Ébola Mata Bebés Em Orfanato Do Congo

Duas mortes de bebés num orfanato católico de Bunia expuseram o risco extremo para crianças no novo surto de Ébola no leste da República Democrática do Congo. O país já soma 635 casos confirmados e 127 mortes, com transmissão concentrada em Ituri e sem vacina aprovada para a estirpe Bundibugyo.

Ébola Mata Bebés Em Orfanato Do Congo


O Ébola voltou a colocar a infância no centro da emergência sanitária na República Democrática do Congo, depois da morte de dois bebés acolhidos num orfanato católico de Bunia, capital de Ituri.

Segundo a Reuters, a recém-nascida Buswaza chegou ao local após a morte da mãe, teve febre e morreu poucos dias depois, com confirmação laboratorial da doença. Outro bebé, a trigémea Cherie, também morreu depois de testar positivo, elevando o alarme entre cuidadores, famílias e equipas médicas.

O Ministério da Saúde indicou em 10 de Junho 635 casos confirmados e 127 mortes em Ituri, Kivu Norte e Kivu Sul. A Organização Mundial da Saúde atribui o surto à estirpe Bundibugyo, sem vacina aprovada nem tratamento específico. A transmissão avança numa região marcada por guerra, deslocações e serviços médicos frágeis e isso dificulta isolamento, rastreio de contactos e protecção das famílias.

A ausência de uma vacina pronta para esta variante deixa as equipas dependentes de diagnóstico rápido, cuidados de suporte, informação clara e transporte seguro para centros preparados em zonas de difícil acesso.

Para a África Central, o caso aumenta a pressão sobre fronteiras, ajuda humanitária e confiança das comunidades nas equipas de saúde, sobretudo quando a doença atinge crianças já expostas à fome, à perda de parentes e à violência armada.


Crianças Em Risco


O orfanato acolhe 69 crianças e tornou-se ponto de vigilância diária depois da morte de Buswaza. Seis bebés foram tratados como casos suspeitos e transferidos para o Centro Médico Evangélico de Bunia. Cinco testaram negativo e deixaram a tenda de isolamento na terça-feira, enquanto as equipas mantiveram avaliação clínica sobre as restantes crianças.

Três cuidadores dos bebés mortos, incluindo uma freira, testaram positivo. O risco é elevado porque o Ébola se transmite por fluidos corporais, como sangue, saliva, vómito, fezes e leite materno. A OMS também refere detecção do vírus em líquido amniótico e placenta e mantém a preocupação clínica com a gravidez, o parto e a amamentação.

As crianças representam cerca de 17% dos casos confirmados neste surto, segundo dados preliminares citados pela UNICEF. A agência receia que a desnutrição, a baixa cobertura vacinal e doenças anteriores reduzam a capacidade de sobrevivência. Em Ituri, um inquérito de 2023 encontrou desnutrição crónica global de 52,1% entre menores de cinco anos.

O conflito armado limita deslocações de ambulâncias, obriga famílias a fugir de aldeias e reduz a chegada de alimentos, água potável e medicamentos básicos aos centros de tratamento locais. Muitas crianças do orfanato já sobreviveram à violência no leste congolês e dependem de cuidadores que agora também adoecem.

Douglas Noble, responsável da UNICEF para emergências de saúde, afirmou que crianças em contexto frágil podem piorar mais depressa quando são infectadas. A resposta inclui isolamento, sepultamentos seguros e verificação diária no orfanato, medidas necessárias para cortar cadeias de contágio sem abandonar menores sob tutela.

A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho indicou ter sacos mortuários de tamanho infantil na área, sinal duro da urgência sanitária num surto sob pressão de recursos, medo comunitário e insegurança persistente.


Conclusão


A morte dos dois bebés mostra que o surto de Ébola na RDC já ultrapassou a fronteira dos boletins epidemiológicos. A crise envolve hospitais pressionados, cuidadores infectados, crianças órfãs e comunidades que convivem com a guerra, a pobreza e a desconfiança perante as equipas médicas. A informação mais recente coloca Ituri no centro da transmissão, com propagação para novas zonas de saúde.

No plano regional, o risco não se limita ao Congo. A mobilidade transfronteiriça exige vigilância reforçada, rastreio de contactos e participação comunitária. Para òs governos africanos e para os parceiros humanitários, a prioridade imediata é proteger crianças, manter laboratórios activos e garantir sepultamentos seguros sem quebrar a confiança das populações.

 


Como devem as autoridades proteger crianças em zonas de guerra durante surtos de Ébola? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 John Wessels / MSF
Tomas Almeida

Formado em Jornalismo e Relações Internacionais, construiu carreira em redacções digitais portuguesas dedicadas à cobertura de política europeia, eleições, crises diplomáticas e grandes acontecimentos globais. Trabalhou em turnos de Última Hora, acompanhou cimeiras internacionais e desenvolveu especial atenção à forma como decisões tomadas na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia ou no Médio Oriente afectam África, a lusofonia e as comunidades migrantes. Na Mais Afrika, escreve com rapidez, clareza e prudência factual.

Tomas Almeida
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Formado em Jornalismo e Relações Internacionais, construiu carreira em redacções digitais portuguesas dedicadas à cobertura de política europeia, eleições, crises diplomáticas e grandes acontecimentos globais. Trabalhou em turnos de Última Hora, acompanhou cimeiras internacionais e desenvolveu especial atenção à forma como decisões tomadas na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia ou no Médio Oriente afectam África, a lusofonia e as comunidades migrantes. Na Mais Afrika, escreve com rapidez, clareza e prudência factual.
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