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Segunda-feira, Janeiro 12, 2026

AK-47 Fora? O Ridículo Da Proposta De Mondlane

A política tem momentos de lucidez, momentos de cegueira e momentos que entram directamente para a história como anedota nacional. A proposta de Venâncio Mondlane para alterar a bandeira de Moçambique enquadra-se exactamente nesta última categoria, não apenas pela ingenuidade técnica, mas sobretudo pelo ridículo de sugerir a inclusão de um livro como símbolo quando, ironicamente, o mesmo já se encontra na bandeira desde a primeira versão.

AK-47 Fora? O Ridículo Da Proposta De Mondlane


Venâncio Mondlane reacendeu em Maputo um debate sobre os símbolos nacionais que, embora costume exigir ponderação, sentido histórico e rigor documental, abriu espaço para um espectáculo político inesperado com a sua proposta de revisão pontual da Constituição para remover a AK-47 da bandeira moçambicana.

Um espectáculo marcado por improvisos, interpretações erróneas e uma tentativa evidente de transformar desconhecimento em causa pública. O político defende que a presença da metralhadora transmite valores de guerra, violência e crime, mas esquece que a bandeira moçambicana não é fruto do acaso nem resultado de algum capricho ideológico.

É o produto de um processo histórico concreto, de um país que conquistou a sua independência através de uma luta armada real e documentada. Pior ainda, Mondlane sugere substituir a arma e a enxada por um livro para simbolizar educação e progresso, ignorando o facto elementar de que o livro sempre esteve presente na bandeira, desde a sua primeira versão.

A proposta cai, assim, num vazio conceptual evidente, revelando uma compreensão superficial dos símbolos que pretende alterar.


Ignorância ou Espectáculo Político?


(20251114) AK-47 Fora O Ridículo Da Proposta De Mondlane
Imagem: © 2025 Luísa Nhantumbo

Quando Venâncio Mondlane chegou às portas da Assembleia da República em Maputo para entregar a sua proposta de revisão pontual da Constituição, o ambiente rapidamente adquiriu contornos de novela política. Segundo o próprio, a bandeira necessita de ser “actualizada” porque contém um símbolo militar que transmite valores de guerra e agressividade.

O político afirma ainda que os símbolos nacionais influenciam padrões de comportamento e personalidade, daí a urgência de remover a Kalashnikov e substituir tanto a arma como a enxada por um livro.

O problema é que a sua argumentação parte de uma premissa factual errada que compromete tudo o que se segue: a bandeira moçambicana já contém um livro desde a primeira versão de 1975, colocado precisamente para simbolizar o conhecimento e a educação.

Mondlane está, portanto, a propor a inclusão de um símbolo que já lá existe, o que revela não apenas desconhecimento, mas também falta de rigor no debate público. A proposta desencadeou imediatamente uma reacção popular inesperada, com buzinões de automobilistas, levando ao reforço policial, corte de trânsito e até um blindado da Unidade de Intervenção Rápida.

A teatralização, involuntária ou talvez programada, do momento contrastou com a fragilidade conceptual da iniciativa. Mondlane afirmou ter recolhido cinco mil propostas durante dez meses de auscultação pública e que escolheu a finalista entre vários critérios técnicos.

No entanto, nenhum desses critérios parece ter incluído a simples verificação da composição oficial da bandeira moçambicana. A contradição é evidente: como se pode querer reformular um símbolo cuja estrutura se desconhece?


A Bandeira de Moçambique


(20251114) AK-47 Fora O Ridículo Da Proposta De Mondlane
Imagem: © Domínio Público

Para compreender a dimensão do equívoco na proposta de Mondlane, é essencial revisitar a história da actual bandeira de Moçambique, adoptada em 1983 e baseada na bandeira usada pela FRELIMO após a independência em 1975.

A bandeira moçambicana incorpora cores e símbolos profundamente enraizados na luta anticolonial, representando aspectos estruturais da construção nacional que não foram colocados ao acaso. O verde simboliza a riqueza agrícola do território, elemento central da economia moçambicana. O preto representa o continente africano e a identidade comum partilhada.

O amarelo remete para os recursos minerais que sustentam parte da economia nacional. O branco significa a paz, valor que o país procurou consolidar após a longa guerra civil. O vermelho, por sua vez, recorda o sangue derramado pelos combatentes que lutaram pela libertação do jugo colonial.

Os Ícones


Quanto aos ícones que compõem o escudo central, a simplicidade é apenas aparente. A estrela amarela representa o espírito de solidariedade e o internacionalismo que marcaram os movimentos de libertação africanos. Sobre essa estrela repousa um livro aberto, símbolo que representa a educação, o conhecimento e a formação humana.

A enxada, colocada em diagonal, representa o trabalho agrícola e a dignidade dos trabalhadores do campo. A AK-47, cruzada com a enxada, é o elemento mais polémico, mas também o mais historicamente justificável.

Ao contrário do que Mondlane sugere, não se trata de um capricho belicista, mas sim da representação da luta armada que tornou possível a independência, sublinhando o sacrifício dos combatentes que enfrentaram um dos exércitos coloniais mais poderosos do mundo.

Uma análise honesta revela que a bandeira moçambicana não glorifica a violência, mas celebra conquistas históricas obtidas com esforço real. A presença da AK-47 não é um manifesto de guerra, mas um testemunho de libertação.

Remover este símbolo levaria a ponderar se Moçambique está historicamente preparado para reescrever a narrativa da sua própria independência.


Argumentos Forçados


(20251114) AK-47 Fora O Ridículo Da Proposta De Mondlane
Imagem: © 2025 DR

Mondlane afirma que a presença de uma arma moderna na bandeira transmite uma “personalidade de guerra, bélica e criminosa”, afectando a imagem de Moçambique no contexto mundial. Sustenta ainda que a interpretação psicossocial de um símbolo militarizado pode induzir comportamentos violentos ou perpetuar uma cultura de conflito.

“Se nós somos o único país do mundo que tem uma arma moderna na sua bandeira, a interpretação psicossocial que se faz é que nós temos um modelo de sociedade que passa pela violência”.

Embora tais argumentos possam ter validade teórica noutros contextos, dependem da capacidade de contextualizar um símbolo, algo que Mondlane não faz. A AK-47 na bandeira moçambicana não representa violência gratuita, mas uma dimensão histórica concreta.

A interpretação psicossocial depende tanto do símbolo como da narrativa que o suporta, e a narrativa moçambicana é, indiscutivelmente, uma narrativa de libertação. O político invoca exemplos de países africanos como o Quénia e o Uganda que retiraram elementos bélicos das suas bandeiras.

Comparações Impossíveis


Contudo, essas comparações ignoram a singularidade da luta moçambicana, que não se equipara directamente às trajectórias políticas das nações citadas. Moçambique conquistou a independência por via de uma guerra de libertação com milhares de mortos, um esforço colectivo que se tornou parte inseparável da identidade nacional.

O Quénia não colocou armas modernas na sua bandeira porque nunca as usou, e o Uganda não carregou o peso simbólico de uma guerra prolongada contra um poder colonial inflexível. Comparar contextos tão distintos é um exercício de superficialidade histórica.

Além disso, Mondlane insiste na ideia de que a enxada representa uma agricultura primitiva, “medieval”, que não corresponde à Moçambique moderna. Este argumento é tão frágil quanto o anterior.

A enxada na bandeira não pretende retractar tecnologia agrícola, mas homenagear o trabalhador rural que sustentou o país em momentos de profunda carência. Substituí-la por um livro — que, repita-se, já está na bandeira — tornaria o símbolo desprovido de contexto e conceptualmente incoerente.


Populismo Visual


(20251114) AK-47 Fora O Ridículo Da Proposta De Mondlane
Imagem: © 2025 DR

A proposta de Mondlane revela-se, assim, mais performativa do que substantiva, mais política do que técnica, mais emocional do que racional. O episódio em torno da entrega da proposta expõe um fenómeno cada vez mais comum na política contemporânea: a tentação do populismo visual.

Símbolos nacionais, pela sua natureza emocional, tornam-se terreno fértil para discursos simplistas e manipulação emocional. Mondlane percebeu o valor simbólico da AK-47, mas interpretou-o de forma redutora.

Em vez de contextualizar a luta de libertação, transformou a metralhadora num bode expiatório para problemas sociais que não têm origem em símbolos, mas em políticas públicas reais. A mobilização de cinco mil propostas populares, a selecção de finalistas, o prémio monetário e a entrega formal do dossiê procuram conferir à iniciativa uma aparência de legitimidade democrática.

“Se você tem conhecimento, se você tem um livro, significa que você tem acesso hoje à tecnologia mais adequada para uma agricultura para os tempos modernos”.

No entanto, qualquer processo participativo sério exige uma base factual sólida, o que não se verificou. Mondlane desconhecia — ou fingiu desconhecer — que o livro já fazia parte da bandeira. A omissão é tão significativa que pode ser interpretada como negligência ou como tentativa de criar uma polémica artificial para fins políticos.

O reforço policial e a reacção espontânea da população, com buzinões e curiosidade generalizada, mostram que o tema tocou sensibilidades profundas. Moçambique tem uma história marcada por conflitos armados e mexer nos símbolos nacionais é sempre tocar numa ferida que ainda não cicatrizou totalmente.

Espectáculo Mediático


A tentativa de transformar o debate num espectáculo mediático era previsível, mas não acrescentou rigor ao tema. O argumento final de Mondlane — de que a proposta será analisada no contexto do diálogo nacional inclusivo — sugere que pretende integrar a revisão da bandeira num programa mais vasto de reconciliação.

Mas essa integração só faria sentido se a proposta fosse tecnicamente consistente, historicamente fundamentada e socialmente ponderada. Nenhum desses requisitos se verifica. A bandeira moçambicana não é perfeita, mas é coerente. E qualquer tentativa de a alterar deve partir de quem a conhece e a compreende, não de quem interpreta mal aquilo que está à vista de todos.


Conclusão


A proposta de Venâncio Mondlane expõe um problema mais profundo do que uma simples divergência sobre símbolos nacionais. Revela a facilidade com que debates sérios podem ser conduzidos a partir de premissas erradas. Sugerir a inclusão de um livro na bandeira quando o livro está lá desde o início é um erro factual que compromete a credibilidade de qualquer iniciativa.

A luta armada de Moçambique é parte inquestionável da história do país e a AK-47 não é um apelo à violência, mas um testemunho dos tempos difíceis que permitiram a construção de um Estado soberano. Alterar a bandeira é possível, legítimo e discutível, mas somente através de argumentos sólidos, rigor histórico e conhecimento real dos seus símbolos.

Quando a política se transforma em espectáculos, o risco é substituir entendimento por ruído e reflexão por superficialidade. A bandeira moçambicana merece mais do que isso. Uma polémica construída sobre um pressuposto errado levanta sempre uma questão óbvia: como pode alguém propor mudar um símbolo cujo significado desconhece completamente?

 


O que pensas desta proposta ridícula do Mondlane? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.


 

Imagem: © 2025 Venâncio Mondlane 
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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