Glória Menezes, Seis Décadas De Memória Na TV

Glória Menezes, Seis Décadas De Memória Na TV


Glória Menezes morreu no dia 18 de Agosto de 2026, aos 91 anos, em casa no Rio de Janeiro, depois de uma carreira que começou no fim da década de 1950 e acompanhou a transformação da televisão brasileira. Nascida Nilcedes Soares de Magalhães em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a actriz cresceu em São Paulo e chegou ao teatro antes de se tornar um rosto regular do pequeno ecrã.

A sua trajectória liga momentos decisivos da cultura de massas no Brasil. Em 1962 integrou O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. No ano seguinte protagonizou 2-5499 Ocupado com Tarcísio Meira, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira.

Em 1967 entrou na Globo com Sangue e Areia e permaneceu durante décadas entre as intérpretes centrais da teledramaturgia. O alcance dessa carreira não ficou limitado ao Brasil. Produções com Glória Menezes circularam em Portugal e em mercados africanos de língua portuguesa, onde a dramaturgia brasileira se tornou parte persistente do consumo televisivo.

A morte da actriz recupera por isso uma memória que não pertence apenas a uma indústria nacional: pertence também aos públicos que receberam essas personagens em horários, canais e décadas diferentes.


Uma Pioneira


Quando Glória Menezes chegou à televisão, o género ainda procurava uma linguagem própria entre o teatro filmado, o directo e a rotina industrial que definiria a telenovela. A participação em 2-5499 Ocupado colocou-a nessa passagem. O folhetim da TV Excelsior, exibido em 1963, fixou a emissão diária e aproximou o público de intérpretes que passaram a frequentar casas brasileiras.

Essa permanência criou um tipo de reconhecimento. Glória Menezes não ficou presa à condição de estrela inaugural nem à imagem construída ao lado de Tarcísio Meira. Em Sangue e Areia, Irmãos Coragem, O Grito e Espelho Mágico, a actriz atravessou melodrama, experimentação e personagens exigentes. Construiu uma carreira que acompanhou as mudanças do veículo sem depender de um papel.

O cinema ampliou o percurso. Em O Pagador de Promessas, realizado por Anselmo Duarte, interpretou Rosa numa obra que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 1962. O reconhecimento internacional antecedeu a consolidação televisiva e ajuda a perceber a amplitude do percurso: a popularidade das novelas nunca apagou a formação teatral nem a capacidade de mudar de linguagem.

Na Globo, a extensão da carreira mediu a transformação do estrelato televisivo. A actriz passou de protagonista romântica a intérprete de mulheres ambíguas, cómicas ou deslocadas. Em Guerra dos Sexos e Brega & Chique, a comédia abriu possibilidades. Em Rainha da Sucata, Laurinha Figueroa levou a experiência para uma vilã marcada por classe, desejo e queda num registo reconhecível.

Essa capacidade de permanecer sem repetir a mesma imagem explica a longevidade. A actriz acompanhou mudanças de produção e de gosto durante décadas sem fazer da idade uma retirada. Depois de Senhora do Destino, A Favorita e Jóia Rara, voltou às novelas em Totalmente Demais, exibida entre 2015 e 2016, encerrando a presença no género junto de novos actores.


Papéis Mutáveis


O valor de Glória Menezes para a memória televisiva também está na diversidade das mulheres que interpretou. O reconhecimento popular não nasceu de uma personagem única. Durante décadas passou por heroínas, mães, aristocratas, mulheres pobres, figuras cómicas e vilãs.

Essa amplitude permitiu que públicos de idades diferentes a reencontrassem sem receber exactamente a mesma actriz em fases da televisão. Em Irmãos Coragem, de 1970, a interpretação de Lara, Diana e Márcia exigiu diferenças de gesto, voz e temperamento dentro da mesma personagem.

A multiplicidade tornou-se um marco do repertório e mostrou que a popularidade não precisava de simplificar o trabalho. Glória podia ser reconhecida pelo público enquanto procurava ainda alterar o desenho emocional das figuras entregues pelos autores.

A comédia foi outra zona de expansão. Em Guerra dos Sexos, Glória Menezes entrou num universo em que o conflito entre homens e mulheres passava pelo exagero e pela caricatura social. Brega & Chique explorou esse terreno com Rosemere, mulher de origem popular levada a mudar de condição económica. O humor ampliou a percepção pública sobre a sua flexibilidade.

Laurinha Figueroa, em Rainha da Sucata, mostrou outra direcção. A aristocrata decadente transformou ressentimento, desejo e medo da perda social numa presença que combinava dureza, cálculo e ruptura emocional. A personagem é lembrada como papel forte da actriz porque não dependia da maldade. Havia uma leitura de classe e também uma tragédia que a interpretação levou até ao limite.

Nos trabalhos tardios, Glória Menezes usava a história televisiva como camada de interpretação. Conhecida há décadas, a actriz fazia chegar à cena recordações anteriores sem anular a personagem presente. Em A Favorita, Senhora do Destino ou Totalmente Demais, esse capital de memória dialogava com novas estrelas. A sua longevidade passou a funcionar como uma relação entre gerações.


Novelas Sem Fronteiras


A dimensão lusófona de Glória Menezes surge na circulação das telenovelas. Em Portugal, títulos com a actriz entraram na programação generalista e ganharam reconhecimento. A RTP recorda Pai Herói, Guerra dos Sexos e Rainha da Sucata entre sucessos brasileiros notáveis. Esse trânsito fez da televisão um arquivo comum para espectadores separados por geografias, mas ligados pela língua.

Rainha da Sucata mostra um exemplo dessa travessia. A Globo regista que a novela de 1990 foi vendida para Angola, Portugal e mercados internacionais. Glória Menezes interpretava a figura central, Laurinha Figueroa. A personagem viajou além do contexto brasileiro e passou a integrar repertórios televisivos formados por espectadores com experiências nacionais distintas, mas acesso à mesma ficção.

Em Angola e Moçambique, a presença da dramaturgia brasileira ganhou infra-estrutura com a distribuição internacional da Globo. Em 2015, a empresa passou a emitir conteúdos através da ZAP em ambos e criou o Globo ON para novelas, séries e comédias do acervo. Senhora do Destino, com participação de Glória Menezes, estava entre os títulos anunciados para a oferta televisiva.

Essa circulação não significa que todos os públicos recebam novelas de modo igual. Angola, Moçambique e Portugal têm histórias televisivas e experiências culturais próprias. O ponto de contacto está na repetição de rostos, personagens e melodramas. Nesse processo, Glória Menezes tornou-se reconhecível fora do Brasil sem deixar de pertencer a uma indústria marcada pelo contexto brasileiro.

Pai Herói é de 1979 e Guerra dos Sexos de 1983, ambos anteriores à novela Rainha da Sucata. Esse percurso permite perceber por que a morte de uma actriz brasileira encontra eco em meios angolanos, moçambicanos e portugueses. Glória Menezes integra uma geração com fama anterior à fragmentação digital, numa época em que as telenovelas reuniam públicos e atravessavam fronteiras durante anos.


Memória Entre Gerações


A morte de Glória Menezes chega quando a memória televisiva já não depende da lembrança dos primeiros espectadores. Reposições em televisão e nas plataformas digitais devolveram as novelas a novos públicos. A Globo homenageou a actriz em 2025 na série documental Tributo, recuperando depoimentos, imagens e personagens organizando uma carreira que atravessou diferentes fases da TV.

O arquivo altera a relação entre idade e celebridade. Quem descubra hoje Rainha da Sucata encontra a Laurinha de 1990 fora do contexto original. Um espectador que reveja A Favorita pode reencontrar Glória Menezes ao lado de Tarcísio Meira anos depois. A obra ultrapassa assim a cronologia biológica da actriz e passa a coexistir no presente em várias idades.

Essa coexistência explica o carácter intergerações do legado. Para quem viu Glória Menezes nas décadas de 1970 ou 1980, a actriz liga-se à formação do hábito diário da novela. Para quem chegou depois, a referência inclui Senhora do Destino, A Favorita ou Totalmente Demais. As portas de entrada mudam, mas conduzem ao mesmo arquivo de interpretação e memória popular.

A parceria com Tarcísio Meira acrescentou uma camada à memória colectiva. Os dois formaram um casal artístico reconhecido durante décadas, sem que a trajectória de Glória se resumisse ao marido. Contracenaram desde 2-5499 Ocupado e construíram uma imagem de continuidade. A morte de Tarcísio em 2021 reforçou a memória da dupla, agora integrada na própria formação da TV brasileira moderna.

O legado de Glória Menezes resulta da soma da obra, circulação e repetição. Há personagens que pertencem ao seu tempo, mas regressam como sinais de outra época. O seu rosto também atravessou tecnologias, horários e mercados sem desaparecer da memória. Na lusofonia, o percurso mostra como a TV brasileira participou da criação de referências comuns sem produzir experiências idênticas.


Conclusão


Glória Menezes deixa uma carreira que ajuda a ler a própria história da televisão brasileira, desde a experiência da novela diária até à era das plataformas. A importância está tanto nos papéis que interpretou como na duração de uma presença capaz de atravessar géneros, autores e gerações sem se reduzir a uma única imagem.

Fora do Brasil, a circulação das telenovelas deu outra vida a esse percurso. Portugal reconheceu vários dos seus grandes títulos e Angola recebeu produções como Rainha da Sucata, enquanto a distribuição da Globo em Angola e Moçambique prolongou o acesso ao acervo. A memória lusófona formada por essas exibições é plural, mas partilha referências.

A morte da actriz encerra uma vida mas não fixa o legado numa fotografia antiga. Entre arquivos, reposições e lembranças familiares, Glória Menezes permanece ligada à experiência de quem aprendeu a reconhecer na telenovela uma linguagem diária de afectos, conflitos e imaginação partilhada em português.

 


Que memória de Glória Menezes ficou mais ligada à tua experiência com a televisão em língua portuguesa? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Nádia Monteiro
Nádia Monteiro
Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu o seu percurso no espaço da lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema e património africano. Com experiência no acompanhamento de festivais, exposições e projetos de criadores da diáspora, aborda a cultura sem exotismo, dedicando-se à análise das obras, das línguas e da circulação do valor simbólico da criação artística contemporânea.
Ultimas Notícias
Noticias Relacionadas