Dia Internacional Da Paz Num Mundo Em Guerra

Há crianças que conhecem o som das armas antes de conhecerem uma sala de aula. Neste 21 de Setembro, a paz volta ao calendário mundial como uma promessa: não basta contar guerras; é preciso perceber o que a violência prolongada faz à vida quando a vida deixa de parecer excepção.

Dia Internacional Da Paz Num Mundo Em Guerra


O Dia Internacional Da Paz chega a 2026 em um mundo onde a guerra deixou de ser uma interrupção distante para milhões de pessoas e passou a organizar a infância, a escola, o trabalho, a deslocação e a relação quotidiana com o Estado. A ONU assinala a data sob o tema “Investir na Paz: Para Todos, Em Todo o Lado, Todos os Dias”, numa altura em que os conflitos se alargam e a protecção dos civis continua sob forte pressão.

A efeméride nasceu para fortalecer os ideais de paz entre os povos, mas o seu valor depende da capacidade de ultrapassar os discursos protocolares. A paz mede-se quando uma criança consegue aprender sem fugir, quando uma família trabalha sem calcular a rota de evacuação e quando um cidadão reconhece no Estado uma instituição que protege em vez de uma força que chega tarde.

Esta pergunta é mundial. Em África, porém, algumas guerras prolongadas tornam particularmente visível o preço de uma geração formada dentro da violência. O continente entra nesta reflexão como parte de uma crise internacional mais ampla e também como lugar onde a ausência de paz expõe, com dureza, o que acontece quando a emergência se transforma em normalidade.


Uma Data Política


A ideia de reservar um dia mundial à paz ganhou forma em 1981, numa conferência em San José, na Costa Rica. A proposta chegou à Assembleia Geral das Nações Unidas num momento marcado pela Guerra Fria, pelo receio nuclear e por conflitos que atravessavam continentes sem uma arquitectura internacional capaz de lhes pôr termo.

Em 30 de Novembro de 1981, a Assembleia Geral adoptou a Resolução 36/67. O texto declarou a terceira terça-feira de Setembro, então dia de abertura das sessões regulares, como Dia Internacional Da Paz. A primeira celebração ocorreu em Setembro de 1982 e ficou ligada à educação, à redução das tensões e ao fortalecimento dos ideais de paz entre nações e povos.

Duas décadas depois, a ONU alterou o desenho da efeméride. A Resolução 55/282, aprovada por unanimidade em 2001, fixou 21 de Setembro como data anual e declarou o dia como período de cessar-fogo mundial e não-violência. A mudança retirou a celebração da dependência do calendário da Assembleia Geral e procurou dar-lhe um significado político mais directo perante os conflitos armados.

Em 2026, o tema escolhido pelas Nações Unidas é “Investir na Paz: Para Todos, Em Todo o Lado, Todos os Dias”. A formulação desloca a paz do campo abstracto para as condições materiais que a sustentam: os direitos humanos, a educação, a saúde, a protecção social, instituições confiáveis e comunidades capazes de resolver tensões sem transformar a diferença em violência.

A origem da data ajuda a perceber a sua contradição. O mundo criou um dia para suspender hostilidades, mas muitas guerras não reconhecem o calendário. A utilidade da efeméride está menos na cerimónia do que na pergunta que impõe aos governos, aos grupos armados e às sociedades: que investimento foi feito para que a paz exista também nos outros 364 dias?


Infância Sem Trégua


A infância é uma das primeiras instituições destruídas pela guerra porque depende de rotina, segurança e previsibilidade. Uma criança pode sobreviver a um bombardeamento e ainda assim perder anos de desenvolvimento quando a família se desloca, os adultos desaparecem, a alimentação diminui e o medo passa a determinar os horários.

Os dados mostram a dimensão mundial desta ruptura. O UNICEF estimou que cerca de 19 por cento das crianças viviam em áreas afectadas por conflitos em 2024, quase o dobro da proporção registada em meados da década de 1990. Em 2025, as Nações Unidas verificaram 38.558 violações graves contra crianças, atingindo 24.174 menores em diferentes guerras e crises armadas.

Estes números incluem mortes, ferimentos, recrutamento por forças e grupos armados, violência sexual, raptos, ataques contra escolas e hospitais e bloqueios da ajuda humanitária. A lista é jurídica, mas a experiência é íntima. Uma infância submetida durante anos a estas ameaças aprende a ler a presença do perigo, a distinguir armas e a construir relações sob suspeita antes de consolidar a confiança.

A guerra pode transferir responsabilidades adultas para crianças que trabalham, cuidam de irmãos, procuram água ou sustentam famílias deslocadas. Pode também separar comunidades, quebrar redes de parentesco e transformar fronteiras em obstáculos permanentes. Quando a paz chega tarde, encontra jovens cuja formação social aconteceu dentro de uma lógica de sobrevivência.

Falar de uma geração que não conhece a paz significa reconhecer que a reconstrução começa antes do cimento. Exige saúde mental, reunificação familiar, protecção contra a exploração, espaços seguros e instituições que devolvam previsibilidade. Sem isso, o cessar-fogo pode calar as armas sem reparar o modo como a violência passou a organizar a vida.


Escolas Sob Fogo


A escola é muitas vezes o primeiro lugar onde uma criança aprende que o Estado existe para além da polícia, do exército ou da fronteira. Quando esse espaço fecha, é ocupado por forças armadas ou se torna alvo, perde-se mais do que um ano lectivo. Rompe-se a relação entre conhecimento, autoridade pública e expectativa de futuro que dificilmente se recompõe apenas com a reabertura.

Em 2025, as Nações Unidas verificaram 1.680 ataques contra escolas em todo o mundo, segundo dados divulgados pela UNESCO em Setembro de 2026. O número representou um aumento de 33 por cento face ao ano anterior. A mesma organização estima que 258 milhões de crianças e adolescentes têm a educação afectada por crises e que 93 milhões estão completamente fora da escola.

A interrupção prolongada aprofunda desigualdades anteriores à guerra. As famílias com recursos conseguem por vezes deslocar os filhos, pagar ensino privado ou manter alguma aprendizagem à distância. As famílias pobres dependem da escola pública e ficam mais expostas ao abandono, ao trabalho infantil, ao casamento precoce, ao recrutamento armado e à perda definitiva de oportunidades económicas.

Sem professores, técnicos, médicos, engenheiros e funcionários formados, a reconstrução torna-se mais cara e lenta. Uma guerra pode durar alguns anos e deixar uma lacuna de competências por décadas. O edifício reconstruído não recupera automaticamente os alunos que partiram, os docentes mortos ou a confiança das famílias.

Proteger a escola não pode ser tratado como questão secundária durante um conflito. O direito internacional humanitário impõe limites à condução da guerra e a ONU tem condenado ataques e ameaças contra estabelecimentos de ensino. Manter a educação em funcionamento é uma forma concreta de impedir que a violência conquiste também o tempo que deveria pertencer ao futuro.


Trabalho Sem Futuro


A guerra também entra no mercado antes das estatísticas macroeconómicas. Fecha estradas, encarece transportes, destrói colheitas, interrompe abastecimentos e transforma o emprego numa actividade sujeita ao risco físico. Uma família deixa de planear o mês e passa a decidir o dia. O salário perde valor quando a comida falta, o negócio fecha ou a deslocação impede chegar ao trabalho.

No fim de Junho de 2025, o ACNUR contabilizava 117,3 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo por perseguição, conflito, violência, violações dos direitos humanos ou perturbações graves da ordem pública. O total caiu face ao final de 2024, mas o organismo advertiu que muitos regressos ocorreram em condições adversas, para zonas inseguras e com serviços básicos limitados.

Deslocar-se pode significar, perder clientes, terra agrícola, documentos, poupanças, qualificações reconhecidas e redes profissionais construídas durante anos. Para quem vive do comércio informal, da agricultura familiar ou de pequenos serviços, a guerra destrói activos que raramente aparecem nos balanços nacionais.

Os jovens são atingidos porque a transição entre a escola e o trabalho depende de instituições que funcionem. Quem termina a adolescência entre deslocações, encerramentos escolares e desemprego entra na idade adulta com menos escolhas. Nesses contextos, a migração, o trabalho precário e até o recrutamento armado podem surgir como respostas a um horizonte económico reduzido pela violência.

Investir na paz tem uma dimensão económica concreta. No Dia Internacional Da Paz, isso significa restaurar transportes, mercados, sistemas de pagamento, agricultura, formação profissional e confiança nas regras. A paz permite às famílias voltar a planear além de uma semana e ao Estado reduzir a energia gasta na emergência. Sem esse horizonte, o futuro torna-se continuação administrada do presente.


A Paz Vivida


A distância entre o cessar-fogo e a paz aparece em Estados que atravessam conflitos prolongados. No Sudão, a guerra iniciada em Abril de 2023 entrou no quarto ano com milhões de pessoas deslocadas, serviços destruídos e uma emergência humanitária de enorme escala. Em Junho de 2026, a UNESCO estimava que 19 milhões de crianças estavam fora da escola no país.

O caso sudanês é africano, mas a pergunta é mundial: o que significa crescer sem uma memória estável de normalidade? Em qualquer região, uma geração formada entre sirenes, campos de deslocados, postos de controle, funerais e interrupções escolares aprende o Estado pela sua ausência, pela sua força ou pela incapacidade de garantir direitos. Essa aprendizagem deixa marcas políticas duradouras.

Um acordo pode interromper combates, mas a confiança exige justiça, serviços públicos, representação política e segurança que não transforme comunidades em suspeitas. Quando o Estado regressa apenas com armas e impostos, sem escola, hospital, tribunal ou trabalho, a população recebe presença administrativa sem receber a experiência material da cidadania.

Professores que reabrem salas, profissionais de saúde que regressam, líderes comunitários que evitam represálias e famílias que recuperam bairros participam na reconstrução. Isto não diminui a responsabilidade dos governos. A sociedade pode sustentar pontes, mas só instituições legítimas conseguem transformar esforços dispersos numa ordem pública duradoura.

O Dia Internacional da Paz tem valor quando obriga o mundo a medir essas condições e não apenas o silêncio das armas. A paz existe quando a criança não aprende a guerra como rotina, quando o trabalhador não calcula a fuga antes do salário e quando o cidadão pode exigir direitos sem temer quem deveria protegê-lo. É nessa vida que a efeméride encontra a sua prova.


Conclusão


A paz não pode ser medida apenas pelo número de acordos assinados ou por horas sem disparos. Mede-se pela capacidade de uma sociedade devolver previsibilidade à infância, continuidade à escola, dignidade ao trabalho e confiança à relação entre o cidadão e o Estado.

Quando a violência dura anos, o problema deixa de ser apenas terminar a guerra; passa a ser reconstruir a normalidade que uma geração nunca chegou a conhecer. Neste 21 de Setembro, a mensagem mundial só ganha sentido se a paz for tratada como investimento permanente e não como intervalo cerimonial.

O Sudão, como tantas outras guerras, recorda que o tempo também é uma vítima: cada ano perdido produz consequências que continuam depois do último combate. A paz começa quando o futuro deixa de ser uma promessa abstracta e volta a poder ser planeado.

 


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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