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ToggleA Gente Vai Continuar, Mesmo Sem Jorge Palma
Jorge Palma construiu uma obra na qual o piano de formação clássica conviveu com a guitarra dos músicos de rua, o rock e a escrita próxima da conversa quotidiana. A morte do artista, ocorrida nesta segunda-feira, 21 de Setembro de 2026, encerra um percurso iniciado em disco em 1972 e prolongado até aos seus últimos concertos.
A família confirmou a notícia na madrugada de terça-feira e pediu que fosse recordado através das suas canções e palavras. Nascido em Lisboa, a 4 de Junho de 1950, o músico fez da cidade uma presença recorrente no seu repertório, embora tenha vivido também em diferentes países europeus.
A experiência das ruas, dos bares e das salas de espectáculo juntou-se à disciplina do conservatório e marcou uma escrita capaz de aproximar a inquietação individual de histórias reconhecíveis por públicos muito diferentes. De “Frágil” a “Encosta-te a Mim”, passando por “Deixa-me Rir” e “Bairro do Amor”, as suas composições acompanharam mudanças na música portuguesa desde os anos setenta.
O percurso inclui álbuns a solo, grupos com outros autores e concertos com os filhos. Em Abril deste ano, recebeu o Prémio Carreira dos PLAY, reconhecimento de uma obra que continuava sempre presente nos palcos.
Entre 2 Mundos
Começou a estudar música aos seis anos e ingressou no Conservatório de Lisboa aos dez. Na adolescência, porém, aproximou-se do rock e das bandas que ouviam Beatles e Rolling Stones. Essa descoberta abriu outra possibilidade para um jovem pianista habituado ao repertório erudito e interessado em compor as suas próprias canções.
Antes da carreira a solo, passou pelos Black Boys e pelos Sindikato, grupo que participou na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971. O contacto com diferentes músicos alargou o seu trabalho à composição e aos arranjos. Em 1972, gravou o primeiro disco em nome próprio, um single em inglês intitulado “The Nine Billion Names of God”.
Chamado ao serviço militar durante a ditadura portuguesa, partiu para a Dinamarca em 1973. Regressou a Portugal depois da Revolução do 25 de Abril de 1974 e retomou o trabalho musical. No ano seguinte, editou “Com uma Viagem na Palma da Mão”, o primeiro álbum. Participou também no Festival RTP da Canção com “Viagem” a solo e “O Pecado Capital” ao lado de Fernando Girão.
Nos anos seguintes, Jorge Palma voltou a viajar e tocou guitarra nas ruas e no metro de cidades como Paris e Copenhaga. Interpretava composições próprias e canções de Bob Dylan ou Leonard Cohen perante públicos passageiros. A experiência aproximou o seu repertório da escuta directa e de uma relação menos formal com o palco.
Durante a década de oitenta, regressou também aos estudos de piano, concluindo o curso superior em 1990. O percurso entre a formação erudita e a música popular tornou-se uma característica da sua obra. Em vez de abandonar uma linguagem em favor da outra, encontrou espaço para ambas nas harmonias, nos arranjos e na maneira de acompanhar a voz.
Canções Da Cidade
Os discos dos anos oitenta deram maior visibilidade a uma escrita ligada à experiência urbana. “O Lado Errado da Noite” (1985) e “Quarto Minguante” (1986) abriram caminho a “Bairro do Amor”, editado em 1989. Nesse repertório, as relações afectivas, a solidão e os encontros nocturnos surgem através de personagens e situações próximas do quotidiano. Os arranjos aproximavam a confissão do rock.
“Frágil”, “Dá-me Lume” e “Bairro do Amor” mostram diferentes maneiras de trabalhar a vulnerabilidade e o desejo. A voz rouca de Jorge Palma deixava ouvir hesitações que não desapareciam perante os arranjos. O piano podia conduzir a melodia enquanto a guitarra e os restantes instrumentos aproximavam as canções do rock, sem lhes retirar a intimidade da palavra cantada.
A formação clássica permanecia audível mesmo nas composições mais populares. Numa entrevista à Sociedade Portuguesa de Autores, o músico explicou que, “Minha Senhora da Solidão”, tinha inspiração num prelúdio e fuga de Bach. A referência ajuda a compreender a maneira como utilizava recursos harmónicos aprendidos no conservatório sem transformar as canções em exercícios de exibição instrumental.
Em 1991, “Só”, a primeira colectânea da sua carreira, apresentou versões de temas dos dois decénios anteriores centradas no piano e na voz. O disco retirou parte da instrumentação original e colocou as melodias e as letras em primeiro plano. A reinterpretação permitiu que canções já conhecidas chegassem a outros ouvintes e evidenciou a capacidade de Jorge Palma para sustentar um concerto apenas com o instrumento da infância.
A sua escrita resistiu à identificação com uma única década. “Encosta-te a Mim”, incluída em “Voo Nocturno”, de 2007, encontrou novos públicos e passou a conviver com as composições antigas nos concertos. O repertório tornou-se um espaço de reencontro entre quem acompanhara os primeiros discos e quem chegava através de gravações mais recentes.
Música Em Companhia
Embora muitas das suas canções tenham nascido de um trabalho individual, Jorge Palma manteve uma longa relação com outros músicos. Nos primeiros anos da carreira, assinou arranjos e orquestrações para intérpretes portugueses, incluindo Amália Rodrigues. Essa actividade permitiu-lhe conhecer os estúdios por dentro e desenvolver uma escuta atenta às possibilidades de cada voz e instrumento.
Nos anos noventa, formou os Palma’s Gang com Zé Pedro e Kalu dos Xutos & Pontapés, além de Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau. O projecto deu outra presença às guitarras e à energia do concerto colectivo. As suas composições passaram a circular num ambiente de banda, diferente do formato de piano e voz que também continuava a cultivar.
Participou igualmente nos grupos Rio Grande e Cabeças no Ar, experiências que aproximaram músicos com percursos distintos na música portuguesa. Os Rio Grande nasceram em 1996 com Rui Veloso, Tim, João Gil e Vitorino; os Cabeças no Ar surgiram em 2002, já sem Vitorino. Nessas formações, a partilha de vozes e de repertórios mostrou uma disponibilidade para sair do universo das canções próprias.
A aproximação a Sérgio Godinho deu origem ao espectáculo “Juntos”, registado em disco ao vivo em 2015. Os dois autores cruzaram repertórios que tinham acompanhado várias décadas de transformações culturais em Portugal. A presença simultânea em palco permitiu ouvir afinidades e diferenças na construção das letras, na interpretação e na relação de cada um com a canção.
Mais tarde, a colaboração entrou também na vida familiar. Vicente Palma acompanhou o pai durante anos como músico e Francisco Palma juntou-se a ambos no espectáculo “3 Palmas na Mão”, estreado em 2025. A partilha do palco com os filhos deu uma expressão concreta à transmissão musical entre gerações, sem afastar Jorge Palma do seu repertório.
Obra Sempre Presente
O início do novo século trouxe outra sequência de discos e reconhecimento institucional. O álbum “Jorge Palma”, editado em 2001, recebeu o Prémio José Afonso no ano seguinte. Vieram depois “Norte” (2004) e “Voo Nocturno” (2007), trabalho que alcançou dupla platina. Em 2008, recebeu um Globo de Ouro como melhor intérprete individual.
Em 2011, publicou “Com Todo o Respeito”, distinguido no ano seguinte com o primeiro Prémio Pedro Osório da Sociedade Portuguesa de Autores. Recebeu outro Globo de Ouro como melhor intérprete individual em 2012. Jorge Palma continuou a alternar gravações de estúdio, concertos com banda e apresentações em formatos mais próximos da voz e do piano.
Editou “70 Voltas ao Sol” em 2021. O álbum “Vida”, lançado em 2023, foi o seu último disco de originais. Chegou depois de um intervalo de doze anos sem novas colecções de canções e recuperou a presença do compositor em estúdio. Ao longo desse período, os concertos continuaram a ocupar um lugar importante no seu percurso e a reunir públicos que conheciam diferentes fases da sua discografia.
Em 2020, recebeu a Medalha de Mérito Cultural da cidade de Lisboa no concerto dos seus 70 anos e foi condecorado como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Realizado no Castelo de São Jorge, o espectáculo teve uma orquestra de câmara dirigida por Cesário Costa. Em Abril de 2026, o Prémio Carreira dos PLAY voltou a distinguir o seu contributo para a música portuguesa.
A morte de Jorge Palma interrompe essa presença nos palcos, mas deixa um catálogo acessível em discos e gravações ao vivo. Há nele mudanças de instrumentação, experiências partilhadas e interpretações sucessivas das mesmas canções. A permanência da obra dependerá também dos músicos que a revisitem e dos ouvintes que continuem a encontrar nela palavras para experiências próprias.
Conclusão
A trajectória de Jorge Palma atravessou a ditadura, a democratização de Portugal e as transformações do mercado musical sem ficar encerrada num só período. O músico passou das bandas juvenis às ruas europeias, dos arranjos de estúdio aos concertos a solo e aos projectos partilhados, mantendo o piano e a escrita como pontos de encontro entre experiências diferentes.
As canções oferecem hoje um caminho mais concreto para compreender o seu lugar na cultura da lusofonia do que uma sucessão de homenagens. Nos discos antigos e nos mais recentes permanecem as histórias de afecto, liberdade, solidão e vida urbana que públicos de várias idades reconhecem como suas.
Jorge Palma permanece ligado à memória musical de Portugal, da Lusofonia e à circulação da música em língua portuguesa. As gravações mantem-se para sempre e conservam as muitas formas que deu às palavras e às melodias.
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Imagem: © 2025 Rui Farinha