14.2 C
Londres
Domingo, Maio 26, 2024

Israel/Gaza: A Normalização do Insuportável

Os seis meses da tragédia do fim do mundo em terras médio-orientais.

Israel/Gaza: A Normalização Do Insuportável


O caos e a tragédia que assolaram o Médio Oriente a 7 de Outubro de 2023 deixaram uma marca indelével não só em Israel e na Palestina, mas também no resto do mundo. Ao longo dos últimos seis meses, testemunhámos uma série de eventos que desafiaram a compreensão e a moralidade.

Desde a escalada da violência até as tentativas de mediação diplomática, o período pós-7 de Outubro foi marcado por uma profunda turbulência que continua a abrir feridas até hoje.

A Normalização do Insuportável é uma reflexão sobre as questões que continuam a influenciar o destino não apenas da região, mas também de áreas além das suas fronteiras.

 

A Reconstrução da Excepcionalidade


O 7 de Outubro de 2023 alterou o peso das fracturas médio-orientais. Tanto que o primeiro reflexo foi a mobilização da imagem do 9/11 – em alusão à pluralidade de significados dos ataques de 11 de Setembro de 2001 – para a caracterização da excepcionalidade da dor e da perplexidade do evento-monstro israelo-palestiniano daquele sábado.

Falou-se muito em 9/11 israelita e da sua contraparte entre os árabes. Logo em seguida, percebeu-se, de parte a parte, que a situação era ainda mais grave, particular e profunda. Notou-se, assim, que o extraordinário – como o 9/11 – tinha feições excepcionais conhecidas. Já tinha ocorrido.

Ao passo que o que se via no 7 de Outubro ainda não. De modo que cinco dias depois, no dia 12 de Outubro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou tratar-se de algo pior que o “Holocausto” e o presidente Mahmoud Abbas, do lado da Palestina, no dia 13 de Outubro, classificou a reação judaica de actualização e superação macabra do “Nakba”.

A força dessas palavras – Holocausto e Nakba – remete aos piores momentos da história desses herdeiros de Abraão. Um e outro podem bem ter-se esquecido das batalhas templárias e das escaramuças sem fim do medievo. Mas ninguém apagou da retina nem da memória o imperativo do never more fixado pelo contexto das ruínas no chão das batalhas de 1914-1945.

Foi, singularmente, horrível. Entretanto, o 7 de Outubro e os seis meses seguintes tornaram essas palavras – Holocausto e Nakba – quase vazias, estéreis e sem sentido diante da verdadeira banalização das tragédias humanas médio-orientais.

 

A Desumanização da Tragédia


Imagem © 2024 Taylor Brandon - Unsplash (20240412) Israel-Gaza A Normalização Do InsuportávelO significado mental e moral deste sinistro ainda não foi contabilizado. Mas segue impossível ficar indiferente. Os 1.200 – ou 1.300 – mortos, os mais de 100 mil feridos e os mais de 130 reféns judeus e cristãos do dia 7 de Outubro, seis meses depois, resultaram em 33 mil mortos, milhões de afectados, deslocados, agredidos e feridos e uma hostilização aos ismaelitas jamais imaginada.

Uma, portanto, brutalização da letalidade das relações que tornou frouxo qualquer paralelo histórico e qualquer pertinência lexical de palavras.

Raras vezes na história humana desprezou-se tão enfáticamente o sentido do adágio latino que informa que jamais se deve brincar nem jogar com o sofrimento dos outros. Agora, nos seis meses que sucederam o 7 de Outubro, nada foi mais justamente desrespeitado que o sofrimento dos outros.

Um parlamentar francês chegou à melhor formulação sobre o incidente ao indicar que o feito do dia 7 de Outubro foi imperdoável, mas não sem justificação. Todos os observadores detidos na situação podem, por sua vez, formular que, os seis meses do calvário de Gaza, possui a sua justificação, mas também segue impossível de se perdoar.

Quanta dor, quanto ódio, quanto ressentimento.

Dor, ódio e ressentimento em níveis insuportáveis. Mas que, por alguma razão, passaram a ser suportados para não causar constrangimentos. Ninguém fica indiferente. Mas ninguém encontra solução.

 

A Permanência do Conflito


O estado de Israel, desde o seu início, é uma afronta sem nome aos palestinos. A lembrança do Nakba bate tão fundo na sua alma que mesmo a ideia de dois estados jamais teve adesão integral.

Todos sabem que a criação do estado de Israel só fez aumentar os embates entre eles. Tanto que só fez crescer a sua proporção de crueldade ao longo dos anos até chegar à monstruosidade dos últimos seis meses traduzível em a mais hedionda tragédia humana, moral e intelectual do presente século.

Ocidentais, europeus e norte-americanos, foram os primeiros a indicar apoio incondicional ao “direito de defesa” dos israelitas contra os palestinos no dia 7 de Outubro. Mas, quando ficou evidente que se trata de uma vingança sem precedentes, tentaram recuar, ficar neutros, ressignificar as alianças, dizer sim com não e não com sim, mas era tarde demais.

O alto-comando de Israel, já havia neutralizado, brutalizado, humilhado e penalizado os moradores de Gaza, como nunca se permitiu fazer desde 1948. Primeiro privando-os de insumos básicos para a sua sobrevivência – água, energia, medicamentos. Depois, enviando tropas terrestres.

E, em seguida, propondo eliminar fisicamente o Hamas – que todos sabem ser uma ideia com vocação à perpetuidade.

 

O Olhar Global e as Posições Políticas


A posição da Rússia e da China, membros-permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, foram tardias, cautelosas e consequentes. Notaram ser impossível apoiar Israel e impossível não reconhecer a agressão ao estado hebreu. Posturas assim não indicam hesitação muito menos coonestação.

Apenas sugerem que a complexidade das disputas médio-orientais merece recuo, respeito e ponderação. Ninguém em Moscovo se esqueceu dos milhões de mujiques mobilizados na guerra patriótica ante Hitler e ninguém na Ásia se esqueceu das perdas humanas incontáveis decorrentes da fúria norte-americana ante o Japão.

Ambos, portanto, russos e chineses, mesuram bem o peso do ódio, da dor e do ressentimento na erupção de tragédias. Sabem, assim, também que questões existenciais para os outros – no caso, judeus e árabes – não devem ser tratadas com ligeireza.

Os sul-africanos, dotados da grandiosidade moral de quem sobreviveu ao apartheid, abandonaram essa discrição e denunciaram a investida de Telavive no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). O aplauso dos divergentes foi imponente. O Tribunal acatou e considerou procedente a denúncia. Mas os efeitos práticos da sua decisão ainda aguardam realização que todos sabem não diminuirá o martírio dos palestinos.

Antes e depois disso, a coletividade internacional, representada nas Nações Unidas, indicou – e até votou – um cessar-fogo variadas vezes. Mais recentemente, ao longo de 2024, foi a vez do próprio Conselho de Segurança condenar o massacre. Mas ninguém parece conseguir segurar a fúria, o desejo de vingança e a implacável resiliência de parte a parte.

O 7 de Outubro foi, assim, uma armadilha perfeita. O Hamas fustigou Israel a reabilitar o estado de guerra sem fim e o estado de Israel embarcou. Como previsto e instigado, nenhuma parcela importante do Ocidente ficou indiferente. Mas todas se dividiram. Algumas em apoio ao Hamas ou a Israel. Outras em mera mostra de neutralidade.

 

O Dilema Biden e o Lobby Judaico


Imagem © 2016 Haim Zach - GPO (20240412) Israel-Gaza A Normalização Do InsuportávelO presidente Joe Biden foi colocado na pior situação de todas. O seu principal oponente nas presidenciais norte-americanas de novembro de 2024, Donald J. Trump, prometeu, caso eleito, resolver a situação em vinte e quatro horas – como de resto, também prometeu fazer com a querela ucraniana.

Assim, pouco a pouco, o destino do presidente Biden começou a cruzar-se com o do primeiro-ministro Netanyahu.

O lobby judaico em Washington jamais permitirá a neutralização da fúria de Israel. Tanto que os norte-americanos se abstiveram em todas as deliberações multilaterais sobre o assunto nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança.

Ninguém é capaz de prever um fim para essa nova fase do conflito. Mas todos são capazes de perceber que virou injurioso morrer impunemente por Gaza e indecoroso matar inclementemente por Israel. Nada disso é suportável. E, portanto, não se pode deixar normalizar.

 

Conclusão


À medida que o conflito persiste e as tensões se intensificam, fica claro que não há soluções simples ou rápidas para os problemas enfrentados pelo povo israelita e palestiniano. Enquanto os líderes globais lutam para encontrar uma maneira de avançar, a dor e o sofrimento das vítimas continuam a ser ignorados e subjugados à política e à retórica.

A normalização do inaceitável não pode mais ser tolerada, e é imperativo que a comunidade internacional procure activamente uma resolução justa e duradoura para este conflito arraigado.

Editado por: Francisco Lopes-Santos

 

O que achas da barbárie deste conflito entre Israel e a Palestina? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Ver Também:

Imagem: © 2024 Francisco Lopes-Santos
Daniel Afonso da Silva
Daniel Afonso da Silva

Renomado académico com um doutoramento em História Social pela Universidade de São Paulo, possui experiência em Relações Internacionais e Políticas Públicas. Como professor e pesquisador, tem contribuído nas áreas de História, Relações Internacionais, Ciência Política, Jornalismo, Economia, Diplomacia e Educação. As suas publicações abordam temas diversos, desde análises políticas até estudos históricos e sociais. A amplitude do seu conhecimento reflete-se nos seus trabalhos como autor de diversos artigos em revistas académicas e jornalísticas. É autor, de entre outros, de "Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas".

Daniel Afonso da Silva
Renomado académico com um doutoramento em História Social pela Universidade de São Paulo, possui experiência em Relações Internacionais e Políticas Públicas. Como professor e pesquisador, tem contribuído nas áreas de História, Relações Internacionais, Ciência Política, Jornalismo, Economia, Diplomacia e Educação. As suas publicações abordam temas diversos, desde análises políticas até estudos históricos e sociais. A amplitude do seu conhecimento reflete-se nos seus trabalhos como autor de diversos artigos em revistas académicas e jornalísticas. É autor, de entre outros, de "Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas".
Ultimas Notícias
Noticias Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com