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ToggleJohnny Clegg Está Vivo Na Voz Desta Geração
Johnny Clegg regressa ao presente através de um disco que prefere a transformação à conservação reverente. Scatterlings (Johnny Clegg Reimagined), editado pela Oceanbeat, coloca 14 canções nas mãos de músicos com percursos muito diferentes e deixa que cada interpretação procure outra textura, outro ritmo ou outra escala para um repertório criado noutra África do Sul.
Jesse Clegg e Msaki conduzem um encontro onde Beatenberg, Kyle Shepherd Trio, Sun-El Musician, Tresor, Zakes Bantwini, Simmy, Muzi, Sjava, Big Zulu e outros artistas não funcionam como figurantes de homenagem. O disco desloca as canções para linguagens contemporâneas sem esconder as versões originais nem retirar delas a história política que lhes deu peso.
Essa escolha ganha sentido porque Clegg construiu a sua obra enquanto o apartheid transformava a separação racial em lei, espaço e rotina. Com Juluka e depois Savuka, atravessou fronteiras musicais e sociais que o regime procurava policiar.
Mais de três décadas após o apartheid, a nova gravação pergunta o que aquelas canções conseguem dizer a quem herdou a promessa democrática sem ter vivido o sistema que elas enfrentaram e num país onde raça, desigualdade e pertença continuam a atravessar a vida pública.
Canções Renovadas
Scatterlings abre o catálogo de Johnny Clegg a escolhas que vão muito além da réplica. O álbum foi lançado a 31 de Julho com 14 faixas e conserva a voz do músico em várias delas, mas distribui o centro de gravidade por intérpretes que trabalham a partir do jazz, da electrónica, do pop, da canção e de ritmos dançáveis sul-africanos.
Beatenberg reduz Scatterlings a uma arquitectura mais leve, apoiada na guitarra de Matthew Field, enquanto Msaki e o Kyle Shepherd Trio levam Third World Child para um terreno de piano contido que cresce até uma resolução mais aberta. São mudanças de escala que deixam a composição reconhecível sem fingir que o presente deve tocar como os anos 1980.
Sun-El Musician transforma Inkunzi através de pulsação electrónica e vozes sobrepostas. Tresor assume Cruel Crazy Beautiful World e Simmy com Kenza reabre Dela. A variedade é decisiva para o projecto porque recusa a ideia de um som único capaz de guardar Clegg. O repertório permanece vivo justamente ao aceitar que a transmissão também altera a forma.
Essa abertura também aproxima artistas que ocupam lugares diferentes na música do país. Sjava e Big Zulu aparecem em Ibhola Lethu, Zakes Bantwini trabalha The Crossing (Osiyeza) com Jesse Clegg, Msaki e Skye Wanda e Zolani Mahola surge com o Zolani Youth Choir. O desenho colectivo impede que a memória fique presa a uma família ou a um género.
Jesse Clegg e Msaki apresentaram a proposta como uma conversa entre gerações e a ideia percebe-se melhor nas escolhas do que numa declaração de princípio. As novas versões preservam letras, motivos melódicos e vozes arquivadas quando isso serve a canção. Noutras faixas mudam o corpo sonoro. A homenagem deixa assim de ser reprodução e passa a ser leitura.
Fronteiras Raciais
Essa leitura só ganha densidade porque as canções nasceram dentro de uma ordem que regulava onde as pessoas podiam viver, circular e encontrar-se segundo classificações raciais. Johnny Clegg aproximou-se ainda jovem de músicos Zulu em Joanesburgo e formou Juluka com Sipho Mchunu. A existência pública de uma banda racialmente integrada já contrariava a lógica social e legal do apartheid.
Juluka misturou estruturas musicais Zulu com rock, folk e letras em isiZulu e inglês. O grupo tocou para públicos negros e brancos apesar das restrições impostas pelo regime e teve canções afastadas da rádio estatal. O gesto político estava inscrito no próprio funcionamento da banda: músicos, línguas, repertórios e audiências ocupavam um espaço que a segregação queria manter dividido.
Quando Juluka terminou, Clegg criou Savuka e a crítica política tornou-se ainda mais explícita. Asimbonanga, gravada nos anos 1980, evocava Nelson Mandela enquanto permanecia preso e recordava outras figuras da luta contra o apartheid. A canção cruzava isiZulu e inglês numa época em que a separação racial também tentava ordenar cultura, educação e circulação pública.
Por isso, o legado não cabe apenas nas letras de protesto. A própria colaboração entre Clegg e Mchunu mostrava uma possibilidade de convivência que o Estado negava e o palco tornava visível perante públicos diversos. Essa dimensão ajuda a explicar por que motivo o repertório continua associado ao não-racialismo: a mensagem estava na canção e na maneira de a produzir.
Mas transformar Clegg num símbolo impecável reduziria a história à sua imagem mais confortável. A força do seu percurso está também nas relações concretas com músicos Zulu, nas tensões de circulação e no risco de tocar através de fronteiras regulamentadas. Reouvir esse repertório em 2026 exige reconhecer o contexto sem transformar o passado numa promessa plenamente cumprida.
Memória Presente
O ponto mais interessante de Scatterlings aparece quando o disco chega a ouvintes que nasceram depois de 1994 ou eram crianças no início da democracia. Para esse público, o apartheid pertence à memória transmitida por famílias, escolas, arquivos e cultura popular. As novas versões retiram as canções do lugar de documento histórico e devolvem-lhes circulação quotidiana.
O festival Scatterlings, realizado a 1 de Agosto em Huddle Park, Joanesburgo, prolongou esse movimento fora do disco. No mesmo palco passaram nomes ligados ao projecto e artistas com públicos formados noutras sonoridades. A audiência ouviu repertórios distintos, dançou ao som de electrónica e maskandi e reencontrou Johnny Clegg num programa desenhado para atravessar géneros e gerações.
Msaki observou depois do festival que o mesmo público acompanha formatos muito diferentes, da música de dança a apresentações mais despidas. A observação interessa porque desloca a homenagem do terreno da nostalgia para o da escuta. Uma geração pode receber Clegg sem repetir o seu som, desde que reconheça as perguntas sobre pertença, encontro e separação que atravessam as canções.
É nesse ponto que o não-racialismo deixa de ser apenas uma expressão de celebração e passa a servir de referência crítica. As canções recordam uma sociedade que impôs fronteiras raciais por lei, mas a forma como continuam a ser ouvidas leva também a perguntar até que ponto essas divisões ainda persistem na vida quotidiana, nos espaços públicos e no acesso às oportunidades.
O disco não procura dar uma resposta definitiva a essa questão. Ao colocar vozes arquivadas junto de músicos activos em 2026, Scatterlings transforma herança em relação entre tempos. O valor do projecto está nessa fricção: ouvir o passado sem o congelar, reconhecer a coragem inscrita nas canções e testar se a ideia de uma África do Sul sem barreiras raciais continua audível para quem chegou depois.
Conclusão
Scatterlings mostra que o legado de Johnny Clegg continua mais fértil quando deixa de ser tratado como peça encerrada. As novas versões não apagam Juluka, Savuka, Sipho Mchunu ou a violência institucional do apartheid.
Também não transformam a mistura de géneros num gesto neutro. Colocam músicos de outra época diante de canções cuja forma e história continuam a exigir posição. O disco e o festival devolvem ao público uma memória que pode ser dançada, discutida e contrariada sem perder o contexto que a tornou necessária.
Para quem não viveu o apartheid, Johnny Clegg chega agora como uma referência musical que continua a levantar uma pergunta: que relações ainda precisam de atravessar fronteiras e que ideia de comunidade pode nascer quando a herança deixa de ser repetida e volta a ser trabalhada?
Achas que as novas versões das músicas de Johnny Clegg conseguem levar o ideal não-racial a uma geração que não viveu o apartheid? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
Imagem: © 2026 Virgin