Evangelho Roubado Há 158 Anos Volta À Etiópia?

Um manuscrito iluminado etíope do século XVIII, roubado de Maqdala depois da ofensiva britânica de 1868, reapareceu ligado ao mercado internacional de livros raros. A Etiópia pede a devolução do volume, hoje associado a uma colecção privada europeia, enquanto o negociante sustenta que a posse actual é legal.

Evangelho Roubado Há 158 Anos Volta À Etiópia?


O Evangelho de Gondar voltou a ligar um objecto religioso a uma disputa que atravessa 158 anos de história entre a Etiópia, o Reino Unido e o mercado internacional de património. Produzido em Gondar por volta de 1730-1740, o manuscrito em ge’ez conserva o Evangelho de Lucas e quase todo o de João, além de 235 pinturas da tradição iluminada etíope.

O volume integrou a biblioteca imperial de Tewodros II em Maqdala e foi roubado por Robert Napier, comandante da expedição britânica de 1868, depois da tomada da fortaleza. Nas décadas seguintes circulou por colecções privadas, um museu britânico, negociantes especializados e a colecção Schøyen antes de regressar a mãos privadas.

Em 2026, a casa de livros raros Inlibris expôs o Evangelho de Gondar na Feira Internacional do Livro de Abu Dhabi. A Autoridade Etíope do Património pediu a retirada do manuscrito e a sua repatriação sem condições. A Inlibris recusou, alegando não ter obrigação legal de restituição, mas admitiu uma venda institucional. Fica a questão: quem pode dispor de património obtido através de saque militar?


Livro Sagrado


O manuscrito foi produzido no ambiente artístico da corte de Gondar, provavelmente entre 1730 e 1740, muito antes do reinado de Tewodros II. Foi escrito em ge’ez sobre pergaminho e reúne 218 fólios. A decoração inclui 235 pinturas distribuídas por páginas inteiras e composições menores, num programa visual ligado à narrativa dos Evangelhos e à tradição cristã etíope.

O volume conserva o texto completo de Lucas e quase todo o Evangelho de João. Faltam os últimos 16 versículos de João, mas a interrupção a meio de uma palavra e as folhas em branco seguintes sugerem que o trabalho ficou inacabado. A encadernação em couro vermelho sobre tábuas de madeira conserva elementos dourados e tecido.

A designação “Evangelho de Gondar” descreve melhor a obra do que tratá-la simplesmente como uma Bíblia de Tewodros. O manuscrito foi encomendado para um doador chamado Jonas e só mais tarde entrou na colecção imperial. O seu valor histórico não depende apenas do imperador, porque também documenta práticas de escrita, pintura e devoção do chamado período gondarino.

O livro fazia parte de um conjunto de dois volumes. A outra metade, com os Evangelhos de Mateus e Marcos, encontra-se hoje na Biblioteca Estatal da Baviera, em Munique. A separação física ajuda a perceber como a circulação de património pode fragmentar uma obra concebida como unidade, deixando partes da mesma história material em países e regimes de propriedade diferentes.

É por isso que o conflito actual não cabe apenas na etiqueta de “livro raro”. Para a Etiópia, trata-se de património religioso, artístico e documental ligado à Igreja Ortodoxa Tewahedo e à memória imperial. Para o mercado antiquário, o mesmo objecto pode aparecer como peça coleccionável com proveniência extensa. A tensão começa precisamente nessa mudança de linguagem e de função.


Maqdala Saqueada


Em 1868, uma força britânica enviada para libertar reféns mantidos por Tewodros II avançou sobre Maqdala, no norte da Etiópia. A expedição, comandada por Robert Napier, culminou no assalto de 13 de Abril. Tewodros suicidou-se para evitar a captura. Nos dias seguintes, as tropas britânicas e indianas retiraram manuscritos, objectos litúrgicos, insígnias e bens da residência imperial e das igrejas.

O saque não foi um episódio lateral da campanha. Parte dos bens retirados foi reunida por um comité militar e vendida numa chamada “venda de prémios” na planície de Dalanta, nos dias 20 e 21 de Abril. O produto foi distribuído entre oficiais e soldados. Instituições britânicas adquiriram então peças que ainda hoje identificam como provenientes de Maqdala.

O Evangelho de Gondar seguiu uma rota própria dentro desse movimento. O registo de proveniência publicado pela Inlibris coloca o volume na posse de Napier depois da batalha. Mais tarde passou para William Robert Seymour Vesey Fitzgerald, antigo governador de Bombaim, antes de entrar no comércio de livros raros no fim do século XIX e seguir para outras colecções.

Tewodros também reuniu manuscritos e objectos provenientes de igrejas e cidades etíopes durante as suas campanhas internas, sobretudo em Gondar, para formar a biblioteca e o tesouro de Maqdala. Esse percurso anterior não apaga o saque britânico de 1868, mas impede uma narrativa simples em que todos os objectos tinham uma única origem local.

A diferença essencial está no modo como o manuscrito deixou a Etiópia. A sua saída não resultou de uma venda voluntária do Estado etíope ou de uma transferência negociada com instituição estrangeira. O livro entrou numa cadeia internacional depois de uma operação militar e de uma pilhagem hoje reconhecida pelos próprios museus britânicos ao reverem a proveniência das colecções de Maqdala.


Rota Europeia


Depois de Napier e Fitzgerald, o Evangelho passou por Bernard Quaritch até chegar à colecção do reverendo Rodwell por volta de 1887. Mais tarde integrou o Pitt-Rivers Museum de Farnham, Sussex e saiu da sua colecção em Novembro de 1990. A partir daí voltou ao circuito privado, num percurso documentado por negociantes e marcas de posse preservadas no volume.

No fim de 1990, o livro entrou na colecção do empresário norueguês Martin Schøyen, onde recebeu o número MS 697. Saiu desse acervo em 2002 e passou depois pela biblioteca do empresário britânico Paul Ruddock entre 2005 e 2017. A proveniência inclui ainda o negociante Sam Fogg e termina, por agora, numa colecção privada europeia não identificada.

Em Setembro de 2026, a Inlibris incluiu o manuscrito no catálogo da Feira Internacional do Livro de Abu Dhabi, entre os dias 13 e 18. O valor associado ronda 250 mil, mas os relatos divergem quanto à moeda, entre euros e dólares. No fecho da feira, a ficha comercial estava disponível mediante consulta, sem preço público.

A própria natureza da oferta tornou-se parte da disputa. O responsável da Inlibris disse que o manuscrito não estava a ser vendido directamente na feira e descreveu a presença no evento como expositiva. Ao mesmo tempo, a empresa afirmou estar disponível para considerar uma proposta institucional por um valor preferencial. A Etiópia rejeitou a ideia de recomprar um objecto que considera saqueado.

O reaparecimento comercial agrava o problema porque pode levar novamente o livro para uma colecção privada. Cada venda acrescenta um proprietário sem resolver a origem da posse e pode afastar o manuscrito do acesso público e da investigação. Para Addis Abeba, esse risco torna a disputa imediata e não apenas histórica.


Propriedade e Saque


A controvérsia sobre o Evangelho exige separar duas perguntas. A primeira é quem detém um título de propriedade reconhecido pelas regras aplicáveis à actual colecção e ao mercado onde o manuscrito circula. A segunda é saber se a origem dessa propriedade, iniciada depois do saque de 1868, cria uma obrigação histórica, ética ou política de devolver o objecto à Etiópia.

A Inlibris sustenta que não existem fundamentos legais que obriguem o actual proprietário a entregar o manuscrito. A empresa apoia-se na sucessão de proprietários e na distância temporal entre a campanha de Maqdala e as normas internacionais sobre património cultural.

Essa posição apresenta a posse contemporânea como juridicamente regular sem negar que o volume saiu de Maqdala depois da ofensiva britânica. A Autoridade Etíope do Património segue outra linha. O organismo pediu que a venda fosse suspensa e que se iniciasse uma repatriação sem condições, invocando razões morais e éticas.

O argumento concentra-se na aquisição original: um bem retirado durante uma acção militar não perderia a ligação ao território apenas porque atravessou sucessivas transacções privadas durante mais de um século. O direito internacional contemporâneo não oferece resposta automática para todas as remoções antigas.

A Convenção da UNESCO de 1970 criou mecanismos contra a importação, exportação e transferência ilícitas de bens culturais, mas não tem aplicação retroactiva. Muitos casos anteriores dependem de legislação nacional, acordos bilaterais, decisões voluntárias de proprietários ou museus e negociações orientadas por princípios éticos de restituição.

A ausência de obrigação jurídica simples não torna o debate histórico irrelevante. Obriga a discutir duas legitimidades: a do título de posse apresentado e a da reivindicação de uma comunidade política e religiosa sobre um objecto retirado em contexto de guerra. É nesse intervalo entre a lei actual e a proveniência que a restituição se torna uma negociação sobre soberania cultural.


Restituição Aberta


A Etiópia reclama objectos de Maqdala há gerações. Em 1872, o imperador Yohannes IV pediu a devolução de peças retiradas pela expedição britânica. Desde então, algumas regressaram por decisões de governos, instituições, coleccionadores e compradores. Sem uma única via jurídica, a restituição ocorreu por negociação, doação ou aquisição destinada ao retorno.

Em 2021, objectos de Maqdala regressaram à Etiópia depois de uma fundação privada os ter adquirido para esse fim. Também peças destinadas a leilão no Reino Unido foram retiradas após intervenção etíope e um acordo permitiu o retorno. Esses precedentes mostram que o mercado pode ser o lugar onde o património reaparece e onde uma restituição se torna possível.

Os museus britânicos passaram a rever com detalhe a proveniência das colecções etíopes. O Victoria and Albert Museum reconhece que grande parte dos seus objectos da Etiópia está relacionada com a expedição de 1867-1868 e descreve a pilhagem de Maqdala. O British Museum identifica igualmente peças compradas na venda militar do saque e manuscritos transferidos para a British Library.

Essa revisão de linguagem tem consequências. Quando uma instituição deixa de apresentar um objecto apenas como “adquirido” e passa a registar que foi pilhado, o debate altera-se mesmo que a propriedade não mude. A proveniência deixa de ser nota técnica e torna-se parte da interpretação do património, revelando quem exerceu poder no momento em que a peça mudou de mãos.

O Evangelho de Gondar chega a esta fase com simbolismo porque junta fé, arte, arquivo e mercado no mesmo objecto. A questão etíope não é apenas onde o manuscrito ficará guardado. É quem poderá decidir o seu destino, quem contará a história da circulação e se uma cadeia de vendas iniciada pela violência militar pode continuar a definir a soberania sobre a obra.


Conclusão


O destino do Evangelho de Gondar permanece aberto no fim da Feira Internacional do Livro de Abu Dhabi. A Etiópia exige a sua retirada do comércio e a repatriação, enquanto a Inlibris mantém que o actual proprietário não está juridicamente obrigado a entregá-lo e admite uma negociação comercial. A distância entre essas posições resume um problema maior do que o preço pedido.

O manuscrito chegou ao mercado depois de atravessar guerra, colecções privadas, um museu, negociantes e bibliotecas particulares. A cadeia posterior pode ser documentada com precisão, mas não altera o ponto decisivo de 1868: o volume deixou Maqdala após a tomada britânica e entrou desde então num circuito estrangeiro de propriedade.

A disputa contemporânea pergunta se esse facto deve continuar a ser apenas uma linha de proveniência ou se deve produzir uma mudança material de custódia.

 


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Imagem: © 2026 Inlibris
Nádia Monteiro
Nádia Monteiro
Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu o seu percurso no espaço da lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema e património africano. Com experiência no acompanhamento de festivais, exposições e projetos de criadores da diáspora, aborda a cultura sem exotismo, dedicando-se à análise das obras, das línguas e da circulação do valor simbólico da criação artística contemporânea.
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