Pierre Ndaye Mulamba Melhor Marcador do CAN.

Pierre Ndaye Mulamba gravou o seu nome na história do futebol do Zaire (atual RDC) e na do futebol africano, ao levar a sua equipa à vitória no Campeonato Africano das Nações (CAN) de 1974. O ex-jogador do Vita Club, falecido em 2019, é, até hoje, o melhor marcador de sempre numa edição do CAN.

 

O Melhor Marcador de Sempre

Pierre Ndaye Mulamba construiu a sua lenda durante o CAN de 1974 no Egipto. Estiveram oito equipas divididas em dois grupos no campeonato. Um grupo incluía o Congo, Costa do Marfim, Egipto e Guiné. O Zaire, Maurícia, Uganda e a Zâmbia formavam o grupo 2. Pierre Ndaye começou forte no campeonato, contribuindo para a vitória do seu país sobre a Guiné (2-1) no jogo inaugural.

Ficou no banco no jogo seguinte e viu o Congo perder para o Zaire (2-1). Pierre Ndaye brilhou novamente no último jogo da fase de grupos, marcando um golo contra a Maurícia (4-1) e terminou a fase de grupos como o melhor marcador, com 3 golos. Numa altura em que uma vitória valia 2 pontos, o Zaire terminou em segundo lugar.

 

As Meias-Finais Contra o Egipto

O Zaire enfrentou o país anfitrião, o Egipto, nas meias-finais. O Egipto chegou a ter uma vantagem de dois golos, mas Pierre Ndaye Mulamba estava em ótima forma e um minuto após o segundo golo egípcio, o jogador de 26 anos, recolocou a sua equipa em jogo (55º minuto).

Mantantou igualou o placar (2-2, 61º minuto). Quem mais poderia colocar o Congo no caminho da vitória senão Pierre Ndaye? Ele assumiu a responsabilidade e marcou o golo da vitória, silenciando o fervoroso público que se encontrava no Estádio Internacional do Cairo e em todo o país.

Na outra meia-final, a Zâmbia venceu o Congo. Placar final (4-2). A final do campeonato que começou a 1º de Março, realizou-se a 12 de Março, com a Zâmbia a enfrentar o Zaire.

As duas equipas lutaram arduamente durante a final. No fim do tempo regulamentar, o placar estava em 1-1. Pierre Ndaye havia recolocado a sua equipa em jogo após esta estar em desvantagem (1-0). Ele pensou que daria a vitória na prorrogação (117º minuto), mas os Chipolopolo empataram no último minuto (2-2).

Nessa altura, o regulamento determinava que um empate, após a prorrogação, resultava numa segunda final, para decidir o vencedor.

Dois dias depois da primeira edição, Pierre Ndaye Mulamba repete o seu desempenho e volta a marcar. Na realidade, ele liderou os Leopardos nesta nova final, com dois golos, um em cada tempo (30º, 76º), permitindo que o país conquistasse o seu segundo troféu continental.

 

Mobutu: “A Taça Fica no País

Pierre Ndaye Mulamba que não estava destinado a uma carreira no futebol, mas sim a uma carreira de professor, terminou o CAN de 1974, a dar uma aula de perfeição, com 9 golos marcados, 5 a mais do que o segundo colocado.

Por causa do seu pai, ele poderia ter perdido este enorme feito, pois estava destinado a uma carreira nobre de professor, chegando a afirmar, num dos campos em que o seu filho jogava, brilhantemente futebol e, perante a presença de Joseph Kasa-Vubu, o primeiro presidente do Congo, afirmou:

“Não permitirei que o meu filho jogue futebol no futuro”. “Isto não é uma profissão. O futebol é para os bons em nada”.

Pierre Ndaye Mulamba recebeu os prémios de melhor jogador do campeonato e o de melhor marcador e, logicamente, foi incluído na equipa ideal do CAN 1974.

Mobutu e os congoleses receberam triunfalmente os heróis no seu regresso. Mobutu dirigiu-se à selecção mas especialmente à estrela da equipa e disse:

“Eu pedi-vos na semana passada por telefone para trazerem a taça para o país e vocês fizeram isso. Não me vou esquecer”.

Mobutu, não se esqueceu e ofereceu a cada Leopardo um carro e uma casa como recompensa.

 

Nesse Mesmo Ano, O Zaire Foi o Primeiro País Africano a Ir ao Mundial

Em 1974, o Zaire torna-se a primeira equipa africana a participar de um Mundial de Futebol. No entanto, a campanha acaba em fracasso por várias razões, incluindo as financeiras. Os Leopardos deixam a competição com 3 derrotas, incluindo uma pesada derrota contra a Jugoslávia (9-0).

Pierre Ndaye foi expulso, erradamente, durante esse jogo (o 2º do campeonato) por um pontapé, dado por um companheiro de equipa, ao árbitro. Além disso, foi condenado a cumprir uma suspensão de um ano que a FIFA mais tarde revoga.

Ainda participou no CAN de 1976, onde marcou apenas um golo contra o Sudão no último jogo da fase de grupos. O Zaire deixou o campeonato prematuramente, marcando também o fim de sua carreira internacional. O jogador continuou a sua carreira em clubes, especialmente no Vita Club, até 1988 (224 jogos, 116 golos).

 

Os Primeiros Anos de Pierre Ndaye Mulamba

Pierre Ndaye Mulamba foi um talento precoce e ganhou notoriedade no seu país aos 14 anos. A sua primeira convocatória aconteceu em 1968. O génio acumulava golos no futebol local defendendo as cores do Renaissance du Kasaï e, em seguida, da Union Saint-Gilloise.

No entanto, as suas proezas não são suficientes, para que o jogador apelidado de “Mutumbula” (“bicho-papão”) fosse convocado para os CAN de 1968, 1970 e 1972.

Com muita paciência, trabalhou ainda mais, acumulou experiência e fortaleceu-se na sua breve passagem pelo AS Kasaï, mas principalmente no Vita Club, para onde se transferiu em 1972. Pierre Ndaye Mulamba torna-se aí no avançado principal, marcando muitos golos.

Em 1973, contribui ativamente para a vitória do Vita Club, na Taça Africana de Clubes Campeões. Isso provavelmente foi o ponto de viragem para a sua participação activa na selecção, pois embora tenha sido convocado várias vezes no passado, nunca chegou a entrar em campo. Nesse mesmo ano, fez a sua estreia em campo pela seleção.

 

Triste fim de vida

Quase caído no esquecimento após a sua aposentadoria, o ex-zairense é lembrado pelos africanos em 1994. Issa Hayatou e a CAF homenageiam-no durante uma cerimónia há margem do CAN de 1994 realizado na Tunísia, oferecendo-lhe uma medalha.

No entanto, esta medalha está na origem dos seus problemas com o governo. Após a cerimónia, o Ministro dos Desportos do Zaire, pediu-lhe a distinção para presentear Mobutu, mas ele não aceitou, conforme é relatado na sua biografia “A morte espera-me“.

Alguns dias depois, ele e a sua família (a sua esposa e os seus 3 filhos) são atacados na sua casa. A lenda do futebol é deixada à morta perto de uma ponte, de onde é resgatada por crianças de rua. É hospitalizado em como de que se recupera, não sem ter sofrido antes 3 paragens cardíacas. Infelizmente, o seu filho mais jovem (9 anos) morreu devido a um golpe de cassetete.

Pierre Ndaye, é enviado para a África do Sul para tratamentos e nunca regressou ao Zaire, excepto brevemente, em 2005, quando recebeu uma homenagem de Blatter, presidente da FIFA, no seu país natal. Para poder receber a homenagem, é-lhe proibido falar sobre a sua vida e sobre os seus problemas. Uma situação dolorosa!

 

Dignidade até o fim

Somente em 2009, é que recebeu uma homenagem à altura da sua carreira, mais precisamente, durante o sorteio do Mundial de Futebol de 2010 fez um discurso, emocionante, à beira das lágrimas:

“A minha vida nem sempre foi fácil. O futebol trouxe-me tanta alegria quanto tristeza”.

“Mas hoje, estou feliz. Feliz porque o Mundial de Futebol será disputado no meu país, a África do Sul”.

“Feliz, porque não é apenas um, mas seis países africanos que participarão da competição e eu, vou apoiar todos com todo o meu coração e força”.

“Feliz, porque ao me convidarem para discursar aqui, hoje, vocês prestaram-me uma imensa honraria”.

Pierre Ndaye Mutumuba, faleceu 10 anos depois, a 26 de Janeiro de 2019, com 70 anos de idade.

 

Conclusão

Pierre Ndaye Mulamba, permanece como uma figura inigualável no panorama do futebol africano, tendo guiado o Zaire à vitória na CAN de 1974 tornando-se o melhor marcador da competição até os dias de hoje. O seu percurso não só ilustra proezas desportivas notáveis, mas também simboliza a persistência face às adversidades pessoais e às expectativas iniciais contrárias à sua carreira no futebol.

A sua história, é uma inspiração, destacando não apenas a maestria desportiva, mas também a força interior que transcendeu barreiras e deixou um impacto duradouro na história do desporto africano. Foi por isso que Mais Africa, o decidiu relembrar, com esta singela homenagem, reverenciando a sua contribuição única e duradoura para o mundo do futebol.

 

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Imagem: © DR 
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