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Segunda-feira, Janeiro 12, 2026

Gana: Mulheres Tentam Salvar Tradição Ancestral

Nas comunidades litorais do Gana, a apanha e o cultivo de ostras tem sido, há séculos, uma actividade exclusiva das mulheres. Uma única bacia de ostras é vendida pelo equivalente a quatro dólares, dinheiro que é usado para alimentar a família e manter os filhos na escola. Porém, o desmatamento dos mangais, a poluição e o avanço da urbanização costeira colocam em risco esta tradição ancestral.

Gana: Mulheres Tentam Salvar Tradição Ancestral


No Gana, Beatrice Nutekpor, de 45 anos, percorre todos os dias, os mangais da comunidade de Tsokomey, nos arredores da capital Accra, para colher ostras que depois vende no mercado. Aprendeu o ofício aos 15 anos, seguindo o legado da mãe. Hoje, luta para manter viva a tradição, enquanto procura transmiti-la à sua filha.

O cultivo de ostras nos mangais costeiros de Gana tem sido, desde sempre, o sustento das mulheres da região. Contudo, a cada ano que passa, o número de ostras disponíveis diminui, um efeito directo das alterações climáticas, tornando a sobrevivência desta prática, cada vez mais incerta

Os mangais — árvores ou arbustos que crescem junto às linhas costeiras — desempenham múltiplas funções vitais no ecossistema aquático: servem de abrigo a várias espécies de peixes, protegem contra a erosão causada pela subida do nível do mar e funcionam como barreira natural durante tempestades e ciclones.

Os mangais são imprescindíveis para as ostras: é nas suas raízes que se fixam e crescem. Quando estes ecossistemas são destruídos, os moluscos migram para águas mais profundas, obrigando as mulheres a mergulhos arriscados de até nove metros, permanecendo horas debaixo de água para tentar recolher o que resta.

A Development Action Association, uma organização não-governamental local, estava a ajudar a recuperar as ostras, mas, a formação que estavam a ministrar, terminou depois de perder o apoio financeiro dos Estados Unidos da América (EUA), em consequência da decisão do Presidente Donald Trump de cortar os contractos de ajuda externa.

Sem este apoio, as mulheres ficaram entregues a si próprias, a tentar manter uma prática geracional e a sustentar as famílias num país que ainda se recompõe da pior crise económica das últimas décadas.


Um Modo de Vida Ancestral


(20250923) Gana: Mulheres Tentam Salvar Tradição Ancestral
Imagem: © 2025 Misper Apawu

Durante anos, centenas de mulheres foram treinadas pela Development Action Association, uma organização não-governamental local, em métodos sustentáveis de cultivo: replantação de mangais, preservação das áreas existentes e colheita selectiva de ostras. O objectivo era reduzir o impacto das mudanças climáticas e prolongar a sobrevivência da actividade.

Porém, este apoio terminou abruptamente porque os EUA, cortaram os fundos deste apoio. Sem financiamento, os projectos foram interrompidos e as mulheres ficaram entregues a si próprias. Ainda assim, Nutekpor e as suas companheiras recusaram desistir: continuam a plantar mangais por iniciativa própria e já notam sinais de recuperação.

“As ostras começaram a fixar-se nos mangais que plantámos”, relata Nutekpor.

Mais de 80% dos mangais originais do Gana desapareceram ao longo do último século. Embora faltem dados exactos sobre a taxa recente de destruição, os investigadores alertam para o facto de as alterações climáticas e o avanço da urbanização costeira estarem a agravar diariamente a situação.

A procura incessante de lenha para cozinhar, a pressão da expansão imobiliária e a libertação de água de barragens sobrecarregadas colocam ainda mais em perigo estes ecossistemas frágeis. Segundo a activista Lydia Sasu, da Development Action Association, a actual colheita de ostras é já inferior à do ano anterior — sinal preocupante de que o futuro da actividade está comprometido.


Uma Dura Herança


(20250923) Gana: Mulheres Tentam Salvar Tradição Ancestral
Imagem: © 2025 Misper Apawu

Apesar das dificuldades, as mulheres persistem. Muitas integram a Densu Oyster Pickers Association, um grupo comunitário que definiu regras para garantir a preservação dos mangais. Quem cortar árvores fora dos prazos estabelecidos perde o direito às ostras e os reincidentes são denunciados às autoridades.

Bernice Bebli, de 39 anos, descreve a dureza do trabalho sob o sol escaldante, mas insiste que a recompensa maior não é apenas económica:

“Fazemos isto pelas nossas crianças e pelas gerações futuras”.

“A água é o nosso sustento, é a nossa vida”.

Para a comunidade, a prática não significa apenas alimento ou rendimento. Representa identidade, solidariedade e continuidade cultural. Como afirma Nutekpor:

“Tal como a minha mãe me ensinou, eu quero ensinar a minha filha, para que ela ensine a sua filha”.

“Assim, o cultivo de ostras continuará a ser o negócio da nossa família”.

O caso das mulheres de Tsokomey espelha uma realidade mais ampla que se repete em vários países da África Ocidental: a pressão das mudanças climáticas sobre as comunidades tradicionais costeiras. Entre a erosão marítima, a subida do nível das águas e a escassez de recursos, milhões de famílias enfrentam dilemas semelhantes.

Vários especialistas como Francis Nunoo, professor de ciências das pescas na Universidade do Gana, alertam para o risco de a dependência das populações costeiras destes ecossistemas ser enorme. A taxa de destruição é sempre superior à de regeneração e, se nada mudar, além de se perderem espécies autóctones, vão-se perder vidas humanas


Conclusão


O cultivo de ostras no Gana, um trabalho ancestral efectuado exclusivamente por mulheres, é mais do que uma prática económica: é uma tradição, um património cultural e uma estratégia de sobrevivência.

O esforço hercúleo destas comunidades para proteger os mangais demonstra força de vontade acima da média e esperança, mas também revela a urgência de políticas públicas eficazes, de apoio internacional consistente e de uma consciência global sobre a preservação do meio ambiente.

O futuro desta actividade ancestral dependerá não só da coragem destas mulheres, mas também da capacidade de toda a sociedade em reconhecer o valor dos ecossistemas costeiros e em agir em conformidade, para os salvar antes que seja tarde demais.

 


O que pensas de mais esta desgraça económica/ecológica no Gana? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2025 Misper Apawu
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