Angola: 70% Da Energia É De Origem Renovável

Angola entra numa fase decisiva: a energia e a água deixaram de ser apenas serviços públicos e passaram a definir a capacidade real de diversificação económica.

Angola: 70% Da Energia É De Origem Renovável


A origem renovável da energia tornou-se o eixo central da transformação eléctrica de Angola, depois de mais de uma década de investimentos em barragens, transporte de muito alta tensão e expansão da rede de distribuição. O Governo afirma que cerca de 70% da electricidade consumida no país já vem de fontes renováveis, com a componente hídrica acima dos 60%.

O anúncio foi feito em Luanda por José de Lima Massano, ministro de Estado para a Coordenação Económica, na abertura da 2.ª Conferência Internacional sobre Energia e Águas. O encontro reúne decisores públicos, parceiros externos e empresas num momento em que Angola procura consolidar a segurança energética e melhorar o acesso à água potável.

A meta oficial aponta para 73% de contribuição renovável na matriz de geração até 2027. A trajectória inclui a subida da capacidade instalada de 1.772 para 6.400 megawatt entre 2012 e 2025 e a construção de 5.950 quilómetros de linhas de transporte de muito alta tensão.

O novo peso das barragens reduz a dependência termoeléctrica, baixa custos operacionais e reforça a ambição de uma economia menos presa ao petróleo. A conferência deverá medir resultados e expor desafios persistentes, incluindo a ligação entre energia, água e diversificação económica.


Viragem Eléctrica


A matriz eléctrica angolana mudou de forma expressiva entre 2012 e 2025. O país saiu de uma estrutura marcada por défices, cortes frequentes e forte dependência de centrais térmicas para um sistema onde as fontes renováveis assumem a maior fatia do consumo nacional. A água tornou-se o principal motor dessa viragem.

A capacidade de produção quase quadruplicou no mesmo período, ao passar de 1.772 para 6.400 megawatt. Esse crescimento traduz investimentos em novas barragens, reabilitação de infra-estruturas, ampliação de subestações e reforço das redes. A expansão das linhas de muito alta tensão também permitiu levar electricidade para mais zonas produtivas.

José de Lima Massano apresentou a mudança como uma transformação estrutural do sector. O ministro de Estado ligou a evolução da matriz renovável à redução dos custos operacionais e à protecção ambiental, numa altura em que os países africanos procuram energia suficiente para crescer sem agravar a pressão climática.

“Actualmente, cerca de 70% da energia consumida em Angola é proveniente de fontes renováveis, com a componente hídrica a representar mais do que 60%”, disse José de Lima Massano, ministro de Estado para a Coordenação Económica.

A leitura oficial coloca a energia renovável no centro da política económica. A electricidade mais estável pode apoiar fábricas, explorações agrícolas, minas, hotéis, redes digitais e serviços logísticos. O desafio está em transformar capacidade instalada em fornecimento regular para famílias e empresas, sobretudo fora dos grandes centros urbanos.

A viragem exige agora manutenção contínua, melhor distribuição e resposta rápida a avarias. A capacidade instalada só muda o quotidiano quando chega com estabilidade às casas, escolas, centros médicos e unidades produtivas que dependem de electricidade para trabalhar.


Meta de 2027


Angola fixou para 2027 a meta de alcançar 73% de contribuição de fontes renováveis na matriz de geração. O objectivo foi anunciado em 2024 pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, e ganha agora maior relevância porque os números apresentados indicam proximidade com esse patamar.

A diferença entre os actuais 70% e os 73% projectados parece pequena, mas envolve decisões complexas. O país terá de continuar a reforçar a produção hidroeléctrica, integrar outras fontes renováveis, reduzir perdas técnicas, melhorar a gestão da procura e assegurar que a energia gerada chegue aos consumidores com qualidade.

A forte presença hídrica oferece vantagens claras, mas também impõe riscos. As barragens dependem dos regimes de chuva e dos caudais dos rios. Por essa razão, a diversificação dentro das próprias fontes renováveis deverá ganhar importância, com maior atenção à energia solar e a soluções para zonas rurais afastadas das redes principais.

A conferência de Luanda inclui temas como electrificação rural, interligação regional, redes inteligentes, mobilidade eléctrica e hidrogénio verde. Essa agenda mostra que a discussão já não se limita à construção de grandes infra-estruturas. O debate passa também por tecnologia, eficiência, financiamento e capacidade institucional.

A meta de 2027 será medida pela percentagem renovável, mas o seu valor político dependerá do acesso real. Uma matriz limpa perde força social quando comunidades continuam sem energia regular. O país precisa de transformar a estatística nacional em serviço previsível para escolas, centros médicos, pequenas empresas e famílias.

O caminho até 2027 exige coordenação entre produção, transporte e distribuição. A percentagem anunciada será mais sólida se vier acompanhada de menos perdas, melhor manutenção e maior capacidade de responder ao aumento da procura nos centros urbanos e nas zonas produtivas.


Economia Produtiva


O Governo associa os avanços em energia e água ao crescimento de sectores considerados essenciais para diversificar a economia. A agropecuária, a indústria transformadora, a mineração, o turismo, as telecomunicações e a logística dependem de fornecimento eléctrico regular para aumentar produção, reduzir custos e atrair investimento de longo prazo.

José de Lima Massano afirmou que Angola está a construir uma economia mais diversificada, inclusiva, sustentável e integrada. O ministro citou os dados mais recentes do Produto Interno Bruto para mostrar a alteração gradual do peso relativo das actividades económicas, com a agropecuária e a silvicultura perto de 25% da actividade nacional.

O comércio surge em seguida, com 19,27% do Produto Interno Bruto. A leitura do Executivo aponta para uma economia onde a energia funciona como base de competitividade. Sem electricidade estável, as cadeias de frio falham, as fábricas param, os serviços digitais perdem eficiência e os custos de produção aumentam.

O ministro de Estado salientou ainda que a economia nacional cresceu a ritmo assinalável nos últimos dois anos. Segundo a sua intervenção, Angola reconquistou em 2025 a posição de sexta maior economia africana e terceira maior a sul do Saara, num quadro de recuperação após anos de pressão financeira.

A energia renovável não resolve sozinha os problemas estruturais da economia, mas cria uma plataforma mais favorável. O crescimento produtivo exige estradas, crédito, formação técnica, segurança jurídica e mercados organizados. Ainda assim, a expansão eléctrica reduz uma das barreiras mais persistentes ao investimento e ao emprego qualificado.

Para empresas, energia fiável significa menor recurso a geradores e maior previsibilidade nos custos. Para famílias, significa mais tempo útil, melhores serviços e oportunidades locais.


Água Estratégica


A água ocupa lugar central na mesma estratégia de desenvolvimento. José de Lima Massano afirmou que o progresso neste sector também é expressivo, com projectos destinados a reforçar a produção de água potável e ampliar o acesso. A pressão demográfica de Luanda torna essa frente particularmente sensível.

Os projectos Bita e Quilonga Grande concentram grande parte da expectativa pública. Em conjunto, deverão produzir mais de 777 mil metros cúbicos de água por dia e beneficiar cerca de 7,5 milhões de consumidores nas províncias de Luanda e Icolo e Bengo. A escala revela a dimensão da carência acumulada.

O acesso irregular à água afecta a saúde pública, a produtividade familiar e a organização das cidades. Nas zonas periurbanas, muitas famílias dependem de camiões-cisterna, chafarizes ou fontes distantes. Esse custo invisível pesa sobre os rendimentos domésticos e sobre o tempo de mulheres, jovens e crianças.

A execução dos projectos será tão importante como a sua capacidade anunciada. Produzir água não basta quando as redes de distribuição são frágeis, as perdas são elevadas ou os bairros não possuem ligações seguras. A melhoria do serviço depende de captação, tratamento, transporte, armazenamento e cobrança eficiente.

Ao colocar energia e águas na mesma conferência, o Governo reconhece a ligação entre os dois sectores. A água precisa de energia para ser captada e distribuída. A energia precisa de água quando a base hídrica domina a matriz. A gestão integrada torna-se decisiva para evitar soluções isoladas.

Projectos de grande escala podem aliviar a procura, mas precisam de redes finais, fiscalização e manutenção. Sem essas etapas, a produção anunciada dificilmente se transforma em acesso diário para bairros e famílias.


Desafios Sociais


João Baptista Borges reconheceu que energia e água são factores centrais de estabilidade social, competitividade económica, soberania nacional e afirmação geopolítica dos Estados. O ministro da Energia e Águas defendeu que Angola está consciente dessa realidade e mantém investimentos para melhorar as condições de vida das populações.

O mesmo governante admitiu que os desafios continuam enormes. Ainda existem comunidades sem acesso regular à energia e à água, assimetrias territoriais profundas e limitações infra-estruturais que exigem trabalho contínuo. Essa admissão é relevante porque impede que os avanços estatísticos ocultem falhas persistentes no quotidiano.

“Durante muitos anos, milhões de angolanos viveram sem acesso regular à electricidade e à água potável”, recordou João Baptista Borges, ministro da Energia e Águas.

A expansão das redes deve chegar a aldeias, comunas, bairros informais e zonas produtivas que ainda vivem à margem do serviço público regular. A electrificação rural, incluída na agenda da conferência, pode reduzir desigualdades territoriais e apoiar actividades locais.

A presença de parceiros de Portugal e do Brasil abre espaço para cooperação técnica, financiamento e troca de experiências. Angola precisa, porém, de garantir que os acordos respondem às prioridades nacionais, fortalecem capacidades internas e asseguram manutenção. Sem execução rigorosa, os projectos correm o risco de produzir números elevados e resultados limitados.

O acesso à electricidade e à água tem efeitos que ultrapassam a economia. Nas escolas, permite iluminação e equipamentos. Nos centros médicos, protege serviços essenciais. Nas casas, melhora segurança e tempo disponível. A origem renovável ganha sentido social quando esses benefícios chegam aos cidadãos.


Integração Regional


A interligação regional surge como uma das áreas mais relevantes da nova agenda energética. Angola pode beneficiar de redes capazes de permitir trocas de electricidade com países vizinhos, sobretudo em períodos de excedente ou défice. Essa articulação pode reforçar segurança, reduzir desperdício e apoiar a integração económica.

A posição geográfica do país oferece vantagens para uma política energética mais activa na região. Uma matriz com forte base renovável pode transformar Angola em fornecedor estratégico, desde que existam linhas, regras comerciais, estabilidade operacional e coordenação entre operadores. A energia passa então a ser também instrumento de cooperação.

A discussão sobre hidrogénio verde acrescenta uma dimensão de futuro. O tema ainda exige estudos, custos competitivos, água disponível, energia renovável abundante e mercados compradores. Mesmo assim, a sua inclusão mostra que Angola procura acompanhar tendências mundiais sem abandonar necessidades imediatas de acesso básico.

As redes inteligentes e a mobilidade eléctrica também aparecem na agenda da conferência. Essas áreas podem melhorar a eficiência do sistema, reduzir perdas e preparar novos padrões de consumo. A sua adopção, contudo, depende de quadros técnicos, investimento consistente e protecção dos consumidores contra tarifas incomportáveis.

O caminho energético angolano será avaliado pela capacidade de equilibrar ambição e execução. A matriz renovável já oferece uma base importante, mas a consolidação exige manutenção, transparência, planeamento e inclusão territorial. A energia limpa precisa de chegar à economia real e às famílias que ainda aguardam serviço estável.

A integração regional, porém, depende de confiança técnica e regras claras. Para vender ou trocar electricidade, é necessário garantir medição, qualidade e coordenação entre sistemas. A origem renovável pode ser vantagem, mas o serviço interno continua a ser prioridade para sustentar qualquer ambição externa.


Conclusão


Angola apresenta hoje uma matriz eléctrica com forte presença renovável e uma ambição clara para 2027. O dado dos 70% confirma uma mudança profunda face ao passado termoeléctrico, mas também aumenta a responsabilidade pública sobre a qualidade do serviço.

A energia de origem renovável só terá pleno significado quando se traduzir em electricidade regular, custos suportáveis e maior capacidade produtiva. A conferência de Luanda mostra que o país pretende ligar energia, água e diversificação económica numa mesma estratégia.

Os projectos anunciados e os números apresentados indicam progresso, mas as assimetrias territoriais continuam a exigir respostas concretas. O próximo teste será levar essa transformação para além das estatísticas e fazer dela uma melhoria visível na vida dos angolanos.

A consolidação dependerá agora de execução, manutenção e acesso efectivo. Produzir mais não basta se transporte e distribuição falharem. O impacto final será medido pela regularidade do serviço.

 


Será mesmo verdade que 70% da Energia produzida em Angola é de fontes renováveis? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2009 Miguel A. Lopes
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