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Domingo, Janeiro 11, 2026

A Arte do Lixo: Johnson Zuze, Redefinir O Caos

E se o lixo pudesse falar que histórias nos contaria? Talvez nos falasse de histórias de abandono e de desperdício além de consumo desenfreado que devora recursos sem pensar no amanhã, ou talvez nos lembrasse que cada objecto carrega uma memória, um uso, uma vida anterior.Em África há artistas que ousam dar-lhe outra voz: a voz da beleza, da memória e da resistência cultural. São criadores que não vêem lixo, mas sim matéria-prima para a imaginação, símbolos de resistência e possibilidades infinitas. No lixo que a sociedade descarta, eles descobrem matéria-prima para reinventar a vida e inspirar comunidades inteiras.

A Arte do Lixo: Johnson Zuze, Redefinir O Caos


Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepara-te para conhecer Johnson Zuze, natural do Zimbabwe, um artista plástico cuja obra nasce do caos urbano e se ergue como denúncia, poesia e reconstrução.

Num mundo em que o desperdício é sinónimo de esquecimento, Zuze recupera o que sobra da cidade, cabos, garrafas partidas, plásticos queimados, fios eléctricos e aparelhos obsoletos, para dar forma a um discurso visual que desafia a indiferença.

Este é o nono artigo da nova série de 17, desta vez dedicada a criadores visionários que não só resgatam materiais esquecidos, como também reinventam a forma de pensar sobre a arte, a sustentabilidade e o futuro do planeta, onde cada peça é um testemunho da capacidade humana de criar beleza a partir da destruição, um exercício de memória e um acto de fé na paz.

Se procuras inspiração e um olhar profundo sobre como o lixo da guerra se transforma em arte e consciência, não percas esta viagem. Vais conhecer artistas que desafiam os limites do possível e elevam África a um palco vibrante da arte contemporânea, onde a matéria-prima surge do inesperado: o lixo.


Johnson Zuze


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2024 Tafara Mugwara / Xinhua

Nascido em 1985 em Chitungwiza, uma cidade-satélite de Harare marcada pela pobreza e pelo desemprego, Johnson Zuze cresceu entre barracas e feiras. Foi nesse ambiente de exclusão que descobriu a matéria-prima da sua imaginação: o lixo. Para muitos, era um símbolo de decadência; para ele, um vocabulário material com o qual podia reescrever o mundo.

Sem formação académica formal nas belas-artes, Zuze desenvolveu a sua arte através da observação e do improviso. Ainda jovem, frequentou o centro Tengenenge Sculpture Community, um espaço lendário do Zimbabwe que acolheu inúmeros artistas autodidactas e onde o ferro, a pedra e o arame conviviam com a criatividade.

Aí, compreendeu que a arte podia ser uma forma de resistência e que criar a partir do lixo era, em si, um gesto político. Hoje, Johnson Zuze é considerado um dos nomes mais provocadores da arte contemporânea do Zimbabwe.

As suas esculturas e instalações já foram expostas na National Gallery of Zimbabwe, em Harare, e em diversas mostras internacionais, incluindo a Bienal de Joanesburgo e exposições em Genebra, Pequim e Londres. Cada peça sua é uma composição de restos que se transformam em personagens, narrativas e ecos de uma sociedade que ainda luta com as marcas da desigualdade e da corrupção.


Arte que Renasce do Lixo


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2024 Cortesia de Johnson Zuze

O trabalho de Johnson Zuze nasce literalmente do lixo, mas transcende a materialidade do refugo. Ele percorre as lixeiras e depósitos de Harare, recolhendo o que o consumismo urbano abandona: fios eléctricos, garrafas, teclas partidas de computadores, brinquedos partidos, pedaços de metal e fragmentos de plástico derretido.

No seu atelier, o que parecia inútil ganha nova estrutura, corpo e sentido. As suas esculturas e instalações apresentam-se como composições densas, por vezes caóticas, outras vezes quase orgânicas. Há nelas uma energia vibrante que lembra circuitos eléctricos ou teias urbanas, como se a cidade de Harare, com toda a sua desordem e resiliência, tivesse sido condensada num único objecto.

O artista constrói figuras humanas, totens, rostos de ferro e assemblages abstractas que evocam a fragilidade da modernidade africana e a persistência da esperança. Uma das suas séries mais conhecidas é “Urban Totems”, em que transforma cabos e sucata electrónica em ídolos contemporâneos, sugerindo um regresso dos deuses antigos disfarçados em fragmentos de plástico e metal.

Noutras obras, Zuze cria personagens híbridas, meio máquina, meio homem, representando a desumanização e a alienação provocadas pelo consumo e pela pobreza. O processo criativo é lento e ritualístico. O artista lava, corta, dobra e solda os materiais com precisão quase cirúrgica.

Cada fio, cada pedaço de vidro, cada rolha tem o seu lugar num equilíbrio subtil entre a ruína e a harmonia. Mais do que estética, a obra de Johnson Zuze possui uma função crítica: denunciar como as sociedades africanas, e em particular o Zimbabwe, foram convertidas em depósitos — de lixo, de promessas e de sonhos interrompidos.


O Simbolismo de Johnson Zuze


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos

O uso de lixo nas obras de Johnson Zuze é uma metáfora visual de rara força.

O lixo é o testemunho mais cru daquilo que uma sociedade consome e rejeita, funcionando como um arquivo involuntário da história contemporânea do Zimbabwe, onde se acumulam as ruínas do sonho pós-independência, o colapso económico, o desemprego e a desigualdade. Ao recolher e reorganizar esses fragmentos, Zuze converte o caos em ordem e a ruína em memória.

As suas esculturas e instalações funcionam como arqueologias do presente, revelando o que preferimos esquecer: os vestígios de um país que, ao longo de décadas, lutou contra ditaduras, sanções e crises. Cada objecto, uma garrafa rachada, um brinquedo partido, um fio de cobre, torna-se um símbolo da persistência e da capacidade de reconfiguração do povo do Zimbabwe.

Há também uma dimensão espiritual no seu trabalho. Zuze fala muitas vezes do “renascimento da matéria”, como se o acto de transformar o lixo em arte fosse um ritual de purificação. Ele devolve sentido ao que foi abandonado, restituindo humanidade ao que parecia morto.

O ferro oxidado, o plástico queimado e o vidro estilhaçado tornam-se corpos vivos, vibrantes, que respiram crítica, memória e ironia.


Percurso e Impacto Artístico


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos

Johnson Zuze cresceu no bairro de Chitungwiza, onde a precariedade das condições de vida contrastava com um fervilhar criativo. Ali, entre feiras e oficinas, aprendeu que o desperdício podia ser uma matéria poética e política. Ainda jovem, começou a recolher objectos abandonados, inicialmente por curiosidade, depois como um acto consciente.

O seu primeiro “atelier” foi um pequeno espaço improvisado num quintal partilhado, onde amontoava cabos eléctricos, ferros retorcidos, embalagens e brinquedos partidos. Nos anos 2000, aproximou-se da Tengenenge Sculpture Community, a histórica comunidade artística que serviu de refúgio a escultores marginalizados.

A convivência com criadores experientes proporcionou-lhe confiança e disciplina. Aprendeu técnicas de corte, montagem e soldadura, mas, acima de tudo, aprendeu a ver — a reconhecer forma, textura e narrativa onde outros apenas viam lixo.

A partir de 2005, começou a participar em exposições colectivas em Harare, nomeadamente na National Gallery of Zimbabwe, onde a sua abordagem diferenciada chamou a atenção pela fusão entre crítica social e estética urbana. Em 2012, apresentou a sua primeira exposição individual, Kingdom of Trash, que consolidou o seu nome no panorama artístico do país.

Desde então, as suas obras têm viajado pelo mundo, participando em feiras e mostras em Genebra, Joanesburgo, Londres, Nova Iorque, Xangai e Pequim. Apesar do reconhecimento internacional, Zuze mantém-se ligado à sua comunidade. Continua a viver e trabalhar em Chitungwiza, dedicando parte do seu tempo a projectos educativos locais, ensinando jovens a transformar o lixo em arte.

Este gesto pedagógico revela a sua convicção de que a criatividade é uma forma de sobrevivência e de resistência cultural. Hoje, com mais de duas décadas de percurso, o artista é visto como um dos principais representantes da nova geração de criadores africanos comprometidos com a sustentabilidade e a reinvenção da matéria.


Mensagens Sociais e Ambientais


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos

A arte de Johnson Zuze é inseparável da realidade do Zimbabwe — um país onde as tensões políticas, o colapso económico e o desemprego estrutural moldam o quotidiano.

O artista transforma esse contexto de adversidade em matéria simbólica. As suas esculturas, com figuras humanas construídas a partir de fragmentos como tubos, latas, fios e restos de computadores, dão forma ao corpo colectivo da nação — um corpo feito de feridas, de lixo e de esperança. Zuze denuncia a poluição urbana e a ausência de políticas ambientais eficazes.

O lixo acumulado nas ruas de Harare é tanto um problema físico como simbólico, representando a negligência das autoridades e o fracasso de um sistema que continua a excluir os mais pobres. Contudo, longe de se limitar à denúncia, Zuze propõe uma resposta estética: transformar o desperdício em beleza, a ruína em criação.

Em entrevistas, o artista explica que a sua prática é uma forma de activismo silencioso. Através da arte, ele questiona o que significa ser cidadão num país onde a história recente foi marcada pela repressão, censura e desilusão pós-independência.

As suas figuras, muitas vezes com expressões tensas ou rostos desfigurados, são espelhos da sociedade — mostram a perda de humanidade num contexto de crise, mas também a persistência de um povo que insiste em reconstruir-se.

Zuze é igualmente um defensor da reciclagem como estratégia económica e ambiental, propondo um novo modelo de desenvolvimento baseado na reutilização, na criatividade comunitária e no respeito pela matéria.


Identidade Africana


(20251108) A Arte do Lixo Johnson Zuze, Redefinir O Caos
Imagem: © 2024 Tafara Mugwara / Xinhua

A obra de Johnson Zuze transcende a categoria de “arte reciclada”, inscrevendo-se num discurso mais vasto sobre a identidade africana contemporânea, as consequências do colonialismo e o papel da arte como instrumento de transformação social.

Enquanto muitos associam o lixo à degradação, Zuze vê nele um arquivo vivo — um testemunho de como as sociedades modernas se constroem e se destroem. As suas esculturas, cheias de fios entrelaçados e fragmentos coloridos, lembram cidades em colapso, mas também constelações em formação. Há nelas uma energia que transcende o material: a energia da reinvenção.

O artista reconfigura o conceito de “resto” — o que sobra de um objecto, de um país, de uma história — e transforma-o em símbolo de resistência. Além disso, Zuze devolve dignidade a uma geração de artistas africanos que lutam contra a marginalização internacional. O seu trabalho rompe estereótipos que insistem em definir a arte africana apenas pelo exotismo ou pela tradição.

Ele representa um continente que pensa o futuro, critica o presente e se recria a partir das suas próprias ruínas. Para o artista, criar com lixo é um acto de liberdade, de recusar o papel de vítima e de afirmar o direito de reescrever o mundo com as próprias mãos. É também, segundo as suas palavras, “um modo de falar com quem já não escuta”.


Conclusão


Johnson Zuze faz parte de uma geração de criadores africanos que transformam o lixo em manifesto. A sua arte é, ao mesmo tempo, denúncia e celebração: denúncia de um sistema que produz exclusão e destruição; celebração da capacidade humana de reconstruir sentido a partir do nada.

O seu percurso, que começou entre as lixeiras de Chitungwiza e hoje se estende a galerias internacionais, demonstra que o talento pode brotar nos lugares mais improváveis e que a criatividade continua a ser a maior riqueza de África. Num mundo dominado pelo consumo rápido e pela obsolescência programada, a arte de Zuze recorda-nos que tudo, até o que foi rejeitado, pode voltar a ter vida.

Os seus totens de plástico, as suas figuras híbridas e as suas instalações de ferro e vidro não são apenas esculturas: são retractos de um tempo e de um continente que procura regenerar-se. A mensagem final é clara e poderosa: o lixo é o espelho da humanidade, e na sua transformação reside a possibilidade de redenção.

Johnson Zuze mostra-nos que o verdadeiro luxo da arte está na capacidade de ver o invisível e de reconstruir, com as mãos e com a consciência, o que a sociedade escolheu esquecer.

 


O que achas do percurso de Johnson Zuze? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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