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ToggleRoças Históricas Entram Para A Lista Da UNESCO
Em Julho de 2026, a UNESCO reconheceu as Roças Históricas de São Tomé e Príncipe como um conjunto formado por Monte Café, Água Izé, Diogo Vaz, São João, Sundy e Belo Monte. A decisão identificou nestes lugares um sistema colonial de produção de café e de cacau sustentado pela migração forçada e pelo trabalho coercivo depois da abolição formal da escravatura.
A designação oficial da inscrição, “As Roças de São Tomé e Príncipe: Sistema Agrícola Colonial e Migração Forçada”, impede que a arquitectura seja separada da violência que a financiou. O reconhecimento internacional, porém, não garante por si só uma memória justa nem assegura que as comunidades tenham poder sobre a forma como o passado será contado.
O risco surge quando as roças são apresentadas apenas como lugares de beleza tropical, arquitectura antiga e interesse turístico enquanto os antigos trabalhadores continuam sem nomes e sem biografias. Os seus descendentes permanecem pouco reconhecidos e as comunidades podem continuar afastadas das decisões sobre os edifícios, os arquivos, os terrenos e os rendimentos criados pelo turismo.
A classificação pode facilitar o acesso a recursos e aumentar a visibilidade das roças, mas também impõe deveres ao país. Cumpri-los exige conservar os edifícios sem afastar as comunidades, formar os investigadores e os guias santomenses, proteger os arquivos, regular as concessões privadas e repartir os rendimentos de forma transparente entre os habitantes ligados a estes lugares.
A Máquina Colonial
As roças nasceram da segunda economia de plantação do arquipélago. Depois do açúcar que tornara São Tomé num dos primeiros centros da escravatura atlântica, o café e o cacau recolocaram as ilhas nas rotas comerciais do século XIX. A partir da década de 1850, os grandes domínios reuniam a terra, as máquinas, os armazéns, os caminhos, a habitação e a autoridade num único sistema.
A disposição dos edifícios revelava quem mandava e quem obedecia. A casa do administrador ocupava o ponto dominante, os terreiros organizavam a produção e as sanzalas comprimiam as famílias trabalhadoras em espaços mínimos. Os hospitais, as escolas e as capelas surgiram mais tarde, muitas vezes sob pressão externa, mas também serviam para manter a mão-de-obra viva, disciplinada.
A escravatura foi abolida em 1875, mas a liberdade jurídica não acabou com o regime económico. Os contractos, as dívidas, a vigilância e os obstáculos ao regresso prenderam milhares de trabalhadores às propriedades. Os contingentes chegaram de Angola, de Moçambique e de Cabo Verde e trouxeram as línguas, as crenças e as memórias que ajudaram a formar a sociedade santomense moderna.
No início do século XX, o arquipélago ocupou uma posição central na produção mundial do cacau. A riqueza seguia para Portugal e para os mercados europeus enquanto o custo humano permanecia nas plantações. O chocolate consumido longe das ilhas dependia de pessoas submetidas a longas jornadas, habitações insalubres, castigos, doenças e separações prolongadas das suas terras africanas de origem.
O reconhecimento pela UNESCO deve preservar as paredes, os telhados e a maquinaria sem esconder o sistema que lhes deu origem. Quando uma visita começa na varanda senhorial e termina no secador de cacau sem passar pelas sanzalas, o percurso repete a hierarquia colonial em vez de explicar como a riqueza foi produzida e quem pagou o seu custo humano.
O Trabalho Coercivo
Na decisão da UNESCO, a expressão “migração forçada” ocupa um lugar central porque dirige a atenção para as pessoas levadas para o arquipélago. Muitos trabalhadores não escolheram livremente o destino, o contracto nem a permanência e encontraram obstáculos que os impediam de regressar às suas terras depois de anos de trabalho nas propriedades.
A história das roças pertence aos que plantaram, colheram, carregaram e processaram o cacau e aos filhos que herdaram os territórios marcados pela desigualdade. Essa memória raramente aparece por inteiro nos arquivos administrativos porque os documentos coloniais davam prioridade à produção, à disciplina, às despesas e às contas dos proprietários.
Os trabalhadores surgiam nos registos como números, origens, braços disponíveis ou problemas sanitários. Recuperar os seus nomes exige cruzar os documentos, os testemunhos orais, os cemitérios, as fotografias, as cartas e os objectos domésticos. Esse trabalho deve devolver identidade às pessoas sem transformar as suas vidas em decoração para exposições ou visitas turísticas.
Os edifícios ajudam a compreender a ordem imposta nas roças. As torres, os sinos, os miradouros e a disposição dos pátios permitiam vigiar os movimentos e os ritmos de trabalho. A distância entre as casas dos chefes e os barracões dos trabalhadores traduzia uma fronteira social que deve ser mostrada aos visitantes com clareza e rigor.
A protecção das roças também deve reconhecer as culturas nascidas da deslocação. As línguas, as práticas religiosas, as formas de cozinhar, as músicas e as redes trazidas de outros países ajudaram a formar as comunidades santomenses. Sem a recuperação dessas memórias, a UNESCO corre o risco de dar visibilidade a uma versão incompleta da história.
Património Para Quem
A classificação internacional pode atrair os visitantes, o financiamento e o investimento e aumentar o valor dos imóveis e das terras próximas. A atenção dada pela UNESCO também pode favorecer as actividades comerciais ligadas ao cacau e ao café. Essa valorização levanta uma pergunta incómoda sobre quem receberá os maiores benefícios gerados pelo novo estatuto.
Sem regras claras, os rendimentos podem ficar primeiro nas mãos dos concessionários, dos operadores turísticos e dos proprietários. As roças pertencem ao Estado, mas várias são geridas ao abrigo de concessões. As condições aprovadas para a inscrição determinam que os interesses privados não devem prevalecer sobre a conservação nem sobre as condições de vida das comunidades.
As obras custam dinheiro, mas quem financia a recuperação de um edifício pode influenciar o acesso, o emprego e a forma como a história é contada. Em Príncipe, a transformação de Sundy e Belo Monte em alojamentos turísticos permitiu conservar parte dos edifícios, mas também interrompeu a continuidade da vida comunitária nesses lugares.
Este precedente deve servir de aviso para impedir que outras roças sejam esvaziadas e convertidas em espaços turísticos enquanto os moradores são deslocados. Foram essas comunidades que permaneceram nas propriedades durante os anos de abandono e conservaram uma presença humana nos lugares que o Estado, os antigos proprietários e os investidores tinham deixado degradar-se.
A participação não pode limitar-se a consultas feitas quando os contractos já estão preparados. Os moradores devem integrar os comités de gestão, conhecer as condições das concessões e ter poder sobre os edifícios, os percursos das visitas e a distribuição dos rendimentos. A protecção reconhecida pela UNESCO só terá legitimidade quando melhorar de forma concreta a vida das comunidades.
Turismo Sem Amnésia
O turismo pode contribuir para conservar os edifícios que o Estado não consegue restaurar. A atenção internacional gerada pela UNESCO também pode criar empregos, estimular o artesanato, valorizar o café e o cacau e prolongar a permanência dos visitantes. Esses benefícios, porém, dependem da verdade, do respeito pelas comunidades e da forma como a história é contada.
Um hotel instalado numa roça não deve valorizar apenas a paisagem, a floresta e a arquitectura enquanto apaga o sistema colonial que sustentou o conforto hoje oferecido aos visitantes. Cada visita deve explicar o ciclo da produção, desde a chegada dos trabalhadores e a distribuição pelos alojamentos até à vigilância, à colheita, à secagem, ao transporte e à exportação.
As casas senhoriais devem ser apresentadas ao lado das sanzalas. Os hospitais precisam de ser explicados como respostas às denúncias das condições de trabalho e como instrumentos usados para manter a mão-de-obra funcional. Os percursos devem revelar o funcionamento completo das propriedades sem concentrar a atenção apenas nos edifícios mais imponentes.
Para contar essa história, são necessários museus instalados nas próprias roças, arquivos acessíveis, sinalização, guias formados e conteúdos produzidos pelas instituições santomenses. Também devem existir espaços para os testemunhos dos descendentes e exposições sobre Angola, Moçambique e Cabo Verde, países ligados à migração forçada que sustentou a economia das plantações.
Os barracões, os cemitérios, os locais de punição e os objectos não podem transformar-se em cenários para fotografias ou festas privadas. A dignidade dos mortos e dos sobreviventes exige limites. Quando o passado é escondido para proteger a imagem turística do destino, a inscrição na lista da UNESCO deixa de servir a educação e passa a servir apenas o mercado.
Soberania da Memória
Com a inscrição no património da UNESCO, São Tomé e Príncipe ganhou maior visibilidade, mas também impôs obrigações ao Estado santomense. A decisão exige zonas de protecção adequadas, um comité nacional de gestão, obras para estabilizar as estruturas em risco, um plano de organização dos arquivos e avaliações dos novos projectos previstos para as áreas protegidas.
O acompanhamento previsto impede que a celebração termine na cerimónia da inscrição. As estruturas degradadas precisam de obras, os mapas devem ser rigorosos e os projectos privados necessitam de fiscalização. A protecção será frágil se a Direcção da Cultura não dispuser dos técnicos, do orçamento e da autoridade necessários para aplicar as regras às entidades públicas e privadas.
A soberania da memória depende da capacidade de investigar e ensinar. São Tomé e Príncipe precisa de formar os conservadores, os arqueólogos, os historiadores, os arquivistas, os arquitectos e os gestores. As parcerias estrangeiras podem contribuir, mas não devem conservar o poder exclusivo de decidir como as roças serão estudadas, apresentadas e explicadas.
A eventual inclusão futura da Roça Agostinho Neto mostra que a protecção não pode limitar-se aos seis lugares inscritos. Muitas propriedades permanecem fora do conjunto reconhecido embora guardem edifícios, comunidades e histórias. A política nacional deve evitar uma divisão entre seis lugares protegidos e dezenas de ruínas entregues ao abandono em todo o arquipélago.
Durante o colonialismo, o cacau e o café saíam das ilhas enquanto a riqueza e a autoridade ficavam no exterior. Agora, os recursos, o conhecimento e o poder de decisão devem permanecer no país. A preservação apoiada pela UNESCO será um acto de soberania quando São Tomé e Príncipe conduzir a narrativa e repartir os benefícios gerados localmente.
Conclusão
A UNESCO reconheceu as roças por representarem um sistema colonial de produção, migração forçada e trabalho coercivo. A decisão oferece a São Tomé e Príncipe uma oportunidade para preservar a arquitectura e exigir que os sectores do chocolate e do café reconheçam o trabalho africano que sustentou a sua riqueza.
A inscrição na lista do património, só produzirá efeito se as comunidades participarem na gestão e receberem os benefícios gerados. Fazer justiça exige investimento nos arquivos, nas escolas, na investigação e na conservação, além de contractos públicos e limites ao turismo.
Exige também uma repartição transparente dos rendimentos e coragem para mostrar as sanzalas diante das casas senhoriais, os cemitérios diante dos hotéis e os nomes dos trabalhadores diante da riqueza que ajudaram a criar.
São Tomé e Príncipe deve usar o reconhecimento da UNESCO para preservar as roças sem voltar a condenar os trabalhadores ao silêncio? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
