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Sexta-feira, Abril 4, 2025

Luta e Resistência das Mulheres na Política

Candidatar-se grávida? Impensável. Dar ordens a homens? Era só o que faltava. Preconceito cultural, Violência, Sexismo, Incompreensão, são apenas alguns dos problemas que as mulheres encontram quando se envolvem na política em África, mas… isso não as faz desistir.

Luta e Resistência das Mulheres na Política


A resistência à entrada das mulheres na política africana é feroz. A representação feminina nos parlamentos africanos cresceu apenas 1% entre 2021 e 2024. A paridade de género, a este ritmo, só será alcançada em 2100. As mulheres enfrentam violência, preconceito cultural e barreiras sistémicas para ocuparem espaços de poder, em sistemas políticos tendencialmente machistas.

A presença das mulheres na política africana avança a passos lentos. Segundo dados do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA), a representação feminina nos parlamentos do continente subiu de 25% para 26% em três anos.

Em Novembro de 2024, mais de 50 líderes políticas da África Oriental e Austral reuniram-se em Joanesburgo para o diálogo da Iniciativa WYDE. Organizado pela ONU Mulheres e IDEA, o evento destacou histórias como a de Lioness Sibanda, Secretária-Geral em Eswatini, que luta contra as normas culturais que relegam as mulheres a papéis secundários.

A violência política, física e digital, surge como outro obstáculo crítico. Até 66% das mulheres eleitas sofrem alguma forma de violência, mas menos de 20% das mulheres a denunciam.


Progresso Lento


O progresso na representação das mulheres na política mundial tem sido lento. A representação feminina nos parlamentos africanos aumentou apenas um ponto percentual entre 2021 e 2024, passando de 25% para 26%.

“A este ritmo, África só alcançará a paridade de género nos seus parlamentos no ano de 2100.”

“Mas isto pressupõe uma progressão linear, o que é improvável, visto que, após os países atingirem a marca dos 30%, o avanço tende a desacelerar.”

Afirmou Gram Mutenga, Chefe Regional de Programas do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Internacional IDEA). Em Novembro de 2024, a ONU Mulheres e o Internacional IDEA, com apoio da União Europeia, organizaram o diálogo regional da Iniciativa de Liderança Feminina WYDE em Joanesburgo, África do Sul.

O programa reuniu mais de 50 mulheres líderes políticas da África Oriental e Austral para três dias de troca de ideias, partilha de lições e melhores práticas e networking.


Cultura do Preconceito


Uma das participantes, Lioness Sibanda, ocupa o proeminente cargo de Secretária-Geral de um partido político em Eswatini. Ela luta incansavelmente por reformas democráticas enquanto orienta a próxima geração de líderes femininas:

“Eswatini tem práticas profundamente enraizadas na cultura e na religião que ainda sustentam a crença de que uma mulher não pode estar na linha da frente ou comandar homens e dizer-lhes o que fazer.”

“Tenho trabalhado muito na luta pelos direitos das mulheres em Eswatini, mas, por ser mulher, não sou levada a sério.”

Sibanda acrescentou que o seu trabalho como política é reconhecido principalmente por líderes de organizações que defendem reformas democráticas, sendo ainda difícil convencer os eleitores dos benefícios de eleger mulheres para cargos públicos.

Outro desafio enfrentado pelas mulheres líderes políticas é a violência, incluindo a violência de género facilitada pela tecnologia. Sibanda conhece bem esta realidade, revelando que precisa de estar constantemente alerta a ameaças à sua vida.

Dados obtidos pela ONU Mulheres, baseados em cinco inquéritos nacionais na Ásia e Estados Árabes, mostram que até dois terços das mulheres eleitas para governos locais sofrem violência, mas menos de 20% apresentam queixas formais. Reforçando esta questão, Hazel Gooding, Representante Adjunta da ONU Mulheres para o Escritório Multi-País da África do Sul, declarou:

“Sabemos que a violência contra as mulheres na política enfraquece a democracia ao silenciar vozes e dissuadir futuras líderes.”

“É nosso dever colectivo protegê-las, por exemplo, através da criação e aplicação de leis, apoio às vítimas, protecção e acesso à justiça, formação de agentes policiais e promoção de causas, para mudar mentalidades e normas sociais.”


Violência e Exclusão


Betty Milgo, Secretária-Geral para Pessoas com Deficiências no partido do poder no Quénia, é também professora e defensora dos direitos das pessoas com deficiência. O seu percurso na política não tem sido fácil:

“A minha comunidade é patriarcal e muitos não compreendem os tipos de deficiência que existem, incluindo o albinismo”, explica.

Milgo sublinhou que as mulheres políticas necessitam urgentemente de maior visibilidade e apoio institucional para promover a sua participação na política.

Para mulheres como Motamma Horatius, uma política do Botswana que também participou no diálogo, o progresso lento tem um custo elevado. Durante cinco anos, ela chefiou uma das alas de Itumeleng como Conselheira. Recorda um dos maiores desafios da sua carreira: candidatar-se ao cargo estando grávida.

“Tive de usar vestidos extras largos para esconder a gravidez durante a campanha, evitando ser vista como um ponto fraco.”

“Culturalmente, dizem que uma mulher grávida não consegue gerir. Ganhei as eleições primárias sem que soubessem que estava grávida”, relata Horatius.

Imediatamente após vencer as eleições, deu à luz, mas tirou apenas duas semanas de licença, enquanto surgiam artigos na imprensa a questionarem a sua ausência.

“Tive um parto por cesariana e, dias depois, já havia alvoroço”.

“’Onde está? Abandonou os eleitores. Não consegue servir,’ eram alguns dos principais títulos das notícias”.

“Duas semanas após o parto, estava novamente em campanha, desta vez para as eleições gerais”, recorda

Estas experiências revelam as inúmeras barreiras sistémicas únicas enfrentadas por mulheres políticas e candidatas. Estes desafios estão enraizados em normas sociais e culturais profundamente instituídas que ditam expectativas específicas sobre o comportamento feminino e impõem restrições ao que podem ou não alcançar.


Estratégias Colectivas


Quando questionadas sobre o que as mulheres líderes políticas desejam e necessitam, Horatius, Milgo e Sibanda partilharam perspectivas semelhantes. Sublinharam a importância de sistemas robustos de apoio à saúde mental para lidar com as pressões únicas da vida pública, particularmente a violência generalizada contra mulheres na política.

Igualmente crucial é a necessidade de programas abrangentes de formação e educação para preparar as mulheres com habilidades e confiança para excelência em cargos de liderança. Com base nestas reflexões, as participantes do Diálogo Regional identificaram estratégias adicionais para promover a participação de mulheres e jovens na liderança e tomada de decisões.

Estas incluem: apoio financeiro e promoção da independência económica para candidatos mulheres e jovens; contestação de normas sociais restritivas através de campanhas educativas e de promoção de causas; cobertura mediática equilibrada; e ampliação da visibilidade de modelos femininos.

Finalmente, o reforço de capacidades via formação e orientação, como fornecido pela Iniciativa de Liderança Feminina WYDE, foi reconhecido como essencial, juntamente com o combate a desafios interseccionais e à violência contra mulheres na política. Só através da abordagem colectiva destas barreiras poderá o panorama político evoluir para preparar e valorizar as líderes mulheres.


WYDE | Liderança Feminina


Financiada pela União Europeia, a iniciativa do Envolvimento Democrático para Mulheres e Jovens (WYDE), é um esforço mundial colaborativo que visa promover a participação plena e efectiva das mulheres na política e tomada de decisão em todos os níveis, especialmente as mais marginalizadas.

A iniciativa é implementada pela ONU Mulheres, Internacional IDEA, União Interparlamentar (UIP) e Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU), impulsionada pela União Europeia que procura fortalecer e reforçar os direitos e a participação na vida pública e política de mulheres e jovens, reconhecidos como actores-chave do desenvolvimento e mudança.


Conclusão


As estratégias para romper barreiras passam por apoio financeiro, formação robusta e visibilidade mediática equilibrada. As participantes do diálogo WYDE defendem a criação de redes de orientação para jovens líderes e o combate interseccional à violência de género.

A Iniciativa WYDE, financiada pela UE, emerge como uma luz de esperança para acelerar a participação feminina. Implementada por organizações como a ONU Mulheres e a União Interparlamentar, visa “preparar e valorizar as líderes do futuro”. O caminho é longo, mas, para o fazer, é sempre preciso dar o primeiro passo.

 


Também achas que as Mulheres não devem entrar para a política? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2017 Ryan Brown / UN Women
Francisco Lopes-Santos

Atleta olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

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Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
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