Alexandre Dumas E A Memória Negra Apagada

Por trás dos Três Mosqueteiros e do Conde de Monte Cristo está uma linhagem marcada pela escravatura, pela Revolução Francesa e pelo racismo. Nascido a 24 de Julho de 1802, Alexandre Dumas era filho do general Thomas-Alexandre Dumas, nascido de uma mulher negra escravizada em Saint-Domingue e, apesar de ostracizado pela sua origem, tornou-se um dos escritores mais universais da literatura.

Alexandre Dumas E A Memória Negra Apagada


Alexandre Dumas nasceu em Villers-Cotterêts, no norte de França, a 24 de Julho de 1802, quando o século XIX começava a reorganizar a Europa depois da Revolução Francesa e pelas disputas que redesenhavam o poder no continente.

O dia de hoje devolve ao calendário um escritor lido em muitas línguas, mas também uma história familiar que ligava a França colonial a São Domingos, o actual Haiti e às hierarquias raciais construídas pela escravatura atlântica.

O autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo herdou do pai uma memória de grandeza e perda. Thomas-Alexandre Dumas, nascido em Saint-Domingue em 1762 era filho de Marie-Cessette Dumas, uma mulher negra escravizada e de um aristocrata francês.

Chegou a França adolescente entrou no exército como soldado e ascendeu durante a Revolução até comandar tropas republicanas. Essa história raramente acompanha a apresentação escolar do romancista.

O cânone consagrou as personagens, as intrigas e a energia narrativa, mas muitas leituras separaram o escritor da experiência negra que marcou a sua família e a recepção pública da sua obra. Recuperar Alexandre Dumas neste aniversário significa, por isso, reler a literatura europeia com o arquivo colonial aberto e perguntar quem pôde ser universal sem deixar visível a origem.


Nascimento e Herança


Alexandre Dumas nasceu em 1802 na casa de uma família que já concentrava várias histórias francesas. A mãe, Marie-Louise Élisabeth Labouret, vinha de Villers-Cotterêts. O pai, Thomas-Alexandre, regressara do cativeiro no sul de Itália com a saúde destruída e sem recuperar plenamente o lugar militar que conquistara durante a Revolução.

A infância começou entre o prestígio do apelido e as dívidas domésticas. Thomas-Alexandre morreu em 1806, quando o filho ainda nem tinha quatro anos. A perda deixou a viúva com poucos recursos e retirou ao futuro escritor a presença que dominaria as suas memórias.

Dumas cresceu a ouvir relatos sobre a força, a coragem e a independência do general, convertido dentro da família numa medida quase impossível de alcançar. Nos seus livros autobiográficos, o pai aparece menos como personagem documental do que como figura de origem.

A memória organiza o homem que Alexandre quase não conheceu e transforma a ausência numa narrativa. Esse gesto ajuda a compreender por que tantos heróis de Dumas enfrentam prisões quedas sociais, nomes perdidos e regressos em que a justiça depende da imaginação.

A ligação entre Thomas-Alexandre e O Conde de Monte Cristo não deve ser reduzida a uma equivalência simples. O romance nasceu também de episódios históricos, de pesquisa e da colaboração com Auguste Maquet. Ainda assim, o encarceramento injusto, a queda provocada pelo poder e o desejo de reparação encontram uma ressonância particular na história do general aprisionado em Taranto.

A falta de recursos limitou a educação formal de Dumas que aprendeu com leituras exercícios de caligrafia e a convivência local antes de trabalhar num cartório. A letra elegante abriu-lhe, mais tarde, uma colocação em Paris no serviço do duque de Orleães. A passagem da província para a capital começou, portanto, como uma solução material para a pobreza familiar.


O General Negro


Thomas-Alexandre, pai de Alexandre Dumas, nasceu a 25 de Março de 1762 em Jérémie, na colónia francesa de Saint-Domingue, actual Haiti. Era filho de Marie-Cessette Dumas, uma mulher negra escravizada e de Alexandre Antoine Davy de la Pailleterie, proprietário branco de origem aristocrática.

Pela lei colonial, herdou a condição jurídica da mãe e nasceu escravizado. A sua origem reunia, no mesmo corpo, a plantação e a nobreza. Levado para a França em 1776, o adolescente foi libertado e recebeu educação compatível com a posição do pai. Quando decidiu entrar para o exército em 1786, alistou-se como simples soldado e adoptou o apelido Dumas.

O nome materno, ligado a uma mulher mantida na escravatura, passou assim a identificar uma carreira militar sem precedente na França revolucionária. A Revolução abriu espaços que o Antigo Regime fechava. Thomas-Alexandre subiu rapidamente na hierarquia e tornou-se general de divisão em 1793. Comandou o Exército dos Pirenéus Ocidentais e depois o Exército dos Alpes.

A sua autoridade sobre dezenas de milhares de soldados mostrava uma República capaz de deslocar barreiras sociais embora sem eliminar o racismo que atravessava o Estado e a sociedade. Nas campanhas de Itália, o general ganhou reputação pela força física e pela capacidade de comando.

Seguiu depois para o Egipto sob as ordens de Napoleão Bonaparte, com quem entrou em conflito. Ao regressar, o navio procurou abrigo em Taranto e Thomas-Alexandre ficou preso entre 1799 e 1801. Saiu debilitado, com problemas de saúde que nunca superou.

O regresso coincidiu com o endurecimento napoleónico contra oficiais negros e com a restauração da escravatura nas colónias francesas em 1802. Sem comando e sem pagamento das quantias reclamadas, Thomas-Alexandre viveu os últimos anos em Villers-Cotterêts. Morreu aos 43 anos e deixou a mulher a insistir junto do Estado por direitos que nunca chegaram a assegurar estabilidade à família.


A Obra Popular


Alexandre Dumas chegou a Paris em 1822 e encontrou no teatro o primeiro grande espaço de afirmação. Henri III et sa cour, representada em 1829, colocou-o entre os autores do drama romântico antes da célebre batalha de Hernani. A cena ensinou-lhe o movimento, o diálogo e o corte rápido que mais tarde fariam dos seus romances máquinas de leitura pública.

A expansão dos jornais e do romance em folhetim permitiu-lhe escrever para um público amplo. O romance de Os Três Mosqueteiros, começou a sair em 1844 e O Conde de Monte Cristo foi publicado entre 1844 e 1846. A serialização pedia suspense episódios reconhecíveis e personagens capazes de atravessar semanas sem perder a atenção dos leitores. O folhetim transformou a espera em hábito.

A sua oficina literária incluía colaboradores entre eles Auguste Maquet que fornecia pesquisas, planos e versões iniciais para vários romances. A colaboração não autoriza a reduzir Dumas a uma assinatura comercial. A arquitectura final, o diálogo, a expansão das cenas e a energia narrativa pertenciam a um processo de trabalho em que a autoria era colectiva, desigual e disputada.

A crítica transformou a popularidade num argumento de desvalorização. Parte dos críticos tratou a velocidade narrativa, o humor e a aventura como sinais de menor valor literário.

Essa hierarquia separou o prazer da leitura da exigência estética e contribuiu para colocar Dumas abaixo de autores vistos como mais sérios e prestigiados pelo cânone literário. Contudo, a construção das personagens e o domínio do tempo narrativo ajudam a explicar a sobrevivência das suas obras.

Além dos folhetins, Dumas fundou o Théâtre-Historique em 1847 para levar à cena adaptações e dramas próprios. Mais tarde dirigiu jornais como Le Mousquetaire, onde publicou memórias, crónicas e ficção. Esses projectos ampliaram a circulação do seu nome, mas também consumiram fortunas. A mesma energia empresarial que multiplicava os públicos expunha o escritor a dívidas, litígios e falências.


Racismo e Autoria


A celebridade tornou Alexandre Dumas visível numa sociedade que lia o corpo negro através de estereótipos. As caricaturas insistiam nos cabelos, nos lábios e na cor da pele, transformando traços físicos em espectáculo. O escritor podia ser admirado e racializado ao mesmo tempo. As imagens circularam em periódicos e fixaram uma máscara racial ao lado do retrato do autor.

Esse racismo misturou-se com a discussão sobre a autoria. O panfleto de Eugène de Mirecourt, publicado em 1845, apresentou a produção de Dumas como uma fábrica alimentada por colaboradores. A crítica à organização da escrita usou imagens raciais para sugerir excesso, desordem e incapacidade intelectual. O ataque procurava atingir o homem, o método de trabalho e o direito ao génio.

Dumas respondeu com a continuidade da obra e com a afirmação pública do próprio nome. Nunca escondeu que trabalhava com outros escritores, prática comum no teatro e no folhetim. O problema não estava apenas na colaboração, mas na facilidade com que a sociedade aceitava a ideia de que um autor negro tão produtivo precisava de ser intelectualmente substituído por homens brancos.

O apagamento posterior operou de modo diferente. Em muitas edições, adaptações e apresentações escolares, a origem de Dumas desapareceu sem que os livros deixassem de circular. As personagens tornaram-se universais e o autor foi integrado numa França literária apresentada como branca.

A memória racial, quando surgia, aparecia como curiosidade biográfica e não como elemento da história europeia do século XIX. O romance Georges, publicado em 1843 e situado na ilha Maurícia, mostra que a questão racial também entrou directamente na ficção de Dumas.

O protagonista, filho mestiço de um proprietário, regressa educado â Europa e confronta a ordem colonial que o humilhou. A revolta, o casamento impedido e a hierarquia da cor transformam o enredo numa crítica sem disfarces.


O Cânone Europeu


Alexandre Dumas morreu em 1870 e foi sepultado em Villers-Cotterêts. A consagração nacional demorou mais de um século. Em 30 de Novembro de 2002, no bicentenário do nascimento, os seus restos mortais foram transferidos para o Panteão em Paris. A cerimónia colocou-o ao lado de Victor Hugo e Émile Zola e reuniu personagens dos romances numa procissão pública.

A entrada no monumento republicano corrigiu uma distância simbólica, mas não resolveu o problema do cânone. Dumas já era um dos escritores franceses mais conhecidos fora da França e os seus personagens pertenciam à cultura popular mundial. A decisão presidencial de 2002 formalizou uma consagração que os leitores, os tradutores e o cinema já tinham construído.

Reabrir a história racial de Dumas também altera a imagem da Europa. O continente do século XIX não foi um espaço cultural isolado, branco e exclusivamente continental. As fortunas coloniais, as pessoas escravizadas, as migrações e as famílias mestiças atravessaram a formação das suas instituições.

A genealogia de Dumas liga directamente o romance francês à plantação caribenha e à Revolução do Haiti. A tarefa crítica não consiste em trocar uma omissão por uma leitura determinista. Os Três Mosqueteiros, exige atenção à amizade, à política e ao folhetim. O Conde de Monte Cristo trabalha a prisão, o dinheiro, a vingança e a transformação da identidade.

A ascendência negra amplia essas leituras porque insere a imaginação no arquivo de poder que cercou o autor. Na cerimónia de 2002, a República francesa reconheceu publicamente que a homenagem também reparava uma injustiça marcada pela escravatura dos antepassados de Dumas.

O gesto não apagou os silêncios anteriores, mas fixou no espaço nacional uma genealogia antes reduzida a nota biográfica. O Panteão passou a guardar não apenas o romancista, mas a disputa sobre a memória que o acompanhou.


Nota Curiosa Sobre o Dia de Hoje


O dia 24 de Julho reúne dois nascimentos ligados à imaginação e à coragem. Em 1802, nasceu Alexandre Dumas, autor de obras como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo. Noventa e cinco anos depois, em 1897, nasceu Amelia Earhart, a aviadora norte-americana que desafiou os limites impostos às mulheres e se tornou uma das figuras mais conhecidas da história da aviação.

A data também assinala o Dia do Autocuidado, escolhido por representar a necessidade de cuidarmos da saúde durante 24 horas por dia e sete dias por semana.

A 24 de Julho de 1969, a missão Apollo 11 regressou à Terra. Depois de Neil Armstrong e Buzz Aldrin terem caminhado na Lua, a cápsula Columbia amarou no Oceano Pacífico, transportando os três astronautas que participaram na missão.

A literatura, a aviação, o cuidado pessoal e a exploração espacial encontram-se assim interligados, numa data marcada pela criatividade, pela coragem e pela vontade humana de ultrapassar fronteiras.


Conclusão


Alexandre Dumas não precisa de uma biografia corrigida por benevolência, mas de uma leitura inteira. A mesma França que recebeu os seus folhetins viu o pai perder o lugar militar, caricaturou o filho e demorou a inscrevê-lo no Panteão Nacional. Esses factos não substituem a análise dos romances. Determinam, porém, o quadro histórico em que a imaginação, a fama e a autoria foram julgadas.

Ler Dumas com Marie-Cessette e Thomas-Alexandre visíveis muda práticas concretas: a apresentação escolar deixa de começar apenas pelos mosqueteiros, as adaptações deixam de separar o autor do corpo racializado e o cânone francês recupera a sua dimensão colonial.

O aniversário de 24 de Julho serve para essa restituição. A obra conserva a aventura, o humor e o ritmo que conquistaram leitores enquanto a memória devolve ao nome Dumas a família negra, a escravatura atlântica e as lutas políticas que sustentaram a sua entrada na literatura europeia.

 


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Nádia Monteiro
Nádia Monteiro
Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu o seu percurso no espaço da lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema e património africano. Com experiência no acompanhamento de festivais, exposições e projetos de criadores da diáspora, aborda a cultura sem exotismo, dedicando-se à análise das obras, das línguas e da circulação do valor simbólico da criação artística contemporânea.
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