Iémen: Milhares Fogem Da Guerra Para O Djibuti

Mais de 2.000 pessoas fugiram do Iémen para o Djibuti depois da nova ofensiva houthi na costa do Mar Vermelho. A OIM contabiliza 85.818 deslocados no país e alerta para novas travessias, enquanto os combates se aproximam do Bab el-Mandeb, uma das passagens marítimas mais importantes entre África, Ásia e Europa.

Iémen: Milhares Fogem Da Guerra Para O Djibuti


A guerra no Iémen voltou a empurrar milhares de civis para as estradas e para o mar, com uma consequência directa no Djibuti. A Organização Internacional para as Migrações registou no domingo 85.818 pessoas deslocadas no país, das quais 82.164 desde o início de Setembro.

Mais de 2.000 pessoas atravessaram as águas entre o Iémen e o Djibuti e chegaram a pontos dispersos da costa norte, perto de Obock. A UNICEF registou cerca de 1.400 chegadas em 24 horas e advertiu que mulheres e crianças enfrentam desidratação, calor extremo e falta de água durante a travessia.

A pressão aumentou depois do rápido avanço dos houthis pela costa ocidental. O grupo tomou Mokha e anunciou nesta segunda-feira a captura das ilhas Grande Hanish e Pequena Hanish, no sul do Mar Vermelho. A ofensiva aproximou as forças houthis do Bab el-Mandeb e ampliou a capacidade de ameaçar a circulação marítima.

O estreito separa o Iémen do Djibuti e da Eritreia e constitui a entrada meridional do Mar Vermelho. Navios comerciais continuavam a atravessar a passagem nesta segunda-feira. A crise junta agora deslocação humana, pressão militar e risco acrescido sobre uma rota vital do comércio mundial.


Fuga Pelo Estreito


A deslocação concentra-se nas zonas atingidas pelos combates na costa ocidental do país. Segundo a OIM, Taiz é a província mais afectada, com cerca de 56 mil pessoas deslocadas. Lahj ultrapassa 19 mil e Hodeidah soma mais de oito mil. Aden recebeu ainda mais de 2.500 pessoas, muitas delas deslocadas pela segunda ou terceira vez durante anos de conflito.

Para algumas famílias, a fuga não terminou dentro do Iémen. Barcos seguiram em direcção ao Djibuti e desembarcaram perto de Obock, onde as autoridades mobilizaram a Marinha, as forças de segurança e os serviços de saúde. Os recém-chegados, entre eles mulheres e crianças pequenas, foram encaminhados para Markazi, onde recebem água, alimentação e assistência básica com apoio das Nações Unidas.

A travessia ocorre num corredor que também serve, em sentido contrário, milhares de migrantes do Corno de África que procuram chegar à Península Arábica. A nova saída de civis iemenitas altera temporariamente esse movimento e coloca maior pressão sobre Obock, uma localidade que já desempenha um papel central nas rotas migratórias entre África Oriental e o Iémen.

Ao mesmo tempo, o avanço militar modifica o equilíbrio junto ao estreito. A tomada de Mokha e das ilhas Hanish aumenta a presença houthi nas proximidades das principais rotas de navegação no sul do Mar Vermelho. As novas posições reforçam a capacidade do grupo para exercer pressão sobre o Bab el-Mandeb, embora a circulação comercial continue activa através da passagem marítima.

Navios comerciais continuavam a utilizar o estreito nesta segunda-feira apesar das ameaças houthis contra embarcações sauditas. Uma interrupção mais ampla obrigaria os transportadores a recorrer novamente à rota pelo Cabo da Boa Esperança, com viagens mais longas, custos marítimos superiores e maior pressão sobre os portos e as cadeias de abastecimento em África.


Conclusão


Mais de 2.000 pessoas alcançaram o Djibuti e as agências humanitárias admitem novas chegadas enquanto os combates continuarem. O Governo djibutiano enfrenta uma emergência que combina acolhimento, assistência no mar e apoio a famílias que atravessaram o estreito com poucos bens.

No Iémen, a OIM considera a situação volátil e alerta para dificuldades crescentes de acesso às populações afectadas. Estradas ficaram condicionadas pelos confrontos e as comunicações foram interrompidas em algumas áreas, dificultando a avaliação das necessidades e o envio de ajuda humanitária.

No Bab el-Mandeb, a navegação comercial permanece activa, mas a geografia militar mudou. O avanço houthi sobre a costa e as ilhas próximas aumenta a pressão sobre uma ligação fundamental entre o Índico, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo. Para o Djibuti, essa pressão já deixou de ser apenas estratégica e chegou às praias em barcos com civis em fuga.

 


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Imagem: © 2026 Mohammed Huwais / AFP
Tomas Almeida
Tomas Almeida
Formado em Jornalismo e Relações Internacionais, construiu o seu percurso em redações digitais portuguesas na cobertura de política europeia, crises diplomáticas e grandes acontecimentos globais. Com experiência em dinâmicas de Última Hora e no acompanhamento de cimeiras internacionais, foca a sua escrita na rapidez, clareza e prudência factual, analisando de que forma as decisões tomadas na Europa, Estados Unidos, Ásia e Médio Oriente afetam o continente africano, a lusofonia e as comunidades migrantes.
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