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Domingo, Maio 26, 2024

Brasil-Nigéria: Laços De Um Diálogo Inspirador

A agenda é extremamente extensa, são dois países emergentes, dois países produtores de grande economia e que representam muito nas suas regiões.

Brasil-Nigéria: Laços De Um Diálogo Inspirador.

Entrevista Exclusiva a Mais Afrika, de Ronaldo Vieira, Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil em Abuja, na Nigéria.

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Em uma conversa esclarecedora, Ronaldo Vieira, Ministro Conselheiro na Embaixada do Brasil em Abuja, partilhou aspectos valiosos sobre a complexa teia diplomática entre o Brasil e Nigéria.

Nesta décima sexta Grande Entrevista, ficámos com uma visão única do trabalho diplomático na interseção de culturas e nações, revelando-se nos seus meandros os desafios enfrentados e as oportunidades substanciais, para o futuro das relações Brasil-Nigéria.

Com quase duas décadas de carreira diplomática, Ronaldo destaca-se como linguista, poeta e defensor fervoroso do papel diplomático em prol do Brasil. Nesta entrevista, ele conduz-nos pelo seu percurso marcante, destacando experiências em países africanos como a Tanzânia, o Quênia e Moçambique.

A visão de Ronaldo sobre África transcende o convencional, considerando o continente como detentor de uma herança histórica rica e um futuro promissor. Nas suas palavras, é hora de integrar conhecimentos milenares com as dinâmicas contemporâneas, estabelecendo colaborações cruciais para o desenvolvimento sustentável.

Falámos da transferência de tecnologia e da cooperação técnica entre o Brasil e a Nigéria e também se abordou, o actual panorama da política externa brasileira em relação a África, destacando-se da conversa, a cooperação regional e global em meio a desafios como mudanças climáticas, segurança alimentar e paz.

Ficámos a saber, nesta entrevista que Ronaldo claramente desafia estereótipos culturais, enfatizando a necessidade da compreensão mútua entre os dois países, promovendo projetos inovadores na indústria criativa, especialmente no cinema e na música que são apresentados como instrumentos para estreitar laços culturais e comerciais.

Prepare-se para uma exploração enriquecedora conduzida por um experiente Ministro Conselheiro que busca transcender fronteiras e promover uma parceria mais sólida e sustentável entre o Brasil e a Nigéria.

Junte-se a nós nesta fascinante conversa e fique a saber e a conhecer o que não está à espera…

 

A Entrevista

Imagem © 2023 Francisco Lopes-Santos  (20231114) Brasil-Nigéria Laços De Um Diálogo InspiradorFrancisco Lopes-Santos (FLS): Bem-vindo. Antes de mais, quero agradecer a sua disponibilidade para nos conceder esta entrevista. Mas antes de começarmos, poderia dar-se a conhecer um pouco aos nossos leitores, dizendo quem é e contar-nos um pouco sobre o seu percurso profissional até chegar à actual posição?

Ronaldo Vieira (RV): Claro, em primeiro lugar eu gostaria de agradecer o convite da revista Mais África. É um prazer estar aqui com vocês. Eu acho importante o trabalho que fazem, porque é uma ferramenta diplomática de difusão do conhecimento e da circulação da informação.

Atualmente chama-se a isso, diplomacia pública. A sociedade que é quem paga os nossos salários, tem o direito de saber o que o serviço diplomático faz. Então, para mim, é sempre um prazer estar em interface com a sociedade civil.

Bom, o meu nome é Ronaldo Vieira, eu sou Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil em Abuja, na Nigéria. Estou actualmente como encarregado de negócios porque o embaixador partiu há algum tempo e eu assumi a Embaixada.

Temos de nos lembrar que o Brasil e a Nigéria são países em desenvolvimento, então nós temos de unir forças para que a nossa sociedade possa ter um desenvolvimento que seja sustentável e inclusivo, a fim de que nós possamos atingir as metas do desenvolvimento sustentável.

Bom, você perguntou recentemente sobre a minha trajetória. Eu sou Diplomata de carreira, entrei no Itamarati em 2005 e ao longo desses quase 20 anos, eu trabalhei maioritariamente em países africanos. Trabalhei na Tanzânia, no Quênia, em Moçambique e agora estou trabalhando aqui na Nigéria. Estou de saída e devo ir agora para Romênia, em Bucareste.

Antes, também servi em Paris, fui representante do governo brasileiro e dos países latino-americanos em 2014. Junto ao comitê gestor, organizei e elaborei a agenda do desenvolvimento sustentável. Minha parte naquela época era trabalhar com o objetivo número quatro, relacionado à educação. À parte disso, na minha carreira acadêmica, eu sou linguista e trabalho com análise do discurso.

Também sou poeta nas horas vagas, poeta e escritor de teatro, porque precisamos de um pouco de arte na nossa vida para manter o mínimo de sanidade possível nessa vida internacional que parece fácil, mas não é. Ela pode ser glamorosa, mas é extremamente difícil e recheada de atividades que são extremamente necessárias. E eu me considero um diplomata que tem consciência que eu trabalho para o Brasil.

 

FLS: Senhor Ministro. Antes de começarmos a falar sobre a sua colocação na Nigéria e visto a sua anterior experiência em outros países africanos, como vê o continente africano e as diferentes realidades que coexistem nele?

RV: Eu vejo o continente africano como o continente do futuro, porque ele é um dos continentes em termos de civilização mais antigos do planeta. Agora é a hora de ir para frente. Também precisamos de ir para trás e aproveitar o conhecimento milenar que existe nesse continente.

Eu vejo que o continente africano tem se inserido e tem buscado se inserir no cenário internacional de uma maneira muito peculiar, porque não é um continente pequeno. Os países são mega diversos, são diversos dentro deles, e são diversos.

Cada país encontra-se no momento da sua do seu desenvolvimento, mas eu vejo que juntamente com o Brasil, América do Sul, e a América Latina, todos os povos – vou dizer povos, não países nesse momento – estão tentando se ajustar para encontrar um lugar ao sol.

Nós viemos de uma história recente de uma história moderna dos últimos 500 anos de priorização de certa cultura mais eurocêntrica, e nos últimos anos, nós estamos fazendo envidando esforços. Nós estamos envidando esforços para inserir no cenário internacional, e eu acho que nós estamos encontrando a nossa identidade nesse mundo.

 

FLS: Ronaldo, como Diplomata de carreira com uma vasta experiência em África, o que acha do actual posicionamento do seu governo em relação ao continente? Ou por outras palavras, acredita que é necessário que este posicionamento deixe de ser apenas político e seja necessário tornar-se algo mais prático e efetivo?

RV: Claro, claro. Hoje em dia não tem como mais brincar com a mudança climática, não tem mais como brincar com a segurança alimentar, não tem como brincar mais de paz e guerra. Então hoje eu considero que o governo que está aí, a política externa actual do Brasil para a África, ela tem uma agenda positiva e altruísta de construção da força Regional e planetária e mundial dos países em desenvolvimento.

Eu acho que é a hora de afirmação do nosso poder e do nosso poder em vários Pilares ao mesmo tempo. Não é só o Pilar econômico que, infelizmente, é o foco principal das da maioria das pessoas, mas também o foco político, do desenvolvimento, e o foco climático.

Então, eu sinto que as organizações internacionais e muitos dos países desenvolvidos têm entendido que as conformações do mundo hoje, das relações internacionais, necessariamente passam por países como o Brasil e Nigéria e outros. Eu estou falando desses dois porque actualmente eu estou aqui na Nigéria.

E para se ter a um desenvolvimento melhor, precisamos incluir todos na agenda do desenvolvimento, na agenda planetária, na agenda mundial e na agenda da mudança climática.

 

FLS: Ronaldo, como actual Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil em Abuja, na Nigéria, quais são as suas impressões sobre o país e que projetos você considera cruciais para fortalecer as relações bilaterais entre os dois países, e em que setores especificamente?

RV: Rapidamente, eu imagino o seguinte: a agenda bilateral e a agenda do Brasil com a África são muito extensas.

Eu não posso ter a pretensão de dizer que a atividade que a Embaixada do Brasil está realizando, junto ao consulado do Brasil aqui na Nigéria, também que funciona em Lagos que esses dois representantes do governo brasileiro estão realizando aqui neste país, compreende a extensão toda das necessidades que a agenda bilateral exige.

A agenda é extremamente extensa, são dois países emergentes, dois países produtores de grande economia e que representam muito nas suas regiões. Nós precisamos fazer muitas coisas juntos, mas não pode esperar o dia que é possível realizar tudo para começar a tarefa.

A tarefa você começa, e a história se encarrega de encaminhar as relações. Então, eu sou parte de um processo que começou antes de mim e que certamente vai seguir depois que eu me desligar aqui da embaixada.

Actualmente, o que nós estamos fazendo, o que nós julgamos actualmente como crucial para nosso desenvolvimento, é desenvolver projetos de cooperação técnica porque nós temos muitas identidades em termos de cultura. Nós temos muitas identidades em termos de clima, em termos de solo, em termos de recursos. Então, nós podemos muito bem ajudar um ao outro no desenvolvimento.

Basicamente, aqui a Embaixada nos últimos 3 anos tem focado muito na promoção comercial não só do Brasil na Nigéria, como você bem sabe, Vanessa, mas também apoiando a promoção comercial da Nigéria no Brasil.

Porque se somos países em desenvolvimento, queremos desenvolvimento sustentável, nós devemos fazer uma política externa para o desenvolvimento sustentável de países emergentes. Não fazer a cooperação bilateral tradicional como outros países desenvolvidos fazem com países em desenvolvimento.

Outra coisa que nós fazemos é dar prioridade ao desenvolvimento da cooperação técnica. O Brasil ao longo dos últimos anos tem desenvolvido muitas habilidades e muito conhecimento na área técnica, científica, tanto para a saúde, quanto para o meio ambiente, quanto para a agricultura, e por que não também na área de comércio e industrialização.

A Nigéria é dona de uma população enorme de 225 milhões de pessoas, da qual 70% tem menos de 35 anos. Pessoas falam inglês, além das línguas originárias, e que, portanto, têm acesso ao mundo da internet. É muito vasto e, portanto, eles têm um conhecimento de desenvolvimento de TI e de software maravilhoso, e que nós também podemos nos aproximar deles e aprender muito com eles nisso.

Nós também agora estamos focando no desenvolvimento da área cultural, porque ninguém compra um produto por si só. Se você compra uma pasta dental, essa pasta dental carrega um elemento cultural. Então, não adianta querer fazer promoção comercial, tentar vender maquinário agrícola aqui se o nigeriano não confia no nosso maquinário agrícola, se ele não entende para que que esse sistema serve.

Os nossos projetos são complementares um ao outro, mas as nossas prioridades, para te dizer em poucas palavras, se concentram na área da promoção comercial, da transferência de tecnologia e cooperação técnica, e aprofundamento do conhecimento cultural.

Imagem © DR  (20231114) Brasil-Nigéria Laços De Um Diálogo Inspirador

FLS: Como disse na resposta anterior, falou bastante do aspecto económico, mas falou de algo também muito importante que é o aspecto cultural. E nós sabemos que a Nigéria especialmente o mercado do cinema na Nollywood nigériana está aos níveis do Bollywood indiano e do Hollywood americano e há uma grande aproximação cultural também entre o Brasil e a Nigéria.

Portanto, eu faço aqui esta pergunta: como falou do aspeto cultural que é importante, que intercâmbios é que existem entre o Brasil e a Nigéria para promover este aspeto cultural entre os dois países?

RV: Pois bem, muito obrigado pela pergunta. Nós identificamos nos últimos 3 anos que nós temos um GAP, um descompasso de conhecimento cultural muito grande. A Nigéria conhece muito pouco o Brasil, o Brasil conhece muito pouco a Nigéria, e nós resolvemos então operar na indústria criativa para poder melhorar pelo menos o conhecimento um do outro.

A nossa ideia hoje, por exemplo, acabou-se de realizar um fórum comercial para indústria criativa que focou na indústria cinematográfica, na indústria do Carnaval e na indústria da música, que a Nigéria é um dos maiores polos de criação de música do mundo. E nós temos muito também a aproveitar desse setor.

Na questão particular do cinema, a diferença é gritante. Nollywood produz 2200 filmes por ano, e o Brasil produz 179 filmes por ano. Nollywood produz os filmes todos vinculados ao setor privado, o Brasil só produz filmes quando tem apoio governamental. Obviamente, que há exceção, há muito cinema independente também, mas isso não chega a ser 10% da produção total.

Outra coisa que na Nollywood tem é a capacidade de fazer filmes com um orçamento baixo, e o Brasil precisa aprender isso. Então, nós temos incentivado os cineastas brasileiros a conhecer os cineastas nigerianos.

No ano passado, nós criamos aqui a sessão de cinema com pipoca, em que trouxemos os cineastas de Abuja e das redondezas para poder assistir alguns filmes brasileiros e fazer entrevistas com os diretores desses respectivos filmes.

E aí temos conseguido já algum tipo de interlocução, mas a barreira linguística é muito grande, porque o Brasil não fala inglês. A verdade é essa. Muito poucos de nós falam inglês. E aí, isso levou a uma outra área que é a área linguística de cooperação educacional para a promoção do ensino da língua portuguesa.

E aí, temos trabalhado com os PALOPs aqui, porque achamos que os PALOPs, os países lusófonos africanos, eles têm também a capacidade de poder ver a cooperação na área de intercâmbio linguístico. Mas aí eu tenho procurado colocar o intercâmbio linguístico em todos os programas, inclusive no programa de audiovisual.

Só para você ter um exemplo, o festival de cinema africano acontece do início de novembro, é o maior festival de cinema da África, e nós estamos conseguindo trazer alguns cineastas brasileiros e algumas instituições que fomentam o audiovisual para rodadas de negócio.

Eu acho que vamos conseguir a minha ambição, que é, eu acho que vai ficar mais como esperança, que eu vou pedir para os meus colegas darem continuidade, é de que como o Brasil produz, é muito famoso na produção de telenovelas, e a Nigéria gosta das telenovelas brasileiras.

Nollywood tem esse potencial enorme na produção de filmes, de começarmos a fazer produções internacionais bilaterais, Brasil-Nigéria correto? E tentar colocar narrativas nigerianas dentro das telenovelas brasileiras, porque isso vai ajudar muito a difundir de uma maneira bem popular o conhecimento.

E aqui eu vou te citar uma coisa, desculpas que eu estou me alongando, é que eu estou tentando ser o mais direto possível porque há muitas coisas fervilhando aqui na minha cabeça. Mas esse detalhe eu preciso te dizer: no caso do Brasil, nós temos uma visão extremamente estereotipada da Nigéria.

Porque o Brasil tem várias religiões de matriz africana e vamos dizer, a Meca, a Roma das igrejas e dos terreiros afro de matriz afro-brasileira tem em Oió que é uma cidade aqui da Nigéria, como a grande Meca porque Xangô, o grande pai de todas essas religiões aí do Brasil e o iorubá é uma língua que se usa dentro do culto religioso no Brasil.

O brasileiro em geral, crê que a Nigéria é totalmente orixá, totalmente candomblé e totalmente iorubá. E a verdade é que as religiões tradicionais da Nigéria são extremamente mal vistas, são muito reduzidas, menos de 2% da população aqui segue as religiões tradicionais e tem mais de 200 religiões tradicionais nas 250 etnias que têm nesse país aqui.

Então, as pessoas começaram-se a se assustar e aí, eu comecei a perceber que era fundamental trazer a discussão sobre a indústria criativa para a busca, porque já existe a indústria criativa lá em Lagos, mas Lagos é a região dos iorubás. Então, agora, o nosso grande desafio é trazer para a massa crítica brasileira esse conhecimento da diversidade linguística e da diversidade cultural da Nigéria.

Por isso, foi um esforço muito grande para trazer toda essa discussão comercial, artística e cultural para a capital do país, que é Abuja, onde você encontra um cruzamento do caldo de cultura que é esse país. Só para finalizar, o Brasil conhece muito pouco a música da Nigéria.

Não sei se vocês sabem, mas todos os grandes artistas norte-americanos que fazem sucesso mundial aprendem a criatividade musical com nigerianos. A Beyoncé, por exemplo, na produção artística dela, ela usa muito dos elementos de um cantor aqui chamado Burna Boy, ele é bastante famoso por aqui, tem músicas maravilhosas e nós conhecemos ainda muito pouco.

Então, a área cultural é um universo ainda a ser explorado. Começamos, como eu disse, só com um bloquinho, e tenho esperança e vou deixar registado aqui para que os colegas possam dar continuidade a essa política também, porque ela é que abre os caminhos verdadeiros para a promoção comercial nos dois países.

Então, outra coisa que me chocou, alguns comerciantes daqui que enviam produtos religiosos para o Brasil, muitas vezes têm problemas na alfândega, porque a Alfândega brasileira tem problemas de preconceito religioso.

Às vezes, não deixam entrar esses artistas, que são, ao fim e ao cabo, promoção comercial, entende? Então, a cultura é fundamental, e a música e a diversidade cultural são fundamentais para desconstruir essa estereotipação, se eu puder falar, boba infantil, que nós brasileiros temos da Nigéria.

 

FLS: Ronaldo, em breve você vai deixar sua posição na Nigéria. Gostaria de saber quais são os conselhos que você deixa para os brasileiros interessados em fazer negócios com a África e, em particular, com a Nigéria.

RV: Quem sou eu para dar conselhos? Eu acho que sou um ser humano cheio de limitações. Tenho tentado lutar por um mundo melhor, mas a minha pouca experiência de 3 anos aqui na promoção comercial do Brasil na Nigéria me fez crer que não adianta o brasileiro chegar aqui arrogante, achando que vai ensinar alguma coisa para o irmão africano.

Não adianta o brasileiro achar que ele tem o melhor conhecimento técnico-científico do mundo e que a Nigéria não tem nenhum conhecimento técnico-científico. Não adianta o brasileiro chegar aqui e achar que produtos e serviços são algo do mundo mecânico porque não são, são algo integrado no sistema cultural.

E você vai ao supermercado, não compra um produto qualquer, sempre compra o produto com o qual você tem alguma relação. Então, é importante que o brasileiro estude mais a Nigéria, esteja mais aberto para as diferenças culturais, reveja os seus preconceitos que chamamos de estruturais historicamente colocados na cabeça e reveja o seu posicionamento em relação aos negros, à comunidade negra do Brasil.

Muitas vezes, o brasileiro chega aqui com uma mentalidade muito eurocêntrica e muito esbranquiçada, um pouco antiquada para as novas realidades. E temos também outros problemas que nós precisamos desconstruir. Então, vou te citar aqui agora, não gosto muito de entrar nesses assuntos, mas às vezes é preciso, tocar em algumas feridas sérias.

Há um grande problema sobre o tráfico de gente, tráfico humano, e tráfico de drogas. Está bom, é um problema sério, mas não é um problema só da Nigéria, é um problema brasileiro, é um problema paraguaio, é um problema europeu.

Então, em vez de colocar o nigeriano só dentro dessa caixinha e achar todos os nigerianos são assim, que esse é o nosso grande problema, são 225 milhões de pessoas na Nigéria, mais de 250 etnias, e a insistimos em colocar todo mundo na mesma caixinha?

Não, nós precisamos pensar fora da caixinha. Os governos precisam trabalhar juntos na organização de acordos bilaterais, na organização de reuniões de alto nível entre os presidentes, para se poder avançar na área consular, desculpa, na área de tráfico de pessoas, na área de tráfico humano, na área de sistema de saúde, na área de imigração.

São temas que são quentes não só para a Nigéria, mas também para o Brasil. Precisamos ser um pouco mais críticos e olhar para dentro de nós mesmos, entendeu? Para nós podermos desconstruir um pouquinho, despir nos dessa roupagem colonialista que nós ainda conservamos de tempos atrás e começar a olhar pro novo. Muitas vezes é milenar, entendeu?

Hoje em dia, por exemplo, na arquitetura tem sido moda no Brasil utilizar construção com barro, e nós temos construções de barro aqui na Nigéria de 3000 anos. E por que que nós não vamos lá explorar essa arquitetura deles?

Por que que nós não vamos lá conhecer? Eles têm aqui medicamento tradicional que eles usam muito tempo, e aqui remédio é muito caro para o nigeriano, e eles estão indo bem, sobreviveram à covid muito melhor do que nós, não é certeza que foi por causa do remédio tradicional, das plantas que eles usam, ou da alimentação deles.

Mas vamos olhar para essa alimentação, vamos olhar para essas plantas que eu chamo de medicinas tradicionais. Vamos aprender também. Vamos tentar a desconstruir na nossa cabeça que todo negro é igual e que junto com essa negritude vem todo um preconceito cultural estruturado na nossa cabeça.

E eu te digo isso porque está estruturado na cabeça de todos nós brasileiros, inclusive na sua, na minha e estamos sempre a lutar nós sempre nos pegamos em situações, mas temos de ter essa consciência crítica para se poder avançar na promoção comercial, entendeu?

Que adianta, por exemplo, um dia desses, estava aqui conversando sobre venda de tratores para cá, e aí um dos nigerianos que estava na reunião levantou a voz, falou assim:

“Vocês não sabem que aqui a energia é extremamente cara, gasolina, petróleo, são extremamente caras”.

“Vocês não sabem que essas pessoas não têm como comprar tratores e que vocês não têm maquinário que pode ser usado com tração animal ou por pessoas, ou que possa usar um painel solar”.

E aí eu vi que a comunidade brasileira, a delegação brasileira meio que se chocou. Porquê? Porque não fez a tarefa de casa. Então, meu recadinho que eu vou deixar hoje, eu lamento ter de dizer essas coisas desse jeito porque tem várias outras formas, mas eu acho que, como você me colocou na berlinda, eu vou dizer aqui, eh, direto e reto, moçada.

Empresários interessados na promoção comercial do Brasil na Nigéria, vamos fazer o nosso dever de casa. Vamos ler, vamos assistir aos filmes de Nollywood, vamos entender melhor qual que é a realidade com a qual nós estamos lidando, porque às vezes nós temos realidades muito próximas, mas às vezes a realidade que é próxima é do interior do Nordeste na escola interior aqui da Nigéria.

E aí vem o pessoal da Paria Lima, por exemplo, com esta ideia de Paria Lima. Óbvio que isso não vai funcionar, e se eu puder insistir, eu vejo que a educação brasileira, ela é generalista, porque eu estudei no Brasil, fiz escola pública quase a minha vida inteira, e qualquer outro dia eu posso te dar, inclusive, uma entrevista sobre a minha própria biografia, como eu cheguei ao mundo diplomático.

Eu sou um dos poucos diplomatas que fez escola pública, e os meus colegas fizeram escola privada, e eu sei, e eu fui professor de escola privada antes de entrar na carreira diplomática, e o que que acontece? Nós estudamos, nós aprendemos a lidar com a diversidade entre química, história, geografia, literatura.

E aí eu não sei o que acontece depois da faculdade, as pessoas meio que emburrecem, e elas ficam muito focadas naquela caixinha cartesiana delas, vou trabalhar com o trator xis e aí, cada vez envelhece mais e fica mais fechado na caixinha.

E para desenvolvermos hoje a promoção comercial, como você está dizendo, é precisa abrir os horizontes, fazer o dever de casa, ser um pouquinho mais humilde.

Imagem © DR  (20231114) Brasil-Nigéria Laços De Um Diálogo Inspirador

FLS: Obrigado. Às vezes, falta sinceridade e como se costuma dizer, é preciso pôr os pontos nos iis que muitas vezes não são postos. E na resposta que deu, falou num aspeto, quanto a mim, importantíssimo. Falou na questão do tráfico e na questão das drogas. Isso faz-me lembrar que a Nigéria sofre de um problema gravíssimo que é o problema do Boko Haram e tem tido graves problemas na defesa.

Quando se fala normalmente no intercâmbio com o Brasil, esquecemos de um aspecto importantíssimo que eu acho que muita gente não sabe. O Brasil é uma das maiores potências militares mundiais do mundo, rivaliza com os Estados Unidos, Rússia e Europa. Têm armamento próprio e desenvolvem tecnologia de ponta. Infelizmente, como há muitas guerras, comercializa-se bem e é um produto vendável.

Eu soube que no ano passado o Ministério da Defesa e a Embaixada do Brasil na Nigéria promoveram um fórum sobre defesa estratégica.

Portanto, a minha curiosidade é se esse fórum deu frutos, se deu algum rendimento e, já agora que áreas específicas de colaboração poderão existir entre a Nigéria e o Brasil para fortalecer obviamente a segurança nigeriana e promover as trocas comerciais e tecnológicas entre os dois países.

RV: Muito obrigado pela pergunta. Eu sei que a entrevista já está chegando ao final, por isso vou tentar ser rápido. Basicamente, nós temos desenvolvido fóruns de defesa e segurança nos últimos 4 anos e têm rendido frutos.

Eu tenho de fazer uma ressalva: sou um Diplomata da Paz, acredito na transformação para um mundo melhor. Ao mesmo tempo, sou o diplomata de todo o Brasil. Então, faço aqui um trabalho extremamente profissional de promoção comercial, também na área de defesa.

Como você diz, o Brasil tem um potencial nessa área muito grande, o maior orçamento desse país aqui é na área de defesa. O que fazemos na embaixada é operar em duas linhas simultaneamente: promovemos as nossas indústrias de segurança e de defesa e, ao mesmo tempo, temos desenvolvido uma política externa de concertação internacional para a cooperação pela paz.

Hoje em dia, por exemplo, nós já vendemos vários aviões para cá, conseguimos vender vários armamentos e vários equipamentos da área de defesa. Vários outros estão ainda em processo, porque são muito caros e a transferência de tecnologia é extremamente complexa, pensando também no parque de manutenção desse material todo.

É natural que a coisa ande um pouco mais lenta, mas tem rendido frutos muito bons, sobretudo para o Brasil. Ao mesmo tempo, temos sido muito atentos no desenvolvimento dos países que compõem a zona do Atlântico Sul, para a nossa segurança, envolvendo países em desenvolvimento da costa atlântica do Brasil para a costa atlântica.

Estamos oferecendo cooperação na área de defesa, intercâmbio de militares entre Brasil e Nigéria para operar juntos em vários contextos.

O nosso presidente tem procurado articular-se bem com o presidente da Nigéria nos fóruns internacionais. Ao mesmo tempo que tem tido bons resultados em termos de promoção comercial, oferecemos um outro tipo de cooperação para a prevenção das guerras e mitigação dos efeitos nefastos.

O nosso diferencial em promoção comercial na área de defesa é que o governo brasileiro não aceita que as empresas vendam produtos sem transferência de tecnologia. Essa é a grande diferença; a transferência de tecnologia vai junto com a venda dos produtos e serviços.

 

FLS: Ronaldo, para terminarmos a nossa entrevista, eu gostaria de fazer uma última pergunta que nós fazemos a todos os entrevistados brasileiros. Com base na sua experiência, o que você acha que ainda não foi feito, mas que deveria ter sido feito de uma forma geral, para aumentar o comércio bilateral entre o Brasil e a África?

RV: Eu acho que as coisas estão sendo feitas, mas o que não é algo a mais que tem de ser feito é nós precisarmos de colocar mais força, mais energia. O Ministério da Cultura, a Embratur, precisam estar mais presentes no trabalho de promoção. Já existe, mas é tímido. O problema é esse. O que precisa fazer é isso.

E eu acho que, de repente, pessoas como vocês poderiam juntar esse empresariado brasileiro, fazer uns fóruns para podermos refletir juntos, como se desenvolve as coisas na Nigéria. Existe uma camada da população que é extremamente educada, muito conhecedora, e muito trabalhadora.

Então, acho que o que precisa é tudo que precisamos fazer é não ser tímidos. A promoção comercial no cinema não pode ser hum, ela tem que ser mais robusta. A cooperação técnica tem de ser mais robusta. A nossa presença precisa ser melhor e precisa ser melhorada, você me entende.

E eu tenho de dizer que tem uma instituição brasileira que tem feito um trabalho muito bom, que é de receber missões nigerianas no interior do Brasil. Parece que é passeio, não, mas não é. É uma coisa super séria e super necessária. E essa instituição recebe muito as pessoas. Isso é importante também para que o próprio nigeriano conheça.

Então, a nossa promoção cultural ela tem de ser mais intensa. Precisamos de profissionais aqui trabalhando mais. Hoje em dia, o comercial, o cultural, o educacional, o financeiro e o político recai em cima de dois diplomatas. É muito pouco. Nós precisamos de um Centro Cultural do Instituto Guimarães Rosa mais presente aqui.

Nós temos os “Agudás”, os retornados dos brasileiros que voltaram para a Nigéria, têm casas deles que estão sendo restauradas. Tem toda uma história que precisa ser reconstruída. E hoje, nós temos cooperação com quatro, cinco universidades brasileiras. Eu, particularmente, acho pouco.

Nós precisamos intensificar. Então, se eu posso contribuir com a palavra, a palavra é essa: intensificar o que já se faz. Porque senão, nós nunca vamos sair da superfície. Na superfície, nós não promovemos mudanças. Essa é a minha percepção, limitada dentro desse universo que eu vi. Claro que muito do meu pensamento é errado.

 

FLS: Caro Ronaldo Vieira, resta-me agradecer ter disponibilizado o seu tempo para esta entrevista. Espero sinceramente que voltemos a conversar noutra ocasião e também com mais disponibilidade. Muitíssimo obrigado por ter estado aqui connosco.

RV: Eu é que agradeço, foi um prazer estar aqui.

 

O que achas desta entrevista sobre o intercambio entre o Brasil e a Nigéria? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © DR
Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Ex-atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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