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ToggleCelebra-se Hoje O Dia Mundial Do Turismo
O Dia Mundial do Turismo de 2026 chega num momento em que a inteligência artificial começa a ocupar o lugar onde antes estavam o balcão da agência, o guia impresso e, mais tarde, o motor de pesquisa. O tema internacional deste ano é “Agenda Digital e Inteligência Artificial para redesenhar o turismo”.
A escolha coloca no centro uma mudança que já afecta a descoberta dos destinos, a comparação de preços, as reservas e a construção de itinerários. A transformação pode abrir mercados a pequenos operadores que nunca tiveram orçamento para publicidade internacional, mas também altera a distribuição do poder no sector.
Um alojamento comunitário pode ganhar visibilidade num mercado distante ou permanecer ausente das recomendações por falta de informações actualizadas, avaliações, meios digitais de pagamento ou conteúdos que os novos sistemas consigam interpretar. A presença digital tornou-se, assim, uma condição importante para alcançar novos visitantes.
Em África, esta disputa é especialmente concreta. O continente combina destinos pouco explorados com desigualdades de acesso à internet, ao financiamento e às competências digitais. A tecnologia pode aproximar a procura da oferta local, mas também concentrar receitas nas plataformas que dominam a descoberta e as reservas.
A Criação do Dia
O Dia Mundial do Turismo nasceu de uma decisão da Assembleia Geral da Organização Mundial do Turismo, tomada na terceira sessão, realizada em Torremolinos, Espanha, em Setembro de 1979. A Resolução A/RES/76(III) instituiu a celebração anual em 27 de Setembro, a partir de 1980, com temas escolhidos pela Assembleia mediante proposta do Conselho Executivo.
A data assinala a adopção dos Estatutos da organização em 27 de Setembro de 1970. A efeméride foi criada pela então Organização Mundial do Turismo, antes de esta se tornar uma agência especializada da ONU. A distinção entre as duas decisões é importante para compreender a história institucional da celebração.
O estatuto de agência especializada resultou do acordo aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas através da Resolução A/RES/58/232, em 23 de Dezembro de 2003. Ao longo das décadas, a celebração passou a discutir diferentes dimensões económicas, sociais e culturais das viagens, acompanhando as transformações registadas no sector turístico internacional.
Em 2026, o tema oficial é “Agenda Digital e Inteligência Artificial para redesenhar o turismo” e El Salvador acolhe as comemorações internacionais. A escolha reflecte o crescente recurso a ferramentas digitais para procurar destinos, comparar alojamentos e organizar experiências de viagem, numa altura em que os sistemas de recomendação ganham importância.
A mudança também afecta a promoção turística. Antes, um destino procurava espaço em feiras, brochuras, televisão ou motores de pesquisa. Agora precisa de disponibilizar informações que possam ser interpretadas pelos sistemas digitais de recomendação. Fotografias, descrições, preços, localização e disponibilidade ajudam a determinar quais as opções apresentadas ao viajante.
Entre a primeira celebração e o Dia Mundial do Turismo de 2026, manteve-se o propósito de chamar a atenção para a importância económica e social do sector. A novidade está no papel dos intermediários digitais, cuja informação influencia as escolhas dos visitantes e pode alterar a distribuição das receitas entre os destinos.
O Novo Viajante
A inteligência artificial começa a assumir parte do trabalho que muitos turistas faziam sozinhos. Em vez de abrir dezenas de páginas e comparar mapas, o viajante pode pedir recomendações, estimativas de custos e itinerários personalizados. A conveniência é evidente, mas as respostas dependem da informação disponível e dos critérios de selecção utilizados.
O Travel & Tourism Development Index 2026, publicado pelo Fórum Económico Mundial em Setembro, revela avanços na preparação digital. Entre 2024 e 2026, 91% das 110 economias avaliadas melhoraram a pontuação relativa às tecnologias de informação e comunicação, num indicador que abrange diferentes condições necessárias ao funcionamento dos serviços digitais.
Entre os factores avaliados estão o acesso à internet, os pagamentos digitais, a cobertura móvel, as plataformas e a fiabilidade do fornecimento eléctrico. Apesar das melhorias, as economias emergentes e em desenvolvimento apresentam, em média, uma pontuação cerca de 24% inferior à das economias avançadas nesse indicador de preparação digital.
A diferença pode condicionar a capacidade das empresas para receber reservas e pagamentos electrónicos. No Dia Mundial do Turismo, estes números mostram por que razão a visibilidade digital depende também de infra-estruturas e competências. A capacidade de alcançar novos clientes continua desigual entre empresas que operam em condições tecnológicas muito diferentes.
As grandes empresas de viagens também passaram a dedicar maior atenção à inteligência artificial. Entre as maiores companhias mundiais, a proporção das que mencionaram a tecnologia nos relatórios anuais subiu de 4% em 2022 para 35% em 2024, embora estas referências não demonstrem, por si só, a sua adopção efectiva.
A parcela do capital de risco do sector destinada a soluções com inteligência artificial passou de 10% em 2023 para 45% no primeiro semestre de 2025. Para os destinos menos documentados, permanece o risco de ficarem ausentes das recomendações se os sistemas favorecerem ofertas com mais dados e avaliações disponíveis.
África Disputada
Em África, a digitalização chega a um sector onde muitas actividades dependem de empresas de pequena dimensão. Num estudo publicado em 2025 sobre Cabo Verde, a Gâmbia e São Tomé e Príncipe, o Banco Mundial identificou dificuldades de acesso ao mercado e ao financiamento, sem que os resultados representem automaticamente todo o continente.
As ferramentas digitais podem reduzir a distância entre um pequeno negócio e um cliente internacional. Um guia local pode divulgar experiências sem abrir escritório no estrangeiro e uma casa familiar pode disponibilizar alojamento directamente. Contudo, transformar essa presença em rendimento exige condições tecnológicas e capacidade para acompanhar as necessidades dos visitantes.
Os operadores precisam de acesso estável à internet, meios de pagamento adequados e capacidade para gerir reservas e comunicar com os clientes. A dependência das plataformas introduz custos que variam conforme o serviço contratado. As comissões, a publicidade e os pagamentos podem reduzir a parcela das receitas que fica com os prestadores locais.
Com a inteligência artificial, a visibilidade também pode depender da forma como os sistemas agregam informações e apresentam sugestões aos viajantes. Esta mudança reforça a importância de conteúdos verificáveis e actualizados. Para os pequenos negócios, manter uma presença digital adequada exige recursos financeiros, formação e tempo que nem sempre estão disponíveis.
Existe ainda um risco territorial. Se as recomendações se concentrarem nos mesmos locais, poderão aumentar a pressão sobre destinos conhecidos e deixar outras comunidades à margem. Na mensagem para o Dia Mundial do Turismo de 2026, António Guterres advertiu que a inteligência artificial pode apoiar pequenos negócios, mas também concentrar visitantes em poucos destinos e plataformas.
O momento económico torna esta discussão relevante. Segundo o Tourism Watch do Banco Mundial, as chegadas internacionais em África aumentaram 4% no primeiro trimestre de 2026, face ao período homólogo, com particular dinamismo no Norte de África. O crescimento, porém, não permite concluir quanto rendimento permanece nas comunidades ou cabe aos intermediários digitais.
Trabalho Sob Pressão
A automação no turismo ultrapassa as reservas. Ferramentas de inteligência artificial podem responder a clientes, apoiar a gestão de preços, prever a ocupação e traduzir mensagens. Estas aplicações podem reduzir tarefas repetitivas, mas os seus efeitos sobre o emprego dependem das decisões das empresas e das condições em que a tecnologia é introduzida.
Segundo o Fórum Económico Mundial, as viagens e o turismo sustentaram cerca de 366 milhões de empregos em 2025, considerando os efeitos directos, indirectos e induzidos na economia. Isso corresponde aproximadamente a um em cada nove empregos no mundo, incluindo actividades associadas ao sector e não apenas os trabalhadores directamente empregados em hotéis ou agências.
A transição tecnológica coloca questões sobre o acesso à formação e a distribuição dos ganhos de produtividade. Uma empresa que automatize reservas pode libertar tempo para melhorar o atendimento e preparar os trabalhadores para novas funções. Sem essa preparação, porém, a mudança poderá acentuar diferenças entre trabalhadores com competências digitais distintas.
Algumas funções poderão mudar, enquanto outras exigirão novas qualificações e formação adequada. A adaptação torna-se particularmente importante para quem construiu a sua experiência em tarefas presenciais. O ritmo da transformação e as decisões empresariais determinarão parte das consequências da inteligência artificial sobre as condições de trabalho no sector turístico.
As comunidades enfrentam uma preocupação diferente. A inteligência artificial utiliza informação sobre culturas, territórios e património para produzir descrições e recomendações. Se os conteúdos disponíveis forem incompletos ou reproduzirem estereótipos, a representação dos destinos poderá ficar distorcida. Também se coloca a questão da autorização para utilizar determinados materiais culturais.
A agenda do Dia Mundial do Turismo inclui, por isso, uma discussão sobre competências digitais e participação das comunidades. Conhecer as ferramentas disponíveis não resolve, por si só, as questões relativas aos dados, à reputação dos destinos ou às condições de trabalho. Empresas, trabalhadores e instituições públicas terão de acompanhar estas mudanças.
Soberania Digital
Para os governos africanos, a expansão do turismo digital coloca questões de infra-estruturas e acesso ao mercado. A possibilidade de os operadores locais serem encontrados, venderem e receberem pagamentos depende de electricidade fiável, internet acessível, formação e serviços financeiros adequados. Estas condições variam entre países e regiões do continente.
As necessidades de investimento e regulação também são diferentes. A qualidade da informação constitui outra dimensão desta mudança, uma vez que destinos, parques, museus, hotéis, restaurantes e operadores beneficiam de conteúdos actualizados e verificáveis. Os sistemas digitais precisam de interpretar correctamente esses dados para apresentar opções adequadas aos viajantes.
O Fórum Económico Mundial assinala a crescente importância da inteligência artificial na descoberta de destinos. Para negócios com recursos limitados, manter informações correctas pode melhorar a possibilidade de aparecerem nas pesquisas. A presença digital exige, contudo, recursos e conhecimentos que podem estar fora do alcance de alguns pequenos operadores.
A soberania digital envolve ainda questões relativas às comissões, à tributação, à protecção dos consumidores, à concorrência e à utilização dos dados. Quando as reservas e os pagamentos são processados por empresas externas, parte da relação comercial pode ficar fora do alcance dos prestadores locais, dependendo das condições contratuais.
As associações e as organizações de gestão de destinos podem criar instrumentos colectivos para os pequenos negócios. A partilha de sistemas de reservas, formação, tradução e produção de conteúdos permite distribuir despesas difíceis de suportar individualmente. Essas iniciativas não eliminam a dependência das grandes plataformas, mas podem ampliar as alternativas disponíveis.
O Dia Mundial do Turismo de 2026 coloca a inteligência artificial no centro de uma discussão económica que ultrapassa a tecnologia. Quem detém os dados, como são definidas as comissões e que parte do rendimento chega aos destinos são perguntas relevantes para os países africanos e para as comunidades envolvidas.
Conclusão
A inteligência artificial pode simplificar o turismo para os viajantes e apoiar a actividade das empresas, mas os seus benefícios não são distribuídos automaticamente. O acesso às infra-estruturas digitais, à formação e aos meios de pagamento influencia a participação dos pequenos operadores africanos e as suas possibilidades de alcançar novos mercados.
Também contam as condições contratuais das plataformas e a possibilidade de as comunidades beneficiarem do movimento turístico sem perderem capacidade de decisão sobre os seus recursos culturais e económicos. A presença digital, por si só, não garante uma distribuição equilibrada das receitas nem elimina as desigualdades existentes entre os operadores.
O Dia Mundial do Turismo de 2026 recupera uma pergunta antiga perante uma tecnologia nova: quem beneficia da ligação entre o desejo de viajar e o destino escolhido? Para África, o desafio consiste em ampliar a presença digital dos seus destinos e criar condições para conservar uma parte maior do valor gerado pelas viagens.
A inteligência artificial vai beneficiar o turismo africano ou as grandes plataformas?Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos