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Sábado, Abril 13, 2024

Tanzânia-Brasil: As Cores Vivas Da Diplomacia

Ficámos muito impressionados com o programa do Brasil, “Minha Casa, Minha Vida”, em suaíli, “Nyumba Yangu, Maisha Yangu”.

Tanzânia-Brasil: As Cores Vivas Da Diplomacia.

Entrevista Exclusiva a Mais Afrika, do Embaixador Adelardus Lubango Kilangi, representante da Tanzânia, no Brasil e na América do Sul.

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Nesta envolvente entrevista, mergulhámos na trajetória e visão do Embaixador Adelardus Lubango Kilangi, representante da Tanzânia, no Brasil e na América do Sul.

Nesta décima sétima Grande Entrevista, ficámos com uma visão única do trabalho diplomático e da figura multifacetada deste respeitável Embaixador que partilhou a sua rica experiência pessoal, desde a faculdade, até os corredores da diplomacia.

Ao explorarmos a sua carreira e as suas perspectivas pessoais, desvendamos iniciativas, desafios e oportunidades que moldam hoje as relações bilaterais entre a Tanzânia e o Brasil.

Este diálogo esclarecedor transcende a sua rica trajetória, proporcionando uma visão valiosa sobre como suas experiências jurídicas e diplomáticas moldam as relações entre os dois países, enfatizando a importância da lei como alicerce na construção de pontes entre nações.

Através dessa conversa profunda, exploraremos não apenas as suas notáveis iniciativas, mas também o seu ponto de vista sobre a cooperação global, incluindo a abordagem conjunta aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Prepare-se para uma exploração enriquecedora conduzida por um diplomata de excelência e também um grande conversador, cuja visão transcende fronteiras e cujo trabalho promove uma parceria sólida e sustentável entre a Tanzânia e o Brasil.

Junte-se a nós nesta fascinante conversa e fique a saber e a conhecer o que não está à espera…

 

A Entrevista

Mais Afrika: Sr. Embaixador, antes de começarmos, gostaria de agradecer pela sua disponibilidade para nos conceder esta entrevista. Mas antes de iniciarmos, poderia apresentar-se, contando um pouco sobre quem é e partilhando alguns detalhes sobre a sua trajetória profissional até chegar à sua posição actual como embaixador da Tanzânia no Brasil e na América do Sul?

Adelardus Kilangi: Muito obrigado. O meu nome é Adelardus Lubango Kilangi e sou o embaixador da República Unida da Tanzânia no Brasil e em toda a região da América do Sul. Desfruto do título de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário. Quanto à minha carreira e formação profissional, posso dividi-la em quatro areas.

Na primeira, estive no meio académico. Lecionei direito na universidade e realizei diversas actividades académicas por cerca de 15 a 20 anos. Também actuo na área jurídica, formei-me em avogacia e tornei-me advogado do Supremo Tribunal da Tanzânia. A minha posição imediata antes de ser nomeado embaixador foi a de Procurador-Geral da República Unida da Tanzânia.

Desempenhei algumas funções de assessor e ocupei alguns cargos na área jurídica. Também trabalhei em organizações e instituições internacionais, nomeadamente na União Africana, onde fui presidente da Comissão Internacional da União Africana e trabalhei na Comissão Económica das Nações Unidas para África como assessor sénior de direito de minas no Centro Africano de Desenvolvimento do Sector Mineiro.

A terceira área que considero parte da minha carreira e formação profissional é a Sociedade Civil. Trabalhei em várias organizações da Sociedade Civil, onde estive envolvido na gestão de projetos e diversos programas na Tanzânia.

Agora, estou na diplomacia, mas tive a oportunidade, um tempo atrás, na Tanzânia, de trabalhar noutro país, na Embaixada da Dinamarca na Tanzânia, onde actuei como assessor de programas. Acrescento também que trabalhei com organizações internacionais, como mencionei anteriormente. Penso que construí a minha base diplomática nessa área e agora sou Embaixador.

 

(MA): Muito obrigado, Sr. Embaixador. Como advogado do Supremo Tribunal da Tanzânia e membro de muitas instituições jurídicas, incluindo a Sociedade de Direito do Tanganica e da Sociedade de Direito da África Oriental, como acha que essa experiência no campo jurídico influenciou a sua abordagem diplomática e a promoção dos interesses da Tanzânia no Brasil e na América do Sul?

(AK): Definitivamente. Dizem-nos sempre que o nosso histórico, académico e profissional, sempre nos acompanhará em qualquer atividade que estejamos a realizar naquele momento.

Mas deixe-me começar por dizer que quando falamos dos interesses da Tanzânia no Brasil e na América do Sul, em primeiro lugar, é fortalecer as relações bilaterais que temos entre a Tanzânia e este país, assim como outros países na região sul-americana.

Lidamos também com serviços consulares, fornecemos serviços consulares, principalmente para tanzanianos que vivem nesta região e neste país, e nesta região, mas também serviços para pessoas desta região que queiram visitar a Tanzânia. Contudo, talvez de maior importância seja a questão das relações diplomáticas e da diplomacia económica.

Este é um termo relativamente novo, mas estamos a falar de corporações a utilizar a diplomacia para fomentar a cooperação nas áreas do comércio e investimento. Quando se menciona todas essas coisas, na minha opinião, acabam-se sempre por se resumir à questão da lei. Se falarmos de relações bilaterais, elas têm de ser formalizadas através da lei.

Se falarmos de questões consulares, teremos de invocar a lei em algum momento. Se falarmos de comércio e investimento, grande parte envolve o uso da lei, assinaturas de memorandos de entendimento, contratos, tratados bilaterais de investimento e coisas do género. Ao fim do dia, não podemos fugir da lei.

A lei estará sempre presente e com a minha formação em direito e em todas as áreas onde trabalhei, penso que me dá muito apoio enquanto lido com estas funções no campo diplomático. Geralmente, quando falamos de relações internacionais, trata-se de uma ordem baseada em regras e mais uma vez, não podemos fugir da lei. A lei é muito útil no meu trabalho como diplomata.

 

(MA): Sr. Embaixador, ocupou o cargo de presidente da Comissão da União Africana sobre direito internacional e enfatizou que o direito é a base de tudo. Como é que as suas experiências em organizações regionais e internacionais contribuíram para a sua perspetiva sobre a cooperação global e regional?

(AK): Muito obrigado. Talvez necessite descrever brevemente o que estávamos a fazer na Comissão da União Africana sobre direito internacional. A nossa principal tarefa era desenvolver o direito internacional em África e avançar em áreas novas e emergentes no campo do direito internacional, onde regras e princípios ainda não tivessem sido suficientemente desenvolvidas. Esse foi o nosso principal trabalho.

Mas devo admitir e dizer que, ao realizar o nosso trabalho, deparei-me com muita experiência e compreendi muitas questões, entendendo melhor a situação e realidades mundiais de um ponto de vista mais privilegiado.

Uma coisa que entendi muito bem é que o mundo tem sido e continuará a ser, um palco polarizado, onde existem diferentes pontos de vista sobre diferentes assuntos, onde existem diferentes interesses em diferentes questões.

A condução dos assuntos, na minha opinião, é sempre orientada pelos interesses e quando falo de ser orientada pelos interesses, não invoco necessariamente este conceito de forma negativa, mas pode ser invocado de uma forma muito positiva.

O mundo, sem interesse, seria um lugar muito aborrecido, então a agenda mundial e as questões são impulsionadas pelo interesse. Mas o que é importante neste contexto de questões mundiais orientadas pelos interesses, assuntos, atividades, interações, é que se defina claramente o seu próprio interesse — qual é o seu interesse?

Então, como países em desenvolvimento, qual é o nosso interesse ou os nossos interesses, como Tanzânia, qual é o nosso interesse ou interesses, como Brasil e o mesmo para muitos outros países?

Quais são os nossos interesses? E depois de definir esses interesses, então vamos pensar em realmente unir esforços com pessoas e países com mentalidades semelhantes e ver como podemos promover e desenvolver esses interesses.

 

(MA): Sr. Kilangi, como embaixador, tem a responsabilidade de fortalecer os laços bilaterais entre a Tanzânia e o Brasil, promovendo tanto o comércio como o intercâmbio cultural. Poderia partilhar algumas iniciativas notáveis implementadas durante o seu tempo no cargo, para melhorar essa cooperação?

(AK): Muito obrigado pela pergunta. Está a questionar-me sobre a base da minha presença no Brasil e na região sul-americana em geral. Estou no Brasil à cerca de um ano e meio, há precisamente 20 meses.

Como disse antes, as nossas principais funções são talvez três: fomentar relações bilaterais, essa é uma e depois trabalhar em questões consulares, essa são duas. Mas três e onde nos estamos a focar muito estes dias, é no trabalho da diplomacia económica.

Isso significa investir, investigar oportunidades, criar uma estratégia, elaborar planos sobre essas oportunidades onde podemos promover o comércio e o investimento entre estes dois países. É aqui que se encontra a base do conceito da diplomacia económica.

Agora, desde que cheguei ao Brasil, tenho tomado várias iniciativas. Em primeiro lugar, explorar, porque tudo começa com a exploração e depois da exploração, então define-se, chega-se a conclusões.

Portanto, tenho estado a fazer pesquisas, a explorar o trabalho e posso garantir-lhe que existem muitas áreas que descobrimos que poderíamos promover e gerar cooperação entre a Tanzânia e o Brasil.

Posso começar pela área das relações bilaterais, por exemplo, onde tivemos estas consultas políticas entre a Tanzânia e o Brasil que começaram lá atrás em 2018. São discussões entre estes dois governos sobre os sectores em que acham que precisariam de melhorar a cooperação.

Portanto, essas consultas tinham parado por algum tempo, e desejamos agora revitalizá-las. Portanto, revitalizar as consultas políticas será uma das nossas prioridades máximas. Mas quando se trata agora de iniciativas, iniciativas específicas dentro de vários sectores, tomámos várias iniciativas neste trabalho exploratório e de pesquisa que temos estado a fazer.

Por exemplo, na agricultura, temos estudado muito atentamente o programa de transformação agrícola no Brasil que foi realizado há alguns anos. Como é que funcionou? Há algo que possamos aprender para a Tanzânia? Podemos seguir o exemplo deste país.

Mas também estamos a explorar possibilidades de cooperação na formação e pesquisa e no desenvolvimento da nossa agricultura. Há muitos avanços neste país em termos de formação, existem universidades, centros de formação, e achamos que podemos desenvolver cooperação em algumas áreas.

Há a área da transferência de tecnologia e, especialmente, o uso aprimorado da mecanização no sector agrícola, algo que este país alcançou muito e pensamos que há muito que podemos aprender. Queremos falar e refletir sobre a cooperação na produção de sementes de qualidade. Isto é muito importante se quisermos aumentar a produtividade agrícola.

Obviamente, a produção de sementes de qualidade é crucial. Há a questão da irrigação, fizemos a nossa pesquisa, fizemos os nossos estudos nesta área, e pensamos que muito progresso foi feito nesta área neste país e, portanto, há muito que podemos aprender.

Há a questão do desenvolvimento de capacidades e dos serviços de apoio aos agricultores de pequena e média escala, porque uma das características principais do Programa de Transformação Agrícola, como aprendemos neste país, é que não procurou liquidar, surpreender ou eliminar os pequenos agricultores.

Mas dentro do planeamento deste programa de transformação, penso que foram feitos esforços para garantir que o pequeno agricultor tenha espaço dentro desta transformação. Ele não é eliminado. Portanto, pensamos que, neste facto e realidade, há algo que podemos aprender.

Existem questões de desenvolvimento de capacidades e apoio às cooperativas agrícolas. Penso que foram dados passos muito largos neste país em termos de apoio às cooperativas. Penso que as cooperativas desempenharam um papel muito importante na transformação da agricultura neste país porque também tínhamos, e tivemos, cooperativas na Tanzânia.

Penso que podemos aprender muito com o Brasil e podemos usar essas lições para fortalecer as nossas próprias cooperativas. No que diz respeito a produtos e culturas específicos, por exemplo, desenvolvemos um interesse no cultivo da cana-de-açúcar e na produção de açúcar.

Sabemos que o Brasil lidera o mundo nesta área e também temos as nossas próprias lutas na Tanzânia e pensamos que há muito a aprender com este país. Há a questão da produção de fertilizantes. Pensamos também que poderiam existir iniciativas que poderíamos tomar nesta área.

Mas o Brasil também tem apoiado dois projetos na Tanzânia: Cotton Victoria e Beyond Cotton. Eles têm a ver com o aumento da produção de algodão, mas dentro desse contexto, muitas lições e lições valiosas, foram aprendidas.

Temos estado a discutir com os implementadores do projeto, o Programa Mundial de Alimentos do Brasil e claro, esses projetos foram implementados com o apoio do governo brasileiro. Portanto, existem lições muito boas que foram aprendidas, que pensamos poder ser replicadas noutros locais da Tanzânia. Muitas lições valiosas.

E se quisermos falar sobre estas lições, precisaremos de uma sessão própria porque há tantas e muito lições interessantes. Mas se formos para o campo da pecuária e das pescas, temos trabalhado na disponibilidade de ração para peixes, mas também na possibilidade de ter um investimento do Brasil na construção de uma fábrica que produzirá ração para peixes.

Porque há esforços na Tanzânia por parte do governo para promover a piscicultura, também temos estado a trabalhar na obtenção de uma boa raça de gado para bovinos de carne e leite.

Ouvi uma história da Índia de que o Brasil, há muitos anos, talvez mais de 100 anos, levou algumas raças da Índia para o Brasil e depois desenvolveu-as ao longo do tempo. Mas agora é a Índia que procura o Brasil para importar estas raças de gado. É uma área interessante que pensamos que podemos querer fazer algo sobre isso.

Na mesma área, o sector das pescas e da pecuária, há a questão da avicultura ou criação de galinhas onde, novamente, este país lidera no mundo. Penso na produção de carne de frango. Portanto, a criação de galinhas, e pensamos que há muito que podemos aprender com este país.

Devo continuar? Há tantas coisas, tantas iniciativas em outros sectores… Posso falar rapidamente delas.

Iniciativas no sector do turismo. Estamos a criar planos para ver se podemos promover as atrações turísticas da Tanzânia. Temos muitas atrações que podemos apresentar ao Brasil, como o turismo de vida selvagem, mas também o turismo de praia. Sei que o Brasil está muito desenvolvido em termos de turismo de praia, mas também temos atrações de turismo de praia na Tanzânia.

Mas, na mesma linha, para ver se podemos aprender com o Brasil em termos de como organizar e gerir o turismo de praia e o turismo de natureza, no qual o Brasil é muito bom. Temos iniciativas no sector da habitação. E todas estas iniciativas sobre as quais estou a falar, fizemos algum trabalho de acompanhamento.

Então, temos estado bastante ocupados. Temos iniciativas no sector habitacional. Ficámos muito impressionados com o programa do Brasil, “Minha Casa, Minha Vida”, em suaíli, “Nyumba Yangu, Maisha Yangu”.

Estamos a tentar ver se podemos replicar isso na Tanzânia. Mas também estamos a empreender iniciativas para ver se podemos estabelecer parcerias entre cidades e criar acordos de cidades irmãs entre cidades no Brasil e cidades aqui em termos de comércio e investimento. Estivemos a trabalhar num acordo que está em andamento há algum tempo, o acordo para evitar a dupla tributação.

Queremos ver se podemos finalizá-lo. Mas também, temos trabalhado no emparelhamento e promoção da cooperação entre as nossas Câmaras de Comércio, ou seja, as Câmaras de Comércio do Brasil e as Câmaras de Comércio da Tanzânia. Mas claro, começámos com as Câmaras de Comércio do estado do Rio de Janeiro.

No sector de energia, fomos inspirados pela produção e uso de etanol neste país. E, portanto, começámos discussões com o nosso governo lá atrás para ver se podemos aprender sobre a produção e uso de etanol. Há também a produção e uso de biogás. Sei que existem fábricas que produzem biogás.

Mas também queremos ver se podemos continuar a cooperação entre algumas das instituições brasileiras que trabalham no sector de petróleo e gás e dos seus homólogos na Tanzânia. No sector mineiro também, temos trabalhado nessa área. E, nessa área, queremos ver se podemos criar e desenvolver cooperação e capacitação em lapidação de pedras preciosas no Brasil.

Novamente, acredito que o Brasil está a sair-se muito bem nessa área, aprendendo com o que está a acontecer em Belo Horizonte ou em Minas Gerais no sector de educação, ciência e tecnologia, e línguas.

Tomamos conhecimento da existência de parques tecnológicos e queremos ver se podemos replicar o mesmo na Tanzânia. Mas também queremos começar a ensinar suaíli no Brasil, mas isso irá de mãos dadas com o ensino de português na Tanzânia.

Se promovermos as atrações turísticas da Tanzânia no Brasil, então provavelmente seria necessário promovermos um pouco o ensino do português para os visitantes que vêm do Brasil, para serem capaz de lhes dizer “bom dia”, “bem-vindo”, “tudo bem”, “tranquilo”, “beleza”…

No sector da saúde também, temos tomado algumas iniciativas, especificamente para ter acesso a medicamentos de qualidade fabricados no Brasil. Mas também, para ver se podemos atrair algumas das empresas que investiram aqui para vir e investir também na Tanzânia na produção de medicamentos semelhantes.

E finalmente, no sector desportivo, trabalhamos na criação de ligações de cooperação entre agências e instituições desportivas no Brasil, especialmente no futebol. O Brasil e o futebol. O futebol, para o Brasil, é como uma religião. Então, criar ligações com a Tanzânia e instituições no campo do desporto e do futebol em particular. Portanto, essas são as iniciativas.

 

(MA): Vamos discutir um tópico mais atual. Como o Brasil e a Tanzânia podem explorar oportunidades conjuntas no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e abordar desafios globais como as mudanças climáticas e a promoção da igualdade social?

(AK): Muito obrigado por estas duas perguntas. Em primeiro lugar, toda a agenda por trás dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), é muito pertinente para estes dois países, para a Tanzânia e para o Brasil, porque o principal objetivo é uma discussão sobre o desenvolvimento, o desenvolvimento sustentável.

Agora, escolhendo especificamente as questões das mudanças climáticas e da igualdade social, na minha opinião, há duas maneiras pelas quais o Brasil e a Tanzânia podem trabalhar juntos para melhorar a agenda ou para impulsionar, melhor dizendo, a agenda nestas duas áreas.

A primeira maneira seria trabalhar juntos em plataformas regionais e internacionais onde estes assuntos estão a ser discutidos ou trabalhados, etc., etc. Isso é possível na minha opinião porque entendo que a Tanzânia e o Brasil tendem a partilhar as mesmas posições, os mesmos objectivos no que diz respeito a esses assuntos.

Estou a falar sobre o meio ambiente, por exemplo. Entendo que a Tanzânia e o Brasil partilham as mesmas posições; sabem. Não há contradições, não há contrastes de posições.

E quando falamos também sobre igualdade social, eu tendo a acreditar que a Tanzânia e o Brasil também partilham as mesmas posições, porque quando falamos sobre igualdade social, falaríamos necessariamente sobre coisas como acesso a oportunidades económicas, acesso a serviços sociais, participação em processos políticos.

Compreendo que o Brasil tende a partilhar as mesmas posições e tem abordagens e, por vezes, iniciativas semelhantes nestas áreas. Assim, esta foi a primeira forma tal como referi, sobre trabalhar em conjunto em plataformas regionais e internacionais, cooperando, apoiando-se mutuamente.

Mas a segunda forma poderia ser desenvolver programas bilaterais que abordassem estas áreas. Assim, a Tanzânia e o Brasil poderiam desenvolver programas bilaterais no âmbito do ambiente, por exemplo, no contexto de projetos agrícolas. Uma questão ambiental pode ser incorporada, integrada.

E quando se fala de inclusão social, por exemplo, dou o exemplo de garantir que o pequeno agricultor dentro do programa de transformação agrícola do Brasil tenha espaço. Não é suprimido, não é liquidado, não é morto pelos grandes agricultores. Portanto, penso que algumas destas coisas podem ser incorporadas, inculcadas em programas bilaterais que podem ser desenvolvidos entre a Tanzânia e o Brasil.

 

(MA): Sr. Embaixador, presumo que teve a oportunidade de perceber semelhanças entre a Tanzânia e o Brasil que, de certa forma, facilitam o fortalecimento das relações entre os dois países. Existe algum projeto específico que possa destacar onde estas semelhanças culturais têm sido importantes?

(AK): Sim, obrigado pela pergunta. Talvez começasse por dizer que, quando se fala de cultura, a língua também faz parte dessa cultura. Temos semelhanças a começar na plataforma linguística. A língua que falamos na Tanzânia, o suaíli, tem algumas palavras do português.

Temos palavras como “Mesa”, “Bandeira”, “Limão”, “Pessa” e muitas outras, que são basicamente portuguesas, mas também suaíli. Isto ocorre, porque historicamente, os portugueses passaram pela costa da África Oriental.

Também existem semelhanças culturais entre o Brasil e a Tanzânia. Mas de qualquer forma, mesmo na ausência de semelhanças, existe interesse em aprender sobre a cultura mútua. Em termos do que podemos fazer, pensamos que poderíamos planear e incentivar visitas de experiência cultural entre estes dois países.

Pessoas do Brasil podem vir à Tanzânia e os brasileiros, podem vivenciar aspectos culturais dentro do turismo. Da mesma forma, grupos da Tanzânia podem visitar o Brasil, experimentar a cultura, incluindo a participação em eventos de Carnaval. Podemos também criar cooperação entre instituições que promovem a cultura na Tanzânia e no Brasil.

Por exemplo, tivemos discussões com escolas de samba no Brasil para explorar a cooperação em torno da cultura. Na verdade, iremos trazer um grupo cultural Masai da Tanzânia para o Brasil para a Semana de Moda Brasileira. Isso vai mostrar os nossos artefactos culturais e os nossos produtos. Então, é assim que podemos promover a cooperação cultural entre estes dois países.

 

(MA): Sr. Kilangi, para concluir esta entrevista, tendo em conta a sua rica experiência diplomática que conselho pode oferecer a futuros jovens diplomatas e académicos que aspiram seguir um caminho semelhante ao seu?

(AK): Há muito que posso dizer aqui, mas para ser breve, o meu conselho para os futuros académicos e diplomatas em ascensão seria aprenderem e passar por um processo de aprendizagem de 360 graus. A maioria dos jovens actualmente tende a focar-se apenas na sua profissão ou carreira, deixando de lado outras questões.

Na minha opinião, torna-se um melhor diplomata quem tiver um processo de aprendizagem de 360 graus. Aprenda sobre questões económicas, questões políticas, questões sociais, questões mundiais, agricultura, energia, indústria, praticamente tudo o que o afecta na sua vida.

Aprenda sobre questões culturais. Desta forma, pode ter uma mente aberta e um bom diplomata é alguém que tem uma mente aberta. Uma abordagem estreita pode limitar a sua visão das coisas e das questões. Um diplomata de mente aberta tem uma melhor chance de encontrar soluções para problemas. Esta é a minha visão muito pessoal.

 

(MA): Muito obrigado por esta rica entrevista. “Asante” pela oportunidade (Asante significa obrigado em suaíli). Muito obrigado, Sr. Embaixador. Espero que possamos realizar muitos projetos entre o Brasil e a Tanzânia. Obrigado pela sua presença.

(AK): Muito obrigado. Agradeço a oportunidade de partilhar o que fazemos com uma audiência mais alargada. Estarei sempre pronto para participar noutra entrevista, se acharem ser importante.

(MA): Obrigado.

 

O que achas desta entrevista sobre o intercambio entre o Brasil e a Tanzânia? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © DR
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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