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Sábado, Abril 13, 2024

Namíbia: Oportunidades Únicas Em África

O nosso objetivo é que estes projetos possam tornar-se modelos a serem replicados tanto na Namíbia como em outros países africanos - Vivian Sanmartin.

Entrevista Exclusiva a Mais Afrika de Vivian Sanmartin Embaixadora do Brasil na Namíbia.

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Namíbia: Oportunidades Únicas Em África.

A Namíbia está em foco nesta envolvente entrevista, na qual tivemos o privilégio de conversar com a Embaixadora Vivian Sanmartin e explorar a dinâmica das relações diplomáticas entre o Brasil e a Namíbia.

Nesta décima quarta Grande Entrevista, ficámos a conhecer melhor a representante do Brasil na Namíbia e a nossa conversa abordou temas cruciais, desde a crescente relevância de África no panorama global até os desafios enfrentados por ambos os países na dinâmica internacional.

Nesta conversa enriquecedora, a Sra. Embaixadora partilhou pontos valiosos sobre a sua carreira e experiência e destacou a crescente importância de África no panorama geopolítico global.

Além disso, exploramos as oportunidades e os desafios enfrentados pelo Brasil e pela Namíbia nas suas relações, com foco em áreas como o comércio, cooperação e os planos para fortalecer as relações bilaterais.

Esta entrevista oferece uma visão única e esclarecedora das relações diplomáticas entre o Brasil e a Namíbia, revelando como a Embaixadora Sanmartin identificou oportunidades para expandir o comércio e fortalecer os laços entre estas duas grandes nações.

Junte-se a nós nesta fascinante conversa e descubra o papel crucial que a diplomacia desempenha na promoção dos laços internacionais.

 

A Entrevista

(Francisco Lopes-Santos) Senhora Embaixadora, para começarmos esta entrevista, poderia apresentar-se aos nossos seguidores, partilhando um pouco sobre o seu percurso profissional até aos dias de hoje e como se tornou a Embaixadora do Brasil na Namíbia?

(Vivian Sanmartin) Com certeza, em primeiro lugar, é um prazer estar aqui para esta entrevista. Faz algum tempo que a Vanessa e eu tentamos encontrar um horário conveniente. Então, acredito que finalmente chegou o momento.

A meu respeito, vou tentar ser breve, porque não é o mais importante aqui. O meu nome é Vivian Sanmartin, sou diplomata de carreira. Ingressei no serviço exterior brasileiro em 1993. Trabalhei em vários sectores na Secretaria de Estado e servi em diversos países na Europa e na América do Sul.

Antes de vir para a Namíbia como Embaixadora, fui Embaixadora do Brasil nos Camarões. Portanto, esta é a minha segunda experiência como chefe de missão diplomática em África.

 

(Vanessa Africani) Senhora Embaixadora, antes de entrarmos nos detalhes da sua colocação na Namíbia e tendo em vista a sua experiência, como avalia a importância do continente africano no panorama geopolítico actual?

(VS) Olha, Vanessa, nesse momento, acho que cada vez mais o continente africano está ganhando uma importância geopolítica estratégica que há alguns anos não se vislumbrava. Além da abundância de terras cultiváveis, recursos minerais, recursos energéticos, África tem uma enorme população jovem e um mercado consumidor imenso que vai crescendo à medida que essa população vai enriquecendo.

Vai surgir uma classe média importante em África. E, apesar da visão muitas vezes predominantemente negativa que a media internacional passa do continente e que normalmente só apresenta as coisas negativas, é inegável que houve muitos avanços nos últimos anos e que os países africanos na sua maioria têm procurado desenvolver as suas infraestruturas.

Promovendo a modernização da sua agricultura, da sua industrialização, além de procurarem cada vez mais agregar valor aos seus produtos. Some-se a este quadro a criação da Zona Continental Africana de Livre Comércio que constitui a maior área de livre comércio do mundo e fica evidente que é uma região que vem ganhando importância no contexto global.

O interesse pelas oportunidades de investimento e comércio nas diversas regiões do continente, especialmente pelo acesso aos seus recursos naturais, fica evidente ao verificar-se a presença crescente da China, da Índia, da Turquia, dos Países Árabes e outros, para além dos antigos colonizadores europeus.

 

(FLS) Senhora Embaixadora, antes de entrarmos, por assim dizer, no sumo que será falarmos sobre a Namíbia, gostaria de abordar a situação actual em alguns países africanos, especialmente nas nações francófonas. Com a sua experiência, incluindo a passagem por um país que é uma ex-colónia francesa, como analisa a crescente ocorrência de golpes de estado nestes países?

(VS) Olha, Francisco, pessoalmente vejo essa multiplicação de golpes de estado neste período recente como uma tendência muito preocupante. Note que esses países onde ocorreram golpes militares são os mesmos países que têm enfrentado ataques de grupos terroristas e cuja população se sente cada vez mais à mercê desses criminosos.

O facto de ter havido grande apoio popular aos militares que tomaram o poder em diversas dessas situações demonstra que há um sentimento de frustração com os governos democraticamente eleitos, ou ainda com dirigentes que se perpetuam no poder, tanto em termos de segurança, falta de segurança, como em termos de falta de desenvolvimento económico.

Por outro lado, parece haver uma ilusão de que, mediante golpes de estado, a situação vai melhorar. Acredito que o mais importante é que os chamados períodos de transição que estão anunciados, eu vivi isso, especialmente com relação ao Chade que de certa maneira teve uma espécie de um golpe de estado com a tomada do poder pelo filho do então presidente que foi assassinado.

Acredito que esses períodos têm que ser o mais curto possíveis e que eleições efetivamente livres e com ampla participação da sociedade civil de todos os partidos possam ser organizadas. É a única maneira de solucionar estas questões, mas é preocupante. É realmente uma tendência muito preocupante.

 

(FLS) Concordo plenamente. Especialmente porque, recentemente, no Mali, houve um adiamento no período de transição para as eleições, o que deixou a Comunidade Internacional preocupada com o que poderá vir a acontecer.

 

(VA) Sra. Embaixadora, vamos falar sobre a sua posição actual como Embaixadora do Brasil na Namíbia. Pode partilhar as suas impressões iniciais sobre o país e identificar os desafios e oportunidades que encontrou para estabelecer uma relação bilateral sólida?

(VS) Bom, desde que assumi as minhas funções na Embaixada, fiquei satisfeita ao notar que a Namíbia tem um enorme potencial e está a explorá-lo para se tornar um país desenvolvido e próspero para todos. Um exemplo dessa estratégia é a aposta do Governo na produção de hidrogénio verde a partir dos abundantes recursos de energia solar e eólica.

Existem vários projetos em andamento com investimentos de países europeus, começando pela Alemanha, que poderão transformar a Namíbia nos próximos anos na capital das energias renováveis de África. Além disso, o país é um importante produtor de urânio e outros minerais, incluindo o lítio que terá uma procura crescente na fabricação de baterias para carros elétricos.

A Namíbia também descobriu recentemente reservas significativas de petróleo e gás, representando outra área de desenvolvimento. O país possui um porto moderno na cidade de Walvis Bay que o liga, através de boas rodovias, a países vizinhos sem acesso ao mar, como Zimbabwe, Botswana, Zâmbia, bem como a Angola e à África do Sul.

O governo tem o desejo de modernizar a agricultura e aumentar a produção local de alimentos, o que oferece muitas oportunidades para projetos conjuntos entre empresários brasileiros e namibianos.

É importante destacar que a Namíbia tem um mercado pequeno, com uma população de 2.5 milhões de habitantes, mas pode servir como ponto de entrada para os demais países da região e no futuro, para a Zona de Comércio Livre Continental Africana.

Como sabem, este acordo, ainda em fase de implementação, criará a maior zona de comércio livre do mundo, com 54 países e um PIB estimado em 3.4 biliões de euros.

Quanto aos desafios, um desafio que encontrei e que precisam de ser superados refiro-me ao desconhecimento mútuo sobre o potencial de intercâmbio. Não há investimentos brasileiros diretos aqui.

Os empresários importadores namibianos estão mais acostumados a lidar com a África do Sul, principal parceiro económico e países europeus, bem como com a China e outros países asiáticos.

Os empresários brasileiros também têm pouca noção do potencial da Namíbia. É fundamental, então, promover um maior conhecimento sobre todas as áreas nas quais o Brasil pode contribuir para o desenvolvimento da Namíbia e obter ganhos em termos de negócios.

 

(FLS) Sra. Embaixadora, considerando este desconhecimento mútuo entre o Brasil e a Namíbia, qual é, na sua opinião, a importância estratégica da Namíbia para o Brasil, tanto em termos económicos como políticos?

(VS) Bom, Francisco, em primeiro lugar, é importante notar que o termo ‘estratégico’ é usado em demasia hoje em dia, e nem tudo pode ser considerado estratégico. Não saberia dizer se a Namíbia é estratégica para o Brasil, pelo menos não no momento.

Isso não significa que a Namíbia não seja importante para o Brasil. Em primeiro lugar, é um país vizinho, e ambos fazemos parte da OPAC (Organização dos Países de África, Caribe e Pacífico), que é uma zona de paz e cooperação no Atlântico Sul.

Temos esse espaço comum onde podemos cooperar em segurança, pesquisa científica, comércio, entre outros. Já temos uma cooperação histórica com a Namíbia na área naval, com a Marinha namibiana que foi criada e estruturada em boa medida graças ao apoio brasileiro.

A maioria dos oficiais namibianos que ocupam posições de comando hoje, foi formada no Brasil, e a nossa presença aqui continua a ser importante. Temos uma missão naval brasileira sediada em Walvis Bay e em 2024, celebraremos 30 anos desde a assinatura do acordo bilateral de cooperação naval, no âmbito do qual essa cooperação se desenvolveu.

À medida que o projeto namibiano de promover o seu desenvolvimento a partir da geração de energia avança, surgirão oportunidades de intercâmbio comercial, tecnológico e de investimentos. A Namíbia pode ser uma plataforma importante para exportações brasileiras e para investimentos aqui, bem como para outros países da região austral.

A Namíbia pode ser uma porta de entrada valiosa para investimentos brasileiros e produtos, especialmente devido à qualidade de sua infraestrutura rodoviária, considerada a melhor da África Austral.

 

(VA) Sra. Embaixadora, quais são as principais áreas de cooperação que a senhora considera essenciais para fortalecer as relações entre o Brasil e a Namíbia?

(VS) Bom, Vanessa. Além da cooperação naval que mencionei, há actualmente uma cooperação importante a ser consolidada na área de segurança alimentar.

O Brasil, através da sua agência de cooperação ABC e em parceria com o Programa Mundial de Alimentos, financia desde 2020 cinco projetos-piloto para promover a produção de alimentos e a geração de empregos junto a grupos étnicos marginalizados, como a comunidade San.

O nosso objetivo é que estes projetos possam tornar-se modelos a serem replicados tanto na Namíbia como em outros países africanos.

No âmbito da Agricultura, existe a expectativa de termos em breve projetos de apoio técnico a sectores considerados prioritários pelo governo namibiano. Como sabe, o Brasil actua nessa área há muitos anos em países africanos, transferindo tecnologias e boas práticas da Agricultura Tropical desenvolvidas graças à nossa Embrapa e ao setor privado.

Ao longo dos últimos 50 anos, espero que a Namíbia também possa beneficiar-se da cooperação bilateral nessa área. Também temos uma cooperação nascente na área cultural e na indústria criativa.

Em novembro próximo, será realizado em Windhoek o primeiro workshop sobre cinema brasileiro com a participação da renomada diretora Tizuka Yamasaki. O objetivo é apoiar a nascente indústria de cinema namibiana a partir da nossa experiência nacional.

Outras áreas que estamos a explorar referem-se à cooperação entre academias diplomáticas e igualmente cooperação policial. Enfim, há várias iniciativas em andamento que deverão nos próximos anos adensar e aprofundar as nossas relações bilaterais.

 

(FLS) De certa maneira, já abordou um pouco o assunto da próxima pergunta, mas eu gostaria que aprofundasse ainda um pouco mais este assunto.

Portanto, basicamente, no pouco tempo que já esteve aí e com a sua experiência, quais é que acha que são os grandes desafios que a Namíbia está a enfrentar neste novo contexto africano, especialmente com esta expansão do BRICS e as confusões extrafronteiras, digamos assim que têm influenciado muito África. E de que forma é que acha que o Brasil pode ajudar a Namíbia a resolver estes problemas?

(VS) Eu não sei se colocaria no contexto do BRICS, mas a Namíbia tem desafios que decorrem até do facto de ser um país muito jovem. Só obteve a independência em 1990, após muitos anos de luta contra a ocupação sul-africana e o regime do apartheid que mantinha um abismo entre a população branca minoritária e a população negra.

Nesse sentido, ainda há uma grande desigualdade socioeconómica que é preciso reduzir. Também existe o desafio de gerar empregos de qualidade para a população jovem, que é maioritária no país, como em vários outros países africanos, como sabe e que sofre com altas taxas de desemprego.

O Brasil, ao apoiar, mediante projetos de cooperação, por exemplo, na área agrícola, bem como em outras áreas, a Namíbia pode contribuir para a geração de empregos e a redução dessas desigualdades. As políticas adotadas no nosso país, como o Bolsa Família e o nosso sistema único de saúde, o SNS, por sua vez, podem servir de modelo para o governo namibiano.

Estou informada de que existem estudos para implementar aqui um sistema universal de saúde pública e também de apoio económico a populações mais vulneráveis. Vejo um potencial de intercâmbio muito interessante nessa área. Além disso, sendo o país mais árido de África Subsaariana, a Namíbia já enfrenta anualmente problemas relacionados com a seca.

A mudança climática vem exacerbando esta condição e, portanto, é fundamental que o país adote medidas de mitigação e adaptação. Também temos experiências nessa área, já que o nosso Nordeste tem características semelhantes a partes da Namíbia.

Vejo que alguns desses desafios são desafios de desenvolvimento com os quais o Brasil pode contribuir com projetos, tecnologia e experiências que o Brasil já tem. Há muitas áreas, muitos desafios também, mas há muitas áreas nas quais podemos ter uma cooperação mais próxima.

 

(VA) Sra. Embaixadora, em termos de comércio, até estivemos a conversar ontem sobre esse assunto, o volume de trocas comerciais entre os dois países é relativamente baixo.

O Brasil exporta principalmente produtos manufaturados, como máquinas e equipamentos para a Namíbia, enquanto a Namíbia exporta minerais, principalmente diamantes, para o Brasil. Quais são as suas ideias e planos para promover uma maior compreensão e cooperação entre o Brasil e a Namíbia durante o seu mandato como Embaixadora?

(VS) Bom, as nossas trocas comerciais são efetivamente extremamente reduzidas, eu poderia mesmo dizer irrelevantes. Não há um comércio expressivo entre o Brasil e a Namíbia. Os registos que nós temos aqui do nosso SECOM que aliás foi recém-criado este ano, indicam que no ano passado os principais produtos exportados pelo Brasil foram frango e açúcar, mais do que máquinas e equipamentos.

A pauta exportadora namibiana, por sua vez, foi dominada por minérios. Falou em diamantes, mas é tudo num volume muito reduzido. Se olhar para os volumes, eles são realmente muito baixos.

E é por essa razão que desde que assumi a chefia da embaixada, tenho procurado identificar oportunidades para que esta situação seja alterada. Eu acho que o baixo volume de comércio se deve ao desconhecimento por ambos os lados das oportunidades existentes.

Queremos promover a Namíbia como destino para exportações, tendo em conta essa possibilidade de o país servir como ponto de entrada para produtos brasileiros em outras regiões e outros países que não têm acesso ao mar. E da mesma forma, acredito que a Namíbia deveria explorar oportunidades no mercado brasileiro, por exemplo, no que respeita a pescado.

Actualmente, o peixe da Namíbia, de excelente qualidade que chega ao mercado brasileiro, vem em grande medida através da Espanha, acredite se quiser. Creio que poderemos evitar essa triangulação mediante o estabelecimento de contatos entre importadores e exportadores e a criação de uma linha marítima regular entre o Brasil e a Namíbia. São alguns exemplos.

 

(FLS) Sra. Embaixadora, já estamos praticamente no fim da entrevista, já vi, como se costuma dizer… que se preparou bem e está bem informada, de certa maneira, percebe-se que tem um objetivo certo e procura criar algo para ajudar a fortalecer a Namíbia.

Por isso, vamos falar deste aspeto. Duma forma geral, quais são as suas perspectivas para o futuro das relações entre o Brasil e a Namíbia e como é que procura contribuir para fortalecer essas relações?

(VS) Bom. Em primeiro lugar, essa é minha função, manter-me informada. Se não estivesse a fazer isso, não estaria a trabalhar bem. Mas respondendo à sua pergunta, as perspectivas parecem-me excelentes. Nós temos um relacionamento que sempre foi muito bom, mas acho que ele era pouco denso.

Essa foi a minha impressão quando comecei a me preparar para vir para cá. Eu não via muitas áreas em que estávamos tendo cooperação. O comércio é muito pequeno. Então, é assim, eu achei que havia muito a fazer e continuo achando isso.

Estamos a avançar na diversificação da nossa cooperação e no adensamento da relação. Em novembro teremos a segunda reunião de consultas políticas bilaterais em Windhoek, com a vinda do secretário de África e Médio Oriente, o Embaixador Carlos Duarte que actualmente é o nosso secretário de África no Itamarati.

Será uma oportunidade para discutirmos uma ampla agenda de temas e definirmos linhas de ação para o próximo ano. Enfim, a minha contribuição, com o apoio fundamental da equipe da embaixada, tem sido no sentido de explorar todas as possibilidades de fortalecer esta nossa relação. Não sei se respondi à sua pergunta.

 

(FLS) Claramente. E sim, tem razão, é o seu trabalho. Mas, eu só queria que desse a conhecer um pouco às pessoas que vão ler a entrevista, aquilo que de facto faz, porque, para ser sincero, muitas vezes as pessoas não percebem o que é que um Embaixador faz.

Regra geral, pensam que p trabalho de um Embaixador, é só para passar umas assinaturas e umas autorizações e, não têm uma perspectiva ou não têm uma ideia, da realidade do trabalho de um Embaixador.

(VS) O trabalho do diplomata é muito amplo. Cada vez que tem de definir o que faz um diplomata, pode escrever uma página inteira, entendeu? Então, é difícil definir, porque nós fazemos muitas coisas.

Existe todo o trabalho, digamos, como você mesmo disse, existe um trabalho burocrático, existe trabalho consular, existe a promoção comercial, existe a promoção cultural, existe a promoção do relacionamento multilateral e da colaboração multilateral, da coordenação. Nós fazemos tudo isso e mais.

Então, à medida em que se vai fazendo isto bem e se vai tendo esta relação mais próxima em vários sectores, tem-se uma qualidade melhor. Evidentemente, o nosso trabalho aqui é o de que os países se aproximem pelo diálogo, pela cooperação, pelo comércio. Eu acho que essa é a principal função do diplomata.

 

(VA) Bom, Sra. Embaixadora, para terminar a nossa entrevista, eu gostaria de fazer uma pergunta que fazemos a todos os brasileiros que entrevistamos. Com base na sua experiência, o que acha que ainda não foi feito, mas que deveria ter sido feito de uma forma geral para aumentar o comércio bilateral entre o Brasil e África?

(VS) É uma pergunta difícil. Enfim, sempre nos perguntamos por que o empresariado brasileiro não está mais presente aqui. Da experiência que tive nos Camarões e da experiência que estou a ter aqui, acredito que o empresariado brasileiro, com o apoio de entidades como a Apex, que é a nossa Agência de Promoção de Exportações, precisa ter um novo olhar sobre África, vendo-a como o enorme mercado que é.

África necessita de infraestruturas, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e geração de energia. Precisa de bens de capital para agregar valor aos seus produtos, industrializar-se, mecanizar a agricultura e adquirir conhecimento nessa área, entre muitas outras necessidades.

Enquanto o Brasil não se fizer presente, outros países estão cada vez mais apostando no continente. A Turquia e a Índia, por exemplo, tiveram aumentos muito significativos nas suas exportações de manufaturados para países africanos nos últimos anos.

O Brasil tem amplas condições para competir em diversos sectores, como na engenharia civil, na agricultura e no fornecimento de produtos manufaturados. Se não ocuparmos esse espaço, outros o farão, e alguns já o estão a fazer.

Entendo que estamos a viver uma nova fase no governo brasileiro, com uma prioritização sobre África, um “retorno a África“. Nos últimos anos, África pareceu ter menos atenção nas políticas públicas, havia um certo descaso ou desinteresse.

Tenho a impressão de que, se o governo promover e as agências apoiarem, será possível interessar o empresariado em África, além dos mercados conhecidos, como a América do Sul e a Europa e algumas nações asiáticas. África é um território ainda não explorado, mas, por isso mesmo, quem se antecipar conquistará o  seu espaço. O Brasil precisa reduzir essa desvantagem.

A nossa presença ainda é tímida, infelizmente. Acredito que, com tudo o que temos a oferecer e o nosso capital de “soft power“, ou seja, com a simpatia e confiança que despertamos, poderíamos aproveitar melhor essa oportunidade. Essa é a minha avaliação e trabalhamos para promover cada vez mais essa aproximação.

 

(FLS) Muito obrigada pela sua resposta. Quero apenas acrescentar algo. Como angolano, sempre me intrigou uma questão em relação ao Brasil. Angola e o Brasil sempre foram países irmãos, mesmo durante o período colonial. Angola recebia produtos do Brasil com mais facilidade do que da metrópole. Após a independência, houve um apoio significativo do Brasil, mas, de repente, o Brasil desapareceu.

Nunca entendi o motivo, pois o Brasil está geograficamente na mesma região que África, tem um clima semelhante e enfrenta desafios parecidos. Tudo sugeria que o Brasil seria o parceiro ideal para África. Fico triste com essa ausência. A minha infância foi fortemente influenciada pelo Brasil e hoje, sentimos falta desse país irmão. Espero que, com este governo, as coisas mudem.

(VS) Acredito que sim. Houve um movimento nos primeiros anos do governo Lula, com empresas a estabelecerem-se aqui, mas esse movimento, focado principalmente em empreiteiras, foi incompleto. O Brasil tem muito mais a oferecer em diversas áreas e, aos poucos, está a perceber isso.

Houve um período em que a política externa em relação a África quase não existiu, como se África tivesse sido negligenciada. Agora, há uma grande expectativa por parte dos países africanos de que o Brasil fortaleça essas relações, devido às semelhanças geográficas, climáticas e culturais.

Espero que a Apex, por exemplo, abra representações e faça o Brasil tornar-se mais presente. Outros países já estão a aproveitar essa oportunidade.

 

(VA) Sra. Embaixadora, gostaria de lhe agradecer pela sua presença, pela participação e pelo tempo dedicado à nossa entrevista. Também quero expressar a minha gratidão pelo relacionamento que temos construído, desde os tempos no Camarões Desejo-lhe o maior sucesso na sua missão na Namíbia e, mais uma vez, agradeço a sua disponibilidade.

(FLS) Da minha parte, também foi um prazer conhecê-la.

(VS) Não, eu é que agradeço. Acho interessante trocar estas ideias. O prazer foi todo meu.

 

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Imagem: © DR 
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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