Florestas Africanas Guardam Memória Ancestral

Uma floresta abatida expõe mais do que o solo. No Quénia, nos Camarões, na Etiópia e na Tanzânia, a perda florestal pode romper as farmacopeias, os ritos, os calendários agrícolas e as regras de partilha. Cada clareira reduz as opções de sobrevivência perante as secas, as doenças e a fome.

Florestas Africanas Guardam Memória Ancestral


As Florestas africanas ocupam cerca de 663 milhões de hectares, equivalentes a 22% da superfície terrestre do continente. A avaliação de 2025 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula uma perda anual de 3,45 milhões de hectares.

As causas surgem sobretudo pela acção da agricultura, das minas, da obtenção de recursos energéticos, pela pobreza, pela governação frágil e pela posse insegura da terra em muitas regiões. Os satélites medem a área perdida, mas não registam o desaparecimento de uma árvore usada no parto, de um bosque onde os anciãos resolvem conflitos ou de uma sombra que protege o ensète e o café.

Esses usos sustentam sistemas de saúde, de direito, de alimentação e de adaptação construídos por uma observação prolongada e transmitidos pela prática e pela palavra entre gerações sucessivas. As funções variam localmente. Nas florestas Kaya costeiras, o território permanece ligado à identidade.

Entre os Baka dos Camarões, as plantas silvestres sustentam a alimentação e os cuidados. Nos sistemas Gedeo da Etiópia e nos ngitili da Tanzânia, as árvores, as normas costumeiras e os ciclos agrícolas formam reservas contra a escassez. A destruição ameaça cada arquivo distintamente e produz perdas humanas duradouras.


Arquivos Sagrados


Na costa do Quénia, as florestas Kaya sobrevivem como ilhas entre as povoações, as estradas e as áreas agrícolas. A UNESCO reconhece dez sítios florestais ao longo de 200 quilómetros. Dentro deles permanecem vestígios de aldeias fortificadas dos Mijikenda. Fora das cercas vegetais cresce uma pressão que não ameaça apenas as árvores: alcança a morada simbólica dos antepassados.

Os Kaya deixaram de ser residências no século XX, mas conservaram as funções religiosas, funerárias e políticas. Os anciãos regulam a entrada, a recolha e as cerimónias. As cerimónias de iniciação, casamento, juramento e reconciliação sustentam a ordem comunitária local. A floresta é um arquivo jurídico e espiritual lido nos gestos, nos caminhos, nas espécies e nas narrativas.

A protecção ritual preservou fragmentos da floresta costeira de baixa altitude. As restrições ao corte e à retirada de recursos mantiveram os habitats e as plantas úteis. O resultado veio das obrigações sociais, do medo das sanções, do respeito pelos mortos e da autoridade, não da separação entre as pessoas e a natureza. Sem elas, faltam os guardiões.

As ameaças externas somam-se à erosão interna do conhecimento e do respeito pelas práticas tradicionais locais. A fragmentação reduz as plantas usadas nos remédios e nos ritos. Os jovens afastados dos sítios perdem a aprendizagem dos nomes, das proibições e das histórias onde ganham sentido. As gravações conservam as palavras, mas não substituem o cuidado exercido pelas comunidades.

Proteger os Kaya exige manter a integridade ecológica e a autoridade cultural sem transformar os bosques em cenários turísticos. A gestão tradicional deve articular-se com a administração pública. Implica consultar os anciãos, garantir o acesso comunitário e apoiar a transmissão aos jovens. As decisões distantes podem deixar a floresta no mapa e apagar a sua função comunitária efectiva.


Farmácias da Floresta


Nos Camarões, as florestas são uma despensa e uma farmácia para as comunidades Baka. Um levantamento regional de 2024 reuniu dados de 2019 a 2021 em 221 agregados familiares de quatro distritos das regiões do Leste e do Sul. Os investigadores identificaram 378 espécies de plantas usadas na medicina tradicional pertencentes a 270 géneros e 85 famílias botânicas.

Outro levantamento de 2019 em quatro aldeias rurais de Mintom documentou 88 espécies silvestres comestíveis. Entre 73 participantes, o inventário reuniu os frutos, as folhas, os tubérculos e as receitas ausentes das estatísticas alimentares. Dezassete espécies, excluindo inhames ainda não identificados, não apareciam em estudos anteriores sobre os Baka. O resultado expõe lacunas nos inventários alimentares e nutricionais.

Uma planta medicinal não é apenas uma espécie com moléculas activas. O saber inclui onde cresce, que parte retirar, em que estação, como se prepara e quem pode administrá-la. Contém limites que evitam destruir a fonte. Quando a exploração arranca as cascas, abre as estradas ou elimina as árvores matrizes, perdem-se os recursos e o protocolo comunitário essencial.

A destruição prejudica a saúde local quando as clínicas, os medicamentos e os transportes são limitados. Isso não torna seguro ou eficaz todo o remédio tradicional. A perda da floresta elimina os recursos antes de serem avaliados e retira as opções conhecidas às famílias. Sem a participação dos detentores, a investigação pode extrair informação sem garantir benefícios justos.

Na Nigéria, o bosque sagrado de Osun-Osogbo preserva uma ligação cultural semelhante. O bosque reúne 400 espécies vegetais, das quais mais de 200 têm usos medicinais conhecidos. O bosque acolhe o culto e o festival ioruba. A sua sobrevivência conserva as plantas, a linguagem religiosa e as regras sobre os usos permitidos pela comunidade em cada ocasião ritual.


Alimento com Raízes


Nas escarpas do sul da Etiópia, a paisagem Gedeo mostra uma floresta cultivada em camadas. As árvores abrigam o ensète, alimento central, enquanto o café, as raízes, os arbustos e outras culturas ocupam níveis inferiores. A UNESCO inscreveu o território no Património Mundial em 2023 pela tradição agroflorestal mantida pelo conhecimento indígena e pelas instituições comunitárias da terra.

O sistema não separa o bosque, a quinta e a casa. A sombra reduz o calor sobre as culturas, a folhada devolve matéria ao solo e a diversidade distribui riscos entre as colheitas. Quando uma cultura falha, outras podem assegurar alimento ou rendimento. A arquitectura ajustou-se por gerações ao relevo íngreme, às chuvas e à diversidade do território.

O sistema Ballee reúne as leis costumeiras, as normas e os códigos de relação com a natureza. O conselho Songo sustenta as decisões dos anciãos. Certas áreas da floresta natural permanecem reservadas aos rituais, sem o corte das árvores nem o cultivo. Ali sobrevivem as espécies indígenas, as plantas medicinais e os monumentos megalíticos integrados na ordem Gedeo.

As instituições Ballee e Songo perderam adesão entre alguns sectores da comunidade Gedeo. As pressões económicas e sociais fragilizam-no internamente. A vulnerabilidade de uma camada pode propagar-se às restantes: menos árvores menos sombra, o solo e a água; menos autoridade costumeira enfraquece as regras de uso; um rendimento menor favorece os cultivos uniformes e expostos ao clima.

O desaparecimento destas florestas agrícolas eliminaria uma tecnologia alimentar local. Plantar árvores não recompõe sozinho a combinação das espécies, das regras, dos tempos de poda e das formas de partilha. A restauração precisa dos agricultores, das mulheres, dos anciãos e dos jovens capazes de continuar a aprendizagem. A cobertura verde pode crescer sem recuperar a segurança do sistema.


Reservas Da Seca


Em Shinyanga, no norte semiárido da Tanzânia, os agropastores Sukuma desenvolveram os ngitili, reservas comunitárias fechadas nas chuvas e abertas na seca. A reserva fornece pasto quando o campo circundante perde vigor. Também pode oferecer a lenha, os frutos, o mel, as plantas medicinais e os materiais. O método transforma estas florestas numa poupança ecológica para tempos difíceis.

A desflorestação, a degradação, o cultivo comercial, o sobrepastoreio e os programas de reassentamento reduziram esta prática durante décadas e aceleraram a desertificação nos anos 1980. Em 1986, o programa HASHI recuperou os solos e a vegetação. Em vez de importar uma solução pronta, o programa reactivou o ngitili e articulou as leis oficiais com as regras costumeiras.

A recuperação envolveu milhares de produtores e melhorou os rendimentos familiares, o acesso ao pasto e o bem-estar. O êxito dependeu da posse local e da coordenação entre o Governo, as aldeias e as autoridades tradicionais. Com a protecção, o controle do uso e o benefício local, a vegetação ganhou legitimidade social e voltou a servir na seca.

O ngitili mostra como a memória orienta a adaptação climática. A comunidade observa as chuvas, as pastagens e as necessidades do gado para reservar uma parcela. A disciplina reduz a exposição à seca e cria uma reserva para emergências locais. Sem o bosque ou as regras respeitadas, perde-se uma defesa antes da próxima seca e dos alertas oficiais.

A lição não permite copiar o ngitili para qualquer território. Cada prática responde a relações próprias entre a chuva, o solo, o gado, a autoridade e a propriedade. As políticas de restauração devem procurar mecanismos já testados pelas comunidades e adaptar o apoio técnico às suas regras. Sem esses mecanismos, as árvores plantadas podem perder a função colectiva.


Territórios Sob Pressão


Na Bacia do Congo, a perda das florestas aproxima-se das aldeias por caminhos diferentes: a agricultura de pequena escala, a lenha, o carvão, a mineração, as estradas, os incêndios e as deslocações de conflitos. A República Democrática do Congo teve em 2025 um recorde de perda de floresta primária não associada ao fogo, apesar de uma ligeira descida total.

Para os Baka, os Mbuti e os Batwa, perder território reduz mais do que a madeira disponível. Os percursos de caça, as árvores frutíferas, os rios, as clareiras rituais e os lugares de ensino interligam-se. Uma estrada facilita o comércio e os serviços, mas abre frentes de exploração. Com o acesso condicionado, as crianças perdem o ensino local.

A perda do controle costumeiro, o desaparecimento das línguas e a erosão entre as gerações ameaçam os sistemas de saber. Sem a segurança territorial, uma comunidade pode ter de conservar as árvores que já não governa. Esse desequilíbrio transforma os guardiões em utilizadores tolerados. Reduz o incentivo para transmitir regras sem efeito sobre o acesso e o alimento.

Na República Democrática do Congo, os programas recentes reforçaram os direitos costumeiros e a participação local. Projectos apoiaram uma concessão florestal comunitária de 250 mil hectares e contribuíram para a lei de 2022 sobre os direitos dos Povos Indígenas. Em Mai-Ndombe, um plano prevê pagamentos por reduções de emissões às comunidades, às autoridades, às mulheres e aos jovens.

Estes avanços podem proteger a memória, mas o financiamento climático não garante justiça. A definição dos beneficiários, dos mapas, do consentimento e da fiscalização decide quem recebe voz. Em 2025, mais de cem organizações locais entraram num projecto de fiscalização comunitária descentralizada do REDD+.

A iniciativa reconhece que as comunidades precisam de meios para vigiar as decisões florestais.


Memória com Direitos


Conservar estes arquivos das florestas exige reconhecer que o conhecimento tradicional ultrapassa a informação recolhida. Ele depende do território, da língua, da autoridade, da repetição e da possibilidade de uso. Uma lista de plantas pode sobreviver num servidor distante enquanto a comunidade perde o acesso efectivo ao bosque.

Um ritual pode ser filmado integralmente enquanto o lugar sagrado é cercado. A posse e a governação costumeiras merecem reconhecimento quando as comunidades as legitimam. O consentimento livre, prévio e informado deve anteceder a investigação, o turismo, a exploração ou os projectos climáticos. Os conhecimentos que geram receitas exigem benefícios partilhados.

Sem garantias, o património pode ser celebrado enquanto os detentores enfrentam a expulsão, a pobreza ou as restrições territoriais. As escolas rurais e os serviços de extensão podem transmitir o saber no seu contexto. As aulas no terreno, as hortas medicinais e os registos em línguas locais ajudam quando os detentores do conhecimento os conduzem.

Os jovens podem unir a ciência à herança comunitária. Podem testar as práticas e actualizá-las sem reduzir os anciãos a relíquias culturais. Os protocolos comunitários definem quem autoriza a recolha de plantas, gravações, visitas e pesquisas. Os contractos devem indicar a guarda dos registos, a divisão das receitas e o direito de recusar usos futuros.

Os mapas participativos protegem os caminhos, as nascentes e os bosques rituais sem divulgar coordenadas sensíveis que facilitem a exploração ilegal ou a entrada indevida. Os mecanismos de denúncia precisam de funcionar nas línguas locais e de chegar às aldeias sem custos proibitivos.

As mulheres, os jovens e os curandeiros devem participar nas decisões porque usam partes diferentes da floresta. A fiscalização comunitária ganha força quando as autoridades reconhecem provas locais, respondem às queixas e publicam decisões que possam ser contestadas pelas comunidades.


Conclusão


A perda das florestas africanas ultrapassa os hectares, as emissões e as espécies. No Quénia, nos Camarões, na Nigéria, na Etiópia, na Tanzânia e na República Democrática do Congo, as árvores sustentam as instituições, os remédios, os alimentos, os ritos e as decisões que orientam o território durante as crises.

Conservar não significa congelar os costumes. O conhecimento muda, incorpora a ciência e responde às novas pressões quando os seus detentores mantêm os direitos, o acesso e o poder de decisão. Sem essas condições, as áreas protegidas guardam fragmentos enquanto desaparecem as relações comunitárias que tornaram a floresta socialmente habitável.

A escolha territorial reconhece as comunidades como autoras das soluções, não figurantes de projectos externos. Onde a memória, a floresta e a autoridade permanecem ligadas, as comunidades atravessam as secas, as doenças e a escassez com recursos próprios. A ruptura reduz a saúde, a soberania alimentar e a adaptação climática.

 


Que memórias e formas de sobrevivência estão em risco quando as florestas desaparecem? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Sara Naidoo

Jornalista sul-africana formada em Ciências Ambientais e Comunicação Pública, possui experiência na cobertura de alterações climáticas, conservação, transição energética e crises humanitárias. Com um percurso focado no terreno, acompanhou comunidades vulneráveis em zonas afetadas por secas, cheias e insegurança alimentar, dedicando-se a abordar o ambiente como uma questão de justiça e sobrevivência ao cruzar dados científicos com o impacto real sobre as populações e ecossistemas.

Sara Naidoo
Sara Naidoo
Jornalista sul-africana formada em Ciências Ambientais e Comunicação Pública, possui experiência na cobertura de alterações climáticas, conservação, transição energética e crises humanitárias. Com um percurso focado no terreno, acompanhou comunidades vulneráveis em zonas afetadas por secas, cheias e insegurança alimentar, dedicando-se a abordar o ambiente como uma questão de justiça e sobrevivência ao cruzar dados científicos com o impacto real sobre as populações e ecossistemas.
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