Moçambique: Inflação Sobe Para 7,22%

A inflação volta a pesar no bolso dos moçambicanos. Em Maio, a subida dos combustíveis puxou os transportes e agravou o preço de bens essenciais, num movimento que atinge sobretudo as famílias com menor rendimento, dependentes de chapa, mercados informais e compras diárias para alimentar a casa.

Moçambique: Inflação Sobe Para 7,22%


A inflação em Moçambique acelerou em Maio para 7,22% em termos homólogos, depois de os preços terem subido 2,32% num só mês, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística citados pela Lusa. A subida ocorreu após o ajustamento dos combustíveis anunciado em 7 de Maio.

A medida elevou o custo do gasóleo e da gasolina e abriu nova pressão sobre os transportes, a distribuição alimentar e a vida diária. Quando o combustível sobe, quase tudo o que depende da estrada fica mais caro.

Em Moçambique, essa relação é sensível porque grande parte dos alimentos chega aos mercados por transporte rodoviário e muitas famílias compram pequenas quantidades todos os dias, sem margem para absorver aumentos sucessivos.

A inflação acumulada desde Janeiro chegou a 5,19%, sinal de que a pressão deixou de ser pontual. Para os consumidores, o peso aparece no preço do chapa, no tomate, no peixe, no carvão, no gás de cozinha e no custo de levar produtos das zonas de produção para os centros urbanos.

A evolução preocupa porque combina uma decisão administrativa sobre preços de energia com uma rede de distribuição dependente de camiões, carrinhas e chapas.


Custo Do Transporte


O gasóleo, combustível essencial para o transporte de mercadorias e passageiros, subiu 45,5% para 116,25 meticais por litro. A gasolina aumentou 12,1% para 93,69 meticais. A Autoridade Reguladora de Energia justificou o ajustamento com a pressão dos mercados internacionais e os efeitos do conflito no Médio Oriente sobre o abastecimento de petróleo.

A consequência surgiu primeiro na estrada. O INE indicou que os transportes deram o maior contributo para a inflação mensal, com 1,80 pontos percentuais. Os transportes semicolectivos urbanos e suburbanos subiram 11,9%, os transportes rodoviários de longo curso aumentaram 26,3% e os serviços de táxi tiveram alta de 23,5%.

Para uma família que vive longe do local de trabalho, a subida do transporte reduz o dinheiro disponível para a comida, a escola e a saúde. O salário não acompanha o preço diário da deslocação.

A pressão chega também aos pequenos vendedores. Quem transporta hortícolas, peixe, carvão, cereais ou produtos manufacturados paga mais pelo frete. Esse custo tende a passar para o consumidor final, sobretudo em mercados onde as margens são pequenas.

Nas ligações interprovinciais, o encarecimento pesa ainda mais porque muitos fornecedores dependem de viagens longas, estradas degradadas e pagamentos sucessivos a carregadores, terminais e intermediários.

O risco social está nessa cadeia curta entre o posto de combustível, o chapa e a banca do mercado. A inflação dos transportes não fica fechada no sector energético. Ela altera preços, rotinas e escolhas alimentares, principalmente nas famílias que já gastam a maior parte do rendimento em bens essenciais.


Alimentos Sob Pressão


A alimentação e as bebidas não alcoólicas formaram o segundo foco da aceleração de Maio, com 0,32 pontos percentuais da variação mensal. Entre os produtos destacados estiveram o peixe fresco, com aumento de 11,7%, e o tomate, com alta de 5,7%, dois bens frequentes no consumo urbano e periurbano.

O efeito pesa porque muitos agregados familiares moçambicanos compram comida em pequenas quantidades. Quando o tomate sobe alguns meticais, a diferença parece reduzida na unidade, mas torna-se relevante ao fim da semana. O mesmo acontece com o peixe, cuja subida muda a composição das refeições e empurra consumidores para alternativas de menor preço.

A pressão alimentar expõe também a fragilidade da logística. O país depende de longas distâncias rodoviárias para ligar as zonas agrícolas, os centros de pesca, os mercados grossistas e os bairros urbanos.

A decisão do Banco de Moçambique de manter a taxa MIMO em 9,25% mostra que a autoridade monetária vê risco de maior pressão nos preços. O banco central admitiu que a inflação pode atingir dois dígitos se persistirem os efeitos da crise dos combustíveis e da cadeia logística.

Para as famílias, a taxa de juro parece distante, mas afecta o crédito, as prestações, o investimento e a actividade das empresas. O combate à inflação pode travar a procura, mas não resolve sozinho o preço do transporte nem o custo de trazer alimentos ao mercado.

A resposta económica depende também do abastecimento regular, da fiscalização e da protecção do rendimento real. Sem esses elementos, a inflação passa a orientar decisões básicas, como reduzir refeições, adiar deslocações ou trocar produtos habituais por opções mais baratas.


Conclusão


A inflação de Maio confirma que o choque dos combustíveis já passou para a economia real. O aumento de 7,22% em termos homólogos reflecte deslocações mais caras, alimentos pressionados e maior aperto para as famílias que vivem de rendimento diário ou salário fixo.

O desafio do Governo, dos reguladores e do Banco de Moçambique será conter a transmissão dos combustíveis para os restantes preços sem agravar a falta de liquidez das empresas e dos consumidores. Se o abastecimento continuar instável e os fretes subirem, a inflação pode ganhar força nos mercados antes de aparecer nos comunicados oficiais.

A margem de resposta exige coordenação entre a energia, os transportes, a agricultura e a política monetária, porque a pressão atinge primeiro quem compra em pequenas quantidades.

 


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Imagem: © 2017 DR
Mateus Nhantumbo

Formado em Economia e Jornalismo Económico, trabalhou em Moçambique na cobertura de banca, dívida pública, minas, gás, petróleo, agricultura e indústria. Acompanhou projectos de investimento, relatórios financeiros, políticas energéticas e debates sobre desenvolvimento regional na África Austral. Na Mais Afrika, traduz temas económicos complexos em linguagem clara, mostrando como recursos naturais, financiamento externo, inflação, comércio e decisões públicas afectam empresas, comunidades, trabalhadores e consumidores.

Mateus Nhantumbo
Mateus Nhantumbo
Formado em Economia e Jornalismo Económico, trabalhou em Moçambique na cobertura de banca, dívida pública, minas, gás, petróleo, agricultura e indústria. Acompanhou projectos de investimento, relatórios financeiros, políticas energéticas e debates sobre desenvolvimento regional na África Austral. Na Mais Afrika, traduz temas económicos complexos em linguagem clara, mostrando como recursos naturais, financiamento externo, inflação, comércio e decisões públicas afectam empresas, comunidades, trabalhadores e consumidores.
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