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ToggleJoão Lourenço Pede Que Papa Construa Pontes
João Lourenço recebeu oficialmente o Papa Leão XIV em Luanda com um discurso marcado por dois grandes eixos: a paz internacional e a justiça social interna.
Perante o Sumo Pontífice, o Presidente angolano defendeu que o mundo vive um “momento perigoso”, caracterizado pela multiplicação de conflitos armados e pela crescente instabilidade geopolítica, apelando ao fim definitivo da guerra no Médio Oriente.
Ao mesmo tempo, o chefe de Estado angolano pediu que o Papa continue a exercer a sua autoridade moral como “construtor de pontes”, promovendo a concórdia, o entendimento entre os povos e a prevalência do diálogo sobre o uso da força. Para João Lourenço, figuras com influência moral e política devem actuar em conjunto para impedir que o mundo se aproxime de um ponto de ruptura.
No plano interno, o Presidente destacou igualmente a importância da Igreja Católica como parceira social do Estado, defendendo um envolvimento mais construtivo da instituição religiosa no desenvolvimento económico e social de Angola.
O apelo surge no contexto da terceira visita de um Papa ao país, depois de São João Paulo II, em 1992 e Bento XVI, em 2009, reforçando a continuidade das relações entre Angola e a Santa Sé.
A visita de Leão XIV que decorre durante quatro dias, acontece num momento simbólico para Angola, marcado por desafios sociais persistentes, pelo reforço da diplomacia regional e pela necessidade de aprofundar políticas de combate à pobreza e à exclusão.
Momento Perigoso
“O Médio Oriente, berço do cristianismo, do islão e do judaísmo e de grandes civilizações de quem a humanidade tem muito o que agradecer, devia ser uma zona de paz, de concórdia e de fraternidade”, assinalou João Lourenço.
Segundo o chefe de Estado, a realidade actual aponta para o aumento da instabilidade e para o risco de uma escalada militar de consequências imprevisíveis. João Lourenço apelou ao fim definitivo da guerra e à reabertura do estreito de Ormuz pela via negocial, considerando urgente evitar um cenário de agravamento que possa aproximar o mundo “do abismo”.
O Presidente defendeu que o comércio internacional já possui regras claras e mecanismos suficientes para garantir o acesso a matérias-primas e recursos energéticos sem recurso à força militar.
Criticou ainda aquilo que classificou como uma corrida desenfreada aos recursos naturais, minerais e energéticos, muitas vezes obtidos através da força das armas contra países soberanos. Para o Presidente angolano, o uso da guerra como instrumento económico representa uma ameaça grave à estabilidade internacional.
Neste contexto, João Lourenço considera que a diplomacia e o diálogo devem prevalecer sobre a confrontação militar, reafirmando uma posição que tem marcado a política externa angolana nas últimas décadas.
Construtor de Pontes
“O mundo apela à Vossa Santidade para que do alto da Sua Autoridade Moral continue a desempenhar um papel de construtor de pontos, de apaziguamento de espíritos, de resgate dos valores humanistas, de busca da concórdia e do entendimento entre os homens”, referiu João Lourenço.
Segundo o Presidente angolano, o mundo precisa da intervenção de figuras com reconhecida autoridade moral, capazes de promover o apaziguamento dos espíritos e a recuperação de valores humanistas que parecem cada vez mais ameaçados. O Papa surge, neste quadro, como uma das vozes mais relevantes na defesa da paz e da convivência internacional.
João Lourenço sublinhou que a Santa Sé possui uma influência que ultrapassa o campo religioso, funcionando frequentemente como mediadora moral em momentos de crise internacional. Por isso, pediu ao pontífice que mantenha esse papel de procura de concórdia, entendimento e justiça nas relações internacionais.
O chefe de Estado defendeu igualmente que estadistas influentes e figuras públicas com credibilidade moral devem actuar em conjunto para assegurar que a justiça e o diálogo prevaleçam sobre o uso da força. A referência directa ao Papa reforça a dimensão diplomática da visita e a expectativa de que o Vaticano continue a desempenhar um papel activo em crises internacionais.
A mensagem de João Lourenço não foi apenas protocolar. Ela enquadra-se numa visão mais ampla da diplomacia angolana que tem procurado afirmar-se como defensora da resolução pacífica de conflitos, tanto no continente africano como em cenários internacionais mais amplos.
Igreja Parceira
“Gostaríamos de poder contar com o envolvimento mais construtivo da Igreja Católica na condição de parceira social do Estado, para juntos trabalharmos no propósito de alcançar o progresso e o desenvolvimento económico e social do nosso país”, referiu João Lourenço.
O Presidente pediu um envolvimento mais construtivo da Igreja enquanto parceira social do Estado, defendendo uma cooperação mais profunda em áreas fundamentais para o progresso nacional. Segundo o chefe de Estado, a relação entre o Governo e a Igreja Católica tem sido historicamente importante, mesmo em períodos difíceis da história angolana.
O diálogo entre ambas as instituições, contribuiu para a formulação de políticas sociais e para investimentos em sectores essenciais como a saúde, a educação, o abastecimento de água, a energia eléctrica, a habitação, a criação de emprego e o combate à pobreza.
João Lourenço destacou que Angola é um Estado laico, onde existe liberdade religiosa e coexistência pacífica entre diferentes confissões, mas sublinhou que o catolicismo mantém uma expressão particularmente significativa no país devido ao elevado número de fiéis e à sua presença em todo o território nacional.
O Presidente recordou ainda iniciativas recentes do Executivo para dignificar espaços de culto, entre elas a nova Basílica de Nossa Senhora da Muxima que permitirá melhores condições para a devoção dos cristãos católicos e reforça o valor simbólico da relação entre o Estado e a Igreja.
Neste contexto, a visita papal surge também como uma oportunidade para consolidar essa parceria institucional e aprofundar a cooperação em torno de objectivos comuns ligados ao desenvolvimento social.
Pobreza e Exclusão
“A ideia central da atenção aos pobres, plasmada na Exortação Apostólica “Dilexe Te” de Vossa Santidade, em que considera e eu cito, Deus tem um lugar especial no seu coração para aqueles que são discriminados e oprimidos e apela a escolhas radicais para ajudar os mais fracos, tem uma ressonância muito especial entre nós, governantes, porque serve de guia na nossa acção cotidiana de luta contra as desigualdades, a indiferença e a exclusão social”, referiu João Lourenço.
O chefe de Estado reconheceu que o combate à pobreza continua a ser uma missão complexa e exigente, sobretudo num contexto em que os recursos disponíveis nem sempre correspondem às necessidades existentes. Ainda assim, insistiu que o Executivo está profundamente empenhado nessa tarefa e consciente da sua responsabilidade social.
A Igreja Católica, pela sua presença nas comunidades e pelo trabalho desenvolvido em escolas, hospitais e projectos sociais, surge como parceira natural nessa missão. O Presidente entende que essa colaboração pode ajudar a ampliar o alcance das políticas públicas e a fortalecer respostas concretas junto das populações mais vulneráveis.
Ao mesmo tempo, João Lourenço procurou enquadrar esta dimensão social numa visão mais ampla de reconciliação nacional. Para ele, desenvolvimento económico não pode existir sem inclusão social e paz duradoura exige mais do que estabilidade política — exige dignidade, oportunidades e justiça para todos.
A visita do Papa Leão XIV reforça precisamente essa ligação entre fé, responsabilidade pública e compromisso social, colocando novamente no centro do debate nacional a necessidade de construir uma Angola mais equilibrada e menos desigual.
Conclusão
A chegada do Papa Leão XIV a Angola ultrapassa a dimensão religiosa e assume um forte significado político, social e diplomático. Ao pedir ao pontífice que continue a ser um “construtor de pontes”, João Lourenço projecta para o Vaticano uma expectativa de mediação moral num mundo marcado por guerras e tensões crescentes.
Ao mesmo tempo, reforça internamente a necessidade de uma parceria mais profunda entre o Estado e a Igreja Católica no combate à pobreza e à exclusão social. Num país que procura consolidar a paz e reduzir desigualdades históricas, a visita papal transforma-se num momento de reflexão sobre o presente e o futuro de Angola.
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Imagem: © 2026 Andrew Medichini / Pool / EPA
