forças de segurança e no combate ao terrorismo. Depois do 11 de Setembro, o Sahel entrou na estratégia norte-americana de contraterrorismo. Em 2005, a iniciativa foi ampliada para a Parceria Trans-Saariana de Contraterrorismo.
Dois anos depois, a Administração Bush criou o AFRICOM. O comando tornou-se plenamente operacional em Outubro de 2008. A partir daí, o treino, a inteligência, as operações especiais e a cooperação de segurança ganharam peso nas relações entre Washington e vários governos africanos. O jihadismo africano, porém, não nasceu dessas políticas nem pode ser explicado apenas pela influência externa.
As insurgências desenvolveram-se também em contextos marcados por fronteiras frágeis, disputas por terra, desigualdade, contrabando, marginalização e abusos cometidos pelo Estado. A militarização externa alterou prioridades sem resolver essas causas. O Mali recebeu apoio militar durante anos, mas sofreu golpes em 2012, 2020 e 2021. O Burkina Fasso teve dois golpes em 2022 e o Níger outro em 2023.
Os militares que tomaram o poder apresentaram a incapacidade dos governos anteriores para travar a violência jihadista como uma das razões para a ruptura. Depois, as alianças também mudaram: forças francesas saíram de vários países e a Rússia ganhou espaço na cooperação militar. Apesar dessas mudanças, a violência persistiu e a disputa pela soberania tornou-se ainda mais complexa.
Uma potência estrangeira pode treinar soldados e fornecer armas, mas não substitui as funções de um Estado. Tribunais, hospitais e administrações são indispensáveis para criar confiança tal como escolas e estradas. Quando a presença estatal se resume sobretudo às forças armadas, cada abuso pode aprofundar a desconfiança e facilitar o recrutamento por grupos que prometem ordem, protecção ou justiça através da violência.
Jihadismo Africano
Entre meados de 2025 e meados de 2026, a violência ligada a grupos militantes islamistas provocou 23.872 mortes em África, segundo o Africa Center for Strategic Studies. Foi o quarto ano consecutivo com mais de 20 mil mortes causadas por este tipo de violência no continente. O Sahel concentrou 42% do total, tornando-se a região africana mais afectada.
Só no Sahel foram registadas 9.928 mortes associadas a esses grupos. O JNIM ligado à al-Qaeda expandiu a sua presença no Mali, no Burkina Fasso e no Níger. Na Somália, o al-Shabaab combina a guerra com tributação, administração coerciva e atentados. Na bacia do Lago Chade, outras redes mantêm uma frente persistente e desafiam os Estados da região.
No norte de Moçambique, Cabo Delgado mostra como uma insurgência local pode ligar-se a redes jihadistas sem deixar de depender de condições internas. O conflito cresceu num território marcado pela desigualdade, pela fraca presença do Estado, por disputas em torno dos recursos e pela frustração social. A ligação internacional ampliou redes e contactos, mas encontrou problemas locais anteriores.
Os estudos sobre recrutamento ajudam a compreender essa relação. Uma investigação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento concluiu que 71% dos recrutados que identificaram um acontecimento decisivo apontaram uma acção do Governo, como a morte ou a detenção de familiares e amigos. O dado mostra como os abusos estatais podem transformar revolta e medo em terreno favorável ao recrutamento.
A al-Qaeda perdeu dirigentes e capacidade, mas a lógica jihadista tornou-se mais descentralizada. Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, África tornou-se uma frente do jihadismo e do contraterrorismo. A experiência do Sahel, da Somália, da bacia do Lago Chade e de Moçambique mostra que as operações militares não bastam quando o Estado não consegue assegurar justiça, serviços públicos e confiança às populações.
Conclusão
Passados 25 anos sobre o 11 de Setembro de 2001, o mundo continua a viver com as consequências daquele dia. As famílias das vítimas deixaram perguntas que sobreviveram às comissões e aos relatórios. A guerra do Iraque mostrou como o medo podia ser usado para justificar decisões com efeitos muito para além dos EUA.
Em África esse legado assumiu outra forma. A cooperação militar, as novas alianças e uma leitura cada vez mais centrada na segurança passaram a conviver com exclusão, desigualdade, fragilidade institucional e Estados incapazes de assegurar uma presença efectiva em vastos territórios.
A guerra contra o terrorismo destruiu dirigentes e desmantelou organizações, mas não eliminou as condições que permitem que novas redes ocupem o espaço deixado para trás. Enquanto a resposta militar não for acompanhada de justiça, confiança, serviços públicos e instituições capazes de funcionar, a segurança continuará incompleta e o jihadismo continuará a encontrar espaço onde o Estado falha.
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Imagem: © 2001 Gulnara Samoilova