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ToggleMorreu Deolinda Guezimane, Pioneira da OMM
Deolinda Guezimane, veterana da luta armada e membro sénior da FRELIMO, faleceu na madrugada desta quinta-feira, dia 28 de Outubro de 2026, na sua residência, em Maputo. A notícia foi confirmada pela bancada parlamentar do partido que recordou a antiga combatente como fundadora e primeira secretária-geral da Organização da Mulher Moçambicana.
Natural do Búzi, na província de Sofala, Deolinda Guezimane juntou-se à FRELIMO em 1965, durante a luta contra o colonialismo português. Recebeu formação militar, mobilizou populações nas zonas de guerra e representou o movimento no estrangeiro, numa época em que a participação feminina começava a ganhar expressão nas estruturas da organização.
A sua biografia atravessa duas etapas da história moçambicana. Antes da independência, proclamada em 1975, combateu e ajudou a estruturar a intervenção das mulheres. Depois, ocupou funções políticas e parlamentares nas instituições do novo Estado, prolongando uma actividade pública iniciada nas frentes da luta de libertação nacional.
O seu percurso inclui a organização do Destacamento Feminino, a criação da OMM em 1973 e a defesa da alfabetização das mulheres. Recordá-lo implica reconhecer as oportunidades conquistadas por aquela geração sem esquecer os limites que continuaram a marcar a igualdade e a autonomia das organizações femininas em Moçambique.
As Suas Raízes
Deolinda Guezimane nasceu a 6 de Março de 1943, no distrito do Búzi, em Sofala. Era filha de Alfredo Simango e Marta Manuel Ernesto, camponeses. A família vivia do trabalho da terra e a sua educação decorreu em diferentes lugares desde os primeiros anos, sob influência das missões religiosas protestantes.
Aos nove anos, seguiu para a então Rodésia do Sul, hoje Zimbabwe, onde iniciou os estudos. Regressou à Beira em 1953 e mudou-se depois para Chicumbane, na província de Gaza. Frequentou aí um internato feminino ligado à Igreja Protestante, antes de prosseguir a formação escolar em Lourenço Marques, capital colonial.
Ali estudou corte, costura e bordados numa escola ligada à comunidade Aga Khan. A biografia elaborada a partir de entrevistas com a própria regista episódios de discriminação racial nesse período. A experiência de exclusão também marcou o modo como viria a relacionar a liberdade nacional com os direitos das mulheres.
Em 1965, deixou Moçambique para se juntar à FRELIMO na Tanzânia. A deslocação passou por Sofala e pelo Malawi, segundo o mesmo registo biográfico. A decisão implicou afastar-se da família e trocar a formação profissional pela vida de um movimento que combatia militarmente a administração portuguesa pela independência de Moçambique.
Na Tanzânia, passou pelo centro de preparação político-militar de Nachingwea e pelo Instituto Moçambicano, em Dar-es-Salaam. Mais tarde, entre 1966 e 1967, integrou um pequeno grupo enviado para estudar na União Soviética. Essa formação ampliou a sua experiência para além das frentes militares e das comunidades sob influência da FRELIMO.
Em 1970, fazia parte do Comité Central da FRELIMO. A jovem que fora estudante passou a ser combatente e dirigente política. Muitas mulheres ainda eram excluídas de cargos de chefia, mas Deolinda Guezimane ocupava posições que lhe permitiam intervir nas decisões do movimento e participar na definição do seu rumo político.
Mulheres em Armas
Criado em 1966, o Destacamento Feminino permitiu integrar mulheres de forma organizada nas forças da FRELIMO. Deolinda Guezimane fez parte do segundo grupo dessa estrutura, segundo a sua biografia. A experiência colocou-a entre as combatentes que rejeitavam a ideia de reservar exclusivamente aos homens a luta armada pela independência nacional.
As suas tarefas não se limitaram ao treino militar. Participou na mobilização das populações, na organização da produção e no incentivo à frequência escolar. Em Cabo Delgado, exerceu funções de mobilizadora e comissária política numa frente onde o contacto com as comunidades locais era indispensável à actividade do movimento político-militar.
A biografia regista o trabalho ao lado de Josina Machel e de outras mulheres do Destacamento. As duas conheceram-se no Instituto Moçambicano, na Tanzânia, e colaboraram também em Tunduru. A formação, a assistência e a organização política cruzavam-se num quotidiano marcado pela guerra, pelo ensino e pelas deslocações das combatentes.
Em 1972, Deolinda Guezimane esteve na décima Conferência das Mulheres Africanas, em Dar-es-Salaam. Um estudo histórico aponta-a como principal porta-voz da delegação moçambicana. O encontro deu voz às combatentes e ajudou a FRELIMO a procurar apoio externo, numa guerra que exigia contactos políticos para além das frentes onde decorria o combate.
Nesse ano, as delegações femininas visitaram a República Democrática Alemã. Foram a escolas, fábricas e cooperativas para conhecer o trabalho de outras organizações de mulheres. O contacto ajudava a divulgar a causa moçambicana e a criar relações além da Tanzânia e dos países africanos vizinhos, procurando apoios para a independência.
O novo papel das mulheres criou tensões dentro da FRELIMO. Persistiam disputas sobre quem podia combater, chefiar grupos e participar nas decisões políticas. A presença de Deolinda Guezimane nas frentes militares e na diplomacia mostrava que as combatentes já tinham voz no movimento, embora a igualdade estivesse longe de ser alcançada.
Fundação da OMM
A 16 de Março de 1973, Deolinda Guezimane participou na fundação da Organização da Mulher Moçambicana, na Tanzânia. A nova estrutura reuniu experiências de mulheres que combatiam e de outras que actuavam na enfermagem, no ensino e na assistência às populações. Essas actividades faziam parte da participação feminina na luta.
Escolhida para primeira secretária-geral, Deolinda Guezimane assumiu o cargo com reservas. Na biografia baseada em entrevistas, recordou a sua reacção: “foi muito difícil, difícil mesmo aceitar porque não tinha experiência”. A responsabilidade colocava-a à frente de uma estrutura que precisava de chegar às zonas libertadas e organizar as mulheres nas comunidades.
A OMM procurava organizar as mulheres para além do Destacamento Feminino. As tarefas incluíam divulgar as decisões da FRELIMO, mobilizar as comunidades e promover a instrução. A rede ligava o trabalho político às famílias moçambicanas que enfrentavam durante a guerra a escassez de serviços nas zonas sob influência do movimento.
Deolinda Guezimane representou a OMM fora do país. Levava aos encontros materiais sobre a luta e procurava apoios internacionais. As delegações mantinham relações com movimentos de mulheres de países africanos, da Europa socialista e da Ásia. Esse trabalho integrava as funções da própria OMM antes da independência nacional moçambicana de 1975.
Com a independência, proclamada a 25 de Junho de 1975, as prioridades mudaram. A OMM passou a incentivar a alfabetização, o acesso das crianças à vacinação e a utilização dos serviços de saúde. O trabalho procurava chegar às comunidades num país onde as instituições precisavam de alargar a sua presença.
O mandato de Deolinda Guezimane terminou em 1976. A OMM permaneceu ligada à FRELIMO, o que limitava a sua autonomia política. A primeira secretária-geral deixou uma rede nacional em expansão, que reunia mulheres de diferentes meios sociais em actividades de educação, de saúde e de mobilização, para além da luta armada.
Estado e Legado
A saída de Deolinda Guezimane da direcção da OMM não encerrou a sua actividade pública. Foi deputada da Assembleia Popular e, depois das primeiras eleições multipartidárias de 1994, integrou a Assembleia da República. Trabalhou na Comissão de Defesa e Ordem Pública, prolongando nas instituições a experiência adquirida durante a luta de libertação.
A biografia regista que fez parte de uma delegação de Moçambique para observar as primeiras eleições multipartidárias na África do Sul. O episódio situou-a noutra etapa da história regional, quando a transição sul-africana e as mudanças nas instituições moçambicanas abriam novas formas de cooperação política entre os dois países vizinhos.
Em 1997, passou a dirigir a Associação Moçambicana de Amizades e Solidariedade com os Povos, onde já exercia funções de secretária-geral adjunta. A entidade promovia contactos e iniciativas de solidariedade com outros povos. O cargo prolongou as relações externas que Deolinda Guezimane conhecera durante a guerra e na direcção da OMM.
Foi membro do Conselho de Estado e alcançou a patente de coronel na reserva. Recebeu distinções associadas à luta de libertação, entre elas as medalhas 25 de Setembro e Nachingwea. No interior da OMM manteve o estatuto de membro de honra, ligado ao seu papel na fundação da própria organização.
Nos últimos anos, a saúde afastou-a da vida política activa. A morte, ocorrida a 28 de Outubro, foi comunicada como uma perda pela FRELIMO e assinalada pelo Presidente da República, Daniel Chapo. As mensagens oficiais recordaram a participação na independência e a defesa do lugar das mulheres na sociedade moçambicana.
O percurso de Deolinda Guezimane vai além das homenagens. As instituições que ajudou a construir abriram espaço à formação e à representação de mulheres, mas mantiveram ligações estreitas ao partido no poder. A sua vida revela conquistas e dificuldades de uma geração que procurou transformar a vitória militar em participação política.
Conclusão
A morte de Deolinda Guezimane encerra uma vida que atravessou o colonialismo, a guerra de libertação e a construção das instituições moçambicanas. A jovem do Búzi que procurou formação fora da sua terra tornou-se combatente, dirigente da OMM e representante política num país que conquistou a independência em 1975.
A sua intervenção teve consequências concretas: ajudou a levar mulheres às estruturas militares, à mobilização comunitária e às campanhas de alfabetização e saúde. O alcance dessa experiência não apagou as desigualdades nem resolveu a questão da autonomia das organizações femininas perante os partidos políticos.
Ficam os registos de uma trajectória construída entre Sofala, a Tanzânia, Cabo Delgado e Maputo. Preservar essa memória exige reconhecer o trabalho colectivo das combatentes e compreender as escolhas políticas da época, sem reduzir a história das mulheres moçambicanas a uma única organização ou dirigente.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos