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ToggleA Arte do Lixo: Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepara-te para conhecer Johnson Zuze, natural do Zimbabwe, um artista plástico cuja obra nasce do caos urbano e se ergue como denúncia, poesia e reconstrução.
Num mundo em que o desperdício é sinónimo de esquecimento, Zuze recupera o que sobra da cidade, cabos, garrafas partidas, plásticos queimados, fios eléctricos e aparelhos obsoletos, para dar forma a um discurso visual que desafia a indiferença.
Este é o nono artigo da nova série de 17, desta vez dedicada a criadores visionários que não só resgatam materiais esquecidos, como também reinventam a forma de pensar sobre a arte, a sustentabilidade e o futuro do planeta, onde cada peça é um testemunho da capacidade humana de criar beleza a partir da destruição, um exercício de memória e um acto de fé na paz.
Se procuras inspiração e um olhar profundo sobre como o lixo da guerra se transforma em arte e consciência, não percas esta viagem. Vais conhecer artistas que desafiam os limites do possível e elevam África a um palco vibrante da arte contemporânea, onde a matéria-prima surge do inesperado: o lixo.
Johnson Zuze

Nascido em 1985 em Chitungwiza, uma cidade-satélite de Harare marcada pela pobreza e pelo desemprego, Johnson Zuze cresceu entre barracas e feiras. Foi nesse ambiente de exclusão que descobriu a matéria-prima da sua imaginação: o lixo. Para muitos, era um símbolo de decadência; para ele, um vocabulário material com o qual podia reescrever o mundo.
Sem formação académica formal nas belas-artes, Zuze desenvolveu a sua arte através da observação e do improviso. Ainda jovem, frequentou o centro Tengenenge Sculpture Community, um espaço lendário do Zimbabwe que acolheu inúmeros artistas autodidactas e onde o ferro, a pedra e o arame conviviam com a criatividade.
Aí, compreendeu que a arte podia ser uma forma de resistência e que criar a partir do lixo era, em si, um gesto político. Hoje, Johnson Zuze é considerado um dos nomes mais provocadores da arte contemporânea do Zimbabwe.
As suas esculturas e instalações já foram expostas na National Gallery of Zimbabwe, em Harare, e em diversas mostras internacionais, incluindo a Bienal de Joanesburgo e exposições em Genebra, Pequim e Londres. Cada peça sua é uma composição de restos que se transformam em personagens, narrativas e ecos de uma sociedade que ainda luta com as marcas da desigualdade e da corrupção.
Arte que Renasce do Lixo

O trabalho de Johnson Zuze nasce literalmente do lixo, mas transcende a materialidade do refugo. Ele percorre as lixeiras e depósitos de Harare, recolhendo o que o consumismo urbano abandona: fios eléctricos, garrafas, teclas partidas de computadores, brinquedos partidos, pedaços de metal e fragmentos de plástico derretido.
No seu atelier, o que parecia inútil ganha nova estrutura, corpo e sentido. As suas esculturas e instalações apresentam-se como composições densas, por vezes caóticas, outras vezes quase orgânicas. Há nelas uma energia vibrante que lembra circuitos eléctricos ou teias urbanas, como se a cidade de Harare, com toda a sua desordem e resiliência, tivesse sido condensada num único objecto.
O artista constrói figuras humanas, totens, rostos de ferro e assemblages abstractas que evocam a fragilidade da modernidade africana e a persistência da esperança. Uma das suas séries mais conhecidas é “Urban Totems”, em que transforma cabos e sucata electrónica em ídolos contemporâneos, sugerindo um regresso dos deuses antigos disfarçados em fragmentos de plástico e metal.
Noutras obras, Zuze cria personagens híbridas, meio máquina, meio homem, representando a desumanização e a alienação provocadas pelo consumo e pela pobreza. O processo criativo é lento e ritualístico. O artista lava, corta, dobra e solda os materiais com precisão quase cirúrgica.
Cada fio, cada pedaço de vidro, cada rolha tem o seu lugar num equilíbrio subtil entre a ruína e a harmonia. Mais do que estética, a obra de Johnson Zuze possui uma função crítica: denunciar como as sociedades africanas, e em particular o Zimbabwe, foram convertidas em depósitos — de lixo, de promessas e de sonhos interrompidos.
O Simbolismo de Johnson Zuze

O uso de lixo nas obras de Johnson Zuze é uma metáfora visual de rara força.
O lixo é o testemunho mais cru daquilo que uma sociedade consome e rejeita, funcionando como um arquivo involuntário da história contemporânea do Zimbabwe, onde se acumulam as ruínas do sonho pós-independência, o colapso económico, o desemprego e a desigualdade. Ao recolher e reorganizar esses fragmentos, Zuze converte o caos em ordem e a ruína em memória.
As suas esculturas e instalações funcionam como arqueologias do presente, revelando o que preferimos esquecer: os vestígios de um país que, ao longo de décadas, lutou contra ditaduras, sanções e crises. Cada objecto, uma garrafa rachada, um brinquedo partido, um fio de cobre, torna-se um símbolo da persistência e da capacidade de reconfiguração do povo do Zimbabwe.
Há também uma dimensão espiritual no seu trabalho. Zuze fala muitas vezes do “renascimento da matéria”, como se o acto de transformar o lixo em arte fosse um ritual de purificação. Ele devolve sentido ao que foi abandonado, restituindo humanidade ao que parecia morto.
O ferro oxidado, o plástico queimado e o vidro estilhaçado tornam-se corpos vivos, vibrantes, que respiram crítica, memória e ironia.
Percurso e Impacto Artístico

Johnson Zuze cresceu no bairro de Chitungwiza, onde a precariedade das condições de vida contrastava com um fervilhar criativo. Ali, entre feiras e oficinas, aprendeu que o desperdício podia ser uma matéria poética e política. Ainda jovem, começou a recolher objectos abandonados, inicialmente por curiosidade, depois como um acto consciente.
O seu primeiro “atelier” foi um pequeno espaço improvisado num quintal partilhado, onde amontoava cabos eléctricos, ferros retorcidos, embalagens e brinquedos partidos. Nos anos 2000, aproximou-se da Tengenenge Sculpture Community, a histórica comunidade artística que serviu de refúgio a escultores marginalizados.
A convivência com criadores experientes proporcionou-lhe confiança e disciplina. Aprendeu técnicas de corte, montagem e soldadura, mas, acima de tudo, aprendeu a ver — a reconhecer forma, textura e narrativa onde outros apenas viam lixo.
A partir de 2005, começou a participar em exposições colectivas em Harare, nomeadamente na National Gallery of Zimbabwe, onde a sua abordagem diferenciada chamou a atenção pela fusão entre crítica social e estética urbana. Em 2012, apresentou a sua primeira exposição individual, Kingdom of Trash, que consolidou o seu nome no panorama artístico do país.
Desde então, as suas obras têm viajado pelo mundo, participando em feiras e mostras em Genebra, Joanesburgo, Londres, Nova Iorque, Xangai e Pequim. Apesar do reconhecimento internacional, Zuze mantém-se ligado à sua comunidade. Continua a viver e trabalhar em Chitungwiza, dedicando parte do seu tempo a projectos educativos locais, ensinando jovens a transformar o lixo em arte.
Este gesto pedagógico revela a sua convicção de que a criatividade é uma forma de sobrevivência e de resistência cultural. Hoje, com mais de duas décadas de percurso, o artista é visto como um dos principais representantes da nova geração de criadores africanos comprometidos com a sustentabilidade e a reinvenção da matéria.
Mensagens Sociais e Ambientais

A arte de Johnson Zuze é inseparável da realidade do Zimbabwe — um país onde as tensões políticas, o colapso económico e o desemprego estrutural moldam o quotidiano.
O artista transforma esse contexto de adversidade em matéria simbólica. As suas esculturas, com figuras humanas construídas a partir de fragmentos como tubos, latas, fios e restos de computadores, dão forma ao corpo colectivo da nação — um corpo feito de feridas, de lixo e de esperança. Zuze denuncia a poluição urbana e a ausência de políticas ambientais eficazes.
O lixo acumulado nas ruas de Harare é tanto um problema físico como simbólico, representando a negligência das autoridades e o fracasso de um sistema que continua a excluir os mais pobres. Contudo, longe de se limitar à denúncia, Zuze propõe uma resposta estética: transformar o desperdício em beleza, a ruína em criação.
Em entrevistas, o artista explica que a sua prática é uma forma de activismo silencioso. Através da arte, ele questiona o que significa ser cidadão num país onde a história recente foi marcada pela repressão, censura e desilusão pós-independência.
As suas figuras, muitas vezes com expressões tensas ou rostos desfigurados, são espelhos da sociedade — mostram a perda de humanidade num contexto de crise, mas também a persistência de um povo que insiste em reconstruir-se.
Zuze é igualmente um defensor da reciclagem como estratégia económica e ambiental, propondo um novo modelo de desenvolvimento baseado na reutilização, na criatividade comunitária e no respeito pela matéria.
Identidade Africana

A obra de Johnson Zuze transcende a categoria de “arte reciclada”, inscrevendo-se num discurso mais vasto sobre a identidade africana contemporânea, as consequências do colonialismo e o papel da arte como instrumento de transformação social.
Enquanto muitos associam o lixo à degradação, Zuze vê nele um arquivo vivo — um testemunho de como as sociedades modernas se constroem e se destroem. As suas esculturas, cheias de fios entrelaçados e fragmentos coloridos, lembram cidades em colapso, mas também constelações em formação. Há nelas uma energia que transcende o material: a energia da reinvenção.
O artista reconfigura o conceito de “resto” — o que sobra de um objecto, de um país, de uma história — e transforma-o em símbolo de resistência. Além disso, Zuze devolve dignidade a uma geração de artistas africanos que lutam contra a marginalização internacional. O seu trabalho rompe estereótipos que insistem em definir a arte africana apenas pelo exotismo ou pela tradição.
Ele representa um continente que pensa o futuro, critica o presente e se recria a partir das suas próprias ruínas. Para o artista, criar com lixo é um acto de liberdade, de recusar o papel de vítima e de afirmar o direito de reescrever o mundo com as próprias mãos. É também, segundo as suas palavras, “um modo de falar com quem já não escuta”.
Conclusão
Johnson Zuze faz parte de uma geração de criadores africanos que transformam o lixo em manifesto. A sua arte é, ao mesmo tempo, denúncia e celebração: denúncia de um sistema que produz exclusão e destruição; celebração da capacidade humana de reconstruir sentido a partir do nada.
O seu percurso, que começou entre as lixeiras de Chitungwiza e hoje se estende a galerias internacionais, demonstra que o talento pode brotar nos lugares mais improváveis e que a criatividade continua a ser a maior riqueza de África. Num mundo dominado pelo consumo rápido e pela obsolescência programada, a arte de Zuze recorda-nos que tudo, até o que foi rejeitado, pode voltar a ter vida.
Os seus totens de plástico, as suas figuras híbridas e as suas instalações de ferro e vidro não são apenas esculturas: são retractos de um tempo e de um continente que procura regenerar-se. A mensagem final é clara e poderosa: o lixo é o espelho da humanidade, e na sua transformação reside a possibilidade de redenção.
Johnson Zuze mostra-nos que o verdadeiro luxo da arte está na capacidade de ver o invisível e de reconstruir, com as mãos e com a consciência, o que a sociedade escolheu esquecer.
O que achas do percurso de Johnson Zuze? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
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Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
