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TogglePAIGC Faz 70 Anos Entre A Guiné E Cabo Verde
O PAIGC completa hoje, 19 de Setembro, 70 anos com uma celebração que acompanha a geografia da sua história. O acto central anunciado para Lisboa, na Casa do Alentejo, reúne dirigentes históricos, investigadores, jovens e representantes de forças políticas convidadas, enquanto outras iniciativas decorrem fora da Guiné-Bissau. A escolha da capital portuguesa confere ao aniversário uma dimensão que ultrapassa a agenda partidária do presente.
Fundada em 1956, a organização nasceu com um horizonte comum para a então Guiné Portuguesa e Cabo Verde. Sob a liderança de Amílcar Cabral, esse projecto transformou-se numa luta anticolonial que combinou a mobilização política, a diplomacia, a guerra e a criação de estruturas sociais nas zonas administradas pelo movimento. A Guiné-Bissau proclamou a independência em 1973 e Cabo Verde tornou-se independente em 1975.
O projecto de unidade entre os dois territórios terminou depois do golpe de Estado de 1980 em Bissau, mas a separação partidária não apagou a memória partilhada. Sete décadas depois, essa herança permanece em arquivos, livros, testemunhos, cerimónias e debates sobre a forma como duas sociedades distintas participaram numa mesma organização de libertação e seguiram depois percursos nacionais próprios.
Origem Comum
A data de 19 de Setembro de 1956 tornou-se o marco da fundação do PAIGC em Bissau. A narrativa oficial associa o encontro a Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Júlio de Almeida, Fernando Fortes e Elisée Turpin. O propósito era organizar, sob uma direcção política comum, a luta pela independência da Guiné e de Cabo Verde nos dois territórios então coloniais.
A memória desse início não é inteiramente linear. Investigações históricas baseadas em testemunhos posteriores registam diferenças sobre os participantes na reunião fundadora e sobre o momento exacto em que a sigla PAIGC substituiu a designação PAI. Essas divergências não anulam a data comemorada, mas mostram as dificuldades deixadas pela clandestinidade e por arquivos incompletos.
A ligação entre a Guiné e Cabo Verde tinha raízes no próprio espaço colonial português. Cabo-verdianos desempenharam funções administrativas na Guiné, enquanto famílias, trabalhadores e estudantes circularam entre os dois territórios e Portugal. Cabral nasceu em Bafatá, filho de cabo-verdianos, estudou no arquipélago e em Lisboa e regressou à Guiné como engenheiro agrónomo antes da actividade política.
O projecto comum procurava transformar essa circulação numa unidade de luta sem apagar diferenças entre as duas sociedades. A Guiné tinha uma população maioritariamente africana e rural, marcada por várias comunidades e línguas. Cabo Verde apresentava uma formação insular, crioula e diaspórica distinta. A unidade defendida pelo PAIGC era, por isso, uma construção política e não uma identidade simples.
Essa origem ajuda a compreender a dimensão cultural do aniversário nos dois países. A fundação criou uma linguagem de libertação expressa em símbolos, canções, discursos, jornais e práticas de educação política. A memória do PAIGC formou-se entre territórios diferentes ligados por uma experiência colonial portuguesa e por um objectivo de soberania que, naquela altura, ainda estava por conquistar.
Luta Armada
A passagem da organização clandestina para a luta armada não ocorreu de imediato. Em 3 de Agosto de 1959, a greve dos trabalhadores do porto de Pidjiguiti foi reprimida de forma letal pelas autoridades coloniais. O episódio tornou-se decisivo na memória nacionalista e reforçou nos dirigentes a convicção de que a acção política enfrentava limites severos sob o domínio português.
Nos anos seguintes, o PAIGC instalou a sua direcção em Conacri e alargou a mobilização. A luta armada começou em 23 de Janeiro de 1963 com o ataque ao quartel de Tite, no sul da Guiné. O conflito concentrou-se no território guineense, enquanto em Cabo Verde a actividade anticolonial permaneceu sobretudo clandestina devido à condição insular e ao contexto local.
A guerra não se limitou ao confronto militar. Nas áreas administradas pelo PAIGC foram criadas escolas, estruturas sanitárias, formas de justiça e circuitos de abastecimento. Esses espaços serviam como embriões de uma futura administração e também como instrumentos de mobilização. A educação assumiu um lugar central na alfabetização e na preparação de quadros destinados à luta e ao Estado independente.
Essa dimensão explica o legado cultural de Amílcar Cabral. O dirigente entendia a libertação como uma transformação política e cultural e recusava reduzi-la à substituição da bandeira colonial. Os seus discursos e textos ligaram a cultura, a consciência e a soberania, numa formulação que continuou a ser estudada na Guiné-Bissau, em Cabo Verde e em meios académicos internacionais.
A luta produziu tensões internas, perdas humanas e disputas sobre o poder, a identidade e a representação. A unidade guineense e cabo-verdiana defendida pela direcção não suprimiu diferenças nem ressentimentos dentro do movimento. O assassinato de Amílcar Cabral em Conacri, a 20 de Janeiro de 1973, retirou ao PAIGC a sua figura central poucos meses antes da proclamação da independência guineense.
Duas Independências
Quando Amílcar Cabral foi assassinado, a luta encontrava-se numa fase avançada. O PAIGC prosseguiu a organização política e convocou a Assembleia Nacional Popular nas zonas sob a sua administração. Em 24 de Setembro de 1973, na região de Madina do Boé, foi proclamada unilateralmente a República da Guiné-Bissau, antes de Portugal aceitar formalmente o fim da soberania colonial sobre o território.
O reconhecimento português chegou depois da Revolução de 25 de Abril de 1974. O Acordo de Argel, assinado em 26 de Agosto pelo Governo português e pelo PAIGC, fixou 10 de Setembro para o reconhecimento da República da Guiné-Bissau. O documento estabeleceu o cessar-fogo e enquadrou a retirada das forças portuguesas, abrindo outra etapa nas relações entre os dois Estados.
Cabo Verde seguiu um percurso diferente. A luta armada não se instalou no arquipélago e a transição acelerou após a queda do regime português. Em 5 de Julho de 1975, Cabo Verde tornou-se independente sob a direcção do PAIGC. Aristides Pereira assumiu a Presidência e Pedro Pires chefiou o Governo, num quadro orientado pelo projecto de unidade com a Guiné-Bissau.
A existência de dois Estados não significou o abandono imediato da aproximação política. A organização conservou o mesmo nome e a sua herança nos dois países, embora cada território tivesse instituições próprias. A unidade projectada por Cabral permaneceu como horizonte, condicionada por diferenças históricas, sociais e administrativas que as independências tornaram mais visíveis em vez de as fazer desaparecer.
As duas independências inscreveram o PAIGC na história do fim do colonialismo português em África. A sua trajectória cruzou-se com as lutas de Angola e Moçambique e com redes africanas e internacionais de solidariedade. O arquivo político, intelectual, cultural e diplomático do partido ultrapassa as fronteiras da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e continua a alimentar a investigação histórica.
Unidade Desfeita
O projecto de unidade entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde terminou em 14 de Novembro de 1980. Um golpe de Estado liderado pelo primeiro-ministro João Bernardo Vieira derrubou o Presidente Luís Cabral em Bissau e instalou um Conselho da Revolução. A mudança de poder atingiu directamente a estrutura comum que o PAIGC mantinha nos dois Estados desde as independências.
As razões do golpe continuam discutidas pela historiografia. Os novos dirigentes guineenses invocaram críticas à presença cabo-verdiana nas estruturas de poder e divergências institucionais. Estudos posteriores destacaram também disputas internas, tensões entre dirigentes e problemas sociais e económicos. Reduzir 1980 a uma única causa apagaria a complexidade dos conflitos acumulados desde o período da luta de libertação.
Em Cabo Verde, a ruptura foi considerada incompatível com a continuidade do partido comum. A ala cabo-verdiana autonomizou-se e criou, em Janeiro de 1981, o Partido Africano da Independência de Cabo Verde, o PAICV. O PAIGC permaneceu na Guiné-Bissau. A partir desse momento, o mesmo passado anticolonial passou a ser preservado por organizações diferentes e por Estados com trajectórias políticas próprias.
A separação não desfez todos os vínculos de memória. Amílcar Cabral permaneceu presente nos dois países através de escolas, monumentos, arquivos, edições e investigação académica. O mesmo sucede com figuras como Aristides Pereira, Luís Cabral e Pedro Pires, cujos percursos atravessam fronteiras nacionais. A história comum sobrevive sobretudo como património partilhado e discutido e não como programa de união estatal.
Essa transformação é decisiva para ler os 70 anos sem confundir a memória histórica com a fidelidade partidária. O PAIGC de 2026 integra o sistema político guineense, enquanto Cabo Verde seguiu um percurso institucional próprio. A herança de 1956 envolve dois processos de independência e experiências sociais diferentes, além de uma discussão prolongada sobre a unidade, a soberania e a identidade.
Aniversário no Exterior
Sete décadas depois, as comemorações regressam a uma geografia de circulação. A Casa do Alentejo, em Lisboa, foi anunciada como palco principal das cerimónias de 19 de Setembro, com dirigentes históricos, académicos, investigadores, jovens e representantes políticos convidados. O programa integra um ciclo iniciado em Abril na capital portuguesa e inclui outras actividades realizadas fora da Guiné-Bissau.
A concentração das celebrações no exterior ganha peso perante a situação na Guiné-Bissau. Em 26 de Novembro de 2025, militares tomaram o poder, suspenderam o processo eleitoral e detiveram dirigentes. A União Africana e a ONU condenaram a ruptura da ordem constitucional. Depois, o PAIGC declarou dificuldades de acesso à sua sede nacional e realizou reuniões por via digital.
Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, chegou a Lisboa em Julho depois de a justiça militar ter suspendido a prisão preventiva para permitir tratamento médico. O acto central deste aniversário foi anunciado com uma intervenção sua. A presença do dirigente em Portugal confere uma dimensão política à efeméride, embora os 70 anos remetam para uma história anterior às disputas partidárias do presente.
Lisboa ocupa há muito um lugar ambivalente nesta memória. Foi a capital do poder colonial contra o qual o PAIGC se organizou, mas também uma cidade de formação e encontro para várias gerações africanas, além de lugar de exílio. Hoje acolhe comunidades guineenses e cabo-verdianas, arquivos, associações e espaços onde a história anticolonial continua a ser estudada, discutida e transmitida.
Celebrar 70 anos longe de Bissau transforma a distância num dado histórico e não apenas numa circunstância logística. A diáspora converte-se num espaço de memória, enquanto a ausência do centro guineense recorda a ruptura institucional recente. Entre Lisboa, Bissau e Praia, o aniversário coloca a questão de como preservar uma história comum sem apagar as diferenças que sempre fizeram parte dela.
Conclusão
Aos 70 anos, o PAIGC permanece ligado a uma história que ultrapassa a sua condição de partido da Guiné-Bissau. A fundação de 1956 pertence também à memória de Cabo Verde, à trajectória de Amílcar Cabral e ao ciclo de lutas que contribuiu para o fim do império colonial português em África. Essa herança reúne conquistas, rupturas e divergências que as independências não encerraram.
O aniversário assinalado sobretudo fora da Guiné-Bissau torna essa memória especialmente visível. Lisboa surge como ponto de encontro de gerações, arquivos e diásporas, enquanto a distância de Bissau expõe o peso da situação política recente. A efeméride obriga, por isso, a distinguir a história comum da disputa partidária imediata sem separar uma realidade da outra.
Entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde ficou uma história partilhada que a ruptura de 1980 não apagou. Recordá-la exige reconhecer o projecto comum e as diferenças que o atravessaram desde o início.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos