Macky Sall Obriga África A Escolher Uma Voz

O apoio de Bassirou Diomaye Faye ao antigo Presidente que o seu movimento combateu transforma uma ambição pessoal numa candidatura de Estado. Macky Sall chega à corrida da ONU com experiência diplomática, mas também com uma herança democrática ferida que África não pode apagar em nome da representação africana.

Macky Sall Obriga África A Escolher Uma Voz


Macky Sall entrou formalmente na disputa pela Secretaria-Geral da ONU quando o Burundi apresentou a sua candidatura em Março de 2026. O apoio posterior do Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, garantiu o compromisso público do país que Sall governou durante doze anos e onde a sua saída deixou feridas institucionais ainda abertas e disputadas.

A decisão de Faye tem força porque contraria a lógica imediata da vingança. O actual chefe de Estado chegou ao poder depois de sair da prisão, apoiado por Ousmane Sonko e por uma juventude que associava o último mandato de Sall à repressão, à incerteza eleitoral e ao enfraquecimento da confiança nas instituições. Essa memória não desaparece apenas porque o interesse nacional mudou de direcção.

A candidatura separa três questões que Dakar procura fundir: o direito de um antigo Presidente concorrer, a conveniência de o Senegal apoiar um cidadão com projecção internacional e a legitimidade de apresentar esse cidadão como voz de África. Entre essas camadas está o verdadeiro debate sobre poder, memória democrática e representação continental numa ordem internacional dominada por potências.


Unidade Improvável


O encontro entre Faye e Sall no Palácio de Dakar teria parecido improvável dois anos antes. O primeiro representava a ruptura prometida pelo Pastef; o segundo carregava a autoridade de um sistema derrotado nas urnas. Ao recebê-lo e mobilizar o Governo, Faye escolheu colocar o interesse diplomático do Senegal acima do conflito que moldou a sua vitória presidencial histórica.

Esse gesto não reconcilia automaticamente as duas memórias políticas. O apoio funciona antes como uma trégua de Estado, limitada por um objectivo externo que pode beneficiar o país inteiro. Para Dakar, ter um senegalês na chefia da ONU ampliaria o prestígio nacional, abriria canais de influência e confirmaria uma tradição diplomática construída desde a independência e respeitada fora de África.

Faye também protege a sua própria posição. Um Presidente que apoia o adversário derrotado pode apresentar-se como dirigente acima das divisões partidárias, capaz de distinguir a responsabilidade nacional da disputa interna. A escolha dá-lhe autoridade moral, mas não pode defender Sall no exterior e abandonar no Senegal as promessas de justiça, transparência e reparação para as vítimas.

Para Macky Sall, o apoio vale mais do que uma fotografia. A sua candidatura fora apresentada pelo Burundi, país que exerce a presidência rotativa da União Africana, mas a reserva de Dakar alimentava dúvidas sobre a base doméstica da campanha. A mobilização senegalesa converte uma iniciativa patrocinada de fora numa operação diplomática com Estado, embaixadas e continuidade política.

A unidade, porém, não deve ser confundida com absolvição. Um Estado pode apoiar um antigo governante sem reescrever o seu mandato. A maturidade democrática mede-se nessa capacidade de defender um interesse comum enquanto preserva o direito de investigar abusos, corrigir contas públicas e ouvir os cidadãos que pagaram o preço da recente crise política senegalesa entre 2021 e 2024.


Memória Democrática


A candidatura de Macky Sall não pode ser avaliada sem Fevereiro de 2024, quando ele adiou a eleição presidencial poucas horas antes do início da campanha. O Conselho Constitucional anulou a decisão e considerou inconstitucional a extensão do calendário. O episódio colocou o Senegal diante de uma ruptura que só foi travada pela resistência institucional e popular nas ruas.

A crise não começou naquele mês. Desde 2021, confrontos ligados ao tratamento judicial e político da oposição provocaram mortes, feridos e detenções em massa. A Amnistia Internacional registou pelo menos 65 mortos, cerca de mil feridos e duas mil detenções até 2024. Esses números pertencem à biografia pública do poder exercido por Sall e não apenas aos arquivos policiais.

Também pesa a longa incerteza sobre um terceiro mandato. Sall acabou por anunciar em Julho de 2023 que não voltaria a concorrer, mas a demora alimentou a suspeita de que a Constituição seria testada até ao limite. Numa democracia, respeitar o limite no fim não elimina o custo provocado por meses de ambiguidade presidencial e tensão nas instituições públicas.

A transição posterior recuperou parte do prestígio senegalês. A eleição realizou-se, Faye venceu na primeira volta e Sall entregou o poder dentro do prazo constitucional. Esse desfecho importa, sobretudo numa África Ocidental marcada por golpes militares.

Contudo, a normalidade restabelecida não deve transformar a tentativa de adiamento numa nota menor ou num erro administrativo sem responsáveis nem consequências políticas duradouras.

À memória política junta-se a financeira. O Tribunal de Contas confirmou em 2025 que a dívida e o défice de 2023 eram superiores aos valores anteriormente divulgados. Sall rejeitou acusações de má gestão. Para um candidato à ONU, a controvérsia exige respostas claras porque a legitimidade internacional depende também da forma como um Governo presta contas aos seus cidadãos.


Activo Diplomático


Seria intelectualmente pobre reduzir Macky Sall à crise que marcou a sua saída. Durante doze anos, ele acumulou relações com governos africanos, europeus, asiáticos e árabes, presidiu à União Africana em 2022 e participou em negociações sobre dívida, segurança alimentar, energia e reforma da governação mundial.

Essa experiência constitui o centro mais forte da candidatura perante os Estados-membros. Na presidência da União Africana, Sall defendeu a entrada permanente da organização no G20, concretizada em 2023, e procurou levar às grandes potências posições sobre financiamento, cereais, fertilizantes e representação. Também integrou uma missão africana de mediação entre a Rússia e a Ucrânia.

O alcance foi limitado, mas revelou acesso aos centros de decisão e disposição para negociar directamente. Na corrida da ONU, Sall apresenta uma agenda de reforma administrativa, coordenação entre agências e modernização institucional. No debate de Julho, ligou a prosperidade partilhada à reforma da arquitectura financeira internacional e à mobilização do sector privado.

A proposta dialoga com uma reivindicação africana antiga: pagar menos pela dívida e obter mais espaço para investir no desenvolvimento humano continental. Essa competência diplomática merece reconhecimento, mas não deve ser confundida com um mandato continental automático. A União Africana reúne 55 Estados com interesses, línguas, regimes e alianças diferentes.

Um antigo Presidente conhece as cimeiras e os corredores do poder, mas representar África exige ouvir também os países pequenos, as sociedades civis e as populações afastadas das capitais e embaixadas. A documentação entregue à ONU inclui uma declaração de visão, o currículo e a informação sobre o financiamento da campanha para ampliar o escrutínio público.

A ONU precisa de alguém capaz de negociar com Washington, Pequim, Moscovo, Londres e Paris, mas também de resistir às pressões dessas capitais. A carreira abre portas; o julgamento sobre a independência começa depois de elas se abrirem.


Quem Representa África


A frase adoptada por Dakar ao apresentar a candidatura como senegalesa ao serviço de África contém ambição e risco. O Senegal pode falar por si; África só fala colectivamente através de processos políticos que produzam posições comuns. Entre uma candidatura africana e uma candidatura de África existe uma diferença de legitimidade que a retórica nacional não consegue eliminar sozinha.

A origem continental importa porque a distribuição do poder internacional continua desigual. Desde Kofi Annan, que deixou a função em 2006, nenhum africano chefiou a ONU. Antes dele, Boutros Boutros-Ghali cumpriu apenas um mandato. A memória desses nomes prova capacidade, mas também recorda que a presença africana no topo depende sempre da tolerância das grandes potências com direito de veto.

A representação associada à candidatura de Macky Sall não deve servir como escudo contra o escrutínio. Um candidato africano não merece apoio apenas por ter nascido no continente, assim como um candidato europeu não representa automaticamente a Europa.

A origem abre uma perspectiva histórica; o legado político, a visão institucional, a integridade, a independência e a capacidade de negociação determinam a qualidade da escolha final. África também não é politicamente homogénea.

Os Estados afectados por guerras, os pequenos países insulares, as potências regionais, as democracias frágeis e os regimes autoritários não chegam à ONU com as mesmas urgências. Falar em nome do continente exige construir compromissos sobre a paz, a dívida, o clima, o comércio, a tecnologia, a migração e os direitos humanos fundamentais.

Uma candidatura credível deveria explicar como prestará contas aos africanos após a eleição. Quem definirá as prioridades? Como serão ouvidas as organizações regionais, as mulheres, os jovens, os trabalhadores e as vítimas de conflitos? Sem mecanismos de consulta, a expressão voz de África corre o risco de reduzir mais de mil milhões de pessoas ao currículo de um dirigente.


Poder dos Cinco


A eleição do secretário-geral parece pertencer à Assembleia Geral, onde 193 Estados têm voto, mas a decisão real nasce no Conselho de Segurança. Os quinze membros realizam consultas e escrutínios secretos até surgir um nome capaz de obter nove votos e escapar ao veto dos Estados Unidos, da Rússia, da China, do Reino Unido e da França em conjunto.

Essa arquitectura explica a contradição da campanha africana. O continente procura colocar um dos seus na chefia administrativa da organização, mas continua sem assento permanente no órgão que recomenda o escolhido e decide sobre sanções, guerras e operações de paz.

África pode apresentar candidatos; os cinco permanentes conservam a capacidade de excluir qualquer deles sem explicação pública ou recurso. A rotação regional informal favorece desta vez a América Latina e as Caraíbas, enquanto quatro mulheres concorrem num processo que pode produzir a primeira secretária-geral da história. Macky Sall é o único africano entre seis candidatos.

A sua campanha enfrenta, portanto, duas reivindicações legítimas: a vez regional latino-americana e a longa exclusão feminina da função desde a fundação da ONU. O mérito não resolve sozinho essa disputa porque o processo nunca foi uma competição neutra de currículos. Cada candidatura depende de alianças, cálculos geopolíticos, relações bilaterais e receios dos membros permanentes.

Um secretário-geral demasiado independente pode parecer inconveniente; um candidato demasiado próximo de uma potência pode perder a confiança necessária para mediar conflitos entre adversários e defender a Carta. O primeiro escrutínio secreto do Conselho transforma a campanha em teste de aceitabilidade perante as potências.

Em cada votação informal, os membros assinalam se encorajam, desencorajam ou não exprimem opinião sobre cada candidato. Tradicionalmente, os boletins dos cinco permanentes têm uma cor diferente, permitindo identificar a existência de um veto potencial sem revelar a capital responsável.


África Sem Veto


A candidatura chega num momento em que a União Africana renova a exigência de dois assentos permanentes com todos os direitos no Conselho de Segurança e cinco lugares não permanentes. A posição definida no Consenso de Ezulwini denuncia uma injustiça histórica: grande parte da agenda do Conselho trata de conflitos africanos, mas o continente não participa permanentemente da decisão.

Colocar Macky Sall na Secretaria-Geral poderia ampliar a visibilidade dessa reforma, mas o cargo tem limites claros. O secretário-geral administra, alerta, medeia e usa a autoridade moral; não cria assentos permanentes nem retira o veto. A vitória seria simbolicamente poderosa, porém não substituiria a batalha jurídica e política para alterar a estrutura que distribui o poder na ONU entre Estados.

O risco está em transformar a conquista individual numa compensação institucional. Ter um africano na sede de Nova Iorque não equivale a dar ao continente poder permanente no Conselho. A imagem pode produzir orgulho e acesso, mas também pode servir para adiar reformas mais profundas, como se a presença de um rosto africano corrigisse a desigualdade da arquitectura internacional.

Há ainda uma responsabilidade programática. Sall teria de mostrar como usaria a função para aproximar a ONU das guerras esquecidas, do financiamento climático, da dívida, da industrialização e da representação juvenil sem transformar o cargo numa extensão da diplomacia senegalesa.

A credibilidade africana dependeria da distância entre a campanha continental e as lealdades nacionais inevitáveis de qualquer antigo Presidente. África deve apoiar candidatos, mas também estabelecer condições. A origem precisa de ser acompanhada por compromissos sobre os direitos humanos, a limitação do poder, a transparência financeira, a reforma do Conselho e a consulta aos Estados africanos.

Sem esses critérios, a unidade torna-se disciplina em torno de uma personalidade; com eles, pode converter-se numa estratégia continental de influência duradoura.


Conclusão


O apoio de Bassirou Diomaye Faye fortalece o Senegal, demonstra uma capacidade de separar o Estado do ressentimento partidário e oferece à campanha uma base política que lhe faltava. Macky Sall tem assim o direito de disputar a Secretaria-Geral da ONU e reúne experiência suficiente para ser levado a sério.

Mas o continente não ganha voz quando troca o escrutínio pela solidariedade automática. O legado democrático de Sall, a repressão entre 2021 e 2024, o adiamento eleitoral e as divergências nas contas públicas devem permanecer dentro da avaliação, ao lado da sua experiência africana e internacional de governo.

A questão ultrapassa o nome. África precisa escolher representantes capazes de falar com as potências sem se curvarem perante elas e de falar pelo continente sem silenciar a pluralidade. Uma candidatura africana só ganha legitimidade continental quando a origem, a memória, a integridade e a responsabilidade caminham juntas.

 


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Imagem: © 2023 Bloomberg
Francisco Lopes-Santos

Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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