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Segunda-feira, Janeiro 12, 2026

Não, Não É Piada Hoje É Dia Mundial Da Sanita

“Dia Mundial da Sanita? O que vai este povo inventar mais?” A primeira reacção é o riso. Mas o assunto é tudo menos uma brincadeira: um terço da população mundial não tem acesso a saneamento básico. Num mundo que discute guerras, cimeiras e transições tecnológicas, continua a existir uma verdade desconfortável que muitos preferem ignorar: milhões de pessoas ainda vivem sem uma simples sanita. E enquanto uns discutem avanços digitais, outros lutam para garantir aquilo que para muitos é um acto rotineiro — utilizar uma casa de banho limpa, segura e privada.

Não, Não É Piada Hoje É Dia Mundial Da Sanita


O Dia Mundial da Sanita, é celebrado a 19 de Novembro e foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas em 2013. É um dia que é muito mais do que uma efeméride simbólica. Representa um alerta global sobre uma crise sanitária que permanece entre as mais graves e silenciosas do século XXI.

Hoje, mais de 3,4 mil milhões de pessoas continuam sem acesso a saneamento básico e 354 milhões “aliviam-se” a céu aberto, expondo comunidades inteiras a doenças evitáveis e a riscos de violência. O saneamento básico não é um luxo, não é uma comodidade e não é uma simples infra-estrutura doméstica — é um direito humano, um requisito essencial de saúde pública e um pilar fundamental do desenvolvimento sustentável.

Esta problemática está intrinsecamente ligada à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, onde o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) visa “Garantir a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos”.

Este objectivo não se foca apenas no acesso a instalações sanitárias, foca-se também na qualidade da água, na gestão de resíduos e na protecção de ecossistemas relacionados com a água.

Atingir este objectivo até 2030 requer uma coordenação mundial sem precedentes, envolvendo não só os governos e as organizações internacionais, como também comunidades locais e o sector privado, para inovar em soluções que sejam ao mesmo tempo eficazes, sustentáveis e culturalmente apropriadas.

Apesar do progresso registado durante a última década, em que 1,2 mil milhões de pessoas obtiveram acesso a instalações sanitárias seguras, a desigualdade permanece profunda.

Os mais vulneráveis — sobretudo mulheres, raparigas e famílias pobres — continuam a carregar o peso desproporcional desta realidade, enfrentando insegurança física, doenças recorrentes e limitações diárias que perpetuam ciclos de pobreza e marginalização.

As alterações climáticas, por sua vez, multiplicam as ameaças: inundações destroem sistemas frágeis, secas comprometem o abastecimento de água e a subida do nível do mar afecta comunidades costeiras que já viviam no limite.

A data visa recordar ao mundo que saneamento é saúde, protecção ambiental, dignidade e futuro. Mas também evidencia que sem sistemas robustos, investimentos consistentes e políticas assentes em justiça social, o objectivo de garantir saneamento seguro para todos até 2030 — estabelecido pelo ODS6 — permanece distante.

O Dia Mundial da Sanita é, portanto, um espelho que revela não apenas uma falha técnica, mas um dilema moral: como aceitar que, em pleno século XXI, um direito tão básico continue inacessível a milhões?


A Génese deste Dia


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Imagem © 2015 Marco Duarte

A história do Dia Mundial da Sanita remonta a 2001, quando Jack Sim, fundador da Organização Mundial da Sanita, procurou chamar a atenção para uma problemática negligenciada: a falta de saneamento básico em grande parte do mundo.

Em 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas oficializou a data através da Resolução 67/291, reconhecendo que o acesso universal ao saneamento básico é indispensável para a saúde, a educação, a igualdade de género e o desenvolvimento sustentável. O mais alarmante é que, apesar da crescente consciencialização, os números continuam a revelar um panorama profundamente desigual e preocupante.

A ONU alerta que as infra-estruturas existentes estão envelhecidas, sobrecarregadas e, em muitos casos, incapazes de responder ao aumento populacional e às pressões ambientais.

Fenómenos extremos, como secas prolongadas, inundações devastadoras e o degelo acelerado, afectam directamente a funcionalidade dos sistemas de saneamento, provocando contaminação de solos e fontes de água.

O resultado é claro: doenças transmitidas pela água continuam entre as principais causas de morte infantil mundial. António Guterres, secretário-geral da ONU, sublinhou que a sanita é “um ícone de progresso”, pois previne doenças, protege ecossistemas e permite que mulheres e raparigas possam estudar e trabalhar sem riscos acrescidos.

Contudo, o progresso não acompanha a urgência. Para atingir o objectivo de saneamento seguro para todos até 2030, seria necessário acelerar o ritmo actual em seis vezes — e em países com rendimentos baixos, dezoito vezes. O fosso entre a necessidade e a resposta é profundo e acarreta consequências humanas devastadoras.

Algumas, organizações civis tentam quebrar tabus e chamar a atenção para a gravidade do problema, com criatividade e coragem, colocaram a crise sanitária no centro do debate público. Esta mistura de urgência global e inércia estrutural torna evidente que o Dia Mundial da Sanita não é apenas uma data comemorativa, é uma denúncia permanente.


Impactos da Crise


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Imagem © DR

As campanhas promovidas neste dia procuram mobilizar governos, empresas, académicos e cidadãos para enfrentar uma crise que não é apenas sanitária, mas também social e ambiental. As mulheres e raparigas são as que mais sofrem com a falta de casas de banho seguras, enfrentando riscos acrescidos de violência, abandono escolar e limitações no acesso ao trabalho.

A impossibilidade de utilizar uma casa de banho com privacidade afecta dignidade, segurança e autonomia. Em regiões rurais isoladas, a ausência de saneamento adequado força percursos longos e perigosos à procura de locais improvisados, expondo mulheres e crianças a agressões e doenças.

Numa era de modernização digital, é chocante constatar que milhares de milhões de pessoas ainda dependem de latrinas inseguras ou de soluções improvisadas. Esta carência de sanitários seguros não só agrava problemas de saúde mental e física, como também contamina os sistemas de água, elevando o risco de doenças como a cólera, disenteria e as diarreias fatais.

A situação agrava-se nos países costeiros, onde a subida do nível do mar invade fossas sépticas e contamina águas subterrâneas. Por outro lado, a defecação a céu aberto continua a afectar milhões, perpetuando riscos epidémicos. Estes desafios revelam fragilidades sistémicas que não se resolvem apenas com investimentos pontuais.

É necessário construir sistemas resistentes ao clima, capazes de funcionar em condições extremas e acessíveis a populações pobres. A campanha deste ano — “Saneamento num mundo em mudança” — recorda exactamente isso: o futuro exigirá soluções robustas, de baixas emissões, resistentes às alterações climáticas e adaptáveis a diferentes realidades socioeconómicas.

O desafio não é somente técnico, é político e moral. O mundo precisa de tratar o saneamento básico com a seriedade que sempre faltou.


Quebrar Tabus


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Imagem © 2025 Francisco Lopes-Santos

O simbolismo do Dia Mundial da Sanita também serve como ferramenta pedagógica para combater preconceitos e quebrar tabus. Durante muitos anos, o tema foi relegado para segundo plano, por ser considerado “desagradável”, “pouco nobre” ou “embaraçoso”.

Mas os dados não deixam espaço para romantizações: mais de mil crianças morrem todos os dias devido a doenças associadas à falta de saneamento e água potável. Em algumas regiões, campanhas de sensibilização recorrem a métodos inusitados para chamar a atenção do público, como actividades comunitárias que mostram, de forma directa, os riscos de ignorar esta realidade.

Ao trazer a problemática para o espaço público, estas iniciativas ajudam a desmontar tabus e a reforçar a ideia de que o saneamento básico é um tema essencial. A crise sanitária não se resume a números — traduz-se em histórias humanas.

Crianças que não podem ir à escola por falta de casas de banho adequadas, mulheres que não conseguem gerir o ciclo menstrual com dignidade, famílias que vivem rodeadas de fossas a céu aberto porque não têm alternativa. É uma crise que atravessa saúde, educação, economia e segurança, afectando profundamente o tecido social.

Sem saneamento básico, não existe desenvolvimento sustentável, não existe igualdade e não existe protecção ambiental. Por isso, os especialistas defendem abordagens multissectoriais, combinando infra-estruturas modernas, políticas públicas inclusivas, financiamento robusto e educação comunitária.

Num mundo onde se investe rapidamente em tecnologias avançadas, permanece o contraste cruel: não há inovação que substitua o básico quando o básico ainda não existe. É essa contradição que torna o Dia Mundial da Sanita tão urgente.


Estratégias e Soluções


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Imagem © 2015 Banksy

Para enfrentar os desafios, a ONU sublinha que os países necessitam de estratégias abrangentes que integrem saúde pública, protecção ambiental e justiça social. A responsabilidade não pode recair apenas sobre os governos: as empresas, as organizações não-governamentais e as comunidades locais precisam de participar activamente na construção de sistemas duradouros.

A ausência de saneamento adequado prejudica directamente a produtividade laboral, eleva os custos de saúde, mina a educação e agrava as desigualdades de género. Além disso, compromete as metas ambientais ao contaminar rios, mares e solos.

Os especialistas alertam que investir em saneamento é uma das medidas mais eficientes e rentáveis para reduzir a mortalidade infantil, prevenir surtos epidémicos e promover o crescimento económico. Por cada dólar investido, os benefícios multiplicam-se em saúde, segurança e desenvolvimento humano. No entanto, o financiamento actual está muito aquém das necessidades.

A pressão climática, as infra-estruturas envelhecidas e o aumento da população urbana exigem soluções adaptadas ao século XXI. A prioridade deve passar por sistemas resistentes ao clima, capazes de sobreviver a inundações, secas e flutuações ambientais.

Tecnologias de baixo custo, soluções descentralizadas, redes de tratamento simples, mas eficazes e políticas que reforcem a participação comunitária são fundamentais para acelerar esse progresso. O Dia Mundial da Sanita recorda que este é um esforço colectivo e contínuo.

Não basta celebrar o dia uma vez por ano: é necessário manter o compromisso diário com o direito humano fundamental ao saneamento seguro. A crise sanitária é silenciosa, mas o seu impacto é ensurdecedor. A humanidade só estará verdadeiramente segura quando todos tiverem acesso ao que é básico — uma simples sanita.


Conclusão


O Dia Mundial da Sanita é mais do que uma campanha anual: é um apelo à consciência, um espelho das desigualdades e uma lembrança de que nenhum avanço tecnológico compensa a ausência do essencial.

O saneamento básico permanece entre as prioridades mais urgentes do mundo, e o progresso continua demasiado lento para proteger os mais vulneráveis. Se o objectivo é garantir dignidade, saúde e desenvolvimento sustentável, então o compromisso deve ser imediato, firme e universal.

Até lá, a luta pela sanita segura continuará a ser uma das batalhas mais fundamentais do século XXI — uma batalha pela vida, pela igualdade e pelo direito de todos viverem com dignidade.

 


O que pensas deste Dia Mundial da Sanita? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2015 World Toilet Organization
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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