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ToggleDia Mundial das Competências dos Jovens 2026
O Dia Mundial das Competências dos Jovens chega a 2026 sob o lema “Competências para um futuro partilhado”, numa altura em que milhões de africanos estudam, trabalham cedo ou procuram emprego dentro de economias incapazes de transformar o crescimento, a tecnologia e o investimento em lugares dignos, produtivos e protegidos.
Em 2025, 70,9 milhões de jovens africanos estavam fora do emprego, da educação e da formação. Entre os que trabalhavam, a maioria encontrava-se na informalidade, onde aprender raramente significava subir, ganhar segurança ou progredir. O problema não era a falta de esforço, mas a ausência de pontes entre o saber e a produção.
A pressão chega também da tecnologia. A inteligência artificial automatiza rotinas e a economia verde exige técnicos capazes de instalar sistemas solares, reparar veículos eléctricos, gerir a água, adaptar a agricultura e trabalhar com dados. A questão central permanece: quem terá acesso, quem pagará a formação e quem ficará excluído dessas mudanças.
António Guterres colocou a literacia digital, a inteligência artificial, a comunicação e o pensamento crítico no centro da mensagem deste ano. Formar não basta quando os currículos envelhecem, as empresas não participam e os Estados medem matrículas sem acompanhar a passagem para empregos dignos.
Uma Data Política
A efeméride nasceu de uma decisão política concreta. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, sem votação, a Resolução A/RES/69/145 a 18 de Dezembro de 2014 e declarou o dia 15 de Julho como “Dia Mundial das Competências dos Jovens”. A primeira celebração ocorreu em 2015 e ligou a data ao emprego, ao trabalho digno e ao empreendedorismo juvenil responsável.
A resolução não criou um mero feriado decorativo. Reconheceu o número elevado de jovens desempregados, a concentração do problema nos países em desenvolvimento e a necessidade de aproximar a educação das exigências sociais e económicas.
Também convidou os Estados, as organizações internacionais, as empresas e a sociedade civil a assinalarem a data com iniciativas úteis em vez de cerimónias vazias. Em 2026, o tema “Competências para um futuro partilhado” desloca o debate da preparação individual para uma responsabilidade colectiva.
Um futuro só pode ser partilhado quando a aprendizagem chega às zonas rurais, às raparigas, aos jovens com deficiência, aos deslocados e aos trabalhadores informais, sobretudo nas comunidades onde a electricidade e a Internet permanecem caras, instáveis ou ausentes.
António Guterres descreveu um mundo transformado pelas tecnologias digitais, pelas alterações climáticas, pela incerteza económica e pela desigualdade. Defendeu um investimento maciço numa educação inclusiva e de qualidade, capaz de unir a literacia digital, a inteligência artificial, a comunicação e o pensamento crítico às competências técnicas e humanas exigidas por um trabalho em mudança.
O apelo ganha valor político ao exigir dos governos um investimento capaz de chegar à execução. As oficinas, os docentes, os equipamentos, os estágios pagos e as empresas dispostas a contratar dirão se a promessa entrou na vida dos jovens africanos excluídos. Sem orçamento, calendário e avaliação pública, a data corre o risco de repetir discursos sem alterar percursos.
“A Mensagem
Neste Dia Mundial das Competências dos Jovens, celebramos as contribuições da juventude por todo o mundo.
Enquanto inovadores, líderes, agentes de mudança, os jovens procuram construir comunidades e sociedades mais inclusivas, resilientes e sustentáveis.
É essencial que adquiram as competências, as práticas e a educação que precisam e merecem. O nosso mundo está a ser profundamente transformado por tecnologias digitais, alterações climáticas e por uma crescente incerteza e desigualdade económica.
Como nos recorda o tema deste ano, navegar por estas rápidas mudanças exige um novo conjunto de competência: da literacia digital à inteligência artificial, da comunicação ao pensamento crítico.
Desbloquear o potencial máximo das gerações mais jovens requer um grande investimento em educação e formação inclusiva e de qualidade.
Colmatar a lacuna de competências pode ajudar a criar empregos dignos e meios de subsistência sustentáveis à escala global.
Neste Dia Mundial das Competências dos Jovens, comprometemo-nos a dotar os jovens com as competências que o nosso mundo em mudança exige, para que possam ajudar a construir um “amanhã” melhor, para todos”
– O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres
O Peso Demográfico
África possui a maior reserva de juventude do planeta, mas esse peso demográfico não converte automaticamente as competências dos jovens num dividendo económico. Em 2025, cerca de 70,9 milhões de jovens estavam fora do emprego, da educação e da formação, o equivalente a 23,2 por cento da população juvenil.
A exclusão atingia proporções superiores no Norte de África, sobretudo entre as mulheres jovens. O desemprego, isoladamente, não mede a crise. Muitos jovens trabalham porque não podem esperar por uma vaga formal, mesmo quando o rendimento é insuficiente e o posto não oferece um contracto.
O retrato de 2026 estima 304 milhões de jovens ocupados em 2025, mas 273 milhões, ou 90 por cento, permaneciam em empregos informais, instáveis e desprotegidos. A diferença entre ter trabalho e ter segurança aparece na pobreza laboral. Cerca de 104 milhões dos jovens empregados viviam em agregados familiares abaixo da linha internacional de pobreza extrema.
O continente pode apresentar taxas elevadas de actividade e continuar a desperdiçar talento, porque o rendimento disponível sustenta a sobrevivência imediata sem financiar a aprendizagem, a mobilidade ou o progresso. Todos os anos, mais de dez milhões de jovens entram no mercado africano de trabalho enquanto os padrões de crescimento criam cerca de três milhões de empregos formais.
A aritmética revela um défice político, produtivo e institucional. A formação melhora escolhas individuais, mas não fabrica vagas quando a indústria, a agricultura transformada e os serviços crescem devagar. Esta distância alimenta a migração, a frustração e a desconfiança sem autorizar explicações fáceis.
Muitos jovens conciliam a escola com as vendas, o transporte, a agricultura, as reparações, os cuidados ou o trabalho digital. O fracasso surge quando os Estados tratam o emprego como consequência automática do diploma e deixam a criação de vagas entregue ao crédito caro e às infra-estruturas frágeis.
Certificados Sem Ponte
O continente não enfrenta somente uma falta de formação. Enfrenta também programas que deixam as competências dos jovens desligadas da economia real. A conclusão de percursos técnicos e profissionais entre jovens dos 15 aos 29 anos alcançava apenas 6,5 por cento em 43 países africanos.
Em treze deles, menos de um por cento concluíra esse percurso, sinal de um acesso profundamente desigual entre classes e territórios. Mesmo quando o certificado existe, a ponte para o trabalho pode faltar. Dados de 35 países mostram que somente 35 em cada mil jovens participavam em aprendizagens ou estágios.
As mulheres tinham quase metade da probabilidade masculina de entrar nesses programas. Sem uma experiência remunerada e acompanhada, a sala de aula permanece separada das máquinas, dos clientes e das decisões. A qualidade depende também de quem ensina.
A UNESCO estima que 70 por cento dos formadores do ensino técnico em África não possuem uma experiência recente nas empresas ligadas ao sector. Um instrutor afastado das tecnologias, dos processos e das exigências de produção transmite fundamentos válidos, mas dificilmente prepara os estudantes para ambientes alterados depois da elaboração do currículo.
A reforma exige mais do que trocar os nomes dos cursos. Os centros precisam da electricidade, da Internet, das oficinas, das ferramentas e dos formadores actualizados. Também precisam de empresas dispostas a abrir lugares de aprendizagem e de informação local sobre a procura, porque uma formação pensada para uma capital pode falhar numa região agrícola, mineira, costeira ou industrial.
Há o risco de culpar o jovem pelo desencontro. Quando uma empresa exige experiência a quem nunca recebeu um estágio, o problema não é individual. Quando o Estado financia cursos sem acompanhar os diplomados, não sabe o que funcionou. A política precisa de reconhecer as competências adquiridas em oficinas informais, certificar os saberes prévios e ligar a aprendizagem ao direito de progredir.
Inteligência Artificial (IA)
A IA tornou-se um símbolo dos empregos futuros, mas o mercado africano revela uma transição mais ampla nas competências dos jovens. Uma análise de quase cinco milhões de anúncios de vagas no Quénia, na Nigéria, na África do Sul e no Uganda concluiu que perto de metade exigia pelo menos uma competência digital, desde tarefas administrativas até funções técnicas, comerciais e de gestão.
As competências básicas, como o uso de programas de escrita e das folhas de cálculo, permanecem relevantes, mas as capacidades intermédias e avançadas ganharam espaço. A programação, a análise de dados, os sistemas empresariais e os métodos ágeis apareciam com maior frequência.
As referências directas à inteligência artificial ainda representavam menos de 0,6 por cento das vagas observadas. Esse número baixo não permite descanso. Os anúncios digitais representam sobretudo empregos formais e qualificados, deixando de fora os vendedores, os agricultores, os artesãos e os trabalhadores por conta própria.
A inteligência artificial pode chegar a esses sectores através do crédito, das plataformas comerciais, da previsão agrícola, da logística e do atendimento, impondo decisões automáticas a quem não consegue questioná-las. A resposta não deve reduzir-se ao ensino de ferramentas estrangeiras.
A juventude africana precisa de literacia para usar, verificar e contestar os resultados, proteger os dados e reconhecer os preconceitos inscritos nos modelos. Precisa igualmente da matemática, das línguas, da comunicação, da ética e do pensamento crítico, porque uma aplicação sem essas bases cria utilizadores dependentes em vez de profissionais capazes.
Também é necessário ensinar a criar em línguas africanas, trabalhar com conjuntos de dados locais e resolver os problemas ignorados pelos grandes mercados tecnológicos.
A soberania digital começa na formação de engenheiros, técnicos, reguladores, professores e empreendedores, mas inclui centros públicos competentes e regras claras. Importar aplicações sem conhecimento próprio transforma a inovação numa nova dependência económica externa.
Economia Verde
A economia verde oferece uma promessa porque África precisa da energia, dos transportes, da água, da habitação, da agricultura adaptada e da gestão de resíduos. Cada necessidade pode gerar actividade empresarial.
Contudo, as competências dos jovens não garantem, por si só, que uma turbina, um painel solar ou um sistema de irrigação crie emprego local, pois o resultado depende do financiamento, da manutenção e das compras públicas.
As estimativas do Banco Africano de Desenvolvimento apontam para até cem milhões de empregos novos ou melhorados ligados às energias renováveis até 2050, desde que existam o capital, as infra-estruturas e as competências.
Sem políticas industriais, o continente pode exportar os minerais, importar os equipamentos prontos e conservar apenas os postos temporários, perigosos ou menos remunerados da transição energética mundial.
A África do Sul mostra como a mudança cria e destrói ocupações no território. O encerramento de centrais a carvão ameaça as comunidades de Mpumalanga enquanto crescem as necessidades nas energias renováveis, na mecatrónica e na agricultura inteligente.
Os programas consideram mecânicos de veículos eléctricos, operadores de drones, técnicos de irrigação e canalizadores preparados para instalações de hidrogénio verde.
O risco de exclusão acompanha a oportunidade. As áreas verdes mais técnicas favorecem quem domina a ciência, a engenharia, a matemática e as ferramentas digitais, campos onde as raparigas continuam sub-representadas. A formação precisa de bolsas, de segurança, de transporte, de equipamentos e de acompanhamento para impedir que a transição repita a divisão sexual do trabalho e feche às mulheres portas.
A competência verde não pertence apenas aos laboratórios. Ela vive no agricultor que conserva o solo, na mulher que gere a água, no mecânico que prolonga a vida de uma máquina e no reciclador que conhece os materiais. Reconhecer esses saberes permite combinar a ciência e a experiência, enquanto ignorá-los reduz a economia verde a projectos concebidos longe das comunidades.
Informalidade Persistente
A maior escola profissional africana, onde se formam as competências dos jovens, continua fora das instituições. Nas oficinas, nos mercados, nas explorações agrícolas, nos salões, nas cozinhas e nas ruas, os jovens aprendem observando, repetindo, errando e produzindo.
Essa aprendizagem prática sustenta economias inteiras, mas raramente oferece um certificado reconhecido, um salário mínimo, a protecção social ou uma progressão definida. O saber existe sem o direito correspondente. Tratar a informalidade como atraso apaga a sua função e protege a inércia.
Ela absorve quem o sector formal rejeita, fornece bens e cria redes de aprendizagem. Porém, transfere o risco para o trabalhador. Uma doença, uma quebra nas vendas ou uma apreensão pode destruir o rendimento, as ferramentas e a formação acumulada sem uma indemnização, um seguro ou recurso.
A política pública deve melhorar este trabalho sem criminalizar quem dele vive. O reconhecimento das aprendizagens anteriores pode transformar a experiência em qualificação, permitir o acesso a cursos e facilitar os contractos.
O Senegal tem procurado certificar competências adquiridas em aprendizagens informais, uma via que aproxima os artesãos, as empresas e as instituições sem obrigar o jovem a abandonar a actividade familiar. A dignidade exige um pagamento durante a aprendizagem.
Um estágio gratuito favorece as famílias que sustentam o transporte, a alimentação e o tempo sem rendimento. Para as restantes, a porta fecha antes do estágio. Os programas devem prever bolsas, segurança, supervisão e metas de contratação, caso contrário as empresas recebem trabalho barato enquanto o jovem recebe um registo curricular.
O emprego digno nasce quando as competências encontram as instituições e o investimento. Não basta ensinar um ofício se o crédito permanece inacessível, a energia falha e o transporte encarece. A juventude precisa de aprender, mas também de mercados que recompensem a qualidade, de leis que protejam o trabalho e de Estados capazes de ligar a educação à produção.
Conclusão
O Dia Mundial das Competências dos Jovens expõe uma disputa sobre quem terá lugar na economia que está a nascer. África não enfrenta uma falta de talento, mas sistemas de formação desiguais, empresas que contratam pouco e Estados que confundem a entrega de certificados com a construção de empregos dignos.
A inteligência artificial e a economia verde podem criar trabalho, mas também aprofundar as dependências e as exclusões. A informalidade continuará a ensinar enquanto o sector formal não crescer. O Estado deve reconhecer os saberes, financiar aprendizagens pagas e ligar as oficinas, as salas de aula, as empresas e a produção nacional.
O futuro partilhado de 2026 só ganhará sentido quando um jovem puder aprender sem abandonar a sobrevivência, trabalhar com direitos e actualizar os conhecimentos ao longo da vida. O sucesso estará na capacidade de converter as competências em rendimento, autonomia, segurança e participação sem entregar outra geração à precariedade.
Será África capaz de transformar os certificados e as competências dos jovens em empregos dignos antes que a próxima revolução do trabalho exclua outra geração? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
