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Toggle60 Anos Do Dia Internacional da Alfabetização
O Dia Internacional da Alfabetização assinala-se hoje quando passam 60 anos desde a sua proclamação pela UNESCO, em 1966. Apesar dos progressos registados nas últimas décadas, a humanidade ainda não conseguiu universalizar esta competência elementar: pelo menos 739 milhões de jovens e adultos continuavam sem competências básicas de alfabetização em 2024.
A distância entre saber assinar o nome e conseguir interpretar o mundo escrito tornou-se maior à medida que o emprego, a banca, a saúde, a justiça e os serviços públicos passaram a exigir uma leitura mais autónoma. Quem não domina essas competências enfrenta barreiras para compreender uma receita médica, preencher um formulário ou lidar com informação administrativa sem ajuda de terceiros.
Em 2026, a efeméride é celebrada sob o lema “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”. A atenção volta-se para o progresso alcançado e para aquilo que continua por cumprir, sobretudo em África, onde o crescimento demográfico aumenta a pressão sobre os sistemas educativos e exige respostas capazes de acompanhar milhões de crianças, jovens e adultos.
A Origem da Data
A história desta data começa em Teerão, no Irão, em Setembro de 1965. Ministros da Educação reunidos no Congresso Mundial para a Erradicação do Analfabetismo defenderam uma mobilização internacional permanente. O encontro recomendou que 8 de Setembro fosse dedicado à alfabetização e incentivasse respostas coordenadas entre os Estados contra um problema de dimensão mundial.
Durante a 14.ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris no ano seguinte, a organização proclamou formalmente o Dia Internacional da Alfabetização. A decisão ficou inscrita na Resolução 1.441 e reconheceu o analfabetismo como um obstáculo ao desenvolvimento social e económico, colocando a alfabetização entre as responsabilidades da cooperação internacional.
A iniciativa ganhou dimensão internacional quando o Conselho Económico e Social das Nações Unidas lhe deu novo respaldo institucional. Através da Resolução 1276 (XLIII), adoptada em 4 de Agosto, o organismo tomou conhecimento da decisão da UNESCO e apelou à comunidade internacional para prosseguir uma campanha universal destinada a combater o analfabetismo.
A primeira comemoração internacional transformou a decisão institucional numa mobilização pública dedicada à educação e ao acesso à palavra escrita. Desde então, o 8 de Setembro tornou-se uma ocasião para avaliar os progressos alcançados e recordar os obstáculos persistentes. Em 2026, a efeméride assinala 60 anos desde a sua proclamação pela UNESCO.
A origem da efeméride revela uma preocupação que sempre ultrapassou os limites da escola. A alfabetização foi associada ao desenvolvimento, à participação social e ao exercício dos direitos individuais e colectivos. Essa relação permanece: saber ler e escrever condiciona a capacidade de compreender instituições, tomar decisões e participar com autonomia na vida da sociedade.
Progresso Incompleto
Os números revelam uma transformação real. Em 1975, cerca de 65% dos adultos sabiam ler e escrever. Em 2024, a taxa mundial ultrapassava 88%. Entre os jovens dos 15 aos 24 anos, chegava aos 93%. O avanço resulta da expansão da escolarização básica, do investimento público e de gerações com maior acesso à escola do que os seus pais.
Mas a média mundial pode esconder a dimensão do fracasso restante. Pelo menos 739 milhões de jovens e adultos continuam sem competências básicas de alfabetização. O número não representa apenas pessoas fora da escola: inclui também quem passou por sistemas educativos sem adquirir domínio suficiente da leitura e da escrita para responder com autonomia às exigências quotidianas.
Uma pessoa alfabetizada precisa de compreender instruções, interpretar documentos, comparar informação e utilizar a escrita para resolver problemas. As estatísticas que separam alfabetizados de analfabetos mostram apenas parte da realidade. Entre os dois extremos existem competências frágeis ou insuficientes para responder às exigências da vida social, profissional e económica.
A crise começa cedo. A UNESCO indica que quatro em cada dez crianças nos países de rendimento baixo e médio não alcançam a proficiência mínima em leitura. Quando uma criança avança de classe sem compreender adequadamente um texto, a dificuldade acompanha os anos seguintes e reaparece na formação profissional, no emprego e na aprendizagem autónoma.
A alfabetização desenvolve-se ao longo da vida. Aprender a ler na infância é decisivo, mas conservar e ampliar essa capacidade exige livros, informação, trabalho e novas oportunidades de aprendizagem. Onde faltam professores, bibliotecas, materiais e programas para adultos, a leitura pode permanecer limitada em vez de se transformar num instrumento duradouro de participação social e cidadania.
A Fronteira Africana
Na África subsaariana, a contradição entre progresso percentual e crescimento absoluto tornou-se especialmente visível. A taxa de alfabetização dos adultos subiu de 65% em 2015 para 69% em 2024. Apesar disso, o número de adultos sem competências básicas aumentou de 196 milhões para 225 milhões porque o crescimento demográfico avançou mais depressa do que os ganhos educativos.
Este dado mostra a dimensão do desafio. Melhorar a percentagem não basta quando milhões de crianças entram anualmente nos sistemas escolares. Muitos Estados precisam de construir salas, formar professores, distribuir materiais e manter os alunos na escola. O progresso estatístico pode coexistir com uma população excluída maior quando a educação não acompanha o crescimento demográfico.
A desigualdade territorial agrava o problema. As zonas rurais, os territórios afectados por conflitos e as comunidades com serviços públicos frágeis enfrentam maiores dificuldades de acesso à escola. Muitas crianças perdem meses de aprendizagem por deslocação, insegurança, trabalho familiar ou distância. Para os adultos, regressar ao ensino formal pode tornar-se ainda mais difícil.
A língua também pesa. Muitas crianças africanas começam a escolarização numa língua diferente daquela que falam em casa. Quando a transição é mal preparada, aprender a ler implica também aprender outra língua. Os modelos multilingues podem reduzir essa distância quando existem professores preparados, materiais adequados e continuidade no percurso escolar.
Tratar África apenas como uma região de atraso seria uma leitura pobre. O continente reúne experiências distintas, políticas diversas e avanços importantes. O problema está na capacidade desigual dos Estados para transformar o acesso escolar em aprendizagem efectiva. A soberania educativa mede-se também pela capacidade de ensinar as crianças e recuperar os adultos excluídos da escola.
Mulheres e Poder
A desigualdade de género continua visível nos números. Dos 739 milhões de jovens e adultos sem competências básicas de alfabetização, cerca de 466 milhões são mulheres. Quase dois terços pertencem ao sexo feminino, reflexo de décadas de acesso desigual à escola, sobretudo onde a pobreza, o casamento precoce e o trabalho doméstico afastam muitas raparigas do ensino.
A exclusão escolar de uma rapariga prolonga-se muitas vezes pela vida adulta. Uma mulher com dificuldades de leitura pode enfrentar obstáculos para compreender informação de saúde, acompanhar a escolaridade dos filhos, abrir uma conta bancária ou responder a uma oportunidade de emprego. A ausência de alfabetização reduz escolhas e aumenta a dependência perante familiares, empregadores e instituições.
O problema também se manifesta no trabalho. Muitas ocupações exigem a leitura de instruções, normas de segurança, mensagens digitais e registos administrativos. Quem não domina essas tarefas permanece mais exposto aos sectores informais e vulneráveis. A desigualdade educativa transforma-se numa desigualdade económica que limita o rendimento, a progressão profissional e a defesa dos direitos.
A palavra escrita tem igualmente peso político. Compreender um boletim de voto, uma lei, um aviso administrativo ou uma notícia permite formar opinião com maior autonomia. Onde a alfabetização é baixa, os direitos podem existir formalmente sem serem plenamente exercidos. A democracia perde profundidade quando parte da população depende de terceiros para interpretar a informação pública.
Os programas para adultos não podem ser tratados como política secundária. Precisam de horários compatíveis com o trabalho, espaços seguros e materiais ligados à vida quotidiana. Para muitas mulheres, recuperar uma oportunidade educativa significa ganhar autonomia, melhorar as possibilidades de trabalho e participar com maior independência na comunidade e nas instituições.
Alfabetização Digital
A revolução digital acrescentou uma camada à alfabetização. Bancos, serviços públicos, candidaturas de emprego, formação e informação migraram para plataformas electrónicas. Ter acesso à Internet não garante autonomia. O utilizador precisa de ler instruções, reconhecer riscos, distinguir fontes e proteger dados para compreender procedimentos que exigem competências escritas.
Esta mudança tornou a exclusão menos visível. Uma pessoa pode possuir telefone, usar mensagens de voz e participar em redes sociais sem conseguir preencher correctamente um formulário digital ou interpretar as condições de um serviço. A tecnologia pode abrir portas, mas também transferir para o indivíduo tarefas antes explicadas por funcionários, tornando a leitura uma condição prática de acesso.
Quando a leitura é frágil, a digitalização pode transformar conveniência em barreira. A dificuldade deixa de ser apenas a falta de acesso ao aparelho e passa a incluir a incapacidade de compreender formulários, avisos e instruções. Assim, uma ferramenta concebida para simplificar serviços pode aumentar a dependência de terceiros para tarefas básicas do quotidiano.
O compromisso internacional continua inscrito no Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 4. A meta 4.6 estabelece que até 2030 todos os jovens e uma proporção substancial dos adultos devem alcançar competências de alfabetização e numeracia. Restam quatro anos para o prazo. Os dados mostram progressos, mas também a distância que separa o mundo dessa promessa.
A resposta exige políticas para todas as fases da vida. A educação infantil, a qualidade do ensino primário, a formação de professores e a alfabetização de adultos pertencem à mesma cadeia. O tema de 2026 amplia esta responsabilidade, mas nenhuma palavra de ordem substitui escolas funcionais, materiais adequados e políticas duradouras capazes de chegar às populações excluídas.
Conclusão
O Dia Internacional da Alfabetização assinala 60 anos desde a sua proclamação pela UNESCO. A maioria dos adultos do mundo sabe hoje ler e escrever, mas 739 milhões de jovens e adultos continuam sem competências básicas. Em África subsaariana, o número absoluto de adultos afectados aumentou apesar da melhoria das taxas.
Esse contraste mostra que a política educativa precisa de avançar mais depressa do que a demografia e alcançar populações afastadas das oportunidades de aprendizagem. A alfabetização condiciona o acesso ao trabalho, à saúde, aos serviços públicos e à informação, mas também determina até que ponto cada pessoa consegue exercer os seus direitos sem depender de intermediários.
Ler e escrever continua a decidir quem compreende um contracto, acompanha a educação dos filhos, utiliza serviços digitais ou reconhece os seus direitos. O progresso alcançado é inegável, mas permanece insuficiente enquanto milhões de pessoas dependerem de terceiros para compreender a palavra escrita e participar plenamente na vida pública.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos