Locarno: Open Doors Liga Cinema Lusófono

A selecção de 2026 do Open Doors, em Locarno, coloca projectos e produtores africanos em diálogo com circuitos internacionais de co-produção. Entre os sinais lusófonos estão Chapa 100, de Moçambique e África do Sul, e a produtora cabo-verdiana Natasha Craveiro, num programa que também mantém Angola entre os países elegíveis.

Locarno: Open Doors Liga Cinema Lusófono


O Cinema Lusófono volta a ganhar espaço na agenda profissional de Locarno, no segundo ano de um ciclo dedicado a 42 países do continente. A iniciativa do Locarno Pro reúne uma plataforma de co-produção, um laboratório de carreira para produtores e um programa para realizadores com filmes concluídos.

As actividades decorrem em linha em Junho e Julho e seguem para Locarno entre 5 e 12 de Agosto de 2026. A selecção divulgada no início de Junho inclui seis projectos em desenvolvimento, seis produtores e cinco realizadores oriundos de mais de dez países africanos.

No espaço lusófono, o sinal mais visível é Chapa 100, projecto que junta Moçambique e África do Sul, com realização de Ique Langa e produção de Lara Sousa, da Kulunga Filmes. Cabo Verde surge através de Natasha Craveiro, da Korikaxoru Films, enquanto Angola permanece entre os países elegíveis do ciclo africano.

Esta presença importa porque o Open Doors funciona antes da estreia pública dos filmes. O programa aproxima equipas de fundos, consultores, compradores e festivais, criando condições para que projectos locais encontrem parceiros sem perder a referência aos seus territórios.


Rota de Produção


Chapa 100 é apresentado pelo Open Doors como uma história de amor urbana e surrealista, com ligação entre Moçambique e África do Sul. O projecto tem realização de Ique Langa, cujo percurso recente inclui O Profeta, exibido na Tiger Competition do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, e produção de Lara Sousa, reconhecida pelo percurso no Creative Producers Indaba.

A presença do filme em Locarno desloca a leitura do Cinema Lusófono moçambicano para uma escala transfronteiriça. A circulação não nasce apenas da língua, mas também dos mercados vizinhos, das equipas mistas, dos fundos possíveis e da necessidade de levar histórias locais a espaços onde se decidem apoios, alianças e futuras estreias.

No conjunto dos seis projectos, Chapa 100 aparece ao lado de propostas vindas do Ghana, da Nigéria, da Somália, do Djibouti, da Tanzânia, do Quénia e do Uganda. A lista combina documentário, ficção e experiências híbridas, com temas ligados à memória musical, vida urbana, gentrificação, justiça comunitária, maternidade e heranças coloniais.

Essa vizinhança editorial ajuda a perceber o lugar de Moçambique no programa. O projecto não surge como curiosidade lusófona isolada, mas como parte de uma conversa africana mais ampla sobre modos de produção, públicos e linguagens.

O júri deverá atribuir prémios financeiros e apoios em espécie a projectos seleccionados a 10 de Agosto. A novidade anunciada para 2026 é uma bolsa da EAVE e do Film Fund Luxembourg para o EAVE Marketing Workshop, no valor de quatro mil euros, sinal de que o percurso dos filmes inclui estratégia de público e preparação para mercados competitivos.


Produtores em Rede


Natasha Craveiro chega ao Open Doors Producers a partir de Cabo Verde e da Korikaxoru Films, produtora que co-fundou em 2017. O programa descreve a vertente Producers como um espaço dedicado a carreiras sustentáveis e redes profissionais transfronteiriças, com seis participantes de seis países africanos seleccionados para esta edição.

O percurso da produtora cabo-verdiana situa a escolha com clareza. Craveiro produziu OMI NOBU, de Carlos Yuri Ceuninck, exibido nos Open Doors Screenings em Locarno em 2025, e tem trabalho como produtora, argumentista e realizadora. A sua biografia pública regista ainda ligação ao Núcleo Nacional do Cinema de Cabo Verde, NuNaC.

A dimensão cabo-verdiana do Cinema Lusófono não se limita à presença individual. Em filmes como Pirinha, assinado por Natasha Craveiro, surgem memória familiar, medicina tradicional e imaginário feminino, num caminho de cura associado a rituais culturais das ilhas.

Angola entra nesta leitura por outra via: o mapa de elegibilidade. O Open Doors 2025-2028 inclui o país entre os 42 países africanos abrangidos pela chamada, juntamente com Cabo Verde e Moçambique. A ausência de profissionais angolanos no anúncio de 2026 não apaga a possibilidade de participação no ciclo nem o interesse estratégico para produtores lusófonos.

A ambição do programa passa por apoiar narradores e empreendedores criativos que procuram públicos nos seus países, nas diásporas e no circuito internacional. Em Locarno, essa intenção ganha método: encontros, mentoria e co-produção colocam o cinema africano diante de parceiros que raramente chegam aos seus territórios com tempo para escuta, negociação e acompanhamento.


Conclusão


A selecção de 2026 do Open Doors confirma Locarno como ponto de passagem para cinematografias africanas que procuram mais do que visibilidade em festivais. Chapa 100 dá a Moçambique uma presença ligada à co-produção regional e Natasha Craveiro coloca Cabo Verde num espaço de produtores com memória de obra feita e atenção à construção de redes.

Para Angola, a notícia é menos imediata, mas não é irrelevante. A inclusão do país no ciclo africano mantém aberta uma via de participação num programa que cruza formação, financiamento, circulação e pensamento profissional. O Cinema Lusófono africano aparece, assim, não como bloco uniforme, mas como constelação de projectos, trajectos e territórios que procuram lugar próprio no mapa internacional.

 


Que novas obras do Cinema Lusófono poderão chegar a Locarno nos próximos anos? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2023 Locarno Film Festival
Nádia Monteiro

Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu percurso entre Cabo Verde, Portugal e a lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema, artes plásticas, património e memória africana. Acompanhou festivais, lançamentos de livros, exposições, museus e projectos de criadores da diáspora. Na Mais Afrika, escreve sobre cultura sem exotismo, com atenção às obras, aos públicos, aos territórios, às línguas, à circulação cultural e ao valor simbólico da criação africana.

Nádia Monteiro
Nádia Monteiro
Formada em Estudos Culturais e Comunicação, construiu percurso entre Cabo Verde, Portugal e a lusofonia atlântica a escrever sobre literatura, música, cinema, artes plásticas, património e memória africana. Acompanhou festivais, lançamentos de livros, exposições, museus e projectos de criadores da diáspora. Na Mais Afrika, escreve sobre cultura sem exotismo, com atenção às obras, aos públicos, aos territórios, às línguas, à circulação cultural e ao valor simbólico da criação africana.
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