África Do Sul Quer Os Jogos Olímpicos De 2036

Um século e quatro décadas depois do nascimento dos Jogos Olímpicos modernos, África continua sem ter recebido a principal competição desportiva do movimento olímpico. A África do Sul entrou agora no grupo de sete interessados em 2036, mas o caminho ainda é preliminar, competitivo e sujeito a várias etapas.

África Do Sul Quer Os Jogos Olímpicos De 2036


Os Jogos Olímpicos de 2036 ganharam uma dimensão histórica para África com a confirmação da África do Sul entre sete países que mantêm conversações preliminares com o Comité Olímpico Internacional. A lista inclui também a Alemanha, a Hungria, a Índia, o Qatar, a Coreia do Sul e a Turquia. Nenhum deles é ainda finalista e nenhuma candidatura recebeu preferência formal.

O processo entra agora numa fase de selecção gradual. O Comité Olímpico Internacional prevê reduzir o grupo em Março de 2027, quando alguns projectos poderão avançar para um diálogo estratégico. Os anfitriões preferenciais deverão ser indicados em 2028 e a escolha final está prevista para meados de 2029. Até 31 de Outubro de 2026, outros interessados ainda podem manifestar-se.

Para a África do Sul, a corrida recupera uma ambição antiga e acrescenta-lhe uma pergunta continental. O país tentou levar os Jogos à Cidade do Cabo em 2004 e organizou o Campeonato do Mundo de Futebol de 2010. Agora, a possibilidade de acolher a principal celebração olímpica coloca África perante uma barreira que permanece intacta desde Atenas 1896: nenhum país africano recebeu os Jogos Olímpicos de Verão.


Sete Na Corrida


A entrada sul-africana não nasceu de uma decisão tomada esta semana. Em Novembro de 2025, o Governo aprovou a participação do país no Diálogo Contínuo do Comité Olímpico Internacional para estudar uma eventual candidatura aos Jogos Olímpicos de 2036 ou 2040. O Executivo definiu então essa fase como preliminar e exploratória, destinada a testar a viabilidade antes de assumir compromissos definitivos.

A confirmação desta terça-feira altera sobretudo a visibilidade da disputa. A África do Sul surge agora num grupo identificado publicamente pelo Comité Olímpico Internacional, mas continua apenas como parte interessada. Em Março de 2027 será formada uma lista mais curta e alguns projectos poderão entrar no diálogo estratégico criado pelas regras revistas sob a presidência de Kirsty Coventry.

Esse desenho procura separar o interesse político da capacidade efectiva de organizar os Jogos. A fase estratégica deverá aprofundar a análise dos projectos antes de o Comité Olímpico Internacional indicar anfitriões preferenciais em 2028. A decisão definitiva está prevista para meados de 2029, deixando quase três anos entre a actual demonstração de interesse e a escolha final do anfitrião.

A África do Sul terá de transformar a ambição em dossier. O Governo defende que o país dispõe de infra-estruturas e experiência na organização de grandes eventos, argumento associado ao Campeonato do Mundo de Futebol de 2010. Ainda assim, o estatuto actual não garante a passagem à fase seguinte nem significa que uma cidade-sede sul-africana esteja definitivamente escolhida pelo processo olímpico.

A concorrência reúne projectos com perfis diferentes. A Alemanha apresenta Munique, anfitriã em 1972. A Coreia do Sul recebeu os Jogos de Verão em Seul em 1988 e os Jogos de Inverno em Pyeongchang em 2018. A Índia procura a sua primeira edição olímpica. O Qatar, a Hungria e a Turquia voltam a tentar converter a ambição internacional numa eleição olímpica.


Barreira Africana


A dimensão africana da candidatura vai além da bandeira sul-africana. Desde os primeiros Jogos Olímpicos modernos, realizados em Atenas em 1896, nenhuma edição de Verão foi organizada em África. O continente produziu campeões, recordistas e gerações olímpicas, mas permaneceu fora da geografia das cidades anfitriãs durante mais de um século de expansão internacional do principal evento olímpico.

A África do Sul já tentou romper essa fronteira. A Cidade do Cabo foi uma das cinco finalistas para os Jogos de 2004 e avançou até à terceira ronda da votação realizada em 1997. Atenas acabou escolhida. A candidatura sul-africana surgiu poucos anos depois do fim do apartheid e procurava também projectar uma nova identidade nacional no sistema internacional.

Quase três décadas depois, o contexto africano é diferente. O Senegal prepara-se para receber, entre 31 de Outubro e 13 de Novembro, os Jogos Olímpicos da Juventude Dakar 2026, primeiro evento desportivo olímpico organizado no continente. A estreia senegalesa não equivale aos Jogos de Verão séniores, mas reduz uma distância simbólica que durante décadas marcou a relação de África com o movimento olímpico.

Uma eventual edição de 2036 teria por isso um significado acumulado para o continente. Seria a passagem da participação para a organização do principal palco olímpico e colocaria cidades africanas perante exigências de transporte, alojamento, segurança, sustentabilidade e financiamento. O valor histórico seria evidente, mas a legitimidade da candidatura dependeria também da capacidade de transformar o evento em benefício público duradouro.

A memória do Campeonato do Mundo de 2010 dá à África do Sul experiência relevante, mas os Jogos exigem uma escala própria. A candidatura terá de mostrar ao Comité Olímpico Internacional que a ambição continental pode coexistir com contas sustentáveis, instalações úteis depois da competição e condições sólidas para os atletas durante o programa olímpico.


Caminho Até 2029


O próximo teste começa antes da lista de Março. O Comité Olímpico Internacional mantém aberta até 31 de Outubro a possibilidade de novos interessados entrarem no processo dos Jogos Olímpicos. A proximidade do prazo torna novas adesões menos prováveis. Depois disso, a comparação entre projectos deverá expor diferenças de financiamento, instalações, transportes, capacidade operacional e apoio político entre os concorrentes.

As regras também mudaram sob Kirsty Coventry. O Comité Olímpico Internacional introduziu uma fase de diálogo estratégico e pretende envolver mais os seus membros na avaliação. Existe a possibilidade de mais de um interessado ser designado anfitrião preferencial em 2028. O novo desenho reduz a lógica de uma corrida decidida cedo e mantém vários projectos sob análise durante mais tempo.

Coventry colocou os atletas no centro do processo e essa exigência deverá pesar na avaliação dos projectos. Para a África do Sul, o argumento histórico pode ser poderoso, mas não substitui a demonstração técnica. O país terá de provar que consegue oferecer instalações adequadas, deslocações funcionais, alojamento suficiente e uma organização capaz de servir modalidades muito diferentes durante várias semanas.

A sustentabilidade será outra medida decisiva. O modelo do Comité Olímpico Internacional exige que os futuros anfitriões integrem questões como o clima, a mobilidade, a utilização de infra-estruturas e o destino das instalações depois dos Jogos. Numa candidatura africana, o debate ficará inevitavelmente ligado ao custo público e à pergunta sobre quem beneficia depois da cerimónia de encerramento.

Por isso, a entrada da África do Sul deve ser lida como o início de uma disputa e não como uma aproximação automática à vitória. O país ganhou lugar na conversa sobre 2036 e carrega uma possibilidade inédita para África. A partir daqui a dimensão histórica terá de ser sustentada por um projecto capaz de sobreviver à avaliação técnica, política e financeira do processo olímpico.


Conclusão


A África do Sul ainda não conquistou uma candidatura final nem recebeu qualquer promessa de 2036. Conquistou apenas o direito de continuar uma conversa sobre os Jogos Olímpicos que ficará mais exigente a partir de 2027. Essa distinção é essencial para medir o momento sem transformar expectativa em resultado.

Ainda assim, a presença sul-africana entre os sete interessados tem peso histórico. Em poucas semanas, Dakar receberá o primeiro evento olímpico realizado em África. Uma década depois, os Jogos de Verão poderão finalmente atravessar a mesma fronteira, caso um projecto africano convença o Comité Olímpico Internacional.

O desafio será demonstrar que a força simbólica vem acompanhada de capacidade, responsabilidade financeira e legado público. Se a África do Sul avançar, não estará apenas a disputar um evento. Estará a tentar corrigir uma ausência antiga na geografia olímpica e a provar que África pode organizar o maior palco desportivo do planeta nos seus próprios termos.

 


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Imagem: © 2024 Gayton McKenzie
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Editor-chefe, atleta olímpico e doutor em Antropologia da Arte, possui mestrados em Treino de Alto Rendimento e em Belas Artes. Escritor prolífico com várias obras de poesia e ficção publicadas, cruza a sua liderança editorial com uma vasta produção académica de ensaios e artigos científicos.
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